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Marcos Portugal x Padre José Maurício: a morte em extrema miséria

Uma análise dos mitos na biografia do maior compositor colonial brasileiro – Parte V.

A biografia de artistas sob o romantismo segue um roteiro pré-estabelecido e bastante disseminado: o biografado-herói, a quem é concedido o dom da genialidade, é posto em confronto com o rival-vilão, que movido pela inveja, emprega o seu tempo com ardis para embargar-lhe o reconhecimento artístico. Em consequência dessas ações, dificuldades materiais atingem o herói, que eventualmente morre em estado de miséria. Apesar de trágico, o desfecho da trama satisfaz o senso de justiça do leitor: o vilão amarga o sofrimento com o desdém do público e o gradual esquecimento do seu trabalho, e o gênio é eternizado pela própria obra.

Nesse artigo, o último da série, demonstraremos que também faz parte da mitografia mauriciana a asserção de que o maior compositor colonial brasileiro, José Maurício Nunes Garcia, o padre-mestre da Capela Real de D. João VI, teria morrido em estado de extrema miséria em função das maquinações do rival Marcos Portugal, conforme tradição iniciada por seu primeiro biógrafo, o romântico-naturalista Visconde de Taunay (TAUNAY, 1930a).

Para se avaliar a situação financeira do padre José Maurício ao longo da carreira, e particularmente nos seus últimos anos, uma informação é essencial: a renda total que auferiu das instituições para as quais prestou serviços. Registros ou notícias de pagamentos ao padre-mestre são abundantes e bastante citados em artigos e monografias, mas até o momento, desconhecemos algum esforço no sentido de sistematiza-los.

AS FONTES DE RENDA DE JOSÉ MAURÍCIO

O nível de complexidade ao qual chegara a atividade musical no Rio de Janeiro em fins do século XVIII e início do XIX refletia o gosto pela música dos monarcas portugueses. O campo de trabalho para o músico profissional era amplo: além da Sé Catedral, requisitavam música o Senado da Câmara, para as festividades oficiais e ocasionais da cidade; as mais ricas das irmandades de leigos, para abrilhantar as festas dos santos padroeiros e para acompanhar as procissões, além de particulares. Os profissionais da música estavam reunidos na Irmandade de Santa Cecília, fundada no Rio de Janeiro em 1784, fora da qual não poderiam prestar seus serviços (CAVALCANTI, 2004: 180-181).

Sacerdote e músico, José Maurício nunca restringiu sua ação à Sé Catedral; teve, ao invés, duradouro relacionamento profissional com várias dessas instituições; e com a migração da corte para o Rio de Janeiro, tornar-se-ia um destacado funcionário da coroa, com direito às benesses próprias ao cargo que ocupava.

A seguir serão examinados os registros de rendimentos auferidos por José Maurício ao longo da carreira, discriminados por fonte pagadora.

Sé Catedral do Rio de Janeiro

Instalada desde 1737 na Igreja do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, a Sé Catedral foi a principal fonte de renda para José Maurício de 1783 até 1808, ano no qual foi transferida para a Igreja da Ordem Primeira de Nossa Senhora do Monte do Carmo e tornou-se a Capela Real.

Data de 1783 a composição mais antiga de José Maurício para a Sé – a antífona Tota Pulchra; ao que tudo indica, o jovem estabelecera uma parceria musical com o mestre de capela e subchantre João Lopes Ferreira, recebendo da Sé 30$000 anuais pelo trabalho (MATTOS, 1997: 74).

Essa situação perdurou até 1792, quando ele foi ordenado clérigo in maioribus (subdiácono). Não se sabe ao certo quanto passou a receber após a ordenação; dessa época existe apenas um registro de pagamento a Lopes Ferreira no último quartil (out./nov./dez.) de 1794 [1], no valor de 45$000, ou 180$000 anuais. Considerando ser esse o ordenado de um superior, podemos trata-lo como um teto e considerar o ordenado de José Maurício abaixo dessa quantia.

Dois dias antes da morte de Lopes Ferreira, ocorrida em 4 de julho em 1798, José Maurício foi nomeado mestre de capela. O termo de nomeação não discrimina a quantia que receberia no cargo; fato é que antes da chegada da corte, seu ordenado era de 600$000 anuais (MATTOS, 1997: 69). É possível que o ordenado inicial fosse menor em 1798, e aumentado gradualmente até 1808; seria inexplicável, em vista dos 180$000 anuais que recebia João Lopes Ferreira, que a côngrua anual destinada ao mestre de capela tivesse súbito aumento de mais de 300% [2].

