CríticaÓpera

Em Manaus, Isolda e seu Tristão

ordine nazionale dottori commercialisti Produção simples, mas criativa, tem bom resultado nos 15 anos do Festival Amazonas de Ópera. Tristan und Isolde (Tristão e Isolda), ópera (ou drama musical, como preferirem) em três atos de Wilhelm Richard Wagner sobre libreto do próprio compositor, com base num romance em versos de Gottfried von Strassburg, por sua vez baseado numa versão francesa da famosa lenda medieval, teve duas récitas no Teatro Amazonas pelo XV Festival Amazonas de Ópera.

Wagner escreveu este, que é um dos grandes marcos do Romantismo, inspirado, dentre outras coisas, em seu romance com uma mulher casada, Mathilde Wesendonck, cujo marido era seu admirador. Na trama da ópera, Tristão é um cavaleiro bastante admirado por todos, inclusive por seu tio, o Rei Marke da Cornualha, que, por questões políticas, deve desposar Isolda, a princesa irlandesa que Tristão conduz ao castelo de Marke durante o primeiro ato.

Neste primeiro ato, ficamos sabendo que os dois já se conheciam. Depois de matar em combate o então noivo de Isolda, Tristão, disfarçado sob o nome de Tantris, é salvo por ela, conhecedora de poções mágicas. Quando percebe que ele é o assassino de seu noivo, no entanto, Isolda não consegue matá-lo, pois já o amava. O amor é correspondido, mas ambos são contidos pelas convenções sociais e pelas questões da honra.

Diante de tal situação, Isolda decide morrer junto com Tristão, por acreditar encontrar na morte a única solução para seu amor impossível. Tristão aquiesce à vontade da amada, e decide morrer. Brangäne, criada de Isolda, troca (se deliberadamente ou por engano, a obra deixa a interpretação ao diretor da vez) o veneno por uma poção do amor.

O efeito da poção não faz com que Tristão e Isolda se amem, pois eles, na verdade, se amaram no exato momento em que se conheceram. O elixir apenas quebra as barreiras (sociais, morais, etc…) que até então impediam-nos de assumirem, para eles mesmos, seus sentimentos. Agora, os amantes não conseguem mais conter os seus desejos e viverão seu amor proibido, que, inexorável, só encontrará sua solução na morte, como mostra, durante toda a obra, a busca incessante dos amantes pela noite (metáfora da morte), em detrimento do dia.

Em Tristão, a música alça voos inimagináveis para boa parte do público e da crítica da época em que foi composta (1857-59) e estreada (1865). A liberdade tonal empregada por Wagner na elaboração da partitura (para muitos influência de Schopenhauer), abraçando o cromatismo que influenciaria futuros gênios como Mahler, Richard Strauss, Alban Berg e Schoenberg, representou uma ruptura sem precedentes na história da música.

Outra característica importante da partitura é o uso escancarado de Leitmotive (em alemão, os “motivos condutores” da ação dramática), que dão à música, nas palavras de Jorge Colli no programa de sala, “um papel narrativo para além das palavras”, acentuando “a teatralidade por meios puramente sonoros”. Há pouco mais de um mês, a produção do Festival Amazonas de Ópera ainda anunciava a italiana Mietta Corli como responsável por dirigir Tristão e Isolda em Manaus. Não sei o motivo da substituição, mas Corli foi excluída do Festival, em seu lugar assumindo André Heller-Lopes.

Com essa batata quente nas mãos, considerando o pouco tempo que teve para elaborar uma concepção da obra-prima de Wagner, Heller-Lopes saiu-se bem. Centrando sua montagem na figura de Isolda, que se refletia tanto no enorme espelho que dominou o primeiro e o segundo atos, quanto nos demais personagens, e tendo à sua disposição uma protagonista do nível de Eliane Coelho, o diretor conseguiu, com criatividade, criar ambientes eficientes, ainda que simples, obtendo melhores resultados nos dois últimos atos.

