CríticaÓpera

Lucia de Lammermoor: 14 e 15.05 no TMRJ

p>A situação de crise e polêmica criada nestes últimos dias no ambiente musical do Rio de Janeiro, provocada pela saída do diretor artístico do TMRJ Roberto Minczuk, pelas sérias divergências com  instrumentistas da OSB e por muitas outras querelas, com demissões e requisição de exames de suficiência daqueles musicistas, é marcada por um estado de ânimo nada positivo, que se refletiu nas duas récitas iniciais da ópera LUCIA DI LAMMERMOOR, de Donizetti, encenadas a 14 e 15 de maio corrente no TMRJ.

Na “batalha” desenvolvida, muitos membros da orquestra e coro do TMRJ tomaram posição e muitos se julgam no direito de agir e trabalhar abertamente contra as decisões e escolhas musicais do regente titular. Não se convencem esses músicos de que em uma orquestra sinfônica quem manda, escolhe e define situações musicais é o regente titular, e não a segunda flauta ou o primeiro violoncelo.

Isto posto, passemos às duas récitas de LUCIA DI LAMMERMOOR. A produção faz parte da “nouvelle vague” de cenógrafos e diretores de cena“inteligentes” que assola o mundo da ópera, com Hagen de terno e gravata, Wotan de Batman, Mimi e Rodolfo em 1830 com uma tela de Lautrec ao fundo e Rigoletto lamentando-se em Nova Iorque. No meio da burrice acachapante que é um cantor em cena dizer-se um súdito de Luis Filipe em 1830 e depois colocar a ação na ”belle époque” de 1910, essa “LUCIA” ocupa lugar de destaque.

Os cenários são hediondamente feios e permanecem quase todo o tempo em meio a uma chatísssima escuridão de dar susto até no Dr. Calegari. Não chegamos a entender como uma LUCIA DI LAMMERMOOR vem ao palco imersa em trevas de vez em quando atenuadas por inexplicáveis eclipses. Os figurinos são banais e pouco teatrais. Aquela LUCIA de noiva toda branca não convence e viagra statistics a ação dramática toda se enreda em um ininteligível conjunto de “gadgets”, “objets d art”, caixotes  e esquisitos elementos cênicos.

Para piorar tudo, o primeiro e o segundo atos foram encenados sem um intervalo entre um e outro, o que cansou um público já não muito satisfeito. Em óperas como LUCIA, o intervalo é obrigatório. Não se trata de uma legenda wagneriana de atos de mais de duas horas, mas de um Donizetti. Não há óperas italianas de atos tão longos, Verdi os queria no máximo com 42 minutos, apesar das exceções, e ninguém gostou da junção. Resultado: muita gente foi-se embora, preferindo ir esperar a saída da da tapioca na Glória, ali onde ficam os travestis desta linda terra…

Fazer ópera com produções de teatro moderno, atual, é empreitada das mais difíceis. O gênero alcançou seu apogeu no final do século XVIII e em todo o século XIX, t

oda a estética literária dos libretos, ação dramática, intenções e enquadramento musicais são cabíveis conservando-se a essência do que foi da substância das obras na época em que foram gerados. Que tal mudar o fundo da tela da Gioconda de da Vinci? Por que não encenar Othello com este perseguido pelo FBI? Que tal transformar Mime em um padrão de honestidade? Diretores de cena, cenógrafos, designers. Mãos à obra …

O desgastado soprano Rosana Lamosa, que alterna boas e más atuações em uma carreira que parece ter mil anos, desta vez foi inexpressiva, de voz feia, infantil e pequeníssima. Uma LUCIA em miniatura a emitir rotineiros superagudos. Superagudos de sopranos que têm obrigação de tê-los em seu arsenal de recursos são coisa de rotina, que muita vez convence aquelas velhinhas da primeira fila. O QUE SE QUER É UMA LUCIA QUE CANTE BEM, não uma maquininha de dar mi bemol superagudo. Lamosa foi isso, e mesmo assim com insistente voz de escasso volume, por vezes inaudível.

O tenor Cesar Gutierrez tem boa voz tenoril, mas naquela produção e naquela récita caiu no sem graça geral. O barítono Lício Bruno atuou rotineiramente, sem muita expressão e de voz não tanto agradável, especialmente em sua grande cena inicial. Os demais se engolfaram na sensaboria geral.

O regente Silvio Viegas, como sempre, esforçou-se ao máximo para evitar menores valias, e como experimentado regente de ópera, que também é, deixou todos cantarem com a orquestra servindo aos cantores e não o contrário.

Caribando esssa pífia primeira récita, poucos foram os aplausos do público, mesmo insuflado por meia dúzia de parentes ou amigos do peito dos cantores e da direção do teatro. Os comentários foram quase todos negativos.
Mas teatro de ópera é cheio de surpresas, e uma delas, grande e emocionante, ocorreu quando na segunda récita o soprano PAULA ALMENARES pisou o palco do TMRJ.

Encantamento e emoção maiores não seriam possíveis do que ver e ouvir essa excepcional e rara cantora de ópera, ainda mais bonita e boa atriz como é. Paula foi musical e cenicamente convincente, de voz robusta e cheia de recursos, de presença dominante de protagonista, e transformou a récita do dia 15 em algo inesquecível, mesmo inserida na feiúra abrangente da produção. Obrigada a cantar no escuro, o fez com extrema propriedade dramática, musical e operística. Paula cantou muitíssimo bem e basta. O público a aplaudiu de pé em insistentes ovações.

Os demais cantores, ao lado de tal presença, estimularam-se e produziram a contento. Não cito nomes. Quando se fala do Sol não é aceitável falar do lampião do vovô. Com respeito por todos.

DONUM FAC REMISSIONIS ANTE DIEM RATIONIS

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