Escrito por em 21 abr 2013 nas áreas Crítica, Movimento

Na atual produção iniciada a 20 de abril, a protagonista da ópera foi realmente a princesa Amneris e não a Aída como dita o libreto de Ghislanzoni.

Grande artistas da cena lírica internacional representaram Aida newste teatro. Elisabetta Barbato e Ebe Stignani em 1947/49; Renata Tebaldi e Elena Nicolai em 1951; Constantina Araújo e Mario Del Monaco em 1954; Antonieta Stella e Pier Miranda Ferraro em 1956 e Aprile Millo e Maria Luisa Nave em 1986. Complementaram esses artistas Giulio Neri, Beniamino Gigli, Fedora Barbieri, Mario Filippeschi, Enzo Mascherini, Boris Christoff, Maria Henriques, Gian Giacomo Guelfi, Marta Rose, Ida Miccolis,  Fernando Teixeira, Bruno Sebastian, Dimiter Petkow e Gianfranco Cecchéle. Regentes: Oliviero de Fabritis, Enzo Tieri, Antonino Votto, Franco Ghione, Ottávio Marini, Edoardo de Guarnieri, Santiago Guerra e Isaac Karabtchevsky atuaram como maestros concertattores e diretores de orquestra.

A orquestra sinfônica começou tímida num andamento extremamente ralentado, arrastando exageradamente, mas melhorou aos poucos no pulso de seu competente regente. A majestosa música composta por G. Verdi, o gigante da ópera italiana, especialmente nos dois primeiros atos, e sobretudo no que se refere à música instrumental, coral e também para ballet, nos concertatos do 2º quadro do ato II, foram aqui dignamente interpretados sob a batuta de Isaac Karabtchevsky.

Radamés, jovem capitão egípcio, apaixona-se por Aída, escrava etíope que serve a Amneris, filha do faraó. Não sabe que Aída tem sangue real e que Amneris está apaixonada por ele. Quando os etíopes avançam sobre o Egito, Radamés é nomeado comandante dos exércitos, para angústia de Aída, que retribui o seu amor. Vitorioso, Radamés traz entre os prisioneiros, Amonasro, rei da levitra prodaja Etiópia e pai de Aída. Por amor a Aída, Radamés consegue do faraó clemência para os prisioneiros, o que leva ao paroxismo o ciúme de Amneris, consciente de que Aída é a sua rival. Um ardil de Amonasro faz com que Radamés revele a Aída segredos que permitirão um novo ataque dos etíopes. Descobertos por Amneris, Radamés é julgado e condenado à morte, enquanto Amneris mergulha em sentimentos contraditórios.

O texto do egiptólogo Eugène Mariette que sugeriu ao compositor a trama de “Aída” cujo libretista é Antonio Ghislanzoni, nos apresenta o triângulo amoroso contrapondo-se ao templo sagrado de Vulcano em Memphis, do qual a figura central é o sumo sacerdote Ramfis, interpretado por Sávio Sperândio, baixo (de Goiás), embora não da classe artística de Cesare Siepi, Giulio Neri, Giorgio Tozzi, Nino Meneghetti, Nicolai Ghiaurov, Samuel Ramey, Paata Burcholavsky entre outras celebridades. Baixo cantante atuante na cena lírica nacional, deu uma razoável interpretação iniciada com palidez, especialmente na cena do templo de Memphis “Nume custode vincide”, onde estático e inexpressivo não emocionou a plateia ainda que coadjuvado pelo coro e Radamés. Depois aqueceu-se com o andamento da ópera, acertando mais no IV ato.

Os sacerdotes (barítonos e baixos) do coro realizaram correta leitura da parte que lhes cabe (cena do julgamento); nível de excelência atingiram os sopranos e mezzos, particularmente nos conjuntos de todo o ato II.

Iacov Hillel apresentou-nos uma marcação cênica nada criativa, limitando-se ao convencional, inclusive no tocante às cena de massa bem como aos personagens principais. Esperávamos mais desse artista experiente já no teatro lírico brasileiro. Os cenários de Hélio Eichbauer se inspiram em formas geométricas, abundantes na arquitetura antiga egípcia aqui evocada numa concepção mais contemporânea; e as projeções sobre o cenário, algumas em 3-D, pela videasta Laís Rodrigues, é outro trunfo, embelezando a arte visual, concretizando assim um bonito conjunto cenográfico.