Capela Real / Imperial

Oficializada pelo Alvará de 15 de junho de 1808 com força de Lei, que elevou à primazia de Capela Real a igreja da Ordem Primeira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, paróquia do Paço, nela incluindo os sacerdotes e os músicos da Sé Catedral. Confirmado mestre de música da Capela Real em 26 de novembro de 1808, José Maurício continuou a receber os mesmos 600$000 de ordenado que recebia da Sé (MATTOS, 1997: 69); até 1815, quando foi aumentado em 25$000 (MATTOS, 1997: 116).

Não encontramos respaldo documental para a argumentação de Cleofe Person de Mattos segundo a qual nos últimos anos os rendimentos de todos os integrantes da Capela Imperial teriam se reduzido a um quarto do valor: “Todas as categorias da igreja, desde o bispo (ganhava 2.000$000 e está reduzido a 500$000) ao varredor, ao sineiro, aos capelães, estão empenhados no mesmo movimento: não tinham meios para viver” (MATTOS, 1997: 170). Ao que tudo indica, Mattos confundiu-se, tomando as côngruas, remunerações pagas por um trimestre de trabalho – como era de praxe na Capela Real – como pagamentos anuais [3].

Tal foi a premissa que ela utilizou para concluir pelo estado de extrema miséria em que José Maurício viveu nos últimos anos: “Para o padre José Maurício, de todas as benesses concedidas por D. João VI, nada restava além do ordenado de mestre-de-capela – os 600$000 da velha Sé – agora reduzidos a 156$000. Atingia-o a miséria” (MATTOS, 1997: 171).

Não é o que registra o “Mapa da distribuição de contas da Catedral, Livros I (1812-1826) e II (1827-1842)[4], no acervo do Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro, que dá conta de que a côngrua de José Maurício continuou no valor de 156$250 [5] por quartel, ou 625$000 por ano até o segundo quartel de 1830, quando venceu 32$606, o equivalente a 19 dias de ordenado. O compositor faleceu em 18 de abril desse ano.

Irmandades Religiosas

Em fins do século XVIII havia na cidade do Rio de Janeiro cerca de setenta irmandades (CAVALCANTI, 2004: 182). As mais ricas tinham condições de encomendar a compositores músicas para as celebrações de seus padroeiros, e contratar regentes, músicos e cantores para apresenta-las.

A partir de 1798, José Maurício passou a atender as encomendas de música para as cerimônias da Irmandade de São Pedro, pelas quais recebeu até 1807, em média, 90$000 anuais (DINIZ, 1983: 49). Entre 1808 e 1811, apesar de ter que dedicar seu tempo quase totalmente à Capela Real e às encomendas do Senado da Câmara, ele não deixou de atender à irmandade, recebendo em média 92$000 anuais (DINIZ, 1983: 49-50). Substituído pelo compadre José do Carmo Torres Vedras em 1812 e 1813, é quase certo que em 1814 tenha voltado a compor – as Matinas do Apóstolo São Pedro, de 1814 – e a reger para a irmandade, recebendo 100$000 (DINIZ, 1983: 51) [6].

Outra irmandade com a qual manteve colaboração regular foi a da Ordem Terceira do Monte do Carmo.  Para ela foram destinadas algumas das composições mais importantes fora da Capela Real: a Sinfonia Fúnebre, de 1790; as Matinas da Assunção de Nossa Senhora, de 1811; O Requiem e o Ofício de 1816, para a cerimônia em memória da rainha D. Maria I.

Senado da Câmara

Instituição que equivalia à atual Câmara Municipal e, dentre outras atribuições, era responsável por custear as festas oficiais da cidade do Rio de Janeiro: São Sebastião (20 de janeiro); Anjo Custódio do Reino (terceiro domingo de julho), Corpus Christi (quinta-feira após o domingo da Santíssima Trindade), e o Te Deum solene em 31 de dezembro (CAVALCANTI, 2004: 181). O procedimento mais comum para contratar regentes, músicos e cantores para as celebrações era chamar à licitação ou arrematação pública os seus serviços por um ano das festas do calendário oficial. O licitante apresentava o “rol de músicos” acompanhados do orçamento de seus serviços, vencendo aquele que oferecesse o menor preço.

Por meio da inclusão no “rol de músicos” dos seus alunos da aula pública de música, que nada recebiam, José Maurício obteve o virtual monopólio da música nas festas do Senado por quase 10 anos, entre 1798 e 1807, recebendo em média oito dobras (102$400) por ano, nesse período.

