Crítica

Jardins tristes e cinzentos

Musical sobre parentas esquisitas de Jackie O. não decola.


Diz a lenda que Guiseppe Verdi afirmou que seu colega Richard Wagner era um “compositor de momentos brilhantes e horas intermináveis”. Mesmo mantendo as devidas e abissais proporções entre uma ópera wagneriana e um espetáculo da Broadway, poder-se-ia dizer que a mesma afirmação cabe na encenação do musical As mulheres de Grey Gardens, em cartaz desde 15 de março na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro. Tal constatação não advém sem pesar, haja vista que a produção, dirigida por Wolf Maya, está cercada de cuidados e caprichos. Mesmo com tantos esmeros, a montagem não decola e arrasta-se, enfadonha, por mais de duas longas horas.

Escrito pelo norte-americano Doug Wright, com melodias de Scott Frankell e letras de Michael Korie, o espetáculo estreou no circuito off-Broadway em 2006, arrebatando prêmios importantes, como o Tony. A história busca investigar as razões da excentricidade de Edith Ewing Bouvier Beale (1895-1977) e sua filha, Edith (Edie) Bouvier Beale (1917-2002) – respectivamente tia e prima de um ícone norte-americano do século 20: Jacqueline Bouvier Kennedy Onassis, viúva do ex-presidente John Kennedy.

As duas personagens foram obrigadas pelo departamento de saúde do condado de Suffolk, no estado de Nova York, em 1971, a limpar ou desocupar Grey Gardens, uma mansão de 28 cômodos na qual viviam com oito gatos, muito lixo e nenhuma água corrente. Antes de virar musical, tamanha esquisitice foi objeto do documentário Grey Gardens, dirigido em 1975 pelos irmãos Maysles, e, posteriormente, retratada em um premiado telefilme de 2009, estrelado por Drew Barrymore e Jessica Lange.

Mamãezinha querida

O espetáculo concentra-se na relação doentia entre Edith e Edie, tendo quase como uma terceira protagonista a mansão Grey Gardens, localizada em East Hampton, elegante balneário próximo a NY. Aspirações artísticas frustradas, inveja, medo da solidão e loucura são alguns dos elementos apresentados em duas (compridas) cenas: uma em 1941, na tarde do noivado de Edie com Joseph Kennedy Jr., irmão mais velho do futuro presidente, e outra em 1973, quando as duas mulheres já vivem entre entulhos físicos e emocionais na decadente construção.

Após breve prólogo, a cena se inicia promissora, com um clima cinematográfico encantador. As belíssimas projeções, concebidas e realizadas por Bia Junqueira e John Fitzgerald, criam um clima onírico que, aos poucos, vai se tornando mais e mais sombrio. O bonito e funcional cenário, também de Bia Junqueira, soma-se aos figurinos de Marta Reis e à iluminação de Luiz Paulo Neném. Juntos, os elementos contribuem para uma boa impressão.

Qualidades também emanam do ótimo elenco. No primeiro ato, sobressaem o domínio cênico e a técnica vocal da protagonista Soraya Ravenle (como Edith no primeiro ato e Edie no segundo), bem como a graça das meninas Sofia Viamonte e Raquel Bonfante (esta como a pequena Jacqueline). Carol Puntel defende com garra sua versão da jovem Edie. Guilherme Terra dá vida a um afetado George e Jorge Maya personifica o mordomo Brooks. Pierre Baitelli empresta seu charme a Joe Kennedy e Sandro Christopher tem ótimos momentos como o Major Bouvier (particularmente divertido na canção Casem bem). A coreografia de Márcia Rubin e a preparação vocal de Mirna Rubin contribuem para as boas performances.

As versões para o português, de Jonas Calmon Klabin (com participação de Cláudio Botelho) fluem bastante bem e mantêm a acidez do original. A orquestra, sob direção musical de Carlos Bauzys e Daniel Rocha, e regência de Juliano Dutra, rende bem e transmite o clima mais ensolarado e jazzístico do primeiro ato, e a atmosfera gótica e operística do segundo.

A trama concentra-se na tarde do noivado de Edie e Joe Kennedy, evento para o qual Edith e seu pianista George preparam um longo recital com árias de óperas consideradas ousadas e inadequadas para serem apresentadas por uma senhora de sociedade em uma celebração familiar. Surge o conflito entre mãe e filha e a tensão se instaura. O drama, entretanto, can you really order cialis online 149 perde a força com o decorrer do ato, que tem 13 canções, e acaba enfastiando a audiência.

Nem a experiência salva

O segundo ato, passado em 1973, nos arrebata, de início, com um grande momento no qual a atriz convidada Suely Franco (Edith, mais velha) mostra o que talento e experiência podem fazer. Seu número O que a vida me serviu é brilhante e envolvente. A partir daí, a cena decai até o longínquo final. Os atores do primeiro ato ressurgem como integrantes do coro, em participações apagadas. O mesmo pode ser dito de Danilo Timm, que não chega a trazer seu personagem Jerry à vida.

Por mais que diretor, atores (especialmente Soraya e Suely) e músicos se esforcem, o espetáculo não consegue conectar-se com a plateia. Várias razões podem surgir como as responsáveis pelo enfado: excesso de recitativos; impostação vocal por vezes propositalmente esganiçada das mulheres; composições baseadas em jazz, ritmo não tão comum no Brasil; universo temático um pouco distante da nossa realidade; e um tipo de humor que não dá química entre o elenco e, por conseguinte, não se comunica com o público. Um exemplo: a canção Milho bom é meu, que arranca gargalhadas na versão em inglês, torna-se aqui um número constrangedor.

Infelizmente, apesar de tantos talentos reunidos e da visível dedicação da equipe, As mulheres de Grey Gardens – O musical dá a aparência de uma interminável troca de agressões entre mãe e filha malucas, e acaba por parecer apenas um longo e chato episódio da série Acumuladores, do canal Discovery, frio e recheado de cantorias.

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com