Artigo

E a música clássica no Rio?

Estamos todos meio estupefatos com a enorme decadência da vida cultural e musical que assolou o Rio de 2011 pra cá.


A cidade não possui mais salas de concerto, pois a SCM só deve ser reinaugurada em 2014 (acredito que esta reforma deve estar transformando a sala, pelo tempo decoprrido, na melhor sala de concertos do mundo).  O programa “A grande música” da TV Brasil, pasmem, acabou, depois de ter sido transferido para as 4 da manhã.

Todas as verbas de construção então voltadas para o Maracanã e afins; a “Cidade das Artes” está abrigando entretenimento, ‘musicals’ e Rock in Rio. Grande parte das verbas foi desviada para esportes, meio ambiente e construções, o que detonou produtores e produtoras, escolas de música (como o CBM), e outras instituições.  Temos que lutar aguerridamente dia a dia, mas não tem sido fácil, não há patrocinador, não há patrocínio.

Dou o meu testemunho pessoal. O site www.movimento.com está no ar desde o ano 2000. São 13 anos em que tentei de muitas maneiras e junto a muitas empresas, inclusive a Petrobras, conseguir um patrocínio, sem sucesso algum. Não preciso repetir aqui as razões e desculpas dos contactados, pois as entidades que buscam patrocínio no mercado as conhecem muito bem.

Em outubro do ano passado foi montado um grupo aqui no Rio, cujo objetivo era não só  “embarreirar” e evitar o desmonte e fechamento da Rádio MEC FM e do programa A Grande Música, mas também propos novos caminhos à EBC.  Fizemos um grande colóquio no estúdio sinfônico da Rádio MEC, que reuniu mais de 60 representantes de entidades ligadas à música de concerto, além de regentes, instrumentistas, compositores e uma lista de 17 instituições importantes daqui do Rio (ABM,  EM-UFRJ, UNI-Rio, SMBB etc.. etc… etc…) e  de todo o Brasil para discutir o desmonte que estava acontecendo.

O movimento deu certo, cresceu e organizou-ser um encontro aqui no Rio em fevereiro reunindo, na TV Brasil, a Presidente do Conselho Diretor da EBC, Ana Fleck (que está acima da própria EBC e veio de Brasília  para presidir o encontro), o diretor Eduardo Castro, Conselheiros da EBC, compositores como Edino Krieger, Tacuchian, Felipe Radicetti, o Pablo Castelar da OSB, Orlando Guilhon, superintendente da Rádio Mec, Felipe Prazeres, Manoel Correa do Lago representando o Música Brasilis, Luiz Alfredo, representando a Vivamúsic e Ricardo Rocha, representando a Cia Bachiana.

Tivemos, se não ainda vitórias consolidadas, pelo menos conquistas muito importantes, como a manutenção da Rádio MEC com sua identidade de rádio a serviço da música de concerto e a criação de um novo programa de música erudita que será chamado de “Partituras”, para o lugar do “A Grande Música”, que havia sido passado para a noite ano passado, retransferido para a alta madrugada de domingo (4 e meia da manhã) e, finalmente, encerrado, com toda a equipe de 12 anos de trabalho demitida sumariamente.  Uma choradeira geral.

Vamos ver o que vai acontecer daqui pra frente, mas a situação anda sinistra mesmo. Na próxima semana, vamos transcrever as reivindicações feitas à EBC, para que todos possam participar e tomar conhecimento deste importante assunto.

 

Encontro no Rio afirma importância da música de concerto nos veículos da EBC

O Conselho Curador da EBC realizou reunião com entidades da área de música e cultura no Rio de Janeiro, a fim de discutir a ampliação desse gênero musical nos veículos da Empresa. O encontro, que também contou com representantes da Diretoria da EBC, aconteceu no Espaço Cultural da Empresa no Rio, no prédio da EBC na Rua da Relação. A relatoria completa do encontro será disponibilizada nas próximas semanas aos interessados, assim como a transcrição dos debates. Já o áudio e o vídeo da atividade poderão ser solicitados à Secretaria Executiva do Conselho.

A reunião trouxe uma série de propostas das entidades para a EBC fortalecer a difusão deste gênero musical em suas mídias, inclusive com a afirmativa da Diretoria de que a Rádio MEC FM do Rio manterá sua vocação e identidade: ser um dos grandes espaços da música de concerto no Brasil. Além disso, indicou ao Conselho um novo e positivo modelo de atividades com a sociedade, que pode e deve ser desenvolvido junto a outros setores.

