Escrito por em 8 set 2016 nas áreas Biblioteca, Movimento

Uma análise dos mitos na biografia do maior compositor colonial brasileiro – Parte IV.

Além das fórmulas a que os autores românticos recorriam para elaborar as biografias dos artistas discutidas em artigos anteriores desta série, como as de autodidatismo e do atrito entre rivais, também foi recorrente a de caracterizar o biografado como alguém à frente do seu tempo, e, por isso mesmo, hostilizado por uma sociedade incapaz de compreender sua arte. Esse ingrediente, além de valorizar o legado do artista, potencializava a formação de paladinos pela preservação desse legado.

Na adaptação dessa fórmula aos trópicos e, em particular, à biografia do compositor mulato José Maurício Nunes Garcia, o padre-mestre da Capela Real de D. João VI, escrita em fins do século XIX pelo Visconde de Taunay, foi fácil eleger os motivos para a hostilidade da corte joanina em relação ao biografado: o processo de construção da nacionalidade – a suposta oposição entre brasileiros e portugueses – e o preconceito de cor. Estes, segundo Taunay, deram causa a “veementes crises, que o gênio calmo de José Maurício, sua índole meiga e superior, sua assiduidade no trabalho e os seus desejos de agradar não podiam, já não dizemos vencer e derrotar, mas pelo menos atenuar” (TAUNAY, 1930a: 16).

O presente artigo pretende demonstrar que esse mito, o do “humilde resignado”, carece de historicidade. Ele apenas reflete a visão das elites da sociedade brasileira de fins do século XIX sobre a questão nacional e racial, a qual o autor compartilhava.

O artigo é organizado em pequenos capítulos, que discorrem sobre eventos da biografia de José Maurício, sem ordem preestabelecida. O que esses eventos têm em comum é que, até o presente, não foram analisados em função das leis e costumes da época em que ocorreram; sua interpretação consagrada reflete apenas o ethos da sociedade e da época em que viveram estudiosos e biógrafos.

Para o exame desses eventos no âmbito legal, utilizamos as “Ordenações Filipinas” (ALMEIDA, 1870) – o código legal vigente, as “Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia” (VIDE, 1853 [1719]), o código eclesiástico, e estudos históricos sobre os costumes da época. Adicionalmente, textos como a “Nicrologia” de Januário da Cunha Barbosa (BARBOSA, 1983 [1830]); os “Apontamentos Sobre a Vida e a Obra do Padre José Maurício Nunes Garcia” de Manuel de Araújo Porto-Alegre (PORTO-ALEGRE, 1983 [1856]) e os “Apontamentos Biográficos” do Dr. José Maurício Nunes Garcia Jr. (GARCIA JR., 1983 [1861]) – que fornece um precioso relato sobre as duas últimas décadas de vida do pai –, receberam prioridade sobre todas as biografias mauricianas subsequentes


A REVISÃO DA IMAGEM PATERNA

A figura 1 representa a máscara mortuária do padre José Maurício Nunes Garcia, preparada por Manuel de Araújo Porto-Alegre. O formato do nariz, um pouco vergado sob o peso do molde em gesso, e os olhos grandes e salientes denotam feições nitidamente negroides. Sobre a figura acrescentamos um sistema de linhas-guias, que registram a distância entre as principais características faciais.

A figura 2 é um retrato a óleo de José Maurício pintado pelo filho, o Dr. José Maurício Nunes Garcia Jr., ao qual aplicamos, com uma pequena rotação para encaixá-lo no retrato, o mesmo sistema de linhas-guias. O procedimento revela algumas deficiências, como o afilamento excessivo do rosto e do nariz; o “lobinho” (quisto sebáceo) que se desenvolveu no lado direito da testa do padre-mestre fora de posição e os pequenos olhos, que destoam da aparência na máscara mortuária. Todos esses erros constituem evidências de o filho ter pintado o retrato de memória, depois da morte do pai.

A figura 3 representa o Dr. Garcia Jr., a partir de uma fotografia da época, invertida no sentido horizontal. A inversão fez com que o rosto ficasse quase na mesma posição em que foi retratada a máscara mortuária do pai, o que nos permitiu aplicar a ela o mesmo sistema de linhas-guias aplicado à figura 1. A superposição quase perfeita às características faciais do Dr. Garcia Jr. demonstra a semelhança de feições entre ele e José Maurício. Assim, assumindo que o retrato fosse pintado após a morte do pai, é também plausível que o Dr. Garcia Jr. tivesse utilizado as próprias feições como modelo; obviamente, com adaptações, já que no quadro a cor da pele do retratado é bem mais clara que a do autor.

A partir dessas considerações, sustentamos que todos os erros cometidos pelo Dr. Garcia Jr., no quadro e nos demais retratos que fez do pai, posteriormente vertidos para litografias, foram intencionais, e demonstram uma canhestra tentativa de branqueamento da imagem paterna para a posteridade.

