ArtigoLateral

O ocaso de Carla Camurati no Theatro Municipal do Rio

Em declaração ao Valor Econômico, Carla Camurati parece culpar os funcionários do Municipal pela situação da casa.

 

Na última sexta-feira, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro divulgou o restante de sua programação para o ano de 2014, que muito provavelmente é o último de Carla Camurati no comando da casa. No total, o Municipal apresenta na atual temporada quatro balés, três óperas e três concertos. O leitor pode conferir a programação do chamado “segundo semestre” order lasuna garlic clicando aqui.

Nesses sete anos em que Carla Camurati está à frente do Municipal, o que menos se viu no nobre palco da Cinelândia foram óperas completas e encenadas. Recentemente, a diretora, produtora e dublê de administradora de teatro de ópera “explicou”, em entrevista ao jornal Valor Econômico, por que a casa monta poucas óperas: “Não é verdade que não queremos fazer óperas. Temos aqui a primeira companhia de dança clássica do país. O balé tem que ter três, quatro títulos por ano que lotam sempre. Por si só, isso divide o programa”.

Mais uma vez, dona Carla tentou justificar a mediocridade artística (em termos quantitativos) de sua administração com um argumento incoerente. Teatros como o Colón de Buenos Aires, o Municipal de Santiago do Chile e o Municipal de São Paulo, para não sair das nossas redondezas, também têm companhias de balé, e nem por isso apresentam uma temporada reles de óperas e concertos como o Municipal do Rio. Vejamos os dados apenas de 2014 referentes às temporadas próprias das casas supracitadas para efeito de comparação:

Teatro Colón: 8 títulos de óperas, 7 títulos de balés e 18 concertos com programas diferentes (Total: 33 eventos distintos);

Municipal de Santiago: 6 óperas, 7 balés e 10 concertos (23 eventos);

Municipal de São Paulo: 6 óperas, 5 balés (com repetições em outros teatros) e 8 concertos (19 eventos);

Municipal do Rio: 3 óperas, 4 balés e 3 concertos (10 eventos).

Observação: Domingo a 1 Real, Ópera do Meio-Dia e aniversário da casa, velhos subterfúgios do tipo engana-trouxa, não contam, pois tais espetáculos são, digamos, alternativos.

Repararam os leitores que a “justificativa” da Camurati, acima reproduzida, só convence os idiotas? Todas as casas de ópera supracitadas valorizam igualmente a ópera e o balé, com apenas um título de diferença para lá ou para cá. O Municipal do Rio também tem um título de diferença entre a ópera e o balé, mas se destaca negativamente entre os demais teatros sul-americanos pela quantidade ridícula de títulos apresentados. Merece também especial atenção o número vergonhoso de concertos com programas diferentes apresentados por sua orquestra.


Dona Carla parece culpar os artistas

Ainda na entrevista ao Valor Econômico, dona Carla compara, mal, o Municipal do Rio com o de São Paulo. Diz que “está todo mundo prestando atenção nele” (o de São Paulo, naturalmente). Aliás, ela parece ter sido a última a reparar no sucesso estrondoso da casa lírica paulistana… Acrescenta que esse sucesso tem a ver com o fato de ela ser administrada através de um modelo de Organização Social (OS), e finaliza com esta “pérola”, ao lembrar que já tentara, junto à inoperante secretária de cultura, Adriana Rattes, alterar o regime de administração do Municipal do Rio (sem êxito) exatamente para o modelo de OS:

“Havia medo de que os corpos artísticos perdessem solidez. Sendo bem prática e objetiva, acho que, no geral, a legislação [que regulamenta contratação de funcionários públicos] deveria ser do tipo CLT no lugar do sistema de estatutários [cujo vínculo empregatício é regido por estatuto próprio do poder público]. É claro que entre estes há profissionais maravilhosos. Não quero generalizar. É delicado para mim falar sobre isso, mas de alguma maneira a gente precisa falar”.

Por que será que, ao ler isso, lembrei-me do Felipão dizendo que fez tudo certo depois dos fatídicos 7 x 1? É sempre mais fácil colocar a culpa nos outros. Pergunto eu: o que os artistas e funcionários do Municipal, sejam eles bons ou ruins, têm a ver com a displicência com que o governo do Estado trata o Municipal e sua programação artística própria? O que eles fizeram para o orçamento artístico da casa ser a mixaria que é?

