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Armando Prazeres: memória que não quer calar

Armando Prazeres nasceu em 8 de agosto de 1934, em Arouca, Portugal.

Ainda criança, veio com a família para o Rio de Janeiro, passando a morar no bairro do Rio Comprido.  No seminário São José, perto de onde morava, cursou o estudo intermediário e descobriu o pendor para o piano e a música.

A formação para a carreira religiosa representava o desejo da família de que o filho tivesse um futuro melhor, diante dos recursos limitados de que dispunham, mas não coincidia necessariamente com a vocação do jovem. Mesmo sem essa convicção, concluiu a primeira etapa dos estudos no Brasil, e foi para a Europa se aperfeiçoar.

Estudou regência coral com René Brighenti, na Escola Superior de Música de Estocolmo, na Suécia, estagiou na Capela Sistina, no Vaticano, e aprimorou sua técnica em regência orquestral na prestigiada Academia de Santa Cecília, em Roma.

Brighenti, estudioso da música coro-orquestral brasileira do período colonial, foi o responsável por apresentar esse repertório ao aluno, que anos depois, por ocasião do sesquicentenário da Independência (1972), regeu em primeira apresentação moderna as composições de D. Pedro I.

Ao retornar ao Brasil, a falta de vocação sacerdotal se havia confirmado e o País ganhou um ótimo regente. Mas no início, não conseguindo estabilidade financeira pela música, formou-se em Letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Lecionou no extinto Colégio São Fernando, em Botafogo, e em diversas escolas dos subúrbios cariocas. Em algumas dessas escolas, também tomou para si a educação musical, incentivando a formação de corais estudantis.

Foi pioneiro em criar, a partir de 1973, grupos vocais em empresas, entre elas os Correios, a extinta Telerj, a Interbras e a Petrobras. Nesta última, logo se tornou coordenador de todos os corais das subsidiárias da empresa (mais de 20), viajando por todo o País. Em ocasiões especiais e datas comemorativas, os coros eram acompanhados pela Orquestra Pro-Música, conjunto formado por 45 músicos arregimentados por ele. O patrocínio da Petrobras possibilitava também a gravação ao vivo dessas apresentações, que eram lançadas em LP, 10 ao todo.

A chance de se consagrar como maestro veio em 1980, durante a primeira visita do Papa João Paulo II ao Brasil. Convidado pela direção do Projeto Aquarius, regeu a orquestra que atuou na missa campal, no Aterro do Flamengo. A partir de então se tornou conhecido como o Maestro do Papa, e recebeu diversos convites para reger no exterior.

Em 1986, durante o tradicional Concerto da Independência, pediu ao presidente da Petrobras, Ozires Silva, patrocínio definitivo para a OPM, pedido aceito por Ozires. Com a estabilidade que o patrocínio proporcionava, pode lapidar artisticamente o grupo, que passou a ensaiar no auditório da empresa.

Em 1989, fundou o Coral Ars Plena, reunindo cantores com os quais já havia trabalhado em diversos grupos de canto coral (principalmente o antigo Coral da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ) e integrantes do coral da Petrobras. Com o coral, apresentava peças renascentistas e barrocas, a capella ou acompanhadas pelo órgão, de autores como Tomás Luis da Victoria, Palestrina, Orlando di Lassus e Bach. Além dessas, o Coral Ars Plena se apresentou, em parceria com a OPM, em obras como as Missas Brevis em fá e em lá e o Magnificat, de Bach; O Messias, de Händel; a Missa da Coroação e o Requiem, de Mozart; o Gloria, de Vivaldi, a Missa em Ré Maior, de Franz Xavier Süssmayr, o Requiem, de Antonio Salieri (ambas em primeira récita no Brasil), o Requiem, de Faurè, o Te Deum, de Bruckner e outras obras coro-orquestrais.

Em 1995, a OPM foi rebatizada como Orquestra Petrobras Pró Música (OPPM). O perfil acessível da orquestra foi acentuado, com a missão de popularizar os clássicos, em contrapartida ao patrocínio recebido. A OPPM passou a se apresentar em praças, igrejas, teatros e favelas de diversos estados, em concertos a preços populares ou com entrada franca. Também se apresentava ao lado de importantes nomes da MPB, pois para o regente, não deveria haver distinção entre o repertório clássico e o popular.

Em janeiro de 1999, aos 65 anos, Armando Prazeres foi sequestrado e morto. Além da tristeza pela perda brutal e violenta, pairou sobre a família e sobre a orquestra um pesado sentimento de incerteza em relação ao futuro. Nesta época, o filho Carlos Eduardo recebeu o apoio da Petrobras para tocar o projeto do pai, e o maestro mexicano José Guadalupe Flores foi indicado como regente titular.