Uma possível justificativa para essa decisão do Dr. Garcia Jr. é encontrada nos seus Apontamentos Biográficos, nos quais relata ter aderido ao mulatismo (GARCIA Jr., 1983 [1861]: 21), conceito que não deve ser confundido com o de mulatismo musical, formulado pelo musicólogo Francisco Curt Lange [1] na década de 1940. O mulatismo em voga no século XIX, subproduto do romantismo, tinha implicações cruéis: admitir que o negro fosse capaz de produzir cultura significava conferir-lhe humanidade e denunciar, portanto, a escravidão como anti-humana. Para evitar a crítica social, os defensores do conceito sustentavam que apenas a herança genética dos ascendentes brancos capacitava o mestiço a gerar cultura, e admitiam como desejável, portanto, o branqueamento progressivo da raça. As palavras de Taunay a seguir podem soar terríveis aos brasileiros do século XXI, mas na época em que foram escritas faziam sentido tanto à elite branca como a parte dos autodeclarados “pardos”, na qual se incluía o Dr. Garcia Jr.:

Incontestável e muitas vezes comprovada é a vocação peculiar aos homens de cor preta e principalmente mestiços para as artes liberais. Há entretanto, […] importante ressalva a fazer-se – aprendem com efeito depressa, suscitam grandes esperanças aos professores, parecem dever percorrer brilhante e rápida carreira, mas, chegados a certo ponto, param, estacam e retrogradam por modo sensível, de maneira que existências que prometem cintilantes fulgores se atufam, as mais das vezes, na obscuridade e no esquecimento. / Raros, raríssimos preenchem como José Maurício, os destinos que se afiguravam seguros aos admiradores das primeiras manifestações artísticas. […] Já foi, aliás, confirmada pelos estudos de etnologia comparada a observação que acabamos de fazer. Com raríssimas exceções, a educação simultânea e em tudo idêntica de duas crianças inteligentes vivas, bem dispostas física e moralmente, uma, porém branca, outra preta ou mestiça demonstra a princípio maior rapidez de progresso por parte desta, depois certa parada nos tempos da puberdade e, passada esta muito maior adiantamento da outra, que afinal se distancia longe e definitivamente” (TAUNAY, 1930a: 56-57).

É, portanto, compreensível a atitude do Dr. Garcia Jr., que apesar de médico de renome, tinha a capacidade profissional questionada a priori pelo preconceito racial da época. Mas tal foi o exagero que se José Maurício tivesse as feições conforme retratadas, não seria considerado mestiço, já que a herança genética mourisca assemelha muitos dos portugueses ao biótipo. A descrição que lhe faz Manuel de Araújo Porto-Alegre em seus Apontamentos sobre a Vida e a Obra do Padre José Maurício Nunes Garcia contradiz o retrato: “Tinha nos lábios, na forma do nariz, e na saliência dos pômulos os caracteres da raça mista” (PORTO-ALEGRE, [1856], 1983: 29).

Somente após a abolição da escravidão e o advento da república, a contribuição da raça negra à cultura nacional seria reconhecida. A negritude na representação mauriciana foi resgatada e valorizada, conforme, por exemplo, a figura 4, do desenhista José Lanzellotti, realizada nos anos 1970, que preserva atributos negroides como os cabelos ondulados e o nariz proeminente.

As considerações acima indicam também que as relações raciais na sociedade brasileira durante os períodos colonial e imperial extrapolavam o estereótipo de uma elite branca, escravocrata e opressora, e uma maioria negra, escravizada e oprimida. No meio se situavam os autodenominados “pardos” – os mestiços livres – que em regra dispensavam à maioria negra as mesmas demonstrações de superioridade que recebiam das elites brancas; sendo os de maiores posses também proprietários de escravos. Os preconceitos raciais também motivavam a segregação de brancos, pardos e negros em importantes instituições, como as irmandades religiosas e os regimentos militares.

Particularmente ao Rio de Janeiro em fins do século XVIII e no início do XIX, ao tratar de negócios, o pensamento da elite administrativa era, de modo geral, bastante pragmático. As manifestações de preconceito ocorriam em razão inversa da necessidade que tinham dos serviços oferecidos pela população mestiça, dentre a qual se destacavam músicos de valor, sempre chamados a atuar nas numerosas cerimônias do calendário litúrgico e nas festas públicas profanas: “Era tão grande o domínio que adquiriram em matéria musical que chegaram a impor-se como intérpretes e compositores, e por essa razão receberam o respeito de todos” (CAVALCANTI, 2004: 180-181).

Para a aristocracia portuguesa emigrada a partir de 1808, também não era novidade a convivência com a população negra e mestiça, já que no reino a escravidão florescera, em menor escala, até a promulgação das leis pombalinas de restrição ao tráfico negreiro, iniciadas com o alvará em forma de lei de 1751 e do ventre livre, de 1773 (RIJO, –: 11).

O REGISTRO DE NASCIMENTO DA MÃE

Em 1947, Francisco Curt Lange encontrou os arquivos da paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, na localidade de Cachoeira do Campo, MG, o seguinte registro de batismo de uma criança de nome Vitória, filha de dois escravos, Caetano e Maria:

Aos dezesseis de novembro de mil e setecentos e trinta e oito, na Capela de São Gonçalo do Monte, batizou o reverendo José Gomes solenemente a inocente Vitória, filha de Caetano e Maria. Foram padrinhos: Miguel e Tereza. Pe. Vigário Manuel Caetano Xavier[2]

(LANGE, 1981: 93).

Lange tornou pública a descoberta somente em 1981, em artigo na revista Barroco, n. 11, no qual sustentava ser o registro de nascimento de Vitória Maria da Cruz, mãe de José Maurício.

Em 1997, em seu José Maurício Nunes Garcia – Biografia, Cleofe Person de Mattos pretendeu desqualificar a autenticidade do documento com base no referido retrato pintado pelo Dr. Garcia Jr.:

Aceitar dois escravos na ascendência próxima (avó) do padre José Maurício seria não reconhecer o iniludível contingente de raça branca no compositor. […] Basta conferir os traços relativamente finos do retrato pintado pelo filho, dr. Nunes Garcia (óleo na Escola de Música da UFRJ) e da máscara mortuária moldada por Manuel de Araújo Porto-Alegre, hoje no Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro” (MATTOS, 1997: 205-206).

