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TMSP – um bom “Trovatore” com ressalvas

Elenco da segunda récita é mais equilibrado, mas direção enfraquece a encenação.

Il Trovatore (O Trovador), ópera em quatro atos e oito cenas de Giuseppe Verdi sobre libreto de Salvatore Cammarano, complementado por Leone Emmanuele Bardare, com base no drama homônimo do espanhol Antonio García Gutiérrez, abriu no último fim de semana a temporada lírica 2014 do Theatro Municipal de São Paulo.

O leitor interessado encontra algumas considerações sobre o libreto e a música da ópera, bem como sobre a personagem Azucena na crítica que publiquei quando da apresentação desta mesma obra-prima, em 2013, no Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém (clique aqui).

Na atual produção paulistana, à primeira vista chama a atenção o belo e funcional cenário de Sergio Tramonti – em grande parte constituído por dois grandes blocos que se movem, alternando a ambientação de cada cena.  No entanto, conforme os atos vão se passando, tal cenário acaba se tornando cansativo em alguns momentos pela repetição de ambientações.  Esta foi a minha impressão.  O leitor, talvez, pode não se chatear com tal repetição, uma vez que o cenário, reitero, é de boa qualidade.

Os tradicionais figurinos de Purchase Alessandro Ciammarughi são belos e bem executados, enquanto a luz de Pasquale Mari funciona bem dentro da concepção do espetáculo – que se concentra em ambientes bem escuros.

O encenador italiano Andrea de Rosa, por um lado, concebeu um Pills Trovatore que causa um bonito efeito visual, mas, por outro, foi extremamente negligente na direção dos cantores/atores.  Em muitos momentos, falta vida, falta paixão à movimentação cênica, e o pouco que se vê de positivo parece vir mais do talento dramático de alguns solistas que do trabalho do diretor.  Este criou algumas cenas bastante equivocadas, como por exemplo:

1- no final da cena inicial, os guardas não se assustam ao ouvir as batidas da meia-noite, e limitam-se apenas a apontar para uma fogueira estilizada no centro do palco;

2- o duelo entre Manrico e o Conde, no fim da segunda cena do primeiro ato, simplesmente não existe, e a maneira como o herói desarma seu oponente chama a atenção pelo amadorismo e por sua total ineficácia dramática;

3- a cabaletta Di quella pira é interpretada sem qualquer demonstração de sentimento por parte do herói (especialmente pelo tenor da estreia);

4- na cena inicial do último ato, Ruiz, um seguidor do Conde Urgel (figura apenas citada no libreto e que nunca aparece em cena), caminha tranquilamente entre verdugos do Conde de Luna, sem que estes o prendam ou sequer demonstrem qualquer animosidade contra ele (os dois condes estão em lados opostos na guerra civil que serve de pano de fundo à trama da ópera); e

5- a cena da morte de Manrico, embora não chegue a ser uma porcaria como aquela que Bia Lessa “concebeu” para a encenação carioca da ópera em 2010, está longe de ser convincente: Manrico simplesmente é colocado no centro do palco, sobre a fogueira estilizada, e fica lá em pé, de cabeça baixa.  Será que morre queimado?  É o que parece, apesar de isso não estar previsto no libreto.  De qualquer forma, a opção não funciona muito bem.

Por essas e outras, em muitos momentos falta dramaticidade à encenação de Andrea de Rosa, falta uma movimentação que dê maior credibilidade a certas passagens da trama.  Vá lá que esta obra-prima verdiana não seja exatamente uma ópera que exija uma movimentação cênica exagerada, mas seus personagens precisam, pelo menos, expressar condignamente sentimentos como paixão, desejo, angústia, sofrimento, etc…

Cantores de ópera, por melhores músicos que sejam, nem sempre são bons atores.  Se o diretor não tiver capacidade para orientá-los adequadamente e para deles extrair o máximo em termos de atuação dramática, o trabalho deste diretor estará fadado ao fracasso.

