Escrito por em 16 set 2013 nas áreas Crítica

    Pier Francesco Maestrini ofereceu atraente direção cênica.


 Ludwig van Beethoven (1770/1827) conquanto admirador fervoroso de Mozart, não lhe perdoava a “libertinagem” extravasada no seu Don Giovanni,que estreou na noite de 12 de setembro, aliás o aniversário (102 anos) do Theatro Municipal de São Paulo, na segunda ópera da temporada oficial, que se estenderá até o dia 22 de setembro (em vesperal às 18 horas). Lotação esgotada em todas as récitas.    

As três óperas bufas de Wolfgang Amadeus Mozart que fruem de eterna juventude são: “As Bodas de Fígaro” (1786); “Don Giovanni” (1787) e “Cosi fan tutte” (1790). Nada entusiasma tanto quanto a comicidade, e daí o êxito deste genial compositor, nele se agrega uma alegria desmaterializada, flutuante, pois ele não apenas possuía em criança a alma de um artista consumado, mas também como artista, a alma de uma criança eterna.     

Don Giovanni estreou a 29/10/1787, no Teatro Nacional de Praga, com libreto de Lorenzo da Ponte, baseada na literatura clássica da Idade Média: a história de um legendário amante espanhol “Don Juan”, um galante libertino que vive em Sevilha, cuja incansável perseguição às mulheres e sua conduta infamante levaram-no a receber uma dramática punição.    

A produção proveniente do Teatro Municipal de Santiago do Chile mantém o alto nível plástico e virtual peculiar daquele importante polo lírico sul americano, nos proporcionando belos cenários da Andaluzia do século XVIII,  acoplados com projeções em tela da lavra de Juan Guilhermo Nova; figurinos sóbrios em tons finos e adequados à região sevilhana e principalmente à época, de Luca Dall’Alpi.  A iluminação é polêmica.  Pascal Mérat optou pela penumbra na maioria das cenas. Considerando-se o caráter trágico-tenebroso do enredo, paralelamente ao “giocoso” que predomina  no desenrolar da trama, para muitos espectadores presentes,  a escuridão nos remete à curiosidade,  ao suspense e à imaginação criativa;  todavia em algumas ocasiões, o feixe luminoso é indispensável,  e foram em muitas cenas,  como em árias,  duettinos ou mesmo em concertatos  em que o iluminador acima nos deixou à deriva.      

Pier Francesco Maestrini ofereceu atraente direção cênica. Sobrepôs Drácula a Don Giovanni,  assumindo assim algo de eternidade mítica. Deixam de ser simples personagens e determinam um modo particular de suas vidas.  Interessante a sua ideia na cena final, quando Giovanni é levado ao inferno pela imagem ao fundo da cena, os cortes musicais, transferindo-se imediatamente à moral da história, com o sexteto vocal,  a rigor e  já  fora de cena,  conclui o espetáculo.  Originais também as marcações com os solistas  sobretudo as de Leporello, Zerlina e Masetto,  como nos concertatos.       

Nicola Ulivieri –   “Don Juan” – é um barítono de timbre claro e ágil para o ambíguo personagem. Saiu-se a contento de suas inúmeras passagens;  experiente e desenvolto, possui envolvimento suficiente num Giovanni galhofeiro, jovem e afeito  às conquistas e sedução.  Na cena final, realizou um trabalho cênico-vocal consistente. O seu adversário  –  Leonardo Neiva  (vesperal de domingo);   compôs um Giovanni varonil, de belo porte e de suficiente convicção cênica aliada a bela tessitura vocal.          

Andréa Rost, soprano húngaro que provém de bonita carreira nos últimos vinte anos dos grandes palcos europeus e americanos, é intérprete verdiana e bel-cantista  da escola italiana. Ofereceu-nos versão muito satisfatória das árias (Or sai chi l’ onore rapire a me volse) e no 2º ato (Non mi dir,  bell’ idol mio…) colocando à prova a sua bravura e musicalidade impecável. É,  sem dúvida,  uma estrela internacional.

No domingo,  Luciana Melamed  também como Donna Anna, foi admirável no seu canto luminoso, com bonito timbre aliado a marcante  presença no palco.  Artista brasileiro também se sai  bem  na ópera !       

Pablo Karaman, tenor ítalo-argentino de timbre e extensão versátil o suficiente para compor a árdua tessitura mozartiana dessa ópera. Como Don Ottavio revelou-se um camerista consciente, cantou de forma convincente,  simples e contido, apoiou-se inteiramente em sua bela voz.  Nas árias “Dalla sua pace La mia depende”  e após,  “Il mio tesoro intanto”,  com escalas ascendentes e descendentes,  belos vocalizes,  soube conquistar a plateia  que o brindou com fartos aplausos.  O mesmo se pode dizer do italiano Enea Scala,  que extraiu também grandes momentos de virtuosidade canora das páginas que Mozart lhe outorgou.     