A inexistência de pagamento aos músicos e o longo período com um único licitante vencedor deram margem à particular interpretação de Cleofe Person de Mattos a respeito da relação de trabalho entre José Maurício e o Senado: “Como mestre-de-capela cabia-lhe [a José Maurício] também responder perante o Senado da Câmara pela ‘música’ que acompanhava as funções anuais de acordo com o calendário litúrgico pré-estabelecido” (MATTOS, 1997: 47). Essa suposta obrigação, no entanto, não consta das atribuições do mestre-de-capela nos Estatutos do Cabido da Sé do Rio de Janeiro, de 1736 [7], nem condiz com um processo licitatório, no qual a participação é voluntária.

Para Mattos José Maurício receberia um ordenado fixo pelas arrematações (ibid.: 80), o que é uma contradição. O equívoco foi reproduzido pelo historiador Nireu Cavalcanti: “O Senado da Câmara também custeava o salário pago ao mestre-de-capela da Sé, único emprego público de categoria” (CAVALCANTI, 2004: 182).

Esse estado de coisas mudou após a migração da corte para o Rio de Janeiro. José Maurício já havia arrematado a música nas festividades de 1808 ao Senado da Câmara ao chegar a família real. Logo ele percebeu que a exigência de qualidade musical seria maior; a perspectiva de utilizar nas apresentações os alunos de música estava descartada. A contratação de músicos profissionais para as cerimônias reduziu-lhe significativamente o ganho, se não lhe causou prejuízo; o Senado da Câmara manteve-se irredutível para que honrasse o contrato e jamais lhe pagou o adicional que reivindicaria até 1810 [8]. Segundo Mattos, o padre-mestre teve que recorrer ao que recebia da Sé para pagar os músicos: “Seu salário não poderia sequer competir no momento em que as cerimônias importantes tornavam-se mais frequentes e esses músicos passam a ser os da Capela Real com ordenados maiores. Nessa ciranda, o budget do padre José Maurício não se sustentou” (MATTOS, 1997: 80).

Entre 1809 e 1811, José Maurício arrematou a música nas celebrações por 200$000, incluindo nesse valor o pagamento para si e para os músicos. Não estaria livre, no entanto, dos atrasos e protelações que ainda hoje caracterizam os contratos assimétricos com o poder público, uma das nossas heranças do período joanino. Para Mattos, nada lhe sobrou, o que é discutível: “O aumento da anuidade para 200$000 não é interpretado como aumento de ordenado para o compositor, e sim, como ele mesmo reconhece no ofício de 12.5, uma quantia que seria dividida proporcionalmente pelos músicos. Ao compositor e regente, restará apenas a satisfação de ouvir a sua obra na Capela Real, cumprindo a obrigação de ‘somente servir bem ao senado’. Nada mais” (MATTOS, 1997: 83). É improvável que tenha sido assim, pois o valor era suficiente para cobrir um dia de trabalho dos músicos, cujos vencimentos eram regulamentados pela Irmandade de Santa Cecília. Outro ponto a se observar é que as cerimônias custeadas pelo Senado da Câmara não ocorriam na Capela Real – que tinha seu próprio orçamento –, e sim em outras igrejas da cidade.

A partir de 1812, José Maurício terá um concorrente de peso nas arrematações pelas cerimônias do Senado da Câmara: Marcos Portugal, com os músicos da Real Câmara. As arrematações dos serviços de música para as cerimônias do Senado da Câmara não serão mais tão frequentes. Há registro de mais três ocasiões em que teve sucesso nesse empreendimento; não dispomos de informações sobre a quantia recebida pelos serviços nesses eventos:

  • Em 29 de janeiro de 1812, para a festa do oitavo dia após São Sebastião, na velha Sé do Morro do Castelo. Segundo Mattos: “Cientificado desde o ano anterior de que não se renovaria seu trabalho com o Senado, surpreende a incumbência que lhe é dada no início de 1812: responder pela música do oitavário da festa de São Sebastião na velha Sé do morro de São Januário” (MATTOS, 1997: 102). Mais lógico seria admitir a “surpreendente incumbência” como resultado de um processo licitatório.
  • Em 1816, arrematou a musica para a missa em ação de graças pela elevação do Brasil a Reino Unido a Portugal e Algarves. Mattos sugere ter sido o padre-mestre seria objeto passivo de manipulação no cumprimento das suas obrigações: “O caráter altamente nacionalista da comemoração – promovida pelo Senado da Câmara – bastaria para explicar que recaísse no padre-mestre, brasileiro nato, além da regência, também a autoria da obra executada. O que até agora ainda não passou de especulação” (MATTOS, 1997: 118).
  • O último registro de arrematação é de 12 de maio de 1819, desta vez em parceria com Marcos Portugal. Trata-se da música para a missa em ação de graças pelo nascimento da primogênita de D. Pedro e D. Leopoldina, D. Maria da Glória, princesa da Beira, futura rainha de Portugal. A cerimônia foi realizada na igreja de São Francisco de Paula. Marcos Portugal foi o autor da composição e José Maurício o regente, com os músicos da Real Câmara e Capela [9].

