Escrito por em 12 ago 2013 nas áreas Crítica

L’Elisir d’amore” honra o Festival de Opera do portal da Amazônia!

A ópera de Donizetti atravessou os tempos do fastígio de G. Verdi, Pietro Mascagni e G. Puccini entre outros e chega entre nós sem ranço, nem mofo e jovial eterna à noite de estreia do XII Festival de Opera do Theatro da Paz, em Belém do Pará, ocorrido ontem 8 de Agosto de 2013, em lindo espetáculo inaugural. 

Há que se destacar,  em primeiro lugar,  o trabalho da Orquestra Jovem Vale Música, composta de jovens entre 15 e 20 anos de idade aproximadamente, fruto pedagógico de educação musical e artística específicas, longa e contínua, e que não pode ser interrompido, resultando em exemplo educativo e cultural para o Brasil de norte a sul.  Nas mãos do maestro Emiliano Patarra como diretor musical, correspondeu plenamente,  entusiasta e confiante,  à altura das exigências do maestro concertatore nos termos de dinâmica, ritmos, intensidades e inflexões. Em momentos determinantes, viam-se contudo, a concentração destes jovens músicos nos pizzicatos, nos dedilhados da sonora  harpa de Sílvia Ricardino e nos arcos de toda a orquestra durante a célebre “Una furtiva lagrima”.

O Elixir do Amor estreada a 12 de maio de 1832, há 181 anos do Teatro della Canobbiana, Milão, com libreto de Felice Romani e, como ópera cômica, é uma das mais populares das românticas italianas. Do mesmo Donizetti são: “Anna Bolena”, 1830;  “Lucrezia Borgia”, 1833; “Maria Stuarda” e “Gemma di Vergy”, ambas de 1834; “Lucia di Lammermoor”, 1835; “Il Campanello”, 1836; “Roberto Devereux”, 1837; “A Filha do Regimento”, 1840; “La Favorita”, 1840; “Linda de Chamounix”, 1842 e finalmente “Don Pasquale” (1843). Da mesma época, com Vincenzo  Bellini, formam a dupla das principais figuras da primeira fase do romantismo lírico italiano, onde o melodismo já contaminava o estilo próprio da escola romântica, cujas árias , duetos e tercetos demonstravam o “bel canto” de seus intérpretes. Basta citarmos “I Capuletti ed i Montecchi” (1830); La Sonambula (1831); Norma (1831); Beatrice di  Tenda (1833) e I Puritani (1835).

No trabalho sério, fiel, incansável e verídico de Iacov Hillel, notou-se a formidável movimentação cênica dos atores principais e do coral lírico do festival no decorrer do espetáculo que aliás, portou-se de maneira exemplar, sobretudo as vozes femininas nas mãos do maestro Vanildo Monteiro no que tange também à afinação impecável e precisão rítmica-musical, merecendo aqui os meus cumprimentos. Iacov estuda e conhece realmente o teatro de ópera… e com ele na direção, o espetáculo flui de modo suave e contagiante. Tudo transcorre automaticamente.

Cenários de José de Anchieta simples e funcionais,  figurinos de Hélio Alvarez novos, vistosos e próprios, particularmente os de Adina (deu-se ao luxo de trocá-la quatro vezes) e um bem confeccionado de Dulcamara, atingindo assim harmonia com todos os figurantes em cena. Uma palavra adicional à presença do expressivo ator Carlos Vera Cruz (Moretto)  oferecendo comicidade ao público e às coreografias de Ana Unger e Aline Dias que, a serviço da ópera,  colocaram as suas difíceis técnicas do ballet,  cultivadas há muitos anos de luta , trabalho e perseverança. Bravo a todos.

A ária “Una furtiva lagrima”, aquela que antecipa o final feliz, fruto de uma das mais felizes inspirações “donizettianas”, serve para por à prova o “legato” do intérprete.  Atalla Ayan já havia prometido, pela sua interpretação de “quanto è bella, quanto è cara”, nos duetos  e demais cenas de conjunto, ótima atuação que se confirmou em bela colocação da voz nos “legatos” quer pela musicalidade expressiva, quer pela segurança na emissão dos agudos e pela interpretação de seu Nemorino (aplausos calorosos à “Una furtiva lagrima”).

A Adina de Kathleen Battle é o modelo de quem nos vem à memória deste personagem. Na atual produção Carmen Monarcha teve sobre si a pesada responsabilidade do papel. A despeito de sua ligeira ausência de “coloratura” nas devidas passagens escritas pelo compositor, valorizou esplendidamente a jovem e bela proprietária de terras, aqui qualificadas pelo diretor Hillel, como uma mulher dominadora,  ditatorial de suas ideias e ordens, caracterizando-a em calças compridas ao abrir a cena do Ato I.  Cenicamente ótima, havendo-se com extrema e comedida graça, somada à musicalidade impecável. Para nossos olhos críticos, foi um colírio de beldade avassaladora. 

O charlatão Dottore Dulcamara pode dominar a ópera como faziam Sesto Bruscantini, Renato Capecchi, Renato Cesari, Enzo Dara, Silvano Pagliughi, Giuseppe Valdengo, Italo Tajo e no Brasil – Edilson Costa.  Saulo Javan, baixo-barítono /basso-buffo defendeu o Dottore ainda melhor nesta produção paraense. Voz bem timbrada em extensão comedida e própria ao personagem,  realizou feliz personificação especialmente nos duetos com Nemorino: “Voglio dire, lo stupendo elisir…obbligato”…e após,  com Adina “Quanto amore”,  onde obteve excelente rendimento cênico-vocal. Gostaríamos que esse cantor viesse a interpretar “Gianni Scchichi” ao lado de Carmen Monarcha em território paraense, ambos muito apropriados para aqueles temperamentos artísticos. 

Homero Velho barítono de voz penetrante e metálica, foi um Belcore arrebatador. Representou sempre com adequação e foi um dominador da cena nos momentos em que interveio. Muito musical a Gianetta do soprano Ione Carvalho, também valorizando o seu papel cenicamente. 

O mais importante: a realização do Festival de Opera do Theatro da Paz consolida a descentralização do teatro lírico do eixo Rio de Janeiro-São Paulo,  locomovendo artistas de todo o território nacional, bem como do exterior,  para o Pará, dando assim oportunidades aos jovens músicos, coralistas, bailarinos e todo “cast” para expressarem a sua arte,  a serviço da educação e cultura do povo paraense.  

Estão de parabéns, pois o Secretário de Cultura do Estado do Pará  e Gilberto Chaves, diretor artístico e coordenador geral do holder gun control Festival de Ópera do Theatro da Paz. Deixo a sugestão de se realizar uma récita de ópera destinada aos estudantes de escolas públicas,  oferecendo-lhes a oportunidade de se contatarem com o mundo da ópera, este fantástico universo legendário, histórico e artístico. 

Escrito por Marco Antônio Seta, em 09/8/2013.

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