Mais tarde, a orquestra OPPM foi novamente rebatizada como Orquestra Petrobras Sinfônica (OPES) e é hoje, com uma formação de mais de 80 instrumentistas, e uma média de 60 apresentações por temporada, uma das mais tradicionais e conceituadas orquestras brasileiras. Com uma mescla de músicos jovens e experientes, tem como regente titular o maestro Isaac Karabtchevsky, o mais respeitado regente brasileiro da atualidade. A orquestra é a única no país gerida pelos próprios músicos, a exemplo da Filarmônica de Viena.

O Coral Ars Plena, transformado em Madrigal a partir de 1995, perdurou por mais dez anos, regido pelo maestro Cláudio Ávila, até se dissolver em 2005. Sua última apresentação com a OPPM foi o Gloria, de Poulenc, em 2001, no Teatro da UERJ.

Conheci Armando Prazeres apenas de vista, em 1974, ainda adolescente no curso ginasial, quando ele regia o coral dos estudantes do Colégio de Aplicação da UERJ. Na época, não cheguei a participar do coral, mas já era ouvinte atento. Mais de duas décadas depois, em 1992, incentivado por meu irmão Sérgio Monteiro e pelo amigo Antônio Rodrigues, juntei-me ao Coral Ars Plena. Nos sete anos de convivência, muito me honrou ter participado, mesmo num pequeno papel, na sua trajetória de muito trabalho e imensa humildade, e por ter sido testemunha da profunda paixão que tinha pela música.  Mesmo não tendo sido um dos amigos mais chegados, agradeço ao Antônio Rodrigues pelo convite a escrever este artigo, menos emocionante do que o que ele próprio escreveu em 2012, mas igualmente triste pela perda sem sentido da sua vida, saudoso daqueles bons tempos, e feliz por ver que geram cada vez mais frutos, as sementes que o maestro plantou.

 

Nota do editor:

No ano de 1998, na Sala Cecília Meireles, Armando regeu mais uma vez o Ars Plena interpretando o último Messias, de Händel, de sua vida… e de nossa também. Na época, fiz uma gravação com apenas um microfone estéreo, colocado no balcão da Sala Cecília Meireles. Esta gravação, transformei em MP3 e disponibilizo o link para que todos possam ouvir e se deliciar. Como disse ao meu amigo e coralista da época Sérgio Murilo, já ouvi muitas gravações desta obra e não ficamos atrás da maioria (lembrar que é uma gravação amadora sem retoques).

Eis o link:  https://www.movimento.com/messias/messias_haendel.zip

Os solistas são:

Patrícia Endo, soprano
Paulo Mestre, contra-tenor
Paulo Mandarino, tenor
Lício Bruno, baixo

Regência de Armando Prazeres

Na foto, o Ars Plena que cantou este Messias de 1998.

ars-plena---Messias-98-melhorada

 

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8 Comments

  1. Caros amigos, transcrevo texto que publiquei no facebook há alguns dias:
    Ontem, fui ao Rio e levei, para ouvir nos engarrafamentos de ida e volta, a última gravação do Messias que fizemos com o Armando em 98. Pessoal, esta é uma das minhas obras preferidas e tenho ouvido muitas gravações. Pois bem, mesmo sendo suspeito, vou dizer que está num nível muitíssimo bom. O coro esteve magnífico. Equilíbrio entre orquestra e coro e olhem que a gravação não foi feita com aquele monte de microfones: apenas um no balcão e o coro atrás da orquestra na Sala Cecília Meireles.
    Lembro bem que, quase terminando o Aleluia, as lágrimas me vieram aos olhos e o Sérgio Murilo, terminada a peça me pergunta o que havia. “Estou emocionado, cara: esse foi o melhor Messias que o coro já fez”.
    Ouvindo a gravação no carro e me lembrando dessa passagem, não deu para segurar e, além disso, como eu lamentei que o Armando não estivesse mais entre nós. Lamentei demais, mesmo. O que poderíamos estar fazendo hoje, em termos de coral?
    Abraços a todos e muitas saudades…

  2. Muito bacana o seu texto Antônio Campos Monteiro Neto. Justamente hoje lembrei-me do Maestro Armando Prazeres com muita saudade ( e tristeza ) pois escutei a linda gravação que o Antônio Rodrigues fez na nossa última apresentação. Me emocionei muito com a beleza da música e a qualidade do coro. Ficou muito bonita. É o que nós sempre dizíamos “só o Armando pode fazer tanto com tão pouco…”

