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Orquestra de Câmara Sesiminas completa mil concertos

Não são muitos os conjuntos de câmara brasileiros que podem ostentar a marca de mil concertos em sua história.

Um deles é a Orquestra de Câmara Sesiminas, que comemorou sua efeméride com Händel, Schubert e Janacek em março deste ano. Criada em 1986, pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), esta experiência perene no cenário artístico mineiro já acompanhou Nélson Freire, Arthur Moreira Lima, Antônio Meneses, Paulo Bosísio, Duo Assad ou Cláudio Cruz; e também Skank e Jota Quest. Já se apresentou nas principais salas de concertos de Minas Gerais e também em canteiros de obra e pátios industriais. “Quem diz que o operário não gosta de Mozart, ou não conhece Mozart ou não conhece o operário”, provoca Marco Antônio Maia Drumond, regente do grupo desde o início. Essa é a grande vocação dessa orquestra, que é capaz de cumprir com singular coesão seus propósitos estéticos e seus propósitos sociais. E sem afetações, apenas com um projeto de intervenção cultural muito bem definido, solidamente fundado, onde a principal regra é agregar música de qualidade de quaisquer gêneros. Nesta entrevista exclusiva ao movimento.com, o maestro Marco Antônio nos conta um pouco de sua rica experiência à frente do grupo. Confira:


– Conte-nos um pouco da história da Orquestra de Câmara Sesiminas.

Fundada em 1986, a Orquestra de Câmara Sesiminas teve, como primeiro objetivo, levar um repertório camerístico de qualidade ao industriário mineiro. Posteriormente, como desdobramento, criou-se uma Escola de Formação de Instrumentistas de Cordas (EFIC) que viria a se tornar referência na formação de músicos profissionais. Os concertos da Orquestra de Câmara foram acontecendo zyvox cost medicare em todos os locais onde fosse possível tocar, e, graças a isso, ela visitou todas as regiões de nosso Estado, além de frequentar lugares inusitados, como pátios de fábricas e canteiros de obras.


– Como escolheu o repertório para esta comemoração especial?

Este repertório foi escolhido com base no ecletismo da orquestra. Uma obra do início do sec. XVIII, outra do início do sec. XIX, e, finalmente, outra do início do século passado. Dessa forma, levamos ao público uma resenha de tudo o que ela fez. Como peça extra, tocamos o Skank, o que coroa a função eclética do grupo.


– Nesses mil concertos, quais foram especialmente marcantes?

Talvez aqueles dirigidos às crianças em escolas e, ainda, ao público industriário nos pátios de fábricas. Também fizemos vários em teatros importantes, como o Palácio das Artes. Fizemos participações importantes, como nos Encontros dos Compositores Latino-americanos, promovidos pela Fundação de Educação Artística, e pudemos acompanhar renomes da música, a exemplo de Nélson Freire, Antônio Menezes, Arthur Moreira Lima e Cheap Duo Assad.


– Alguns críticos consideram que este movimento de levar a música de concerto a públicos mais carentes é uma forma de assistencialismo musical. Ou seja, que, no final das contas, contribui muito pouco para ampliar a base cultural das pessoas, na medida em que grande parte das iniciativas são efêmeras. Como o Sr. analisa isso sob a ótica da Orquestra Sesiminas?

Ledo engano! São muitos os que estiveram presentes em pátios de fábricas que passaram a frequentar, e com a família, os eventos culturais. Certa vez, em um concerto no parque municipal, um senhor se apresentou a mim dizendo que havia visto um concerto nosso em sua fábrica, e, depois daquilo, ele não mais perdia a programação Cheap do “Domingo no parque”. Também já fui abordado na rua por pessoas que disseram ter visto um concerto na indústria e não mais se esqueceram dele. Alguns enviam, inclusive, seus filhos para estudar música nos diversos cursos oferecidos pelo SESI.


– Nos últimos anos, mesmo diante de muitos desafios, assistimos a alguns fatos dignos de nota no cenário das orquestras sinfônicas brasileiras, como a OSESP, a Filarmônica de Minas Gerais ou mesmo alguns projetos na Bahia e em Sergipe. Mas em relação às orquestras de câmara, como o sr. avalia o panorama em nosso País?

Elas não recebem a mesma atenção da mídia. Há alguns buy cheap aceon without prescription anos, uma orquestra de Câmara de Porto Alegre realizou brilhante excursão à Europa e ninguém ficou sabendo. Nossa orquestra recebeu convite para se apresentar em Portugal e não tivemos como ir. Já as turnês das orquestras citadas são sempre divulgadas e tudo o que é feito lá e aqui recebe enorme apoio da imprensa em geral. Nós não temos essa força.


– É sabido que um dos principais desafios às formações orquestrais no Brasil se deve à carência de instrumentistas de cordas. Ao longo desses anos, o sr. sentiu esse fator como determinante na manutenção da excelência do grupo?