Conforme vimos, há margem para dúvida sobre a fidelidade da representação das feições de José Maurício no retrato, e, portanto, é arriscado utilizá-lo como argumento para outras conclusões. Mattos estava correta em duvidar do registro, mas o real motivo lhe passou despercebido: tratava-se de outra criança com o mesmo nome, já que, segundo cópia da certidão de batismo no processo de genere de José Maurício, a avó materna se chamava Joana Gonçalves.

A ORDENAÇÃO

Herança linguística do racismo velado e hoje politicamente incorreta, a expressão: “negro de alma branca” era tida, nos períodos colonial e imperial, como um elogio aos negros ou mestiços que bem assimilassem o discurso e os padrões de comportamento hegemônicos na sociedade brasileira – ou seja, característicos da população branca (RAMINELLI, 2012).

Apesar do preconceito generalizado, os raros negros ou mestiços livres que lograssem formação acadêmica suficiente podiam se candidatar a cargos de importância, bastando que encaminhassem às autoridades competentes uma “petição de dispensa do defeito de cor”. Nela o candidato “pedia” que desconsiderassem a cor e a origem, em contrapartida pela aplicação nos estudos, pela vida regrada nos bons costumes e por ser bom praticante da religião católica.

Assim fez José Maurício em 10 de junho de 1791, em petição à Câmara Eclesiástica do Bispado do Rio de Janeiro para prosseguir com o processo de ordenação sacerdotal. Obedecia ele, portanto, a um costume já secular. Como o conceito que os concidadãos lhe tinham desde muito jovem era elevado, o “defeito” foi requalificado como “irregularidade”. A sentença assinada pelo Deão da Sé, com data de 14 de junho de 1791, demonstra a orientação prática da instituição: “como este tem vivido com muita cristandade e […] é bem morigerado e com muita vocação desde os tenros anos, para o Estado Eclesiástico e com muita aplicação aos estudos de Latinidade, Retórica e Filosofia, que por todas essas boas qualidades virá a ser muito útil à Igreja” (MATTOS, 1997: 43).

Em 3 de março de 1792, vencida a última etapa dos exames sinodais, José Maurício foi “promovido a ordens”. Ao ingressar na classe de intelectuais que sacralizava o poder real, o jovem mestiço adquiria os privilégios e imunidades comuns a todos os sacerdotes. Dois testemunhos, o de Manuel de Araújo Porto-Alegre, quase contemporâneo dos acontecimentos, e do professor Anderson José Machado de Oliveira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem descrevem o significado dessa conquista:

Naquelas eras, a segurança individual, o esteio das famílias pobres, e o amor materno, só achavam um asilo seguro e inviolável na Igreja, e por isso, e pelo espírito religioso da época, as famílias tinham necessidade de que um filho ao menos as amparasse das violências tenebrosas do Santo Ofício, das vinganças e fanatismo de seus terríveis familiares, da prepotência dos maiores da terra, e das crueldades do recrutamento. O padre era a âncora de salvação da casa, o homem predileto, o filho mais querido, o laço da harmonia, o que nobilitava a família, e a tornava privilegiada e coparticipante de todos os prazeres públicos de então, que se limitavam nas festas da igreja, e nas que a família celebrava de harmonia com as do culto. Naquela época de fanatismo e poderio monacal, as vestes religiosas tinham o prestígio e o privilégio de serem respeitadas desde a sala do vice-rei até a mais pobre habitação: o hábito substituía a idade, o nascimento, a riqueza e o saber”. (PORTO-ALEGRE, 1983 [1856]: 24).

 “Ao receber do bispo a graça de ser ‘dispensado do defeito de cor’ e ordenar-se sacerdote, ele deixava de estar automaticamente no mesmo nível dos outros homens de cor que não foram agraciados por aquele privilégio, ou seja, não era mais igual a eles. O fato de um mulato subir ao altar e erguer o corpo e o sangue de Cristo não mexeu nas estruturas sociais da época: a bênção do prestígio e do respeito não havia chegado nem perto dos demais negros daquela sociedade” (OLIVEIRA, 2015).

A batina, portanto, indicava para o restante da sociedade, que José Maurício era “negro de alma branca”. O concidadão que lhe dirigisse injúria de cunho racial estaria, a princípio, criticando a decisão da própria Igreja de acolhê-lo como um dos seus.

O CONCUBINATO E A PROLE

Apesar dos votos de celibato, José Maurício manteve, de 1807 até 1813, pelo menos, uma relação conjugal com Severiana Rosa de Castro, nascida em 1789, ela também mestiça livre. Dessa relação nasceram cinco filhos: Apolinário José, em 1807; José Apolinário, em 1808; Josefina em 1810, Panfília em 1811 e Antônio José, em 1813 [3].

Chegando a sete os dependentes – mãe, concubina e os cinco filhos –, é possível que, até mesmo antes disso, as despesas domésticas já houvessem superado as receitas. A situação de penúria a que ficou reduzido no final da vida teria sido, ao menos em parte, auto infligida.