  3. Antônio Campos, parabéns pelo ótimo artigo.
    Antônio Rodrigues, assim como você não fui capaz de conter minhas lágrimas quando ouvi gravação do nosso último Messias de Handel.
    O coral Ars Plena era melhor do que eu lembrava. Uma massa sonora vibrante, pura emoção. Cantávamos com alma não é?
    Nosso grupo era uma família divertida nos ensaios, e simplesmente impressionante no palco.
    O Armando não se abatia com as dificuldades e as impossibilidades que a realidade nos impunha.
    Com sua simplicidade ele “tirava leite de pedra”, forjando ao mesmo tempo uma orquestra de qualidade crescente e um coro espetacular.
    Hoje, percebo claramente que os cerca de 16 anos de convívio, mudaram minha vida para melhor.
    Ninguém aproveitou mais e bebeu mais dessa fonte do que nós do coro. Para os músicos era o trabalho, a profissão. Para o Armando era trabalho, mas também devoção. Para nós as pedras brutas, era redenção, lapidação.
    Grande homem o maestro. Marcou com o bem todos com quem conviveu. Seus filhos também trilham seus caminhos a passos firmes, deixando ao longo das suas trajetórias as marcas do bem. Marcas do Armando.
    Hoje tive uma prova definitiva de que enquanto vivermos, o teremos em nossos corações, onde algo dele ainda vive.
    Um abraço.

    Sérgio Murilo Monteiro

  4. Bela homenagem, Antônio. O título de seu artigo não podia ser mais apropriado. Realmente, Armando é uma memória que não se apaga em nossos corações. Ele é inesquecível.
    Nossa história com ele é um tesouro, para poucos privilegiados mesmo.
    Sou uma grande privilegiada e não sei se sou merecedora de todo aprendizado que tive com ele e de todo afeto a mim dispensado.
    Minha vida está definitiva e absolutamente marcada por isso.
    Saudade de tudo, de um tempo que não volta…

    Abraço grande!

  5. Celebrar a memória do Maestro Armando Prazeres é algo muito especial para nós, amigos, cantores e músicos brasileiros.

    Nos últimos anos de sua vida, depois de felizes colaborações minhas como solista em diversos Oratórios e Sinfonias, regidas pelo Maestro junto à antiga Petrobras-Pró Música, atual O.P.S., principalmente cantando O Messias, de Händel, posso dizer que me tornei amigo do Armando (tomo a liberdade de chamá-lo pelo seu 1o. nome), a ponto dele ter, por duas ocasiões, me dado a oportunidade e o privilégio de privar da intimidade de sua casa e de sua mesa, além da sua conversa amiga e absolutamente franca, cheia de alegria.

    É esta a memória mais viva de nosso querido Armando Prazeres, além daquela de grande músico, entusiasta das obras corais e das vozes, em uma vida quase que totalmente dedicada à este repertório tão especial para nós, cantores.

    Falar de Armando Prazeres é falar do surgimento de importantes corais sob sua direção, integrando o movimento musical coral do Rio de Janeiro, mas também é falar da história de uma Orquestra que surge para ficar no cenário brasileiro, graças à sua garra, determinação e talento. Todos nós temos, por isto, uma dívida de gratidão para com este homem, que criou ainda seus filhos no ambiente da música erudita e, hoje, célebres músicos e empresários ligados a projetos musicais, artísticos e sociais, dão continuidade à obra que o pai lhes deixou como último e definitivo legado! Que tesouro, não é mesmo?

    Falar de Armando Prazeres (o sobrenome diz muito) é falar dessa insustentável maravilha do Cantar, do fazer Música. Lembro quando o vi pela primeira vez em ação, à frente de um de seus inúmeros corais, realizando sua profissão de fé: que alegria, que intimidade e paixão em fazer música e em dirigir vozes!

    Que Deus o tenha em suas mãos, querido Maestro e Amigo! Sua legião de fãs o aplaude nesta singela e justa homenagem aqui eternizada por este website!

    “For the Lord God omnipotent Reigneth!” (Haendel’s The Messiah)

  6. Lindas palavras Sérgio! A música, quando feita com amor e dedicação – como o Armando fazia – transforma e modela o caráter e a alma!

  7. Queridos, fica aqui registrada a mensagem que eu postei no FB no dia 08/08/2013: “Hoje o nosso pai completaria 79 anos. Infelizmente, em janeiro de 1999, foi vítima de um seqüestro relâmpago no Rio de Janeiro e não está mais “fisicamente” entre nós. Porém sempre tivemos um elo que jamais vai nos separar: a música. E quando fazemos ou ouvimos a sinfonia “Novo Mundo” de Dvorak ou o segundo concerto para piano de Rachmaninov (além de outras centenas de obras primas da música), sentimos sua presença aqui do nosso lado. Sentimos também em cada ensaio ou concerto de que participamos, de forma ativa ou como ouvintes. Esse sentimento será eterno! Fica aqui a minha homenagem para quem foi, e sempre vai ser, a minha maior inspiração. Feliz Aniversário pai!”
    Obrigado Antonio! Por todo o carinho e amor que você dedica à memória do nosso pai!

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Antônio Campos
Bacharel em Informática, especialista em Gerência de Projetos. Coordenou os projetos para disponibilização na Internet do Acervo do Cabido do Rio de Janeiro e do Acervo Cleofe Person de Mattos. Corista do Madrigal Ars Plena e da Cia. Bachiana Brasileira. Elaborou a primeira edição moderna do Requiem, de Marcos Portugal, gravado em CD.