Assumida a constância do caráter licitatório nas encomendas de serviços musicais pelo Senado da Câmara, não se pode considerar José Maurício apenas um obediente e passivo cumpridor de obrigações. Foi, ao contrário, um empreendedor que soube utilizar como poucos essa modalidade de mecenato para abrilhantar a cultura da sua cidade, além de proporcionar prática musical aos discípulos e obter rendimento para a função de professor público de música, que exercia sem remuneração.

Real Bolsinho

Em 17 de julho de 1808, foi concedido a José Maurício, como servidor da coroa portuguesa, o benefício à “ração de criado particular”, que consistia na retirada de um valor fixo mensal em alimentos na Real Ucharia. Pouco tempo depois, “a requerimento do músico, à vista dos embaraços que sofria na Ucharia dos empregados do paço” (TAUNAY, 1930a: 95), a ração foi convertida em dinheiro ao valor de 32$000 mensais, ou 384$000 anuais. Somados aos 600$000 recebidos pela Capela Real, a concessão fez com que os rendimentos fixos anuais do padre-mestre se aproximassem de 1:000$000 (um conto de réis), valor considerável para a época.

A partir de 1821, as dificuldades financeiras em função do esvaziamento dos cofres públicos com o regresso da corte a Lisboa e as indenizações no processo de independência do Brasil custaram a todos os músicos da Capela Real o corte nos rendimentos extras [10]. José Maurício teve cortada a referida “ração de criado particular”, que já lhe havia sido aumentada para “outros seiscentos mil réis [600$000] anuais” (MATTOS, 1997: 159), ou 50$000 mensais, conforme a carta-documento que dirigira a D. Pedro I pedindo-lhe a restituição do benefício. Antes de lhe ser cortada a “ração”, ele recebia da Coroa, portanto, 1:225$000; rendimento comparável somente ao do mestre de música de SS.AA.RR, Marcos Portugal.

A perda lhe foi considerável e causou ressentimento [11], já que a “ração” a que Marcos Portugal fazia jus lhe fora apenas reduzida para 305$000 (MATTOS, 1997: 153), e a partir de janeiro de 1825, todos os rendimentos extras que o compositor recebia sob D. João lhe foram restabelecidos por outros títulos (MARQUES, 2012: 65-66, n. 190).

Ordem do Hábito de Cristo

O hábito de Cavaleiro da Ordem de Cristo era uma honraria nobilitante, que indicava ser o portador leal e honrado servidor da monarquia. Acompanhava-lhe um pequeno rendimento monetário (tença) e privilégios jurídicos e fiscais (KRAUSE, 2008: 1). José Maurício recebeu a mercê em 1809, com tença efetiva de 12$000 mensais, ou 144$000 anuais. Há registro de dois pagamentos da tença: o primeiro, com data de 7 de julho de 1809, no valor de 120$000 – referente ao período de março a dezembro de 1809 – [12], e o segundo, com data de 15 de fevereiro de 1810, no valor de 9$000, referente a três quartos da tença de fevereiro desse ano [13]. Arriscamo-nos a concluir que o pagamento lhe foi mantido até 1828, ano em que transferiu a comenda ao filho, o Dr. Garcia Jr. De qualquer forma, permanecia na família.

Rendimentos ocasionais e não especificados

  • 1783 a 1792: desde os doze anos de idade complementava a renda doméstica lecionando música em aulas particulares; não há registro da quantia cobrada aos alunos.
  • 1792 a 1797: já atendia a eventuais encomendas, conforme demonstra o espólio de Salvador José de Almeida e Faria, falecido em 1799 (CAVALCANTI, 2004: 416), no qual constam algumas de suas composições e o respectivo preço [14].
  • ? a ?: recebia também como pregador entre 5$000 e 10$000 por sermão (ANDRADE, 1967, v2: 172), dos quais há registro de sete [15].
  • 1816: Nas folhas de rosto do Requiem e do Ofício de 1816, compostos para a cerimônia da Ordem Terceira do Monte do Carmo em memória da rainha D. Maria I, constam valores que podem ser pagamentos ao compositor: 10$000 e 16$000, respectivamente (MATTOS, 1997: 124).
  • 1818: recebeu dos irmãos da Ordem Terceira do Monte do Carmo a quantia de 50$800 para reger a música nas duas festas da Ordem, em julho e outubro. (MATTOS, 1997: 139-140).
  • 1820-1821: o grande número de composições destinadas às irmandades nesse período faz-nos supor também terem sido significativos os rendimentos provenientes de encomendas.