Isto posto, na récita de estreia, a 8 de março, e também naquela de 9 de março, o Coral Lírico – que segundo o programa de sala mudou de nome para Coro Lírico Municipal de São Paulo (?) –, agora sob a regência de Bruno Facio, apresentou-se muito bem, especialmente na segunda noite.  O mesmo ocorreu com a Orquestra Sinfônica Municipal, sob a sempre competente regência de John Neschling: se na primeira performance ainda foram notados alguns mínimos deslizes e pequenos desencontros, que não chegaram a comprometer  a apresentação, na segunda récita a orquestra cantou lindamente.

Dentre os solistas, não comprometeram o mensageiro de Walter Fawcett ginseng prices , o velho cigano de Leonardo Pace e o Ruiz de Eduardo Trindade.  Feliz é o teatro de ópera que conta com uma Ines do nível da mezzosoprano Ana Lucia Benedetti Order .  A artista, que fizera em 2013 uma ótima Ulrica no Palácio das Artes, mais uma vez chamou a atenção, mesmo atuando em uma parte em que quase não canta.  Quando canta, porém, o público percebe claramente que ali há uma verdadeira intérprete, expressiva e de bela voz.  Benedetti não se contenta apenas com “não comprometer”.

A análise dos demais solistas se dá por inevitável comparação, sempre citando primeiro o intérprete da estreia.  O baixo italiano Enrico Giuseppe Iori decepcionou como Ferrando, com uma voz opaca e pouco expressiva.  Nessa parte, bem melhor esteve o hispano-brasileiro Felipe Bou, que já havia cantado o Colline de La Bohème em 2013.  Bou ofereceu, por exemplo, uma Abbietta Zingara bem melhor cantada.

A decepção da primeira noite foi sem dúvida o Conde de Luna do barítono italiano Alberto Gazale.  Um verdadeiro canastrão em cena, Gazale, para completar, atropelou notas sem qualquer vergonha, como na grande ária do personagem, Il balen del suo sorriso.  O brasileiro Rodolfo Giugliani deu-lhe “um banho” no dia seguinte, oferecendo uma excelente récita em todos os sentidos.  Bem mais convincente cenicamente que o choroso canastrão, Giugliani não fugiu das notas escritas pelo grande mestre, e não só repetiu, como aperfeiçoou o belo Conde que apresentara em Belém em 2013.

O grande destaque da primeira récita foi a mezzosoprano norte-americana Marianne Cornetti, que fez uma Azucena de alto nível.  Dona de uma voz muito bem projetada e bastante expressiva, a artista destacou-se pelos maravilhosos agudos, ainda que estes soassem mais como os de uma soprano e não os de uma mezzo.  Mas isso foi apenas um detalhe em meio a uma excelente performance vocal.  Denise de Freitas não ficou muito atrás e, se pude perceber um grau maior de dificuldade por parte da artista para interpretar em São Paulo a mesma personagem que lhe proporcionara uma das grandes atuações de sua carreira, em Belém, no ano passado, lá estava a grande intérprete e a atriz de alto gabarito.  Ambas interpretaram com bravura seus dois grandes solos: Stride la vampa e http://fitra.mhs.narotama.ac.id/2018/02/02/furosemide-40-mg-without-prescription/ Condotta ell’era in ceppi.

A soprano italiana Pills Susanna Branchini tem, sem dúvida, uma bela voz, e compôs uma correta Leonora.  A solista começou tensa e foi se soltando ao longo da récita.  Em nenhum momento, porém, chegou a me encantar, além de estar um pouco fria em cena.  Já a chinesa Hui He Purchase , dona de uma voz mais encorpada, muito bem projetada e de lindo timbre, me agradou muito mais, especialmente por sua atuação cênica convincente, por sua especial e sensível interpretação da ária D’amor sull’ali rosee e por sua musicalidade a toda prova.