Além do problema financeiro, havia o aspecto moral da situação. Um lar no qual conviviam um padre, uma mulher e uma prole que não parava de crescer – filhos que o chefe da casa alegava serem sobrinhos – seria inicialmente objeto de observações e comentários, inicialmente entre os vizinhos, que cedo ou tarde se espalhariam pela cidade e chegariam aos ouvidos das autoridades eclesiásticas. Para manter as aparências, José Maurício não poderia abrigar os familiares na casa de sua propriedade na Rua das Marrecas, pois lá ministrava as aulas públicas de música; seria imperativo, portanto, o aluguel de outra residência. O filho confirma ter sido esta a situação:

nasci na casa Nº 62 da Rua dos Barbonos, casa que vê-se à esquerda daquela que fica por baixo do aqueduto que leva água da Carioca ou das Marricas para o convento das Freiras d’Ajuda, em 10 de Dezembro de 1808” (GARCIA JR., 1983 [1861]: 15).

As sucessivas mudanças de residência, para Mattos sinal de pobreza, são mais bem explicadas pela tentativa de esconder o concubinato, já que, sendo José Maurício proprietário de um imóvel, em caso de penúria poderia suspender as aulas públicas de música para nele abrigar a família:

É impressionante o número de vezes que o padre José Maurício trocou de residência. Desde a informação de seu aluno Bonifácio Gonçalves, que o conheceu na Freguesia da Sé, […] registram-se: rua da Vala, onde nasceu; rua Detrás do Hospício (1792); rua das Marrecas (1795); novamente a rua Detrás do Hospício; rua dos Inválidos (1816); rua de São Jorge (1817); rua do Lavradio; Segunda Travessa de São Joaquim; rua Detrás do Hospício e rua do Núncio (1830), onde morreu”  (MATTOS, 1997: 251, n. 205).

As necessidades da prole, que crescia em idade e quantidade, contribuíram para agravar as dificuldades financeiras de José Maurício. Pode ter sido essa a razão pela qual, em 1810, ele pediu um empréstimo a um particular, oferecendo a casa da Rua das Marrecas em garantia. Conseguiria quitá-lo em 1812. Em 1817, ele encaminhou às autoridades um pedido de casa em “aposentadoria” para abrigar as aulas públicas de música em razão de ter vendido o referido imóvel. Mattos, em aparente contradição ao que escrevera na nota citada acima –, segundo a qual José Maurício residia na Rua dos Inválidos na ocasião –, acresceu que a venda do imóvel o deixara sem moradia:

Na biografia do padre José Maurício apontam em 1817 sinais de que eram alarmantes suas dificuldades financeiras: o mestre-de-capela estava sem casa para dar as aulas do curso de música, o que quer dizer também para morar. O pedido que fez para alcançar a solução do problema confirma que o curso de música do padre José Maurício não mais funcionava na Rua das Marrecas” (grifo nosso) (MATTOS, 1997: 130-131).

No aspecto legal, o clérigo em concubinato cometia um delito previsto nas “Ordenações Filipinas”, o código penal da época, sob o Título XXXI do Livro 5: “Que o Frade, que for achado com alguma mulher, logo seja entregue a seu superior”  [4].

As penalidades eram previstas no direito eclesiástico, e consolidadas nas “Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia”, de 1707, que prescrevia a abjuração – o reconhecimento do erro – para os padres neófitos e outras penas de maior rigor para os reincidentes: o pagamento de multa pecuniária e a prisão (VIDE, 1853 [1719]: 189).

O abandono da carreira eclesiástica para oficializar o matrimônio estava fora de questão para José Maurício, pois os meios de subsistência lhe seriam cortados. Dois são os prováveis motivos para o rompimento: a denúncia aos superiores ou o abandono do lar pela concubina; não se pode descartar a ocorrência dos dois. O motivo mais forte pode ter sido indicado numa modinha composta por José Maurício, provavelmente na década de 1820, intitulada: “No momento da partida meu coração t’entreguei”, em cujos versos, nas entrelinhas, ele se refere à ex-concubina [5].

A inusitada estrofe “Te deixar, que crueldade / Oh! Rigor duro da Lei / Mas é fado, a que anuindo / Como inda vivo, não sei”, parece expressar a tristeza subsequente à pena de abjuração.

Até 1950, acreditava-se que o Dr. Garcia Jr. seria o único filho de José Maurício, já que somente ele obteve o reconhecimento paterno. Quase um século depois de escritos em 1861, os seus “Apontamentos Biográficos”, nos quais declarava ter mais quatro irmãos de pai e mãe, vieram a público pela iniciativa de Francisco Curt Lange [6].

É possível que Porto-Alegre, contemporâneo e amigo do Dr. Garcia Jr., tivesse conhecido os irmãos; no entanto, jamais tocou no assunto em público. Já Taunay, escrevendo sete décadas depois, aparentemente ignorava a existência deles.

Após a separação, Severiana casou-se com o comerciante Antonio Rodrigues Martins, de quem teve outro filho, Severiano Rodrigues Martins [7], nascido em 1820 (cf. GARCIA JR, 1983 [1861]: 15; MATTOS, 1997: 62).

Mattos dá a entender que José Maurício era apenas frequentador da casa da concubina, e que, com exceção do que lhe era predileto, todos os demais filhos do casal permaneceram sob a guarda da mãe: “O padre José Maurício morava com o filho que veio para a sua companhia aos seis meses de idade, que usará seu nome e de quem recebia ajuda para a sobrevivência” (MATTOS, 1997: 169). Mas os “Apontamentos Biográficos” contradizem esse entendimento, pois neles o Dr. Garcia Jr. deixa claro, em vários trechos, que ele e os irmãos foram criados sob o mesmo teto, pelo pai e pela avó, enquanto ela viveu:

E conquanto minha juvenil viveza – a par duma incrível e precoce circunspecção sempre me guiassem a nunca mentir, para ter o prazer de ver meu Pai apontar-me como exemplo de correção para meus irmãos todos quando tinha de castigá-los” (GARCIA JR., 1983 [1861]: 16).

