Escrito por em 14 ago 2013 nas áreas Crítica

A célebre e maior de todas as óperas de G. Verdi -“Aída”- subiu à cena no TMP e recebe esta crítica apoiada nas récitas de 11 e 13.08

 

As longas interrupções na tradição operística entre nós têm seu preço. Muitos anos com péssima administração artística e incompetência administrativa no Municipal resultaram na basket sevre et maine ausência da Aída, Manon de Massenet, I Vespri Siciliani, Fausto,  Mefistofeles, Adriana Lecouvreur, Lakme, Semiramide, Mosè, Guilllermo Tell (as três de Rossini); La Fanciulla del West, Maria Tudor, Fosca e Lo Schiavo de nosso vilipendiado e conspurcado Carlos Gomes, O Principe Igor, A Dama de Espadas e o festival sagrado do magistral Wagner – Parsifal – entre outras, da escola francesa, russa, italiana,  eslava,  germânica. 

Isso retira-nos dos espetáculos da grande ópera e descontinua, se é que assim se pode afirmar, o exercício dos próprios corpos estáveis e técnicos do teatro, tornando assim um desafio bárbaro e hercúleo quando um maestro de visão e competência empreendedora administrativa e artística do porte de John  Neschling, se propõe concretizar uma grande ópera como a Aída que se encontra no palco do Municipal  paulistano. 

O maestro concertatore John Neschling estudou com cuidado os recursos do nosso teatro e conseguiu colocar em pé o espetáculo. Mérito inegável deste senhor maestro, que na direção artística e musical do espetáculo, venceu a batalha trazendo a São Paulo, no curto prazo de cinco meses bons cantores, compondo um “Cast” de relativo peso e à altura do Theatro Municipal de São Paulo que abrigou, através de seus 102 anos, uma infinidade de títulos de todas as escolas e estilos líricos, dramáticos e cômicos. Regeu com autoridade musical, nem sempre correspondido pelo Coral Lírico que não raro se desencontrava da orquestra, e esta corria na frente de alguns solistas. Talvez por falta de ensaios de conjunto ou maior percepção do coro; o que é certo, foi um constante desencontro entre todos eles.

Um coro como o Lírico Municipal poderia se realizar bem melhor,  levando-se em conta seu material vocal potente e grandioso e o arquivo histórico e vivo que ele é. 

A Sinfônica Municipal se projetou bem nos dois primeiros atos, com perceptíveis pianíssimos e ralentandos e outras dinâmicas de  Neschling,  todavia no 3º ato, a joia de Verdi no que se refere à interpretação instrumental e vocal, não deu o devido enlevo, voltando no último ato,  a render entre os seus experientes e  vivazes instrumentistas

Os cenários de Italo Grassi deveriam condizer com Egito. Isis, Ramsés, Luxor, o templo de Vulcano,  os aposentos de Amneris,  o rio Nilo, o azul intenso do terceiro ato às margens do rio; nada disso, resumindo-se em alternâncias de blocos negros e feios de um extremo para o outro do palco, não usufruindo das possibilidades do ciclorama do teatro. Pensar que  já vimos trabalhos bem melhores neste palco centenário. Por certo, “Aída” merece cenografia bem superior. Cadê o azul e as estrelas do céu do Nilo ? 

Simona Morresi apresenta indumentária com tecidos leves, fáceis de serem levados em cena; nos remetem ao Egito Antigo, porém com um toque ocidental.  Bonitos e vistosos trajes de Amneris e apropriados os de Aída. 

A “reggia” de Marco Gandini, se resume em disposições nada criativas, aglomerando o coro, ora como oratório, às vezes subdividindo e despedaçando-o no palco,  o que favorece o desencontro dos naipes vocais, fato que ocorreu em diversos momentos nos atos primeiros, num entra e sai desvairado.  A formal, inexpressiva e pobre marcação dos solistas principais, o fraco jogo cênico nos concertatos,  são mais pobres ainda, revelando mais uma vez, que, para importar assim diretores cênicos, é bem melhor dar a oportunidade aos nossos diretores de palco;  e há vários pelo Brasil…Walter Neiva,  Lívia Sabbag,  Iacov Hillel,  Jorge Takla. 

Na iluminação de Virginio Levrio, nota-se a predominância da penumbra e seus contrastes de luz,  confundindo o espectador numa discrepância da cena com o que lá ocorre. Num dos grandes momentos, o famoso “Gloria all’Egito” – momento de júbilo geral, uma penumbra para o coro, que só a partir da metade do trecho, vai aos poucos ganhando jatos de luz; inúmeros outros são os erros de ausência de focos em todos os atos para Ramfis, Radamés, Amneris, Aída e Amonasro.  É inaceitável que um  profissional como esse estrangeiro que venha tirar a oportunidade de um brasileiro! Valorizemos os nossos profissionais, dando-lhes oportunidades. 