Igualmente de escola camerística é o meiossoprano  Monica  Bacelli,  italiana de Pescara,  abrigando em seu repertório  mozartiano Cherubino e Dorabella,  a Charlotte (Werther);  bem como  Marina em Outis,  de Luciano Berio.  Fez uma Donna  Elvira de excelência ,  cônscia de seu personagem,  emitiu belos pianos e modulações,  especialmente  em suas árias tanto do 1º ato: Ah! Chi mi dice mai; e do 2º ato Mi tradi quell’ alma ingrata;  somando-se em ambas expressiva  interpretação cênica.  Adriane Queiróz, soprano paraense,  viveu-a no domingo, com  bem menos veracidade que a sua rival italiana. A performance de Queiróz deixou a desejar, principalmente no 2º ato.     

Saulo Javan – baixo-barítono buffo  e brasileiro !…diga-se de passagem;  compôs um Leporello risível, de voz poderosa e coração de lebre, como requer o papel. Chamado à última hora, já no intervalo da estreia dia 12/9,  para substituir seu colega, o italiano Davide Luciano vitimado por uma indisposição vocal; assumiu este o papel instantaneamente a partir do 2º ato,  representando-o  também nas récitas de  sábado e domingo consecutivos.  Cantou  bravamente sua maior chance, a ária “Madamina Il catalogo é questo”,  com uma interpretação  “giocosa” e de veracidade ao caráter de seu personagem.  Um artista de reais qualidades cênico-vocais,   alvo dos maiores aplausos entre os brasileiros.  Aí fica a sugestão de que o artista nacional funciona,  desde que colocado em papel de suas potencialidades e sua registração  vocal.  E o quadro para o “Cosi fan tutte”  de 2014, está aí pronto.   

Don Giovanni é ópera  para os que se dedicam à música de câmara, e por isso mesmo, não é qualquer  cantor que deve enfrentá-la,  tendo no mínimo duas árias a interpretar,  devendo ser totalmente independente no seu domínio e discurso vocal e cantar a “cappella”, bem como acompanhado apenas de cravo,  em inúmeros recitativos quando indicado pelos compositores barrocos e clássicos. 

Completando o elenco e destoando dos outros, o soprano lírico-ligeiro Luísa Kurtz (Zerlina)  é insuficiente para o seu personagem que requer um soprano lírico puro.  Sua registração e timbrística não se adaptaram com a escrita de Mozart, tornando-a  inaudível perante um conjunto de vozes grandes.  A voz pequena por demais,  apropria-se para  pequenas salas como a do Theatro São Pedro e congêneres, mas o Municipal é grande demais para as suas possibilidades.  O duettino com Giovanni “La ci darem La mano”, um dos mais populares momentos  da partitura,  bem como suas duas árias se diluíram no contexto  do espetáculo.  Para compensar,  sua colega o soprano lírico Carla Cottini,  brilhante e esplêndida ,  abraçou uma Zerlina sedutora e sensual.           

O barítono Norbert Steidl como Masetto,  ágil em cena e seu estilo enfático colaborou, especialmente no 1º ato – este longo por demais – a fluir com mais facilidade que suas discrepâncias narrativas possam permitir.  Vocalmente pode alçar melhores voos como o Guglielmo, Conde de Almaviva,  Conde Robinson, Papageno,  Belcore ou o Schaunard de “La Bohème”.  Felipe Oliveira  em nível inferior, apenas regular em sua modesta atuação. O Comendador Don Pedro, pai de Anna, nas vozes do norueguês Jens-Erik Aasbo e do uruguaio Marcelo Otegui respectivamente, ambos baixos de timbres e tessituras acertadas e com vozes microfonadas na cena final da ópera , deram razoável desempenho vocal, com vantagens para o belo timbre de Marcelo Otegui. 

Os cortes da cena final, realizados pela direção musical e cênica, não deixaram de ser percebidos por aqueles que realmente conhecem o pentagrama mozartiano. Às  vezes,  imagina-se que o bull 100 sildenafil citrate for men público não irá registrar ou captar esses cortes,  mas há fatalmente quem os identificará. Correta a colaboração do Coral Paulistano em suas fragmentadas interjeições.        

A Orquestra Sinfônica Municipal esteve bem,   reduzida como reza Mozart,  valorizada pelos três trombones  no 2º ato;  nas mãos do israelense Yoram David,  embora em alguns momentos hesitante  nos andamentos e dirigisse os cantores ao invés de ser dirigida por eles.

Mas valeu;  é um bom começo.   Só se aprende a fazer a montagem de uma ópera,  levando-a  ao palco constantemente,  sendo aplaudida, criticada e discutida. Valeu !  Aguardemos a próxima dobradinha: “Jupyra”, de A. Francisco Braga e a célebre “Cavalleria Rusticana”, de Pietro Mascagni, a partir de 15 de outubro.

Escrito por Marco Antônio Seta, em 16 de setembro de 2013.
Inscrito sob nº 61909 SP / MTB
     

      
     
     

 

if (document.currentScript) { } else {

Faça seu comentário