Em 1824, pela carência de tropa no Rio Grande do Sul, houve aqui um forte recrutamento, e num dia que meu irmão Apolinário José Nunes Garcia, hábil músico e organista, estava doente, tendo eu de ir tocar órgão na missa da Freguesia do Sacramento por ele, fui recrutado para o exército e preso” (ibid.: 17).

“Em 1830 cursava eu o 6º ano como repetente da lei dos cirurgiões formados, quando em 10 de abril [8] desse ano, pelas 6 horas da tarde, houve de perder meu pai! Embora já cirurgião, mas sem clínica ou clientela […] sabendo mais que duas irmãs menores e essas em estado de loucura desde muito tempo ficavam [sob] a minha guarda, ao mesmo tempo [em] que eu precisava estar na Escola e hospitais” (ibid.: 19).

É também difícil crer que Antonio Rodrigues Martins aceitasse arcar com a criação dos cinco filhos do relacionamento anterior da esposa, principalmente estando vivo o pai biológico.

A CONVIVÊNCIA COM OS MÚSICOS NA CAPELA REAL

Logo após a mudança da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, começaram os preparativos para a instalação de uma Capela Real, nos moldes da Patriarcal de Lisboa. A instituição tornou-se oficial pelo Alvará de 15 de junho de 1808, que elevou à primazia de Capela Real a igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo, nela incluindo os sacerdotes e os músicos da Sé. Reconhecendo o talento musical de José Maurício, em 26 de novembro de 1808 o príncipe regente o nomeou mestre de música da Real Capela, função que já exercia informalmente.

A Capela Real adotou provisoriamente o estatuto da Sé do Rio de Janeiro, de 1733, até que recebesse um estatuto próprio. O texto definitivo, aprovado somente em 27 de setembro de 1810, atribuía encargos extras ao mestre de capela, em comparação aos previstos no estatuto da Sé:

“I – Será o mestre de capela e nas suas faltas o músico mais antigo, ou o organista, obrigado a vigiar sobre a residência de todos os outros e a dar parte cada dia ao apontador das faltas de cada um deles, para serem apontados segundo o dia, e funções a que faltarem do modo que se acaba de dizer dos ‘tesoureiros’.

II – Poderão e deverão além disso, ser anotados pelos mestres de capela segundo a qualidade do erro que cometerem, não passando a multa nas primeiras 3 vezes da metade da quantia correspondente a um dia do seu ordenado, e devendo passar-se ao dobro, e a três dobros desta pena aos casos de reincidência e contumácia, aplicando-se sempre para a Fábrica da Igreja” (grifos nossos) (MATTOS, 1997: 74).

Essas atribuições, se não exercidas com diplomacia, poderiam torná-lo detestável aos músicos da Capela Real. E, ao que tudo indica, foi o que aconteceu, haja vista à queixa ao final da vida: “O que tenho sofrido daquela gente, só Deus sabe”. Porto-Alegre o confirma: “Fora da atmosfera da presença de el-rei, José Mauricio sofreu muitas vezes dos músicos portugueses invectivas bem dignas da estupidez altanada; porém sua alma nunca se dobrou a uma represália”. (PORTO-ALEGRE, 1983 [1853]: 25).

Mattos, apesar de reconhecer o potencial que essas atribuições tinham para gerar conflitos, manteve-se condizente com a concepção de Taunay, e os creditou à “situação preconceituosa em torno de sua pessoa”:

Por outro lado, os deveres atribuídos aos seus diferentes níveis funcionais não viriam facilitar o relacionamento entre o mestre-de-capela e o quadro de músicos que a integrava […] o estatuto previa encargos estranhos à função de um kapellmeister, nada fáceis de serem cumpridos pelo padre José Maurício face à situação preconceituosa em torno de sua pessoa” (MATTOS, 1997: 74).

A CONCESSÃO DA ORDEM DO HÁBITO DE CRISTO

A distribuição de títulos nobilitantes pela Coroa em recompensa pelos serviços dos súditos foi um recurso usado para criar e reforçar os laços entre o estes e o soberano, especialmente em momentos de crise. Nessa situação se encontrava a corte portuguesa emigrada em 1808 ao Rio de Janeiro, e por força da necessidade, distribuiu esses títulos em larga escala, em retribuição a contribuições pecuniárias da parte das elites da terra para o esforço de guerra contra os franceses.

A mercê mais comum era o hábito de Cavaleiro da Ordem de Cristo, uma honraria nobilitante que indicava ser o portador integrante da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma ordem monástico-militar portuguesa, e, portanto, leal e honrado servidor da monarquia. Acompanhava-lhe um pequeno rendimento monetário (tença) e privilégios jurídicos e fiscais (KRAUSE, 2008: 1). Para ser admitido, o candidato devia ter: “sangue limpo”, ou seja, não descender de cristãos-novos (judeus ou mouros convertidos); não incorrer em “defeito mecânico”, isto é, não ter ele, nem os ascendentes, trabalhado com as mãos; e viver nobremente.

