Escrito por em 27 ago 2013 nas áreas Balé/Dança, Crítica

A obra era uma das primeiras contestações da Igreja e da sociedade da época.

O compositor alemão Carl Orff (1895-1982), inspirou-se no manuscrito “Carmina Burana” (em latim – Canções de Beuren – nome da abadia onde a peça foi encontrada) tem como tema a Roda da Fortuna, símbolo da antiguidade que traduz as transformações da vida e a alternância entre o bem e o mal. O manuscrito Carmina Burana foi copiado em 1230, na região da atual Bavária, sendo encadernado muito tempo depois. A obra era uma das primeiras contestações da Igreja e da sociedade da época.

Em 1803, o acervo artístico da abadia beneditina de Benediktbeuem, na Baviera, foi transferido para a Biblioteca do Estado de Munique. Neste mesmo acervo foi descoberto um manuscrito contendo uma coleção de poemas e canções, em sua maioria profanas e em latim. . A obra foi encontrada pelo Barão von Aretim, então no cargo de executor da secularização de propriedades eclesiásticas

O conteúdo foi publicado em 1847, revelando uma obra que, durante séculos, permanecera escondida e trancada com os livros ditos subversivos e diabólicos. A partir de então a obra foi chamada de Carmina Burana.

Carl Orff a desenvolveu em sua obra musical, transformando-a em cantata cênica que alcançou enorme popularidade mundial. Na primeira parte é evocada a Fortuna e saudada a primavera. Na segunda, os prazeres, exemplificados em uma taberna. Na terceira parte, a exaltação do Amor (a corte de amor) e a volta à Fortuna, concluindo-a na forma inicial. “Carmina Burana” estreou em 08 de junho de 1937 na Opera Estadual de Frankfurt. Frequentemente executa-se esta obra em concerto, e em forma cênica dançada  por corpo de baile, como hoje temos a oportunidade de conferir no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

O próprio Carl Orff relata como esses poemas o impressionaram instantaneamente: “Eu peguei o livro na quinta-feira Santa de 1934 – um dia memorável para mim. Ao abri-lo na primeira página, vi a tão famosa foto Fortuna velut luna statu variabilis…”

Daí surgiram, apesar de só conhecer em linhas gerais o conteúdo da coleção dos poemas, os coros tão brilhantes e de fácil entendimento musical, aliado a uma instrumentação rica e diversificada: quinteto de cordas usual, dois pianos, flautas, picollo, oboés, clarinetes, fagotes e contra-fagote, trompas, trompetes, trombones e tuba; oito bateristas, composta por seis tímpanos, três glockenspiels, xilofones, castanholas, blocos de madeira, sinos tubulares, triângulo, seis pratos, tantã, três sinos afinados, carrilhão, celesta, pandeiro, duas caixas claras, bombo. Para completar a  eclética harmonia sonora, Orff introduziu coros e três solistas vocais; um barítono, um tenor ou contratenor de reais qualidades para sua árdua tessitura e um soprano leggero cristalino. Os três solistas devem ser excepcionais.

 

Gravações indicadas para a audição em CD  Carmina Burana, de Carl Orff

 

acyclovir 200 mg

Maestro /ConductorSoprano solistaTenor ou contratenorBarítono solistaGravadora
Eugen Jochum

 

Gundula JanowitzGerhard StolzeDietrich Fischer DieskauDeutsche G. G.
F.Welser-MostBarbara HendricksJeffrey BlackMichael ChanceEMI
Kurt  PrestelGerda HarmanRichard BrunnerRudolf KnollAlternativa

 

 

Leonard  SlatkinSylvia McNairJohn AlerHakan HagegardRCA Victor
Charles DutoitBeverly HochStanford OlsenMark OswaldLondon
Seiji OzawaEdita GruberovaJohn AlerThomas HampsonPhillips
Andre PrevinSheillla ArmstrongGerald EnglishThomas AllenEMI
David HillJanice WatsonJames BowmanDonald MaxwellVirgin
Ricardo MuttiArleen AngerJonathan SummersJohn van KesterenEMI
James LevineJune AndersonPhilip CreschBernd WeiklDeutsche G. G.
Zubin MehtaSumi   JoJochan KawalskiBoje  SkovhusTeldec

 

Na atual produção cênica destacou-se sobremaneira o Coro do Theatro Municipal em primeiro plano pela sua participação, embora em disposição desfavorecida (nas laterais do balcão superior).

Sua extensa, decisiva e fundamental parte coral ora exuberante ou de melancolia meditativa e admirável em suas pulsações líricas aqui apresentadas, são o ponto mais elevado do espetáculo em epígrafe. Destacam-se os naipes centrais e graves de ressonância rica e encorpada em nuances (barítonos e baixos; mezzos e contraltos) paralelamente ao brilho aveludado dos 1ºs e 2ºs sopranos e tenores. Bravo ao maestro Jésus Figueiredo.

Dos solistas, o soprano lírico ligeiro Lina Mendes, ainda que de voz pequena, projetou-a de maneira inteligente, com musicalidade e afinação. “In trutina” (Na balança) página de beleza lírica, ausentou-a de projeção sonora mas lançou-a com sensatez; de seu “Dulcissime” verdadeiro arco de virtuosidade do canto nessa obra, foi musicalíssimo. Arremessou a escala menor ascendente em “picchiettàto”de forma bastante precisa e certeira.

O contratenor Sebastião Câmara incumbiu-se da árdua tessitura do cisne assado “olim  lacus colueram” (um dia morei no lago) é precedente de extensa carreira camerística : intérprete de Gluck, Monteverdi, Bach, Händel, Moulinié, Charpentier e Du Mont. Na difícil parte, ofereceu o melhor de suas atuais possibilidades.

O barítono Homero Velho de voz excessivamente metálica, apesar do esforço, descaracterizou-se do estilo meramente camerístico que Orff nos legou, através de interpretações como as do incomparável Dietrich Fischer-Dieskau, Thomas Allem, Hakan Hagegard, Kurt Hubental ou Hermann Prey; fazendo juz às exigências de suas páginas. A voz soou estridente e às vezes calante.

A orquestra do Municipal nas mãos de Abel Rocha, maestro paulista, oscilou frequentemente no andamento; deixando não raro, os cantores do coro afoitos a correr pelos rítmos alterados, a fim de que não comprometê-los. Da parte da percussão, escondeu o bombo e caixas claras num camarote lateral, bem como castanholas e outros acessórios que pouco se fizeram ouvir. Já vimos regências bem superiores em território brasileiro.

Coreografias do argentino Maurício Wainrot de estilo neoclássico, acrobático, ora excêntrico ora exótico, eloquente e juvenil; o mettre da dança passeou por todos esses aspectos no decorrer do espetáculo. Destacaram-se nos passos: Cicero Gomes, Filipe Moreira, Edifranc Alves, Moacir Emanoel, Cláudia Mota e Márcia Jaqueline, Déborah Ribeiro e Priscila Albuquerque.  Completaram o programa dois números :

Chopin – com a música do 2º movimento do concerto nº 1 para piano e orquestra; solos da pianista Priscila Bomfim que se esbaldou em execução cheia de rubatos, portamentos e apogiaturas. No palco, Cláudia Mota e Joseny Coutinho deram belos momentos de enlevo.

Depois, “Ecos”; um pas-de-deux criado com o Adágio para cordas de Samuel Barber (de 1997). A celebrada e bela, esbelta e apoteótica bailarina Cecília Kerche, de carreira verdadeiramente internacional, brilhou intensamente amparada por Francisco Timbó em êxtase de pura arte coreográfica.

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