CONSOLIDAÇÃO

O quadro 1 apresenta a evolução dos rendimentos médios anuais do padre José Maurício em diversos períodos da carreira, detalhados por fonte pagadora, omitidos os rendimentos ocasionais.

FONTE PAGADORA1783 a 17921792 a 17971798 a 18071808 a 18091810 a 18111812 a 181318141815 a 18191820 a 18211822 a 1830
Sé do Rio de Janeiro30$180$*600$
Capela Real / Imperial600$600$600$600$625$625$625$
Real Bolsinho384$384$384$384$384$600$
Irmandade de São Pedro90$92$92$100$
Senado da Câmara102$200$200$
Ordem do Hábito de Cristo144$144$144$144$144$144$
TOTAL (em mil-réis)30$180$*792$1:276$1:420$1:128$1:228$1:153$1:369$769$

Quadro 1 – Rendimentos médios anuais do padre José Maurício em diversos períodos da carreira (*: estimativa).

O gráfico 1 a seguir reflete os totais do quadro 1:

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Gráfico 1 – Rendimentos anuais totais auferidos pelo padre José Maurício ao longo da carreira (mil-réis).

O gráfico demonstra que a perda salarial de José Maurício, a partir da chegada de Marcos Portugal, em 1811, corresponde a aproximadamente 20% da renda total, e se resume ao que recebia pelas encomendas da Irmandade de São Pedro e do Senado da Câmara, este que, aliás, não primava pela pontualidade em honrar os pagamentos aos diretores de música que, por azar, as arrematavam. A atuação de Marcos Portugal como compositor de SS. AA. RR. e a nomeação em 1812 do irmão dele, Simão Portugal, para substituí-lo na função de organista, que ocupava sem rendimento, deram-lhe o tempo livre que necessitava para compensar essa perda com o atendimento a encomendas das irmandades. José Maurício tornou-se, na linguagem atual, um compositor “free-lance”.

Seria a perda agravada pela inflação? Na época, a maior parte dos meios de pagamento eram moedas que valiam o peso do metal no qual eram cunhadas. Para que desvalorizassem, o Real Erário haveria de refazer a cunhagem com acréscimo de metais menos valiosos [16], processo, aliás, longo e trabalhoso, que ocorria ocasionalmente. A refundição ocorreu em duas ocasiões no período joanino, 1814 e 1821. Na primeira, o real português perdeu 20% do valor em relação à libra inglesa, e a cotação passou de 4$000 a 5$000 por libra. O aumento na “ração de criado particular” teria compensado a José Maurício a perda no poder de compra com essa desvalorização. Não encontramos estimativa para a desvalorização com a segunda refundição; no entanto podemos concluir com razoável certeza que a suspensão da “ração” após 1821 fez com que os rendimentos do padre-mestre – reduzidos nominalmente à metade – tivessem perda real consideravelmente maior.

CONVERSÃO A VALORES PRESENTES

Para uma avaliação, ainda que aproximada, do poder relativo de compra desses rendimentos é necessário convertê-los em reais atuais (R$), o que é complicado diante das sucessivas desvalorizações e mudanças de padrão monetário brasileiro, principalmente ao longo do século XX. O jornalista Laurentino Gomes sugeriu utilizar como parâmetro a moeda de troca internacional da época, a libra esterlina inglesa (£) (GOMES, 2007: 311). Os ingleses há séculos registram a desvalorização da libra por meio do índice do custo de vida (RPI), o que permite comparar o poder de compra do real do século XIX com o do real brasileiro atual por meio da conversão das duas moedas em libras [17].

De acordo com a variação do RPI, £ 1, em 1821, tinha o poder de compra equivalente a £ 76,14 em 2015. Para calcular o fator de conversão do mil-réis de 1821 para o real de 2015, basta dividir esse fator por 5 (à cotação de 5$000 / £ em 1821) e multiplicá-lo por 5,1387 (cotação média de R$ / £ em 2015). Obtemos assim o fator de conversão 78,25, que significa que 1$000 tinham, em 1821, o poder de compra aproximado de R$ 78,25, em 2015  [18].

O gráfico 2 abaixo reflete a conversão do quadro 1 em reais de 2015 (valores aproximados):

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Gráfico 2 – Rendimentos anuais auferidos pelo padre José Maurício ao longo da carreira em reais de 2015.