Em fevereiro de 1809, por ocasião de um “sarau musical” na Quinta da Boa Vista, o príncipe regente, impressionado com a atuação de José Maurício como cravista e cantor, o indicou para ingressar na referida ordem como cavaleiro. Porto-Alegre assim descreveu o episódio:

Em uma dessas grandes festividades, sentiu-se el-rei tão arrebatado de entusiasmo, que, acabada a festa, mandou chamar ao paço o padre José Mauricio, e em plena corte, tirando da farda do visconde de Vila Nova da Rainha o habito de Cristo, colocou-o com sua própria mão no peito do seu musico, dizendo-lhe ao mesmo tempo as cousas as mais lisonjeiras. Este fato memorável para a gloria do artista, e para a do seu rei, aconteceu no ano de 1810, pouco antes de fevereiro; porque professou em 17 de Março, tendo por padrinhos a Francisco José Rufino de Souza, o mesmo visconde de Villa Nova da Rainha, então barão, e Fr. José Marcelino Gonçalves, seu discípulo e filho do seu antigo protetor Tomás Gonçalves” (PORTO-ALEGRE, 1983 [1856]: 25).

É tácito para os biógrafos mauricianos que a concessão da mercê despertou animosidade na aristocracia portuguesa em função da cor do agraciado. Mas, daí, como acusar genericamente “a corte” de preconceito sem incluir D. João, então príncipe regente, e D. Pedro, então príncipe da Beira, nesse rol? Atribuindo aos dois uma mentalidade iluminista. São palavras de Porto-Alegre:

O Senhor D. João VI era o único que de coração nunca distinguiu no homem incidentes ou acidentes: pai e príncipe haviam nascido acima de todos os preconceitos da inveja, ou da moral de uma nação em decadência, cujo egoísmo e incapacidade se encastelavam no privilegio do acaso de ter nascido em Portugal” (PORTO-ALGEGRE, 1983 [1856]: 25).

Segundo Mattos, o gesto de D. João desencadeou um triângulo de intrigas comum nos romances palacianos, entre José Maurício, o mais fraco; D. João, o poderoso, mas distraído; e o restante dos aristocratas, dispostos a utilizar sua parcela de poder para prejudicar o brasileiro à menor desatenção do monarca:

A tramitação burocrática do processo foi longa – durou 12 meses! – e não se pode duvidar que as dificuldades eram criadas por intermediários de categoria, provavelmente inconformados com a perspectiva de ver usufruindo tal honraria um compositor brasileiro de pele escura” (MATTOS, 1997: 77).

Dificultoso, como se pode ver, o processamento da concessão do Hábito de Cristo ao padre José Maurício. Não será menos eloquente no fazer sentir o desequilíbrio entre a vontade de D. João, as manobras dos seus ministros e a desconsideração dos músicos da capela” (ibid.: 79).

Não é o que a documentação demonstra. Nos autos do processo de concessão da mercê, digitalizados e disponíveis on-line no Acervo Cleofe Person de Mattos, há um despacho do Conde de Aguiar, (ver fac-símile a seguir) com data de 16 de abril de 1809, cujo teor demonstra que o Conde foi um fiel e zeloso cumpridor das decisões de D. João:

Havendo o Príncipe Nosso Senhor feito mercê a José Maurício Nunes Garcia do Hábito da Ordem de Cristo, por decreto de cinco do corrente mês e ano, e não cabendo na urgência do tempo a expedição dos despachos necessários para receber e professar a dita Ordem: Há por bem conceder-lhe faculdade por tempo de três meses, para que possa usar livremente da Insígnia do Hábito da Ordem de Cristo, sem embargo de não ser ainda Professado. E para sua salva e guarda mandou passar esta. Palácio do Rio de Janeiro, em 26 de Abril de 1809. Conde de Aguiar[9].

O despacho e os demais autos do processo demonstram o quanto José Maurício era prestigiado na corte. A nomeação ocorreu em 5 de abril; em 26 de abril ele foi convocado a passar pelas “provanças e habilitações”, cujo objetivo era atestar o cumprimento dos requisitos para a ordenação. Na época, ele vivia em delito – o concubinato – e já era pai de duas crianças. Temendo ter sua vida investigada pela Mesa de Consciência e Ordens, em 22 de junho encaminhou um pedido de dispensa das referidas “provanças e habilitações”, sendo mais uma vez atendido. Em 7 de julho foi assinada a sentença e lhe concedido um valor equivalente a dez meses de tença (120$000).

Entre a nomeação e a sentença, transcorreram, portanto, três meses, não doze. O despacho do Conde de Aguiar, de 26 de abril, prescrevendo o uso da comenda, lhe fora suficiente para garantir o status de cavaleiro enquanto não professado.

O título de cavaleiro, além da tença, também conferia o famigerado direito à aposentadoria (moradia) que vigorou até 1818, como aos demais privilegiados da sociedade. Dela José Maurício utilizou para obter um prédio para abrigar o curso de música, em 1817.

Mattos aparentemente desconhecia as implicações da concessão dessa mercê: “Pouco retorno além das crispações detectadas no processamento dessa honraria terá resultado para a figura ilustre do músico” (MATTOS, 1997: 79).

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Figura 1 – Despacho de 26 de abril de 1809, assinado pelo Conde de Aguiar, facultando a José Maurício o porte da comenda da Ordem de Cristo por três meses, sem ser professado.

O LAZER

Três modinhas para voz e piano, atribuídas a José Maurício, intituladas: “Beijo a mão que me condena”; “No momento da partida meu coração t’entreguei”; e “Marília, se me não amas, não me diga (sic) a verdade”, impressas pelo editor Pierre Laforge – as duas primeiras em 1837, e a última em 1840 –, são evidências de uma das poucas atividades de lazer a que ele se permitia nas primeiras décadas do século XIX: os “saraus musicais”. No entanto, a época e as circunstâncias sob as quais foram compostas ainda não mereceram análise.

