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movimento.com - Crítica: Banquete sinfônico no Rio Crítica

Banquete sinfônico no Rio



Não é freqüente que o público tenha oportunidade de ver atuando no palco em um fim de semana três de nossas maiores orquestras, um de nossos melhores coros, um famoso pianista, uma pianista que o será e cantores, tudo sob a batuta de três importantes regentes, um dos quais já se tornou legendário no Brasil pela longa carreira e muitas realizações. Foi o que aconteceu no palco do Teatro (sem "H", por favor. O "H" não faz renascer antigas glórias...) Municipal do Rio de Janeiro nos dias 21 , 22 e 23 de março corrente.

As três orquestras foram a Orquestra Sinfônica do TMRJ, a Orquestra Petrobrás Sinfônica e a Orquesta Sinfônica do Estado de São Paulo - OSESP; o coro foi o do TMRJ; o famoso pianista foi Nélson Freire; a pianista que será famosa foi Olga Kern (anotem esse nome); os cantores foram os que mencionaremos adiante, os regentes foram Roberto Minczuk, Isaac Karabtchevsky (este o legendário ...) e John Neschling. Foi um verdadeiro banquete de Páscoa ... Passemos a dar nossa opinião sobre o que se viu e ouviu no palco.

A peça escolhida para abertura da temporada da OSTMRJ, o "Stabat Mater", de Dvorak, é de dificílima execução, pelo inusitado de certas invenções melódicas, rítmicas e harmônicas de um compositor que então se esforçava em ser moderno, original e diferente. Quando se escuta esta peça nas primeiras vezes a impressão que se tem é de que o compositor queria enganar o ouvinte, conduzindo a linha melódica ao lado oposto dob esperado, interpondo pausas onde se esperava um acorde, prolongando ou encurtando inesperadamente finalizações, e mais. Tal peça, para uma execução muito boa, necessitava pelo menos de o triplo de ensaios que houve - se houve dois, eram necessários seis, e se houve seis, eram necessários dezoito ... Este crítico não sabe quantos ensaios houve, mas a julgar pelo resultado foram bem menos que os necessários. Não foi uma execução nem desastrada nem ruim, não, não houve desastres de "da capo" não escritos nem nada catastrófico ou apocalíptico. Uma sala cheia muito aplaudiu e todo mundo parecia satisfeito. Triste sina a dos críticos: devem às vezes colocar água no champanhe da festa. É por isso que nunca se viu estátua de crítico ...

O início vacilante da orquestra nos primeiros compassos mostrou logo cedo que muitos problemas iriam ocorrer, e em seguida, um pianíssimo exageradíssimo de um coro titubeante deu o ar de sua graça. Amigos, pianíssimo exagerado tem hora, e não é de certo um daqueles que ninguém ouve com nitidez que irá servir de selo de mais valia a uma obra coral-sinfônica como esse "Stabat Mater". Há medida para tudo, até para quatro "pppp s", dependendo do momento e da obra. Mais adiante surgiu uma inexplicável fumaça de detrás do coro, que, subindo pelas frestas do cenário de fundo, fez muitos pensarem em chamar os bombeiros. Incêndio? Não, era coisa da direção cênica.

Dos solistas vocais, o tenor Reginaldo Pinheiro canta com notável desigualdade nas diferentes alturas, em discurso musical ora inaudível (esses pianíssimos...), ora muito forte. Idem o baixo Hernán Iturralde, vocalmente desigual. Muito "parlando" em piano, alguns fortes agressivos. O meio soprano Adriana Clis é ainda uma amadora, de voz desigual (quem se habilita a ensiná-la a igualá-la?), ora aberta ora fechada, ora opaca ora avibratada, ora coberta ora não, de respiração insegura que por vezes a faz engolir o final das frases. O soprano Elisabeth Whitehouse teve boa atuação, em nível satisfatório, com belos pianíssimos cabíveis e belos agudos. No entanto, vir da Austrália ou de onde veio para ser satisfatória não se justifica. Para vir da Austrália, só uma Joan Sutherland de 25 anos ...