A remuneração inicial de 30$000 ou R$ 2.347,50 anuais é um pouco menor que a de um atual estagiário ou aprendiz. A remuneração máxima ocorreu no período 1810-1811, de 1:420$000 ou R$ 111.115,00, equivalente a R$ 9.259,58 mensais. Particularmente ao período 1822-1830, os 769$000 anuais que o padre-mestre em média recebia, correspondentes à soma do rendimento da Capela Real e a tença de cavaleiro da Ordem do Hábito de Cristo, equivaliam a R$ 60.174,25 em reais de 2015, ou R$ 5.014,52 mensais. Uma quantia modesta, mas suficiente para atender às necessidades e proporcionar vida digna a um sacerdote.

Seria suficiente, fosse solitária a vida do padre-mestre. Não foi o caso: apesar dos votos de celibato, José Maurício teve com Severiana Rosa de Castro, uma mestiça livre nascida em 1789, um relacionamento marital, do qual nasceram cinco filhos. Teria ele, portanto, especial motivação para buscar receitas alternativas para compensar as perdas nos rendimentos fixos.

CONCLUSÃO

Mesmo observando que bens similares são mais baratos hoje por conta da melhoria na produtividade em dois séculos, a conversão dos pagamentos a José Maurício para moeda corrente permite outro exercício por aproximação: a utilização de critérios contemporâneos de pobreza familiar para avaliar o padrão de vida que teria no início do século XIX.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estabelece como linha de pobreza a renda mínima mensal de ¼ do salário mínimo per capita (R$ 197,00 por mês em 2015), o que, considerando uma família com oito integrantes, equivale a R$ 1.576,00 mensais. Nos últimos anos de vida, apesar de ter os rendimentos fixos reduzidos à metade, sua renda mensal ainda era bem superior a esse patamar. Com isso podemos concluir com razoável chance de acerto que José Maurício enfrentou dificuldades, mas estava longe da pobreza extrema ao final da vida. E que a maior parte dessas dificuldades foram originadas pelos próprios atos e decisões.

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NOTAS

[1] Acervo Musical do Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro, documento CRI-SD-Cx109-UD01. Disponível em: http://www.acmerj.com.br/CMRJ_CRI_SD_Cx109_UD01.htm. Acesso: 12/03/2016.

[2] A questão fica em aberto pela falta de registro documental dos pagamentos ao padre-mestre anteriores a 1822.

[3] É de António Jorge Marques o primeiro registro dessa discrepância: “[…] ao contrário do que afirmam Cleofe Person de Mattos e André Cardoso, não houve qualquer redução nos salários da Capela Imperial. Esse facto parece poder também ser aplicado aos ordenados da maioria, se não a todos os cantores, instrumentistas e copistas contratados anteriormente para a Capela Real e Real Câmara”. (MARQUES, 2012a: 69; n. 202).

[4] Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro (RJ), códices CRI-SD-Cx109-UD02: Livro I (1812-1826) e CRI-SD-Cx110-UD01: Livro II (1827-1842). Fundo Capela Real e Imperial, Seção Documentação Administrativa. f. 144v. Disponível em: http://www.acmerj.com.br/CMRJ_CRI_SD_Cx109_UD02.htm. Acesso: 12/03/2016. São os seguintes os registros de pagamentos a José Maurício:

Mapa da distribuição de contas da Catedral, Livro I (1812-1826)
AnoQuartelFolhaRegistroValor
18221138vO R.do José Maurício, Mestre de Capela (*)
(*) Este padre paga de quitação ao escrivão 80rs.
156$250
2141vO R.do José Maurício, Me da Capela156$250
3144vO Rdo. José Maurício (b)

(b) O Rdo. José Maurício recebeu do Prioste, por Ordem de S. Majestade Imperial, participada ao Inspetor, deste ao Tesoureiro, e paga em cada hum quartel, ao Escrivão, de quitação 80rs.

156$250
4147vO R.do J.e Maurício Nunes Garcia, M.e da Capela156$250
18231150vO R.do J.e Maurício Nunes Garcia, M.e da Capela156$170
2153vO R.do J.e Maurício, M.e da Capela156$[170]
3156vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
4159vO Rdo Garcia, M.e da Capela156$170
18241162vO Rdo Garcia, M.e da Capela156$170
2165vO Rdo Garcia, M.e da Capela156$170
3168vO Rdo Garcia, M.e da Capela156$170
4171vO Rdo Garcia, M e da Capela156$170
18251174vO Rdo Garcia, M.e da Capela156$170
2177vO Rdo Garcia, M.e da Capela156$170
3180vO Rdo Garcia, M.e da Capela156$170
4183vO Rdo Garcia, Me da Capela156$170
18261186vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
2189vO Rdo Garcia, M.e da Capela156$170
3192vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
4195vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
Mapa da distribuição de contas da Catedral, Livro II (1827-1842)
AnoQuartelFolhaRegistroValor
18271002vO R.do José Maurício Nunes Garcia, M.e da Capela156$170
2005vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
3008vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
4011vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
18281014vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
2017vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
3020vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
4023vO Rdo Garcia, M.e da Capela156$170
18291026vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
2029vO R.do Garcia, Me da Capela156$170
3032vO R.do Garcia, M.e da Capela156$170
4035vO Rdo Garcia, Me da Capela156$170
18301038vO Rdo Garcia, Mestre da Capela156$170
2041vO R.do Garcia, Mestre da Capela faleceu no dia 18 de abril, e venceu até o dia 19, em que foi sepultado. 19 dias32$606