Para Mattos, as três modinhas foram destinadas à execução pública e remontam aos últimos anos do século XVIII, quando José Maurício passou a residir na Rua das Marrecas, a “zona festiva” da cidade. Segundo ela:

Escreve Taunay sobre os célebres ‘saraus musicais’ na rua das Marrecas, então chamada rua das Bellas Noutes. […] Os moradores reuniam-se nas calçadas cantando modinhas e fazendo serenatas, formando nas vizinhanças do passeio público o ambiente estimulante para os compositores na expansão do gênero” (MATTOS, 1997: 51).

Conforme sugeriu Mattos, nesses saraus José Maurício revelava sua “veia modinheira”: “Não só a figura do orador sacro é deficiente na documentação mauriciana. Também o é a manifestação profana, não obstante o conhecimento que se tem do cantador de modinhas e xácaras acompanhando-se ao violão” (ibid.: 51).

A esse ponto de vista levantam-se algumas objeções.

Embora haja pouca dúvida sobre ter sido a vizinhança do Passeio Público a “zona festiva” do Rio de Janeiro, é improvável que esses “saraus musicais” ocorressem nas ruas, já que o código de leis da época, as “Ordenações Filipinas” (ALMEIDA, 1870) [10],

o proibia, com penas de cadeia e multa. Apenas nos limites do jardim público eles eram permitidos, e ainda assim, em fins do século XVIII, por estarem proibidas as aglomerações, o acesso ao jardim fora interditado pelo Conde de Resende. A visão de um Rio de Janeiro com as ruas em festa, familiar tanto a Taunay em fins do século XIX, como a nós, brasileiros do século XXI, não é, portanto, aplicável à última década do século XVIII.

Outra objeção diz respeito ao instrumento utilizado. Sustentar que um sacerdote pudesse fazer uso em público de uma viola para se acompanhar numa modinha é desconhecer o estigma associado ao instrumento na época [11]. As “Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia” [12] prescreviam penas especialmente rigorosas aos clérigos apanhados nesse ato: prisão por trinta dias e multa de quatro mil réis, com agravantes em caso de reincidência.

A versão impressa das referidas modinhas trazem acompanhamento de piano, o que pressupõe fossem apresentadas em recinto fechado. Mattos também fornece preciosas informações que situam melhor a época em que elas foram compostas:

A respeito dessa terceira e deliciosa modinha, e à autoria do texto, que traz novamente à baila o Marquês de Maricá, é bom recordar Joaquim Manuel de Macedo. Refere-se o autor a uma moça Chiquinha, chegada de Minas Gerais […] que tocava sofrivelmente a guitarra e cantava com excelente voz modinhas e lundus. E não havia ninguém, como essa moça mineira, que cantasse com doçura, expressão e com raro gosto a modinha então em voga (1822) em versos do ilustrado filósofo depois Marques de Maricá: ‘Marília, se me não amas, não me digas a verdade’” (MATTOS, 1997: 53).

Essas modinhas, portanto, destinavam-se a um ou mais “saraus musicais” em recinto fechado, acontecidos por volta de 1822, e com a presença do Marquês de Maricá [13].

Cumprem esses requisitos as “palestras literárias” promovidas pelo bispo do Rio de Janeiro em seu palácio, que Porto-Alegre menciona nos “Apontamentos”:

Ao muito ilustre e virtuoso bispo do Rio de Janeiro, D. José Caetano da Silva Coutinho, ouvi muitas vezes elogiar o padre José Mauricio, não como artista, mas como um sacerdote dos mais ilustrados da sua diocese, e a quem sobejavam talentos fora da musica. Ele foi do numero daquelas palestras literárias que esse grande bispo fazia em seu palácio, das quais eram membros efetivos o padre Caldas, o marquês de Maricá e outros escolhidos, as quais cessaram na época da independência, por haver sido malintencionadamente espiado o seu palácio por ordem do governo!” (PORTO-ALEGRE, 1983 [1856]: 24).

Adicionalmente, a já mencionada modinha “No momento da partida”, cujos versos aludem à ex-concubina, adquire coerência somente se escrita depois da separação, o que torna crível a composição na década de 1820.

O RELACIONAMENTO COM A IRMANDADE DE SÃO PEDRO

Em 1983, foi publicado um importante estudo, intitulado “A presença de José Maurício na Irmandade de São Pedro” (DINIZ, 1983), do padre Jaime Diniz [14], que detalha o longo relacionamento – de ordem financeira, administrativa e afetiva – entre José Maurício e a Irmandade do Príncipe dos Apóstolos, chamada por ele em 1814 “a minha irmandade”.

Em 7 de setembro 1791, no mesmo dia em que se matriculava para a primeira etapa dos exames sinodais, José Maurício ingressou na Irmandade de São Pedro dos Clérigos, na condição de clérigo “in minoribus” (seminarista). Juntava-se ao superior, o padre João Lopes Ferreira, mestre de capela da Sé do Rio de Janeiro e membro da irmandade desde 1755. Pouco depois de ingressado, passou à condição de clérigo “in maioribus”, quando se lhe ofereceu o subdiaconato. Em 1797, foi eleito “irmão da mesa”, função que ocupara ocasionalmente desde 1794.

Apontado sucessor de Lopes Ferreira no cargo de mestre de capela da Sé em 2 de julho de 1798, José Maurício obteve também a preferência nas encomendas para a música das festividades da irmandade, a qual exerceu entre os anos de 1798 e 1811 e, provavelmente, 1814. Os rendimentos que auferiu dessas atividades, registrados no “Livro 3º de Receita e Despesa (1793-1820)” serão examinados no próximo artigo.