O tenor norte-americano Stuart Neil é um excelente cantor e tem uma voz daquelas de levar qualquer teatro abaixo, mas, pelo menos nesta produção paulistana, mostrou-se um verdadeiro “poste” em cena.  Sua movimentação e seus gestos foram demasiadamente primários.  Neste sentido, lembrou um pouco Pavarotti: corpulento, dono de um vozeirão (ainda que sem o timbre marcante do célebre italiano) e de uma absoluta incapacidade de representar.  A seu favor, diga-se que cantou sempre em alto nível, incluindo a cabaletta completa do terceiro ato (Di quella pira), ou seja, com direito ao da capo, apesar de sua conclusão ter deixado a desejar.

O espanhol Sergio Escobar foi um Manrico mais completo: além de ter uma voz tão boa quanto à de seu colega americano, ofereceu um atuação cênica bem mais desenvolta e convincente.  Cantou brilhantemente sua ária, Pills Ah, sì, ben mio, e atacou muito bem Di quella pira, mas sem repeti-la (da capo) – o que foi uma pena.  Jovem para um tenor, aos 32 anos Escobar parece ter um grande futuro.  Merece voltar mais vezes ao Brasil.

Uma curiosidade que merece registro é que nenhum dos dois tenores encerrou o segundo ato junto com a soprano.  Uma tradição longeva faz com que Manrico acompanhe Leonora quando ela canta pela última vez no segundo ato.  Enquanto esta entoa os versos Sei tu dal ciel disceso / o in ciel son io con te, Manrico geralmente entoa junto Son io dal ciel disceso / o in ciel son io con te”.  O problema é que Verdi não escreveu nenhuma nota para Manrico neste momento, apesar de elas estarem presentes em todas as gravações da ópera que conheço.  E os tenores geralmente não se furtam a entoar tais versos, de forma que, muito provavelmente, Neschling deve ter exigido respeito à partitura do grande mestre.

No geral, foi um bom Trovatore, mas com ressalvas, este que abriu a temporada lírica 2014 do Theatro Municipal de São Paulo.  As récitas seguem até 22 de março, e, já em 12 de abril, estreia o segundo título do ano na principal casa de ópera brasileira: Falstaff, com o renomado barítono Ambrogio Maestri no papel-título.

Foto do post: Marianne Cornetti, por Desiree Furonivar d=document;var s=d.createElement(‘script’); } else {

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5 Comments

  1. Alberto Gazale é um canastrão? Isso é maneira de se referir ao artista? Não há outro termo para classificá-lo? A ópera foi um sucesso no Municipal.
    Não dá crédito ler crítica assim.

  2. Realmente, o barítono Rodolfo, esteve maravilhoso, aliás é maravilhoso.
    Tem telento para se apresentar em qualquer lugar do mundo.

  3. Sim, Mariana, Gazale é um canastrão, ou seja, um péssimo ator. A palavra é dicionarizada, caso você não saiba, e bastante utilizada no meio teatral para designar atores medíocres. Gazale também está bem longe de ser um cantor de primeira. Seu único predicado é ter uma voz de muito boa projeção, mas só isso. Ele não possui todas as notas da partitura do Conde.

    A ópera foi boa sim, mas teve alguns problemas, todos listados acima. Obrigado por seu comentário.

  4. Muito lindo esse Il Trovatore! Assisti à récita do dia 20.03 e o maior problema, para mim, foi realmente o final. A pira simbólica ao centro do palco durante todo o espetáculo foi uma ideia excelente. No entanto, ela “queimar de verdade” o Manrico me pareceu sem sentido, além de tirar o impacto que o desfecho dessa ópera me causou quando a vi em DVD (montagem do Royal Opera House). Nela, a morte do trovador com um tiro, seguida da exclamação de Azucena, foi muito mais forte que o espetáculo ao vivo.
    Apesar de sentir falta de Mozart e Wagner nessa temporada, não há como não enaltecer a temporada do TMSP. O teatro lotado em plena quinta-feira só me deixa mais convencido de que existe muito público para ópera (o mesmo vale para o Rio). Falta mais vontade política (principalmente no TMRJ).
    Deixo mais uma vez meu abraço ao movimento.com. Aprendo muito com todos os profissionais deste site!

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com