Pelo Conselho Curador, participaram a presidente, Ana Fleck, e os conselheiros Daniel Aarão e Mario Augusto Jakobskind, que moram no Rio. A Empresa foi representada por Eduardo Castro, diretor-geral, Myriam Porto, gerente-executiva da diretoria de Produção, e Orlando Guilhon, superintendente de Rádio. O secretário executivo do Conselho, Antonio Biondi, também acompanhou a reunião.

A atividade surgiu a partir de proposta apresentada pelas entidades, que em novembro de 2012 encaminharam ofício ao Conselho abordando o tema e solicitando uma audiência para discuti-lo. Nesse sentido, a secretaria do Conselho manteve contato com Ricardo Rocha (diretor musical da SMBB – Sociedade Musical Bachiana Brasileira), Rosana Lanzelotte (presidente do Instituto Musica Brasilis), Heloísa Fischer (diretora do VivaMúsica!) e  Manoel Corrêa do Lago (Musica Brasilis), representantes de algumas das entidades signatárias do ofício, até que se chegou ao formato da atividade realizada.

No encontro do Rio, participaram o maestro Ricardo Rocha e Manoel Corrêa do Lago, além de Luiz Alfredo (do VivaMúsica!), do compositor Edino Krieger, de Ricardo Tacuchian (compositor e membro da Academia Brasileira de Música), de Felipe Radicetti (presidente da Musimagem Brasil), de Pablo Castellar (diretor artístico da fundação Orquestra Sinfônica Brasileira) e de Felipe Prazeres (violinista e regente, membro do conselho diretor da Orquestra Petrobras Sinfônica).

O maestro Ricardo Rocha abriu os debates, apresentando um documento com considerações e propostas sobre o papel da EBC em relação ao tema, que em breve será disponibilizado para leitura. Além de agradecer a abertura da Empresa e do Conselho em receber a sociedade para o encontro, destacou a ligação entre a missão da EBC e sua busca pela qualidade na programação com a importância de se assegurar a identidade da Rádio MEC FM com a música de concerto.

Rocha também destacou a relevância do papel do Estado em relação à música de concerto, e denunciou o papel perverso desempenhado pelas leis de incentivo à cultura hoje em vigor no país. Nesse sentido, lidocaine powder lembrou que a TV Brasil comemora o “título” de campeã de exibição de filmes brasileiros e perguntou quando a Empresa buscará consagração semelhante em relação à música de concerto.

O maestro ainda criticou a noção – equivocada em sua compreensão – daqueles que consideram a música erudita como sendo de elite, e listou uma série de países que possuem grandes projetos sociais para o gênero. Ressaltou, ainda, a existência de uma série de projetos sociais muito importantes ligados à música de concerto e frisou números que demonstram a efervescência atual do ramo no Brasil.

Em seguida, Felipe Radicetti ressaltou a importância que o veículo rádio tem para a educação e registrou que a música de concerto está experimentando importantes avanços na América do Sul, especialmente no Cone Sul. Além de defender o fortalecimento da pauta nos veículos da EBC, Radicetti registrou a disposição das entidades em fortalecerem a TV e a Rádio públicas no Brasil.

Compromisso

Eduardo Castro, diretor-geral da EBC, destacou que um dos desafios para a Empresa nos próximos anos é justamente o de tornar a música de concerto mais conhecida, ampliando o acesso do público a ela. Castro afirmou que a EBC está comprometida em fortalecer o gênero musical em seus veículos, sendo que as novas tecnologias poderão ser um importante aliado nesse sentido.

Perguntado pela presidente Ana Fleck de forma mais direta sobre o tema, o diretor-geral assegurou às entidades presentes que a Diretoria da EBC buscará manter a vocação e a identidade da Rádio MEC FM em relação à música de concerto.

O superintendente de Rádio, Orlando Guilhon, ressaltou que os debates a respeito da presença da música de concerto nos veículos da EBC foram abordados também nos Colóquios de Ouvintes das rádios da Empresa realizados em 2012. E destacou que a EBC pretende comemorar os 30 anos da Rádio MEC FM em 2013 em alto estilo. “Gostaria inclusive de convidar e desafiar as entidades presentes a colaborarem conosco nessa empreitada”, destacou.

As perspectivas para a música de concerto na TV Brasil foram abordadas por Myriam Porto, que explicou que um novo programa, “Partituras”, está em gestação, a fim de dar continuidade ao papel desempenhado até hoje na emissora pelo programa “A Grande Música”.