Pela CLT, além dos salários, que costumam ser maiores nas OSs, é preciso recolher FGTS, INSS patronal e otras cositas más online . Seria até mais caro, pelo menos no que tange às despesas de pessoal. Então não faz muito sentido justificar a pobreza da programação própria do Municipal apenas com essa questão de regime de trabalho. A mais definitiva de todas as questões é: se o governo poderia investir mais dinheiro em uma OS, por que não o faz com a estrutura atual?

Porque não quer, ora essa. E dona Carla, durante sete anos, também não fez a menor questão de que o governo investisse alguma coisa na programação do Municipal. Eu sei que “é delicado falar sobre isso”, mas vou falar assim mesmo: ela não se esforçou, não cobrou do governo, não moveu um músculo por melhores verbas para a programação do Municipal. Só tinha e tem entusiasmo para obras. Durante sete anos, dona Carla só se preocupou com orçamentos para reformas: primeiro, do prédio histórico da Cinelândia; depois, de um galpão que será a nova Central Técnica do Municipal. Programação? Bobagem…


Perguntas sem respostas

1- Já que falei nela, será mesmo que esta tal “Fábrica de Espetáculos”, a nova Central Técnica “do Municipal”, vai mesmo produzir espetáculos? Se o Theatro não produz quase nada, essa “fábrica” vai “fabricar” o que afinal? “Fabricará” para terceiros?

2- No começo de 2013, dona Carla fez grande estardalhaço por conta de uma parceria entre o Municipal e a inglesa The Royal Opera House. Depois daquele espetáculo inaugural da temporada passada, o que foi mesmo que esta parceria teve de frutífero, hein? Que vantagens aquele acordo trouxe ao Municipal?

Dona Carla deveria vir a público explicar melhor essas questões.


Municipal pagou coreógrafo por balé cancelado

Ao contrário do que a Assessoria de Imprensa do Municipal me informou há algumas semanas, o balé Chico Rei não foi adiado, mas sim cancelado, como eu já previa que aconteceria. A culpa da mentira descarada, registre-se, não é da Assessoria, mas de quem determina o que a Assessoria deve dizer a quem lhe consulta. O maior problema quanto a este balé cancelado é que o Diário Oficial de 19 de maio de 2014, na página 47 de sua “Parte I”, listou um pagamento de R$ 75 mil (Processo nº E-18/005/164/2014) referente a este balé. Vejam só:

“O presente contrato tem por objeto a contratação do coreógrafo ERIC FRÉDÉRIC, no qual detém os direitos autorais da versão coreográfica do balé CHICO REI, UM CLÁSSICO BRASILEIRO, com exclusividade pela Empresária individual LILIAN MARIA AMARAL BARRETO ME, nome fantasia SONATA, na forma do Termo de Referência, parte integrante deste contrato” (SIC).

Afinal, o Municipal pagou e não levou? E, se pagou, o que dona Carla fez ou está fazendo para reaver essa importância? Ela e Lilian Barreto deveriam esclarecer melhor o que aconteceu.

Order
Seu Isaac, dona Carla e a Butterfly
how much is flagyl without insurance

Eu já disse aqui que Isaac Karabtchevsky recebeu R$ 420 mil por ano (desde 2013) para ser o prestador de serviços mais bem pago do Municipal. Agora em 2014, esta quantia está remunerando o maestro pela regência de um único concerto (não repetido) e de duas óperas, além da “elaboração” da temporada artística da casa.

Que temporada, hein? Quando eu soube que seu Isaac regerá uma corriqueira Butterfly em fins de novembro, fiquei me perguntando se sua programação vale mesmo quanto o maestro cobra para… “elaborá-la”! Com todo o respeito, até o Zé das Couves “elaboraria” uma temporada com a Carmen e a Cheap Butterfly, e o regente titular da OSTM poderia regê-las. Não era preciso pagar quantia tão considerável a seu Isaac para isso.

E mais: dona Carla por acaso receberá cachê pela direção de cena desta Butterfly http://bidieffe.net/?p=10990 ? Não é a primeira vez que ela se autoescala para dirigir uma ópera. Não tenho conhecimento para afirmar se isso é legal ou não, mas que é antiético, ah, isso é – a não ser, claro, que seja sem receber um único centavo pela direção, uma vez que ela já recebe salário mensal por ocupar o posto de presidente da Fundação Teatro Municipal. O povo do Estado do Rio de Janeiro já paga muito dinheiro a dona Carla pelo pouco que ela lhe devolve em forma de programação artística.

