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Uma inverdade histórica na música brasileira

Quase todos, se não todos, os escritos biográficos sobre CARLOS GOMES (1836/1896) vêm afirmando que o compositor foi para a Europa estudar, PORQUE O IMPERADOR D. PEDRO II LHE CONCEDEU UMA BOLSA DE ESTUDOS OU PAGOU TUDO DE SEU BOLSO e coisas semelhantes. Isso não é verdade e diminui os méritos de nosso grande compositor. CG foi para a Europa, mais  precisamente para Milão, capital da música daqueles tempos na Europa, por méritos e conquistas próprias, como se explicará.

Em 1857, o empresário e cantor espanhol José Amat estabeleceu no Rio de Janeiro uma empresa destinada a encenar em português ( o que não foi sempre obedecido) óperas, operetas e zarzuelas, sob o nome genérico e algumas vezes mudado de Real Academia de Ópera Nacional, conhecida até seu fim em 1863 pelo nome abreviado de Ópera Nacional .

Essa empresa foi de fundamental importância para o desenvolvimento da música no Brasil, causa de variada movimentação não só musical como teatral e, em sentido restrito, operística. Durou pouco, mas nesse pouco fez estrear no Rio de Janeiro as duas primeiras óperas de Carlos Gomes, ambas com libreto em português: A NOITE DO CASTELLO (1861), com libreto de Antonio José Fernandes dos Reis, e JOANNA DE FLANDRES,com libreto de Salvador de Mendonça .

Para que pudesse funcionar, a Ópera Nacional muito pediu ao governo imperial, que, em contrapartida, impôs várias condições. Uma destas condições era de que a empresa, de cinco em cinco anos, custeasse os estudos na Europa do primeiro aluno (medalha de ouro) do Conservatório de Música dirigido por Francisco Manuel .

Ora, esse primeiro aluno medalha de ouro logo em 1857 foi HENRIQUE ALVES DE MESQUITA (1830/1906) , compositor de muita fama no século XIX no Brasil, que foi estudar em Paris às expensas da Ópera Nacional. Foi estudar com François Bazin, mas envolveu-se em rumoroso caso de sedução, o que lhe valeu a prisão e a volta para o Brasil.

Em 1863, passados mais de cinco anos, o primeiro aluno medalha de ouro do Conservatório foi CARLOS GOMES, merecedor portanto de ir, agora ele, estudar na Europa, o que ocorreu em termos absolutamente contratuais: a Ópera Nacional cumpria um contrato.

Foi assim por méritos próprios que CG foi para a Europa, tendo chegado a Milão em 1864 e tendo permanecido na Itália  por trinta e dois anos. Diga-se, a bem da verdade, que Pedro II muito ajudou CG em um sem número de oportunidades, e que CG lhe foi grato até o fim de seus dias. Mas no episódio de sua ida para a Europa, CARLOS  GOMES foi por ter conquistado esse direito por seus próprios méritos e não por iniciativa e com pagamentos do imperador.

MARCUS GÓES – MAIO 2011 vitamin }

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1 Comment

  1. Olá, gostaria de saber as fontes bibliográficas pesquisadas na elaboração deste artigo.
    Grato,
    Adriano Pinheiro.

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Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.