 

[5] Dessa quantia eram descontados 80$ para o escrivão.

[6] São os seguintes os registros de pagamentos a José Maurício feitos pela Irmandade de S. Pedro (DINIZ, 1983: 41-53):

 

AnoRegistroValor
1799Ao P.M. da Capela José Maurício da Música das Vésperas e dia do Santo Patriarca48$000
1800Ao Pe. Me. da Capela José Maurício da Música das Vésperas e dia do Santo Patriarca48$000
Ao Mesmo das Novenas35$200
1801Ao Me. da Capela o Pe. José Maurício pelas Novenas e Te Deum da Reeleição do Provedor40$960
Ao dito pela Música de todo o dia do Sto. Patriarca48$000
1802Ao Mestre da Capela o Padre José Maurício pelas Novenas e Tedeu (sic) do novo Provedor40$960
Ao dito pela Música do dia do Santo48$000
1803Ao Me. da Capela de toda a Música88$960
1804Ao Mestre de Capela José Maurício88$960
1804-5O importe da MA?sica que pagou ao R.do José Maurício Nunes76$800
1805-6Ao José Maurício / Da Música da Festa do N. S. Patriarca, e também das Novenas76$800
Da Música das 5 Domingas da Quaresma8$000
Da Música do dia do Ofício geral da Irmandade6$400
Da música da Semana Santa3$400
1806-7Músicas / Ao José Maurício Nunes da Música da Festa do Santo Patriarca, 2 Te Deum e Novenas76$800
Ao dito das Domingas e Quaresma8$000
Do dia do Ofício geral da Irmandade6$400
MA?sica de Canto chão da 5ª Feira Santa8$000
1807-8MA?sicas / Ao R.do José Maurício Nunes da Festa do Santo Patriarca, 2 Te Deum e Novenas76$800
Ao dito das Domingas e Quaresma8$000
Ao dito da Quinta-Feira Santa8$000
Do Ofício geral da Irmandade6$400
1808-9Músicas / Ao R.do José Maurício Nunes da Festa do Santo Patriarca, 2 Te Deum e Novenas84$480
Ao dito das Domingas da Quaresma8$000
1809-10Músicas / Ao R.do Pe. Me. José Maurício Nunes Garcês da Festa do Sto. Patriarca, dous Te Deum e Novena92$800
Ao dito das Domingas8$000
Da Festa de Senhora da Hora16$000
1810-11Música / Ao R. Je. Maurício Nunes de Novena e Festa do S. Patriarca92$800

 

[7]Será obrigado o Mestre de Capela a cantar todas as Vésperas de dias clássicos de preceito, e todas as missas solenes de domingos e dias santos de preceito e nas mais solenidades que determinar o Prelado ou o Cabido”. Estatutos do Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro 1736. In Acervo Musical do Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro. Documento CRI-SD100. Disponível em: http://www.acmerj.com.br/CMRJ_CRI_SD_Cx100_UD01.htm. Acesso: 10/03/2016.

[8]Diz o pe. José Maurício Nunes (mestre de música da Real Capela desta cidade) que está encarregado de prontificar as músicas de vozes e instrumentos para todas as festividades que este Senado é obrigado a fazer, e para as quais recebe a quantia de 200$000 que se distribuem proporcionalmente pelos músicos, se faz preciso ao suplicante que v. Sas. lhes mandem agora satisfazer toda a referida quantia de 200$000, não só para pagar o que se está devendo aos músicos desde o princípio do corrente ano, como para ajustar por preços mais cômodos adiantando alguma parcela aos mesmos músicos que hão de servir na festividade do Corpo de Deus, em cujos termos p. a v. Sas. seja servido atender à justa representação do suplicante mandando-lhe pagar os 200$000 como requer; sendo nessa parte o interesse do suplicante somente servir bem ao Senado, de quem espera // R.M.” (MATTOS, 1997: 82).

