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movimento.com - Curiosidade: <i>Carmen</i> de Bizet - um escândalo Curiosidade

Carmen de Bizet - um escândalo



Cigana selvagem, orgulhosa, alegre, feliz no seu desapego pelas coisas: assim era Carmen que amava quando queria, a quem quisesse, sem se prender a ninguém...

Acima de tudo, a liberdade: roubava quando queria, planejava assassínios, se necessário, sem malícia...não conhecia regras nem escrúpulos, era um animal vivo, saltitante.

Em cena, o povo: as mulheres fumam, trabalham numa fábrica de cigarros e Carmen, luta, briga, mata e morre, tudo com igual desprendimento...de repente, ataca outra atriz a navalhadas! A música é alegre, nova, bem trabalhada e todos querem amar "La Carmencita ", mas ela não comprende um sentimento tão complexo...E quem poderia deixar de amar Carmen?

A platéia de Paris, certamente pálida, assistiu imóvel à representação inteira, mas o realismo, já aceito em literatura, não fôra admitido no palco. A ópera Carmen violava tudo a que o público se acostumara até então: a música, a ação, o enredo, a moral!

Findo o espetáculo, a assistência retirou-se num silêncio de gelo...

A crítica veio tempestuosa nos dias seguintes: afora acusações de imoralidade e outras des"em nenhum valor musical", lançaram-lhe a pecha de "wagnerista", pois o alemão que renovara a música em seu país não tinha aceitação na França.

Théodore de Banville, crítico do "Le National", definiu da melhor maneira a situação: "Bizet quer pintar homens e mulheres de verdade, alucinados, atormentados pelas paixões, pela loucura e a orquestra conta suas angústias, seus ciúmes, suas cóleras e a insensatez geral..." A introdução orquestral de "Carmen" já constitui verdadeira declaração de guerra!

É ainda contraditório o que se divulgou sobre o que aconteceu na noite de 3 de março de 1875, quando Carmen estreou no Opéra-Comique de Paris.

Certamente, não teria sido o fracasso clamoroso que, depois, iria levar Georges Bizet (1838-1875), à morte como se costuma afirmar; a nova ópera encontrou o teatro lotado com gente ali arrastada pelo aceno da novidade e que reagiu favoravelmente no 1o. ato, mas, surprendida, "esfriou" nos demais.

Seguramente,o fracasso da estréia afetou a saúde de Bizet, mas ná época, o compositor, desgastado pelos ensaios, mental e espiritualmente, convalecia de um ataque de angina e uma provável recaída o fulminaria três meses depois.

Mas "Carmen" era uma obra muito original para a época, quando as peças sempre "acabavam bem" com exaltação da virtude e da moral. Depois, a contextura musical era muito densa, carregada de "harmonias ousadas" e, além disso, tanto o público como os atores estavam viciados por determinaos costumes e o tema era novo e perturbador.

Enfim, estava instaurada a polêmica, mas, após alguns dias de casa vazia, a platéia voltou a reunir freqüentadores que, pouco pouco, iam aumentando, animados pela curiosidade que a crítica despertara e outros já se confessando abertamente admiradores de Bizet.

Entretanto, Bizet não acompanhou pessoalmente a trajetória de sua peça, pois como já referimos, atacado por "angina pectoris", logo após a estréia, retirou-se para uma cidadezinha do interior-Bougival. Enquanto isso, "Carmen" continuava sua caminhada para a celebridade: Lyon, Marselha, Angers, Bordéus e, fora da França, era sucesso absoluto na Áustria, Rússia, Itália, Alemanha, Inglaterra, em suma, a grande consagração internacional do músico francês.

Dessa forma, realismo e alta intensidade dramática numa história de amor e morte - eternos temas da arte e da existência - fizeram de "Carmen", quarta e última ópera de Alexandrte César Léopold Bizet (batizado de Georges pelo avô), uma das obras-primas da tradição lírica francesa.

Em sua época, a ópera despertou a admiração de músicos tão opostos quanto Wagner e Brahms, Tchaikovsky e Busoni, Stravinsky e Puccini, e o filósofo Nitzsche valorizou o aspecto "mediterâneo", luminoso, do colorido orquestral, que se opunha à "nebulosa" estética wagneriana.

Atualmente, "Carmen" é uma das poucas óperas que conseguem o aplauso unânime tanto da crítica quanto do público.

E Bizet, não pôde "gozar o sucesso" pois faleceu na madrugada de 3 de junho de 1875, em seu retiro de Bougival . Uma hora antes, sob os aplausos entusiásticos do público de Paris, caira o pano sobre mais uma representação de "Carmen".


Autor Aristides A. J. Makowich
em 5/7/2004


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