Pills
Seu Isaac X Vecchio John

A comparação é inevitável. Algumas importantes diferenças entre os maestros que comandam as principais casas de ópera do Rio de Janeiro e de São Paulo saltam aos olhos. Para começar, John Neschling não parece o tipo de homem que aceitaria dirigir um teatro ou uma orquestra apenas por dirigir. Basta conferir o trabalho maravilhoso que ele fez na OSESP e o que faz agora no Municipal paulistano. Já Isaac Karabtchevsky parece se contentar apenas com o cachê recheado. Programação? Bobagem…

Enquanto Vecchio John diz que vai fazer e realmente faz, seu Isaac chegou dizendo que iria dar prioridade às óperas, que iria fazer Wozzeck, mas pouco fez. É até “entendível” que, com a verba orçamentária que tinha à disposição para a programação artística, não dava para fazer grande coisa, mas restam as questões: então fica tudo por isso mesmo? Seu Isaac só embolsa o cachê e volta tranquilo para casa? Não move um músculo para convencer o governador despreparado do Estado que, com a verba disponível, não dá para apresentar uma temporada decente? Esta última questão vale também para a secretária de Cultura e para dona Carla.

Para encerrar essa comparação, uma coisinha básica: John Neschling faz questão de divulgar com meses de antecedência a escalação de elenco das óperas do Municipal paulistano. Já no Municipal carioca impera a falta de respeito com o público: com ingressos à venda, a casa não divulga em seu site as datas exatas em que irão cantar as duas sopranos que se revezarão no papel de Salomé.

Buy
O próximo presidente do Municipal

No fim do ano, dona Carla deixará o Theatro Municipal. Cá entre nós, já irá tarde. Alguém se lembrará dela daqui a quatro anos? Pouco provável. Mas o que devemos esperar do próximo presidente da Fundação Teatro Municipal?

Depois de sete anos jogados fora, todos esperamos que o próximo presidente, seja ele ou ela quem for, tenha vergonha na cara suficiente para só aceitar o cargo se tiver verdadeiras condições de trabalho e de desenvolvimento de uma programação decente.

Esperamos todos que o próximo presidente não fique apenas esquentando a cadeira, recebendo seu salário mensal e gerenciando a pauta da casa (especialmente para terceiros).

Esperamos todos que o próximo presidente honre seu cargo e lute pelo direito e pelo dever que os corpos artísticos do Municipal têm de exibir a sua arte decentemente ao público, e não apenas em apresentações bissextas.

Esperamos todos, enfim, que o próximo presidente não seja um cordeirinho mansinho que aceite passivamente seu orçamento vagabundo sem abrir a boca para reclamar. Esperamos que não seja conivente com uma eventual “política cultural” de quinta categoria, como esta que está vigente desde o início do governo Cabral/Pezão.

 document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);}

Faça seu comentário

6 Comments

  1. Gostaria de aproveitar o espaço e dar um depoimento. Em abril deste ano, comprei, pela internet, um ingresso para assistir à ópera Idomeneo no Teatro Colón, que seria encenada no dia 13/07 às 17h. Após alguns dias, dei-me conta de que o espetáculo coincidiria com a final da Copa do Mundo do Brasil (às 16h.). E esse assunto ficou realmente sério quando a Argentina chegou à final. Como eu já havia programado a viagem, fui para Buenos Aires já contando com o cancelamento ou mudança de data do meu querido Idomeneo, ópera de Mozart pela qual sou apaixonado. Quando cheguei ao Colón para buscar meu ingresso, perguntei-lhe se a récita estaria confirmada e ela me disse que sim, apesar da chegada da seleção nacional à grande final, após 24 anos de ausência. Imediatamente, eu parabenizei a instituição pelo grande profissionalismo e, de tão admirado, confesso que torci pelos “hermanos” na final. De fato, no domingo, a ópera transcorreu normalmente, com belas atuações (em especial, da britânica Emma Bell, como Elettra e da argentina Veronica Cangemi).
    Não tive como não comparar esse profissionalismo com o do nosso TMRJ. Amo a instituição e tenho grandes amigos que lá trabalham ou trabalharam. Assim, é com “giusto furor” que leio as justificativas de Carla Camurati. O TMRJ é um dos meus lugares preferidos no Rio de Janeiro e me entristeço em ver uma joia daquelas, com um coro (para mim) muito melhor que o do Colón, com uma programação pífia. E, o pior, com uma administração que se orgulha disso! Não há a MENOR preocupação em se honrar a programação.
    E a Flauta Mágica? Desapareceu por alguma mágica? Lagarta que virou “Madama Buttefly”? Salomé parece ter sobrevivido por pouco e, para não ficar muito feio, segue a Butterfly. O Teatro Municipal está virando um luxuosíssimo salão de festas. Não sei como ainda não começou a transmitir ao vivo as óperas e ballets do Metropolitan de NY, como faz o (paupérrimo em programação) Teatro Sólis de Montevidéu.
    Por fim, pergunto: como é possível administrar uma instituição do porte do TMRJ e produzir um filme ao mesmo tempo? A(s) resposta(s) é(são) previsível(is)…
    O jeito, para mim, é continuar viajando.