Convergência

O conselheiro Daniel Aarão congratulou-se com a reunião, a seu ver muito importante: “Creio que deva ser divulgada, nas mídias do Conselho e da EBC, tanto para destacar o que foi feito quanto para estimular que outros setores busquem se organizar para diálogos semelhantes”. O professor defendeu que além da questão da manutenção da integridade da programação da Rádio MEC FM, que se caminhe para além disso, a Rede Pública de Comunicacao e demais veículos da EBC. “A Rádio não pode se tornar um gueto e seria importante isso estar presente no planejamento da Empresa”.

Para o conselheiro Mario Augusto Jakobskind, as novas tecnologias podem ser o caminho para a EBC aproximar a música de concerto de outros públicos, especialmente das novas gerações. O jornalista também parabenizou as entidades pela organização da atividade, afirmando “estar aprendendo muito” com o debate.

Edino Krieger complementou as colocações anteriores, destacando que a realidade é que, no Brasil, “não há música de concerto suficiente para o público e não o contrário” – e que sempre que ela chega ao grande público, é muito bem recebida.

Pablo Castellar defendeu a necessidade de se resgatarem os infinitos autores brasileiros do gênero que ainda se encontram somente em manuscritos ou mesmo  intocados. Castellar deu exemplos de como as novas tecnologias podem colaborar para a difusão, a compreensão, a interatividade e a degustação desse segmento. “É uma nova fronteira fascinante, inclusive com interfaces de baixo custo e enorme potencial”.

A possibilidade de serem realizadas gravações das composições e interpretações de pequenos grupos e da música de câmara nas instalações da EBC foi destacada por Ricardo Tacuchian, que registrou ainda a realização este ano da Bienal de Música Brasileira Contemporânea, que poderá fornecer “excelentes materiais para as rádios e para a TV Brasil”.

A presidente Ana Fleck encerrou a reunião solicitando ao maestro Ricardo Rocha e demais participantes a produção de um novo documento com base nos pontos iniciais colocados por Rocha, que incorporasse as demais questões abordadas no encontro. Fleck agradeceu a oportunidade: “Foi muito positivo, aprendemos muito e ficamos à disposição. O Conselho é a sociedade, estamos aqui para isso”.

Fonte: Secretaria Executiva do Conselho Curador

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4 Comments

  1. Estou pensando em como o Rio tornou mais que verdadeiro o mote “ESPORTE É CULTURA”. E fez isso pela maneira do avesso, ou seja, não há esporte e não há cultura, se levarmos em conta os espaços para ambas as atividades. No esporte, o Maracanã está em obras, o Engenhão vetado, São Januário em local perigoso, etc… Na música clássica, a SCM em obras (pelo tempo, vai ser a melhor sala do mundo), a Casa da Música na Barra???? o que dizer?
    Tá brabo….

  2. Parte final da apresentação, ao vivo, que o conjunto Música Antiga da UFF fez no programa Sala de Concerto da Rádio MEC, apresentado por Lauro Gomes, dia 17 de dezembro de 2010. O conjunto é formado por Lenora Mendes, Leandro Mendes, Mario Orlando, Sonia Wegenast e Vieginia van der Linden. A música apresentada é Virga de Jesse.

  3. Nenhuma rádio brasileira divulgou tanto e por tanto tempo a música de concerto. A importância que ela teve para a nossa música erudita equivale à importância que a Rádio Nacional teve para a nossa música popular. No que diz respeito à produção da música de concerto brasileira, propriamente dita, a Rádio MEC prestou um serviço incomparável, porque, além de transmitir e divulgar, produziu centenas de gravações exclusivas de sua orquestra, atual Orquestra Sinfônica Nacional (OSN-UFF) , além da orquestra de câmara, e também de duos, trios , quartetos e quintetos instrumentais. Várias dessas gravações – realizadas no Estúdio Sinfônico pelo lendário técnico Manoel Cardoso. A propósito da OSN, a única Rádio orquestra que o país teve, deixou de pertencer à Rádio em 1981 e integra desde 1984, a UFF, em Niterói.

  4. Em Niterói temos uma das mais importantes séries de concertos de violão do Brasil, o Ciclo Violonístico de Niterói, que este ano vai para sua sétima edição.

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Antônio Rodrigues
Apaixonado por música coral, é um dos fundadores e mantenedor do movimento.com.