Aída, a escrava etíope exprime seus sentimentos na ária do Nilo com o coração angustiado à espera de Radamés: nessa ária Fiorenza Cedolins deveria demonstrar todas as suas qualidades vocais: extensão, controle técnico, agudos claros e bem emitidos (vai até o dó 5 natural). A cantora italiana, soprano lírico spinto de bonito timbre e de escola de canto irregular, cujo repertório deveria se limitar à Mimi de La Bohème, Micaela, Nedda de “Pagliacci”, ou outros similares, não conseguiu vencer as dificuldades desse imenso personagem verdiano. A voz não corresponde em volume para os concertatos do ato II, nos duetos com Amonasro e Radamés é bastante irregular nos andamentos e nas árias principais, onde precisa ser excelente, tenta ela compensar com pianíssimos, todavia falham ou não se emitem, o que ocorrera em sua ária de importância máxima, quando emudeceu o dó natural: “Oh! Patria mia, mai più ti rivedrò”. No dueto “O terra, addio” foi apenas regular; ajudada pelos seus companheiros de cena (Pelizzari e Smirnova). A sofrida “Aída” de F. Cedolins decepcionou o currículum que a precedeu.

Rubens Pelizzari também se distanciou do óbvio: a cena é primária em suas aparições no palco e a voz, de tenor spinto, sempre calante na afinação. Acostumado a cantar em pequenos teatros da Itália e países vizinhos, apavorou-se com a grandiosidade do nosso teatro do Rio de Janeiro e, também pelo seu próprio papel que havia de desencumbir-se; no ato III já apontava a exaustão em seus duetos com Aída e Amonasro; sua ária “Celeste Aída” limitou-se ao linear.

Amneris, a filha do rei do Egito, foi aqui interpretada pelo mezzo soprano russo Anna Smirnova, que em sua primeira aparição como a princesa no Rio de Janeiro, brilhou rotundamente. Na diversidade de seus sentimentos, mergulhou em contradições: o seu orgulho, o auge de ciúme, a satisfação da vingança e a dor descomunal de ter contribuído para a condenação de Radamés. Some-se a isso uma voz potente, enorme e aquecida desde sua primeira entrada na cena II do 1º ato. Após demonstrar a beleza e a força de seu timbre nos dois primeiros atos, exacerbou no IV ato, dominando por completo a cena do julgamento, precedida pelo dueto “Gia i sacerdoti adunansi” emancipando-se bravamente na frase final “Empira razza! Anatema su voi !” Foi imensamente ovacionada. Aos paulistanos e cariocas presentes no Municipal que viram esta  brava Amneris, certamente recordaram-se da insuperável interpretação de Marta Rose, cantora chilena de nível internacional que nos visitou em 1957 aqui no Rio, e após no Teatro Municipal de São Paulo em 1967, novamente em 1968 e 1970 pela última aparição no Brasil. Inesquecíveis essas Amneris.

Amonasro, o rei etíope cativo, pai de Aída, a cargo de Lício Bruno fica muito distante daqueles que pisaram neste célebre palco carioca. Rubens de Falcchi, Paolo Silveri, Enzo Mascherini, Lourival Braga, e o maior de todos eles: Gian Giacomo Guelfi. Sem falar de Fernando Teixeira, em 1986/1988,  esse glorioso barítono carioca, que projetou-se em teatros verdadeiramente importantes aí pelo mundo afora. Lembrar-se de GGGuelfi em sua entrada em cena: “Suo padre!…” no palco do Theatro Municipal de São Paulo (1970) é coisa de cinema ! Figuravam a seu lado:  Bruno Prevedi, Marta Rose, Rita Orlandi Malaspina e seu marido Maximiliano Malaspina com Mario Rinaudo (Ramfis). Nada a acrescentar nesta produção carioca.

O Faraó de Carlos Eduardo Bastos Marcos (baixo cantante, mas requer-se um baixo profundo), limitou-se ao satisfatório num conjunto heterogêneo; o mensageiro de Ricardo Tuttmann é bastante expressivo e muito musical e a sacerdotiza de Bianchini, muito fraca,  considerando-se que sua voz revelou-se branca demais para a tão linda invocação à Isis. Bailados colaboraram com eficiência sobretudo na dança das sacerdotisas e da cena triunfal com um homogêneo conjunto coreográfico. Parabéns João Wlamir, e Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro.

Escrito por Marco Antônio Seta, em 21/4/2013.

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