CríticaÓpera

A Lucia, de Donizetti, no Municipal do Rio

O interesse que desperta no público ainda hoje e desde 1835, quando a ópera estreou no Teatro San Carlo de Napoli, é conferir a agilidade e a técnica do soprano de coloratura que interpreta a Lucia, verdadeiro marco na história da ópera, que é esse personagem. Vários sopranos ficaram famosos nesse papel: A. Galli Cursi, Mado Robin, Lilly Pons, Maria Callas, Beverly Sills e Joan Shuterland. No Brasil Bidu Sayão e Niza de Castro Tank.

O cenário de Érika Duarte na verdade é único para os sete quadros que compõem o drama, resumindo-se numa sucessão de quase duzentos planos geométricos e sobrepostos em diferentes níveis, representando as diferenças entre os personagens e seu grau de importância na edificação da estória.

A moda pegou com um só cenário na ópera, o que é muito pobre num espetáculo de ópera. Preenche ele todo o palco do Municipal, mas atravanca a cena, muitas vezes fazendo os artistas tropeçarem e, se não forem experientes de palco, acabarão caindo no assoalho.  Quanto à direção cênica de Alberto Renault nada se viu de original, deixando cantores estáticos permanecerem na cena (Gallisa, L. Bruno, Giugliani, A. Vidal e coro). Bonita foi a colocação das cruzes no cemitério na cena final da ópera. E só.

Os figurinos  de Claudia Kopke mostram a dramaticidade do enredo logo de início em tons terrosos muito escuros: mas poderia ser menos rigoroso, dando um contraste ao menos na cena nupcial. Apesar de se tornar muito pesado o visual, considera-se que ela foi fiel à época e ao estilo escocês: bonitos os trajes da Lucia em todas as suas nuances. Na festa do casamento, viu-se dançar uma “escocesa”, coreografada por Márcia Milhazes, porém o figurino cinza claro não colabora com a dança, nem o estilo e a estética da ocasião.

O que não se entende é o Maestro Sílvio Viegas, conhecedor do “mettier”, escalar uma cantora largamente imprópria para tão grande responsabilidade como o de “Lucia di Lammermoor”. Rosana Lamosa, soprano lírico apenas, à frente de tão pesada coloratura e extensão vocal bastante ampla, a que Gaetano Donizetti submete a intérprete, tornou-se prisioneira de seus recursos vocais, limitados ao de um soprano lírico, deixando ali lacunas inaceitáveis, cortando ornamentos musicais, cancelando vocalises e transpondo até uma oitava abaixo notas indispensáveis nas árias.

Não conseguiu vocalisar “legato” e “stacatto” com a devida virtuosidade, tampouco os superagudos com limpidez e facilidade. Na verdade foi um suplício para a cantora esse personagem. Ainda assim, realizou um trabalho cênico estreante, tropeçando no palco, além de nenhuma experiência na interpretação do personagem de Walter Scott.

Em contrapartida, no domingo, em récita vesperal, aportou no Rio de Janeiro, também estreando no Theatro Municipal, o soprano coloratura Paula Almenares. Proveniente da Argentina, onde atua com frequência no Teatro Colón e no Teatro Argentino de La Plata, deixou transparecer toda a sua experiência cênica e a sua bravura vocal, exibindo amplo registro, volume vocal, ótima condução em sua linha de canto e um refinamento na coloratura  demonstrada.

Foi um prazer ouvir os “stacatti” e “pichitatti” perfeitos nos superagudos por ela emitidos. O público brindou-a já na ária “Regnava nel silenzio”, no 1º Ato, bem como na cena do delírio e ao final da ópera com uma forte ovação.

O tenor colombiano Cesar Gutiiérrez possui um timbre insinuante e metálico, boa figura e domínio da cena. No sexteto cantou com garra e sobretudo na vibrante stretta que finaliza o 2º Ato, inflamou a cena nupcial. O carioca Luciano Botelho, no mesmo papel do Sir Edgard, no registro de tenor lírico ligeiro,  ficaria bem melhor nas óperas de Mozart ou Rossini. Nesta ópera ele não tem oportunidades para exibir seus reais recursos, deslocando-se de seu registro. Não satisfaz, tendo em vista seu suave timbre vocal

Lício Bruno foi o Lord Enrico do elenco de estreia. Razoável nos dois primeiros atos, mas decaiu ao longo dos últimos quadros de que participa.(dueto com Edgard). Rodolfo Giugliani, do elenco alternativo, demonstrou lindo timbre de barítono e acreditamos que seu trabalho cênico-vocal evoluirá muito ao longo dos próximos espetáculos. Saiu-se bem.

Na voz de José Gallisa o capelão Raimondo não se fez ouvir nas notas mais graves; no arioso Dalle stanze ove Lucia e na sua intervenção no encontro entre Edgard, Enrico e Arturo, não se ouviram as passagens mais graves. Ademais, a sua atuação cênica é sempre estática.

Do currículum apresentado por André Vidal (Lord Arturo), esperava-se uma participação bem mais precisa de linha de canto e expressividade cênica. A Alisa discreta e eficiente de Carla Odorizzi completaram o elenco de apoio ao lado do tenor Ricardo Tuttmann compondo um expressivo e muito correto Normanno.

O Coro do Theatro Municipal portou-se bem cenicamente, exceto alguns desencontros com orquestra e destacaram-se os naipes masculinos nesta que é uma ópera extremamente dramática. O Mtrº Sílvio Viegas  não conseguiu evitar alguns deslizes entre orquestra, coro e solistas, e apressado, iniciou a música subsequente antes da saída dos personagens entre os quadros e atos. cialis ankara Isso desconexa o elo entre a música e a cena que sobrevém. Esperamos que em “Nabucco”, isso não volte a ocorrer.