Uma liberdade tomada pelo diretor – sugerir um envolvimento entre Kurwenal e Brangäne –, se foi ousada, foi também interessante, sobretudo considerando os dois solistas de boa figura disponíveis. Muito contribuiu para o resultado geral a iluminação de Fabio Retti, alcançando ótimos efeitos, como na cena de amor do segundo ato, e na cena final.

Os cenários de Carlos Pedreanez e Flávio Lima, ainda que auxiliados pelos bons trabalhos do diretor e do iluminador, não fogem à regra da pobreza cenográfica que impera em praticamente todas as produções de ópera no Brasil de hoje. Os figurinos de época de Marcelo Marques, um craque a quem já elogiei em tantas oportunidades, desta vez, embora belos e bem confeccionados, me pareceram um tanto quanto anacrônicos. Para esta ópera, creio que trajes de tempos ainda mais antigos caberiam melhor.

Na récita do dia 22 de maio, o Coral do Amazonas esteve bem. A Amazonas Filarmônica, sob a competente condução de Luiz Fernando Malheiro, teve ótimo desempenho geral. Destaque negativo para as trompas da orquestra e positivo para o belíssimo solo de corne inglês.

Dentre os solistas, estiveram bem o barítono Igor Vieira (Melot), o tenor Flávio Leite (um jovem marinheiro e um pastor) e o barítono que interpretou um timoneiro e não teve seu nome divulgado nos créditos da ópera. Deixou a desejar o Rei Marke do baixo norte-americano Kevin Maynor, pouco expressivo. Já o barítono Leonardo Neiva e a mezzosoprano Andreia Souza foram dois coadjuvantes de luxo como Kurwenal e Brangäne, exibindo ambos ótimo desempenho cênico e excelente projeção. Andreia, que até então eu não conhecia, foi para mim uma bela revelação.

Como Tristão, o norte-americano John Charles Pierce é um velho conhecido. Foi ele quem cantou muito bem na produção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para a mesma ópera em 2003 (aquela na qual Gerald Thomas andou mostrando partes de sua anatomia porque não gostou das merecidas vaias que levou). Depois, em 2008, também no Rio, foi um Florestan de voz cansada em Fidelio. Agora, no Teatro Amazonas, ofereceu uma interpretação que, se não foi tão boa quanto seu Tristão de 2003, foi bem melhor que o Florestan de 2008, exibindo ótimos volume e projeção e bom desempenho cênico.

A soprano Eliane Coelho encarou o desafio de cantar a parte de Isolda pela primeira vez em sua carreira.  Profissional de alto quilate, Eliane subiu ao palco neste domingo mesmo não estando bem de saúde – foi atacada por uma bronquite –, e evoluiu com a apresentação. Seu desempenho foi um crescendo. No primeiro ato, parece ter se ressentido mais pela doença. No segundo, já estava bem mais à vontade, até chegar ao Liebestod de alto nível que ofereceu no ato final.

Soprano de amplos recursos, atriz de primeira linha, Eliane foi uma Isolda bastante convincente. Pena que uma de suas características mais marcantes não tenha se destacado desta vez: seus belíssimos graves de peito, muito provavelmente prejudicados pela bronquite. É óbvio, portanto, que Eliane Coelho não estava em um de seus melhores dias. Ainda assim, fora de suas condições ideais, vê-la em cena, dominando o palco de um teatro de ópera, é sempre um prazer.

Foi uma noite longa (mais de cinco horas no Teatro Amazonas!) e bastante agradável em Manaus. Quem venham mais 15 anos de Festival Amazonas de Ópera!

 

 

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1 Comment

  1. Parabéns, especialmente a você Léo, pela nova página na internet.
    Em princípio parecerá que o movimento.com perdeu um pouco da imponência, mas é só impressão. Os novos ares farão o blog abrir caminho para um trabalho muito mais amplo de divulgação e “colheita” de novos admiradores.
    Estou torcendo por vocês e já fiz a minha parte, publiquei no Facebook.
    Bom trabalho a todos!

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com