Escrito por em 5 dez 2011 nas áreas Crítica

A produção mineira, com bela montagem de Felipe Hirsch, é desequilibrada por vozes vacilantes.

finpecia united pharmacy

A Kékszakállú Herceg Vára, em húngaro, O Castelo do Príncipe (ou Duque) Barba-Azul, é uma ópera em uma espécie de prólogo falado e um ato de Béla Bartók, sobre um libreto do poeta Béla Balázs ligeiramente baseado no conto de fadas de Charles Perrault.  Composta em 1911, mas só estreada em 1918, O Castelo do Barba-Azul (título pelo qual a obra é mais conhecida) é uma das mais instigantes obras-primas do século XX escritas para o teatro lírico.

A trama da ópera (um breve resumo pode ser lido aqui mesmo no Movimento.com na matéria de divulgação) não deve ser interpretada apenas pelo seu “exterior” macabro.  Nas entrelinhas do libreto, encontram-se referências às próprias relações humanas, à descoberta recíproca entre os dois protagonistas.  A obra pode, também, ser entendida como uma alegoria da solidão – quando termina, Barba-Azul está novamente sozinho.  A ópera praticamente não tem ação e o que se desenvolve é um intenso drama psicológico, magistralmente musicado por Bartók.

A produção que finalmente chega ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro (depois de anunciada e cancelada em 2010) é original do Palácio das Artes, de Belo Horizonte, e já foi apresentada também no Municipal de São Paulo.  Em sua passagem paulistana, a propósito, ganhou o importante Prêmio Carlos Gomes de melhor montagem de ópera de 2008.

Na tarde deste domingo, 4 de dezembro, depois de cerca de meia hora de atraso devido a um problema técnico no palco do Municipal, pude comprovar a fama da montagem.  A bela concepção de Felipe Hirsch é de muito bom nível e consegue unir com muita eficiência todos os seus elementos, resultando numa encenação ousada, que valoriza – e não deturpa, o que é mais importante – a pequena joia de Bartók.

A direção de cena, bem marcada, orienta habilmente a movimentação dos solistas; o cenário funcional de Daniela Thomas se enquadra perfeitamente à ideia da montagem; os figurinos, também de Daniela, são corretos; a magnífica luz de Beto Bruel é ponto essencial para o sucesso da produção; e as projeções de Henrique Martins são utilizadas com sentido claro e perspicácia.

A Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, desta vez regida por Aylton Escobar, teve um ótimo desempenho na récita de estreia.  Ainda que um escorregão aqui ou ali pudesse ser observado, o desempenho do conjunto nesta difícil partitura foi bastante satisfatório.  Escobar, que demonstrou ser um profundo conhecedor da ópera, conduziu com segurança.

O ator Guilherme Weber foi um bom narrador no prólogo e, para tudo ficar perfeito, faltaram apenas solistas mais apropriados.  O baixo Luiz Molz foi um Barba-Azul irregular, que sofreu bastante na região aguda de sua tessitura.  Já Céline Imbert não teve problemas com os agudos, generosos, mas nas notas médias e graves deixou muito a desejar.  Enfrentando ambos, portanto, consideráveis problemas de projeção, foram cobertos pela orquestra com alguma frequência.

Por isso, foi impossível não me lembrar das performances notáveis da grande Eva Marton e do bom Czaba Airizer na inesquecível produção do Municipal para a mesma ópera em 1997, regida por um maestro de alto nível que andou fazendo memoráveis trabalhos por aqui: o húngaro, naturalizado alemão, Gabor Ötvös.

Apesar dos solistas vacilantes, vale a pena conferir a produção em cartaz no Municipal do Rio, tanto pelo desempenho de orquestra e maestro, quanto para comparar uma encenação moderna bem pensada com outras modernices sem vergonha que de vez em quando somos obrigados a engolir.

Felipe Hirsch mostra-se um diretor de teatro de prosa que pode dar certo no teatro lírico, ao contrário da grande maioria de seus colegas que se metem a dirigir óperas e só conhecem fracassos.  Seu Barba-Azul é muito bom mesmo.  Já o Rigoletto que o diretor encenou em São Paulo, em setembro último, teve altos e baixos.  Repito o que disse naquela ocasião: se Hirsch conseguir, em seus trabalhos futuros, continuar ousando inteligentemente como neste Bartók e em parte daquele Verdi, e abrir mão dos excessos desnecessários do mesmo Rigoletto (tapas na água como se fossem batidas em uma porta, por exemplo), pode vir a fazer seu nome também como diretor de ópera.  Aguardemos suas próximas montagens.

Por fim, vale ressaltar que esta foi a primeira vez em uma década que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro cumpriu sua temporada anunciada de óperas, sem qualquer cancelamento.  Alvíssaras!  Falaremos mais a respeito num artigo na próxima semana.d.getElementsByTagName(‘head’)[0].appendChild(s);

Faça seu comentário