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movimento.com - Crítica: O Bach bem brasileiro de Ricardo Rocha Crítica

O Bach bem brasileiro de Ricardo Rocha



-Bach & Brasil, qualquer semelhança é pura "forçação de barra"!

Bem, muitos músicos conceituados não compartilham da opinião do crítico inglês que há alguns anos atrás assim se manifestou ao abordar um CD novo com as famosas Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos. Eles conseguem ver realmente elementos de correspondência entre o titã alemão e a nação tupiniquim.

O concerto de 3 de junho, na Sala Cecília Meireles, com a Cia. Bachiana Brasileira do maestro Ricardo Rocha, foi o primeiro de uma série ("Bach-Brasil") que tem o objetivo expresso de salientar, desta ou daquela maneira, os fortuitos mas virtualmente existentes paralelismos entre o sóbrio contraponto de Bach e a ginga da nossa música. Pasmem: a química tem lá seus resultados, alguns interessantíssimos aliás.

A primeira peça foi o Ponteio do manauense Cláudio Santoro (1919-89). A uma seção inicial vigorosa e dançante, seguiu-se um miolo mais introspectivo com um agradável solo do spalla Clóvis Pereira, que foi um Hércules a noite inteira, enfrentando sem rodeios as mais desgastantes figurações. Um retorno à primeira parte e uma coda decidida fecharam o item nº 1 do programa.

Meditatio III [Musica Speculorum], obra escrita em 1996 pelo carioca Alexandre Eisenberg, para oboé e cordas, foi tocada em seguida. Jorge Postel, oboé solista da OSB, impressionou o público com um toque cheio de lirismo e fantasia, algumas vezes arrancando sonoridades originalíssimas de seu instrumento. Meditatio III começa desafiadora, cheia de uma retórica pesada e cataclísmica, depois dá ao oboé uma cadência longa e rebuscada, que deságua, com harmonias saborosas, nos compassos finais, etéreos, místicos mesmo.

Entrou em cena, então, a bela Patrícia Bretas, magistralmente aparamentada em um longo verde-musgo, e tocou convicta o Concertino para piano e cordas de Ronaldo Miranda. Parece que foi feita à base de durepoxi essa obra do Ronaldo, quando a gente ouve não sai mais da cabeça de jeito nenhum! É certamente uma obra-prima da música brasileira recente, um mirabolante tornado de ritmos e melodias flamejantes.

Encerrado o painel carnavalesco da noite, chegou a vez da quaresma. O Concerto de Brandenburgo nº 3 é um daqueles hits tipo 4 Estações, que vivem tocando no metrô e nos celulares. Por isso, soa muito feio quando é mal alinhavado, e a Cia. tratou de dar seus 137% de suor para angariar lá pelos 85% de boa música. Valeu o esforço.

Foi então que a Cantata BWV 4 - "Christ lag in Todesbanden" (Cristo repousa envolto em laços de morte) apareceu e logo se impôs - coisa liiiinda!!! Aquele coro inicial nos faz, de uma só vez, entender por que Bach é Deus, por que as obras sacras de Bach são o pináculo da música ocidental e por que a música de Bach jamais deixará de ser a mais estupidamente moderna e extemporânea, a despeito de todos os Boulez, Xenakis e Nonos da vida... Quem, digam-me por favor, quem teria o inacreditável insight de amontoar aquele punhado de "aleluias" em TOM MENOR, num misto bizarro de celebração e lamento, senão Johann Sebastian Bach?!

Foi uma pena o maestro Ricardo ter bisado o coral final, em vez do "Versus I". Eu ouviria aquela maravilha umas trezentas vezes e não me cansaria nadinha. E na concepção do Ricardo, que separou exageradamente as primeiras duas sílabas dos aleluias ("a - aleluia"), deu uma acentuada caprichada nos ataques em síncopas, mandou o pessoal articular bem e engatou a 5a. marcha, eu quase tive a sensação de estar ouvindo um chorinho, juro! O coro me surpreendeu - poucas vozes, homogêneas e dinâmicas, cuja desenvoltura ofuscou uns poucos momentos de imprecisão na afinação e na pronúncia.

O tecladinho eletrônico que fez as vezes de cravo e órgão positivo foi um ponto fraco do concerto, bem tocado por Elisa Wiermann mas traído pela artificialidade do timbre.

Enfim, cabe uma observação: Ricardo Rocha tem demonstrado ser, disparado, o mais competente regente em atividade por aqui. Combinam-se nele um gestual límpido, sem desperdícios e exageros, um sentido aguçado de estilo, uma capacidade invejável de comunicar-se com os músicos, um preparo detalhado ao extremo, que preza os mínimos detalhes da partitura e realça dinâmicas e fraseados, além de um envolvimento corporal que arremessa grandes massas de energia nos intérpretes e no público. Esse homem com uma "Berliner Philharmoniker" da vida nas mãos faria proezas...

Weber Duarte
Weber Duarte é maestro do Coral do IBEU, produtor musical da Rádio MEC-FM e tenor do Teatro Municipal-RJ.


Autor Weber Duarte.
em 5/6/2004


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