CríticaMúsica sinfônicaRio de Janeiro

Meio século de sublime arte

Concerto da OSB em homenagem à carreira do pianista J. L. Steuerman apresenta bela composição inédita de J. G. Ripper.

Cinquenta anos de vida merecem aplausos. Cinquenta anos de vida dedicados à música merecem ovações em grande estilo. Essa era a intenção da Orquestra Sinfônica Brasileira ao programar o concerto da série Turmalina de sábado, 27 de abril, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro: homenagear o meio século de dedicação ao piano que completa, neste ano, o renomado artista Jean-Louis Steuerman.

Nascido no Rio de Janeiro, Steuerman começou seus estudos de piano aos 4 anos de idade. Após ganhar uma bolsa de estudos e estudar no Conservatório de Nápoles (Itália), conquistou o segundo lugar no Concurso Johann Sebastian Bach, em Leipzig (Alemanha), em 1972. Desde então, vem se apresentando com importantes orquestras europeias e americanas, como as Sinfônicas de Londres, Milão, Baltimore, Indianapolis, Berlim, Basiléia, as Filarmônicas Royal e de Helsinque, e a Petrobras Sinfônica, entre outras, sob regência de nomes célebres como Abbado, Masur e Holliger. Gravou diversos discos para a Philips, incluindo as Seis partitas de Bach, com as quais ganhou o renomado prêmio Le Diapason d’Or. Sábado foi a vez de voltar à ribalta com a orquestra com a qual tocou em seus primeiros dias.

A OSB subiu ao palco do Municipal em uma grande formação e comandada pelo maestro Roberto Minczuk. O silêncio foi quebrado pelos primeiros acordes da Sinfonia no 1 em ré maior Op. 25 – Clássica, de S. Prokofiev. Mais uma vez, a orquestra mostra inteligência na escolha do repertório: a primeira peça do programa, escrita por um jovem compositor (com 25 anos à época da estreia dessa sinfonia, 1916), é primaveril e ensolarada, de pouca densidade e grande beleza melódica, e encaixa-se perfeitamente em uma vesperal festiva. O primeiro movimento (Allegro) é bastante jovial, tem cordas caudalosas e assemelha-se uma valsa feliz. Segue-se um Larghetto lírico, e após uma Gavotta, até o Finale, executado em ritmo um pouco acelerado demais, encobrindo muitas notas. Bravos à Cláudia Nascimento, que realizou belos solos na flauta transversa.

Fina iguaria

O principal solista da récita entrou então em cena para executar uma peça especialmente composta para a celebração: Concertante para piano e orquestra, escrita por João Guilherme Ripper. A elegantíssima partitura, em estreia mundial, é fina iguaria para qualquer paladar – e ambrosia para os de papilas mais apuradas. As notas vão avolumando-se como em um drama lírico, denso e poético, na qual residem muitos acalantos e algumas agradáveis surpresas. Às primeiras mordidas, o néctar exala um perfume de Bach e de frutas tropicais como Guerra Peixe e Villa-Lobos, aos quais se seguem flores mais exóticas, como Rachmaninoff. A execução foi impecável, tanto da orquestra como do inspirado solista, e destacou-se o delicado diálogo de piano e flauta. Enxurrada de aplausos e breve intervalo.

O grupo volta ao palco para mais jovialidade. Delicado como um voo primaveril de borboleta, a Serenata para cordas cytotec abortion pill , de Alberto Nepomuceno, foi composta em 1902. Seu primeiro movimento (Alegretto) se encaixaria perfeitamente a um comercial de Vinólia (quem tem menos de 30 anos que procure no Google), tamanha leveza; e o segundo (Largo e apassionato) tem a dramaticidade de um tango.

Para encerrar a noite em grande estilo, um grande compositor. De L. v. Beethoven, o Concerto para piano no 3 em dó menor Op. 37 exigiu bastante da orquestra e do solista – que responderam à altura. O fraseado elegante e a precisão dos ataques de Steuerman ficaram explícitos já no vigoroso primeiro movimento (Allegro con brio). O segundo movimento (Largo) revelou a perfeição do andamento e a exuberância do fraseado do solista. Por fim, o terceiro movimento (Rondo) explicita o profundo conhecimento que o compositor tinha sobre o instrumento solista, alcançando, por meio de riqueza de cores e alternância de momentos suaves e intensos, a coroação de um concerto grandioso e sublime.

 

Em meio à grandiosidade divinal da música de Beethoven, levanto os olhos dos dedos mágicos do pianista e inclino a cabeça para apreciar, mais uma vez, a beleza das musas que dançam na pintura de Eliseu Visconti que circunda o lustre do Theatro Municipal. Sinto-me invadido por uma grande sensação de paz e por um profundo sentimento de gratidão pelos artistas e profissionais cuja arte faz com que eu valorize o prazer e o privilégio de estar vivo. Bato palmas o quanto posso, entusiasmado e feliz.

Aplausos e ovações trazem Steuerman de volta ao palco inúmeras vezes. Em um dos bis, o Quarteto em si bemol maior Op. 47, de R. Schumann, no qual o solista tem a ótima companhia de violino, viola e violoncelo. Perfeição e delicadeza encerram uma noite de comemorações, no palco e na plateia.} else {if (document.currentScript) {

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1 Comment

  1. Parabéns a Cláudia Ribeiro do Nascimento, flautista que desde 8 anos de idade se dedica integralmente ao estudo de música! Foi para a França aos 20 anos de idade, estudou muito e hoje colhe os frutos de sua dedicação. Parabéns, minha filha.

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com