  2. Caro Mario, obrigado por seu comentário. Você frisou muito bem o fato de a administração Camurati se orgulhar do quase nada que faz/fez em termos de programação. E sua pergunta final é bastante pertinente: administrar um teatro de ópera não é tarefa fácil e, se você o faz dividindo esta atividade com outra à qual você claramente dá mais importância, não tem como dar certo.

    Carla foi, nesses sete anos, uma gerente de pauta, que distribuiu as datas do Municipal entre terceiros. A programação própria ficou para segundo plano, “encaixada” nas datas que sobraram.

    Quando você finaliza dizendo que o jeito é continuar viajando, não tenho como não concordar. Eu mesmo já disse aqui que o caminho para quem gosta de ópera no Rio de Janeiro é a ponte aérea, uma vez que a programação lírica de São Paulo dá de 10 a 0 na carioca – e não apenas aquela do Municipal paulistano, como também a do Theatro São Pedro. A que ponto chegamos…

  3. Vocês estão malucos? Os governos federais, estaduais e municipais não colocam dinheiro em música clássica como a OSESP fez. Ano de copa do mundo todo patrocínio foi para eventos esportivos… Restaurar um teatro que estava caindo com todo o teto e eletricidade aruinados não foi tarefa fácil. Não vou defender o alto pagamento dos cachês na administração publica, pois vejo que é só isso que falta para se conseguir viabilizar mais eventos no Brasil. O John Nechling nunca será esquecido pela coragem do trabalho na OSESP, mas daí TORRAR 3 MILHOES NUMA PRODUÇÃO DE OPERA NUM FINAL DE SEMANA EM SP é descaso com DINHEIRO PÚBLICO E PRIVADO. COLOQUEM OS PÉS NA TERRA CRÍTICOS E COLUNISTAS. Se no Metropolitan Opera House de Nova Iorque o orçamento já está cortado e o público vem perdendo o interesse pela música sinfônica, imaginem no Brasil que é escravo da música popular e o governo ainda termina com a Rádio MEC que tocava música erudita…

  4. Kris, ou seja lá você quem for, já que não usa nome e sobrenome, mas apenas um apelido ou pseudônimo, cada coisa merece o seu lugar: Carla Camurati fez muito bem em reformar o Municipal, mas fez muito mal ao não dar a devida importância à programação da casa em sete anos de gestão. Ela entregará a seu sucessor um teatro com padrão de programação igualzinho ao que ela recebeu de seu antecessor. Cadê a evolução, o crescimento? Então agora ficar parado no tempo é mérito?

  5. Só a título de informação: paguei exatos 215 reais por um dos mais caros lugares no Colón (excluídos camarotes). Pessoas que estavam na récita daquele dia pagaram muito menos em excelentes lugares. Dependendo da programação aqui no TMRJ, são pagos 450 reais por um lugar idêntico ao que fiquei no Colón (vide preço do ballet “O Corsário” de Novembro no TMRJ).

    Quanto ao Metropolitan, cuja crise o pseudônimo kris provavelmente leu no O Globo, faltou acrescentar (informação que está na mesma reportagem) que no Brasil é verificado movimento contrário à “crise” que se instala lá (coloco entre muitas aspas, já que eu adoraria uma “crise” do MET – que monta umas 20 óperas por ano – no TMRJ). Há cada vez maior interesse do país em ópera, com mais apresentações e novas praças.

    Por fim, acrescento que escrever um texto em CAIXA ALTA, para mim, é o equivalente a gritaria. Não chama a minha atenção e não transforma coisa alguma em argumento convincente.

Leave a Response

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com