CríticaÓpera

“Aida” no TMRJ: a ópera certa na hora certa!

“AIDA” , criada em 12/1871 no Cairo e em 12/1872 na Scala,bé o mais popular exemplo do “grand opéra” italiano de sua época.

Traz em seu conjunto todas as características do gênero: assunto histórico e épico, grandes massas corais, canto vigoroso de quase todos os principais solistas, quatro ou cinco atos, ”mise em scène” grandiosa, pelo menos um grande “concertato” e por vezes mais de um ballet. Outro “grand opéra” italiano da época é IL GUARANY, de Carlos Gomes, criado na Scala em 03/1870. AIDA foi inclusive a primeira ópera italiana encenada no TMRJ, em 1910.

Não pode haver melhor escolha para iniciar as  comemorações dos duzentos anos de Verdi. AIDA é totalmente verdiana e tem de tudo: trechos de suprema habilidade de composição e refinamento, de extrema  beleza melódica, de tipicidades dramáticas do melodrama italiano, de grandes árias e conjuntos verdianos, ao lado de danças e marchas  de rotina e de grande simplicidade, para o público pequeno burguês menos exigente. Por isso, AIDA agrada a todo mundo. Além do mais, AIDA foi a primeira ópera italiana encenada no TMRJ, em 1910, consequentemente a primeira ópera de Verdi a vir ao palco de nosso maior teatro.

O libreto é de Antonio Ghislanzoni, baseado em um esboço em francês de Camille Du Locle, este por sua vez em uma lenda divulgada pelo grande egiptólogo Auguste Mariette, o “Mariette bey” dos egípcios, que chegou até a inventar que, em suas pesquisas, havia descoberto um trecho de música egípcia do tempo dos faraós, o qual teria passado a Verdi e foi por este aproveitado na partitura, na cena da sacerdotiza no primeiro ato… Contam alguns que quando Verdi soube que era brincadeira ficou muito zangado… Mariette foi o verdadeiro inspirador e estimulador de AIDA.

Há no libreto frases poéticas de grande efeito, como por exemplo quando Radamés diz que queria erguer para Aida “un trono vicino al sol”, um trono perto do sol, quando o mesmo Radamés, ameaçado com a morte por Amneris, diz que “è la morte un ben supremo, se per lei morir m´è dato”, é a morte um bem supremo se por ela  me é dado morrer, quando Aida relembra os céus azuis de sua terra natal, quando Amneris comenta o imenso amor que sente por Radamés. A presente produção apresenta figurinos e adereços  já vistos no Palácio das Artes de  Belo Horizonte, de autoria de Raul Belém Machado. Isto nos foi informado pela própria divisão de comunicações do TMRJ, mas a informação se choca com o que vimos em BH. Não parecem os mesmos figurinos. No entanto são muito bonitos e convincentes.

Os cenários novos de united methodist church saratoga Hélio Eichbauer são o ponto alto do espetáculo,moderno e atual sem ser falsamente inteligente,  com figuras geométricas, triângulos, quadrados, círculos, combinados com um figurativismo de Egito antigo de estátuas, pirâmides, colunas, íbis, Ísis, Osiris, olhos, compassos  e contornos. Cenários eficazes, bonitos, agradáveis de se ver. Vamos acompanhar onde serão guardados e  conservados esses cenários após o final das presentes récitas, para que possam ser feitas reposições.

Quem quiser saber datas, elencos, ler sinopses, resumos e muitas informações sobre AIDA , deverá consultar matéria publicada neste  site. Adiantamos que o enredo é basicamente muito  comum na ópera italiana do século XIX : duas mulheres amam o mesmo homem, o que resulta em morte. Assim é em NORMA, em FOSCA, em LA GIOCONDA. No vice-versa, temos IL TROVATORE, UN BALLO IN MASCHERA, FAUST (não esqueçam Siebel), DON CARLOS e muitas outras. Ainda não vi uma ópera em que duas mulheres amam a mesma mulher ou vice-versa, mas com o o andar das coisas, não sei não…

O soprano Fiorenza Cedolins,de bonita voz e bela figura, abusou de notas em pianíssimo, o que tornou seu canto monótono. Não é aquele tipo de canto que se espera de AIDA. Ouso dizer que a bela Fiorenza emitiu certas notas não operísticas, culminando com um dó natural superagudo em sua grande ária quebrado ao meio por não resistir a tão pouco volume.

O tenor Rubens Pellizari,de voz comum e rotineira, cantou de modo apenas aceitável. O meio-soprano Anna Smirnova, dona de volumosos agudos, por isso foi a mais aplaudida da noite e muitos a elevaram à categoria de cantora “outstanding”, o que, na opinião deste que escreve, não é absolutamente verdadeiro. O canto da Smirnova é desigual por alternar frases em volume normal com aqueles tais agudos tonitroantes. O barítono Lício Bruno começou bem mas sua voz foi aos poucos perdendo substância e acabou quase rouco, em apagada atuação. O baixo Sávio Sperândio foi outro que abusou do canto em piano, o que desvirtua sua personagem, e o baixo Eduardo Marcos foi um cantor também rotineiro. O soprano Lúcia Bianchini como sacerdotiza esteve bem e o tenor Ricardo Tuttmann esteve ótimo como mensageiro. Como sempre tem ocorrido, Tuttmann dá conta dos recados.

A direção de cena de Iacov Hillel foi outro ponto alto da produção, assim como ponto alto foi a coreografia de João Wlamir, que entende a fundo do riscado. O coro, preparado por Jésus Figueiredo, esteve soberbo. O coro do TMRJ é um dos melhores do mundo.

O regente de orquestra  Isaac Karabtchevsky levou sem maiores problemas o espetáculo do início ao fim, o que já é muito. A orquestra também abusou de pianos e pianíssimos exagerados. Amigos, a medida exata é que é difícil de encontrar.

No todo, uma AIDA de altos e baixos, que no entanto agradou a quase todos. Também, quem é que não gosta de uma AIDA?

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4 Comments

  1. LAIS, EXISTE SIM. Meu livro “CARLOS GOMES – un pioniere alla Scala” foi editado por Nuove Edizioni, Milão, e é vendido, se não estiver esgotado, na Biblioteca da Scala, em Bongiovanni de Bolonha, e em várias livrarias especializadas. Já o vi anunciado nos USA, na França, etc…

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Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.