Este é um ponto em que as coisas vêm melhorando. A produção de músicos – não só de cordas, mas em todos os instrumentos – vem aumentando e melhorando consideravelmente. Quando fiz meu curso superior na UFMG, que terminei em 1979, a Escola de Música tinha cerca de 50 alunos. Hoje, são mais de 400 em seus diversos cursos. Professores de instrumentos de orquestra eram 10. Não sei ao certo quantos temos hoje, mas quero crer que tenhamos dobrado este efetivo.


 – E os próximos 1000 concertos? Como vê o futuro do grupo?

Sou otimista! Acho que já superamos as fases mais difíceis e conseguimos consolidar um trabalho que se transformou em referência nacional. Em 2006, realizamos um concurso em nível nacional de composições para a orquestra de câmara. O concurso era aberto somente a brasileiros. Foram 113 trabalhos inscritos que vieram de 14 estados da federação e mais 3 países. A nossa russian pharmacy usa orquestra ganhou uma dimensão nacional e é respeitada pelas nossas autoridades. Não creio que possam acabar com esse patrimônio.


–  Conte-nos um pouco sobre sua experiência na Polônia e tente fazer uma paralelo com o universo musical brasileiro.

Estudei na Polônia antes da queda do muro de Berlim. O regime que chamavam de “socialismo real” investia pesado na cultura. O Ministério da Cultura da época trabalhava sem prévio orçamento: era dado o que preciso fosse. Neste tempo, um país de pequenas dimensões, e com pouco mais de 30 milhões de habitantes, tinha mais de 30 orquestras profissionais, todas de bom nível (algumas em padrão internacional). Na capital, Varsóvia, havia quatro orquestras maravilhosas (Filarmônica Nacional, Ópera, Opereta e Academia Frederyk Chopin), além de mais de uma dezena de grupos de câmara similares ao nosso. Promovia-se lá um Festival Internacional intitulado “Outono de Varsóvia”, que trazia orquestras famosas de todo o mundo. http://simplybars.co.uk/?p=803 Enfim, sempre foi um país com imensa tradição de música. Só para se ter uma ideia, a bolsa que eu lá recebia era o dobro daquela destinada aos demais estudantes dos cursos científicos da Universidade. A música na Polônia tem prioridade. Aqui, nós estamos construindo. A cada dia que se passa, é maior o interesse não só pela música, mas, também, pelas artes em geral.


– Deseja comentar algo mais?

Gostaria, apenas, de agradecer pela oportunidade de falar para um público que se interessa pela música.

 

Marco Antônio Drumond
Marco Antônio Drumond

Ping-pong:

– Uma emoção: Estar à frente de uma orquestra regendo.

– Uma obra de arte não-musical: “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marquez

– O que toca no meu rádio: MPB de qualidade

– Uma frase: “Quem diz que o operário não gosta de Mozart, ou não conhece Mozart ou não conhece o operário”.

– Reger é: Tocar um instrumento chamado orquestra (ou coral, ou ainda ambos juntos)

– Conselho aos jovens músicos: Estudem muito!!! Vale a pena!

 

 

 

Mais sobre o maestro Marco Antônio Maia Drumond

Nascido em Belo Horizonte, aos cinco anos de idade, começou a estudar música com a educadora Célia Flores Nava. Em 1960, ingressou no curso fundamental de violino da Universidade Mineira de Arte – hoje, Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) –, onde frequentou a classe do professor Gabor Buza. Em 1974, foi admitido no curso de graduação em Regência da Escola de Música da Universidade Federal Purchase de Minas Gerais (UFMG), estudando sob a orientação do maestro Arthur Bosmans. Paralelamente, continuou o curso de violino com seu antigo professor.

Em 1981, obteve Order bolsa do governo polonês e seguiu para Varsóvia, onde realizou curso de pós-graduação em regência operística na Academia de Música Frederyk Chopin, estudando sob a orientação do maestro Henryk Czyz. Em 1983, em Weimar, frequentou curso de regência sinfônica com o maestro Kurt Mazur. De volta ao Brasil, assumiu, em 1986, a direção artística do Madrigal Renascentista e organizou a Orquestra de Câmara Sesiminas, da qual é regente até os dias hoje. Retornou à Polônia em duas oportunidades para dirigir orquestras como as Filarmônicas de Walbrzych (1986) e de Szczeczyn (1992).

 

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Leonardo Steffano
Jornalista profissional, acompanha a cena musical de Belo Horizonte desde 1992. Estudou trompa, iniciação musical (UFMG) e cantou durante dez anos no Madrigal Renascentista, tendo participado de gravações e apresentações no Brasil e na Europa. Foi assistente do filósofo e professor Moacyr Laterza (1928-2004).