A OSTMRJ é ótima, e todos tocaram otimamente quando se fala de sonoridades, de beleza de som, de riqueza de timbres, de capacidade de alternar dinâmica. Mas o regente Roberto Minczuk, interessado a ponto de cantar com o coro e com os solistas, ativo, bem humorado e bem intencionado, competente de certo por seus títulos, não foi desta vez o suficiente para elevar o espetáculo do nível de razoável ao patamar de excelência que uma noite de abertura de nosso maior teatro merecia.


A Orquestra Petrobrás Sinfônica executou o Concerto Imperador com Nélson Freire ao piano. A orquestra atuou toda em excelente nível, com seu regente Isaac Karabtchevsky seguro e à vontade. Além de o regente conhecer de cor e salteada aquela partitura, o solista ali a seu lado já tocou com ele na regência um número enorme de vezes. O problema está em que Nélson toca esse concerto, que é Imperador por exigir brilho, pompa, realeza, vigor e substância, como se estivesse executando Chopin ou Debussy. O piano de Nélson soava bonito e limpo, mas de Imperador aquele concerto nada tinha. Parecia mais uma ópera de Bellini.

Tem cabimento para muitos a execução até com modos impressionistas de obras de Beethoven, vide a célebre gravação de Walter Gieseking da Sonata Waldstein (Aurora), ou a preciosa edição da Les Adieux tocada por Benedetti Michelangeli (gravação não é a música, mas nas citadas pode-se sentir alguma coisa). Este crítico viu o pianista Bruno Leonardo Gelber executar o número 4 de LvB com a OSB todo em moldes contidos à Debussy, e ficou bonito. Mas era o número 4 ... No caso do Imperador, tocá-lo com escalas miúdas, ornamentos encohidos, terminações de dedo mindinho apontando para cima, em meio a bergamascos acordes tísicos de "clair de lune", não foi muito dentro do que se espera de um Imperador de sábado de aleluia ...

Na Quinta Sinfonia de LvB, a orquestra rendeu admiravelmente, mostrando que pode tocar qualquer coisa de igual para igual com qualquer outra orquestra. Aqui, outra vez à vontade, Isaac Karabtchevsky foi expressivo e convincente.

No domingo de Páscoa, todos foram ver a OSESP, mas acabaram vendo uma maravilhosa, talentosa e virtuosística grande pianista russa chamada Olga Kern, que interpretou o batidíssimo número 1 de Tchaicowsky com extremo vigor, substancialíssimas sonoridades, perfeito jogo de dinâmica claro / escuro, inéditas belezas de timbre, propriedade estilística e outras perfeições que há muito tempo não eram vistas em nosso teatro.

Quando Olga entrou no palco de vestido grená e sapatos vermelhos, já se podia sentir o incêndio que aqueles sapatinhos iriam desencadear logo em seguida. Os célebres primeiros acordes da partitura podiam ser ouvidos na rua, como me disse um amigo que os ouviu. Um encanto, um sortilégio, uma experiência mágica: ver e ouvir Olga Kern é, mais que uma experiência musical, uma fascinação, um sonho, um privilégio.

A OSESP e seu regente apareceram bem, em que pesem certa falta de alternância claro / escuro na "Alvorada" de Villa-Lobos, que abriu o programa, e certo preciosismo exagerado em uma Sinfonia Eroica por demais elaborada. Tocar aqueles famosos seis acordes sucessivos do primeiro movimento tão rápidos pode ser até metronômico, mas é sem expressão. E levar o final da Marcha Fúnebre a pianíssimos de não escuta é também digamos pouco agradável.

Depois da magnífica atuação da OSB no início do mês sob a regência de Rodrigo de Carvalho, e da apresentação nestes três últimos dias da OSTMRJ, da OPS e da OSESP, fica claro que não há no Brasil só uma ou duas boas orquestras, e que elas se somam sem que uma seja melhor que a outra. Por exemplo, a vinda da OSESP ao Rio soma, mas não ultrapassa nem melhora nada. E não nos esqueçamos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e da OSTMSP. Todas capazes de fazer chover, de tocar a Quinta de trás prá frente e de resistir até a tenores de chuveiro ...

MARÇO - 21/22/23, 2008


Autor Marcus Góes
em 25/3/2008


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