O coreógrafo madrileno Marco Berriel, premiado dançarino de flamenco-fusión, realizou boa apresentação da dança das sacerdotizas com solo de um ídolo azul ricamente indumentado e caracterizado em belos volteios coreográficos: solo de Simone Camargo e Marisa Bucoff. Subiu ainda mais alto o grande bailado da cena triunfal: motivos egípcios,  com adequadas marcações, figurinos,  e solos de Fábio Pinheiro e Laura Ávila / Hamilton Félix e Renata Bardazzi. 

Nas vestes de Aída, o soprano uruguaio Maria Jose Siri, possuidora de vasto currículo internacional, desembarcou na capital paulista para a estreia da produção. Soprano lírico de belo timbre, boa escola, voz penetrante , ávido do personagem em epígrafe, fê-lo de maneira bastante satisfatória; com rendimento é uniforme, expressivo, de extrema qualidade e bel canto. No elenco do domingo (11) a italiana Maria Billeri, veio estrear em seu repertório o papel da escrava etíope aqui em São Paulo; soprano lírico spinto de riquíssimo material vocal, grande volume, extensão satisfatória e de sensível sonoridade canora.  Realizou também, uma performance convincente,  doce como requer uma Aída e foi aplaudidíssima nas suas páginas ícones: “Ritorna vincitor” e no ato III “O patria mia , mai più ti rivedrò” (Oh,  patria minha,  jamais voltarei a ver-te ! ). Nos duetos com seu pai e Radamés, quanto nos concertatos sobressaiu-se como manda a partitura. 

Da Princesa Amneris se exigem as mesmas qualidades da protagonista. Tuija Knihtla, mezzo soprano finlandesa, demonstra um registro cortante, poderoso e próprio a óperas germânicas, contudo saiu-se bem na personagem símbolo do ciúme, um gesto de amor por Radamés. Laura  Brioli  (dia 13) é de Rimini, Itália. Não deu conta de sua parte vocal: com volume reduzido, estava exausta no IV ato,  momento de sua grande ação no drama de Ghislanzoni, em que lhe pese uma bonita presença cênica.  Ambas entraram friamente em cena, aquecendo-se no transcorrer do febril enredo. Entre as duas, Tuija é bem superior, mas quem viu a Amneris de Marta Rose aqui em 1967 – 1968 e finalmente em 1970,  jamais verá interpretação vocal e cênica  tão dramática, brilhante, apoteótica como aquela, merecedora que foi,  de uma chuva de flores que vinha do balcão simples e galeria do Municipal…Puro delírio,  felizes os que a presenciaram ! 

O Radamés de Stuart Neill, (11 e 13/8) tenor americano, surpreendeu pelo rico timbre de dramático heroico, voz de extenso volume e generosidade, dotado ainda de sensatez e musicalidade. A “Celeste Aída” foi um brinde já no início, a qual lançou bravamente. Nos duetos com Aída e Amneris foi irrepreensível e sua presença é suntuosa. Não vi o Gregory  Kunde,  ainda !

O Amonasro é o barítono desta ópera gigante de Verdi. Os dois intérpretes houveram-se bem. Anthony Michaels-Moore, britânico, já correu o mundo inteiro em seu repertório Verdi/Puccini e congêneres. Aponta o seu cansaço vocal, com balanço e vibração excessiva na velada emissão canora.  Rodrigo Esteves, (dia 13) – iniciou gelado em sua entrada dos prisioneiros, vindo se aquecer somente no dueto com Aída “Rivedrai  le foreste imbalsamate”, porém a sua performance do rei etíope torna-se superior à do cantor inglês. 

AIDA exige grandes vozes em todos os seus naipes: dois baixos de grande envergadura, um cantante e outro profundo. Na pele do grão sacerdote Ramfis a grande presença de Luiz-Ottavio Faria de voz pujante, aplumada, afrontando com muitos bons médios e belos graves e agudos, com decisão e maturidade. Ademais, cantou com grato timbre, homogêneo, calor e emissão virtualmente impecável. Na exótica e evocativa cena dos sacerdotes, (julgamento de Radamés);  interveio com a imponência e a majestade que o papel requer. Aí se confirma a bela carreira internacional deste artista de raça. 

O mesmo não se pode dizer de Carlos Eduardo Bastos Marcos, cuja voz fosca e dura não satisfaz como Il Ré. Corretos os mensageiros dos tenores brasileiros Carlos Trindade e Gilberto Chaves, com vantagem para Trindade, e a bonita voz da sacerdotessa Paola Rodriguez, no templo de Vulcano, soprano chileno proveniente do Teatro Municipal de Santiago do Chile. 

Escrito por  Marco Antônio Seta em 14/8/2013

Inscrição sob nº 61909 – SP/MTB

 

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