[9]Havendo Sua Majestade […] destinado o dia 12 do corrente para as devidas ações de graças, pelo feliz […] nascimento da Sereníssima Senhora Princesa da Beira […], S.M. Dignou Transportar-se, […], acompanhado de SS.AA. o Príncipe e a Princesa, e dos Sereníssimos Senhores Infantes D. MIGUEL e D. SEBASTIÃO, ao elegante e suntuoso templo de S. Francisco de Paula […]. Celebrou em Pontifical o Illustríssimo Monsenhor Roque da Silva Moreira. A música foi de composição do celebre Marcos Portugal, executada por muitos Músicos da Real Câmara e Capela, e dirigida pelo Mestre da mesma, o Padre José Maurício Nunes Garcia”. In Grandes Compositores da Música Universal n. 46 – José Maurício. São Paulo: Abril Cultural, 1969. p. 8.

[10] “Substanciosa redução haviam sofrido eles nos vencimentos. […] Música no culto não era coisa que se não pudesse dispensar. Vá lá que se conservasse, ali, a tradição das missas cantadas. Mas não à custa de novas sangrias nos cofres públicos […]”. (ANDRADE, 1967, v. …, …).

[11]Se não provo com isto a terrível impressão q’em mim causara o fato de vê-lo expirar em completa desgraça, cercado de desgostos e privações, e desatendido até nos seus direitos, com toda a desigualdade, pois q’a Marcos Portugal se continuar pelo Bolsinho a m[es]ma ração de criado particular q’a meu Pai se tirara, q[uan]do toda a sua vida tinha já gasto em bem servir ao estado” (GARCIA JR., 1983 [1861]: 21).

[12] Acervo Cleofe Person de Mattos, documento 02-06-04h. Disponível em: http://www.acpm.com.br/CPM_02-06-04h.htm. Acesso: 31/03/2016.

[13] Acervo Cleofe Person de Mattos, documento 02-06-04j. Disponível em: http://www.acpm.com.br/CPM_02-06-04j.htm. Acesso: 31/03/2016.

[14] Credo (0$200); Domine adjuvandum (0$400); Domine do príncipe de Santa Cruz (0$200); Invitatório (0$800); uma Missa pequena (0$400); um Ofício de defunto (1$600); Cinco quartetos (cinco) e um trito (0$600); salmo Dixit (0$600); salmo Magnificat (0$100); salmo de Jeremias Dixit (0$600); Te Deum (2$560); Te Deum de alternativa, a quatro (0$600); onze tritos de Nascé  (1$100).

[15] Seu filho o Dr. José Maurício Jr. inscreveu os títulos numa alegoria que ornava a folha de rosto das Mauricinas. São eles: “das Dores”; “de Santa Cecília; sobre a Penitência”; “dos Santos Inocentes”; “de Nossa Senhora do Amparo”; “das Lágrimas”; e “do Pentecostes”.  GARCIA Jr., José Maurício Nunes. Mauricinas. Coleção de Canções e Valsas. Dedicada à Memória do Pe. Me. José Maurício Nunes Garcia e ornada com o seu retrato. Desenhado pelo Doutor J. M. N. Garcia. Rio de Janeiro: Tide Paula Brito, 22.9.1849.

[16] As “notas de banco”, emitidas a partir de 1810 pelo Banco do Brasil, foram pouco usadas na primeira metade do século XIX, e somente teriam o uso generalizado após a proclamação da República.

[17] Fonte: MeasuringWorth.com. Acesso: 11/10/2014.

[18] Segue a aplicação do fator de conversão 78,25 ao preço de alguns itens em mil-réis de 1821 para reais de 2015, para verificação da acurácia do procedimento:

ITEMANOPREÇO EM RÉIS DE 1821 PREÇO EM R$ DE 2015
Arroba (15 kg) de batata inglesa18200$40031,30
Arroba (15 kg) de talharim branco18204$500352,13
Livro: Le Contrat social, de Jean-Jacques Rousseau18214$000313,00
Exemplar do jornal Diário do Rio de Janeiro182140$3,13
Morada de casas térreas18211:000$00078.250,00
Salário anual de professor de primeiras letras1823240$00018.780,00

 

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Antônio Campos
Bacharel em Informática, especialista em Gerência de Projetos. Coordenou os projetos para disponibilização na Internet do Acervo do Cabido do Rio de Janeiro e do Acervo Cleofe Person de Mattos. Corista do Madrigal Ars Plena e da Cia. Bachiana Brasileira. Elaborou a primeira edição moderna do Requiem, de Marcos Portugal, gravado em CD.