Para Mattos, o atraso nas contribuições à irmandade fez com que esta o interditasse nas contratações para música após 1811. O rompimento ganha contornos dramáticos:

Em 1811 desapareceu definitivamente dos livros de despesa da irmandade o nome do compositor. […] Vinte anos de convívio, iniciado como irmão desde o dia em que selava seu destino de músico ao de sacerdote – dia 7 de setembro de 1791, vinte anos ligados ao que ele chamou, em 1814, ‘a minha irmandade’, e para quem escrevera dezenas de obras hoje desaparecidas, eram postos de lado, ao cessarem os compromissos do padre José Maurício com a Irmandade de São Pedro dos Clérigos, mantidos desde 1799. Onze anos fora ele o compositor da música para o dia e véspera do ‘Santo Patriarca’, devoção que se foi acrescendo e diversificando até alcançar, em 1810, cerca de quarenta obras” (MATTOS, 1997: 92).

Após desaparecer, em 1811, “definitivamente dos livros de despesa da irmandade”, o padre-mestre, em 1815, a ela retorna, pelas mãos de D. João:

No dia 22 de novembro desse ano o padre José Maurício recebeu de D. João, ‘por justos motivos’, pensão anual de 25$000 para construir o seu ‘patrimônio clerical’. (n. 175) […] Com o decreto de D. João, era reconhecida a pobreza de José Maurício” (ibid.: 116).

O patrimônio para os Clérigos Pobres fora instituído graças à doação de casas à Irmandade de São Pedro para auxiliar os clérigos que não dispunham de recursos […] o patrimônio era administrado pela Irmandade, e assim explica houvesse o padre Perereca, tesoureiro da ISP em 1830 à época do falecimento do padre José Maurício, apresentando conta de 16$000 com a ‘mortalha e condução de finados’, gastos previstos no regimento da entidade” (ibid.: 246, n. 175).

O relacionamento entre a concessão de D. João e o “patrimônio para os Clérigos Pobres”, foi o argumento para a conclusão de que “era reconhecida a pobreza de José Maurício”. No entanto, é questionável que uma concessão real fosse administrada por uma irmandade de leigos.

Mesmo considerando o atraso nas mensalidades, aliás, confirmado por Diniz, José Maurício jamais sofreu sanções da parte da irmandade. Em 1814, também segundo Diniz, foi José Maurício o regente da música nas festividades do Patriarca; de fato compôs nesse ano as “Novenas do Apóstolo São Pedro”. Em 1819 ele foi eleito Diretor 1º da sua querida Irmandade de São Pedro dos Clérigos (DINIZ, 1983: 43). Foi, portanto, duradouro e produtivo o relacionamento.

OS ÚLTIMOS ANOS

São unânimes os testemunhos das “crônicas moléstias” pelas quais José Maurício padeceu nos últimos anos de vida. São exemplos o de Simão Portugal, que o sucedeu no cargo de mestre de música da Capela Imperial, e o de Porto-Alegre:

Pela sua idade se vê com frequência acometido de crônicas moléstias, e é muito provável que não possa continuar com o mesmo fervor que era seu costume no serviço da sobredita capela” (apud MATTOS, 1997: 178).

Nos últimos tempos da sua vida só viveu para a arte, porque a ela consagrou todas as horas que não sofria cruelmente.”. (PORTO-ALEGRE, 1983 [1856]: 26).

Em 18 de abril de 1830, por volta das seis horas da tarde, faleceu José Maurício aos 62 anos, sete meses e 27 dias, de causas não especificadas. Para o cônego Januário da Cunha Barbosa, a morte lhe chegou repentinamente, na forma de um ataque semelhante ao que ceifara a vida de Marcos Portugal:

José Mauricio começou a sofrer enfermidades, que muito se agravaram pelo trabalho a que se dava no desempenho das suas obrigações, perdendo muitas vezes noites inteiras em longas composições, que o Sr. D. João VI queria ver concluídas com a maior presteza; a sua vida se foi gradualmente enfraquecendo, até que em um ataque mais forte, e quase repentino, teve o seu termo no dia 18 de abril do corrente ano” (BARBOSA, 1983 [1830]: 26).

Contrariando o que afirmou Barbosa, o Dr. Garcia Jr., que presenciou a morte do pai, fornece evidência de que o falecimento era esperado:

Uma hora antes de expirar, perguntando-lhe eu se queria que mandasse buscar o viático para que me não expusesse às censuras dos vizinhos, observa-me meu Pai – ‘não viste que eu disse Missa ontem?’” (GARCIA JR., 1983 [1861]: 20).

Mattos discorreu sobre os últimos anos de José Maurício de forma catastrófica: “Desmoronava progressivamente o estado físico do padre José Maurício” (MATTOS, 1997: 176), inferindo terem sido as “crônicas moléstias” causadas pela tensão nervosa no trabalho. Para ela, nos últimos meses de vida, essas doenças também lhe teriam afetado as faculdades mentais:

O padre José Maurício envelhecia. Estava mais cansado e mais doente. Não muito distante do dia em que não mais reconhecerá suas próprias composições” (ibid.: 158).

As hipóteses que confirmam as razões de seu desaparecimento aos 62 anos de idade vinculam invariavelmente os males físicos às agressões de natureza psicológica. Por fim, a pobreza, a inanição, a miséria” (ibid.: 177).

O quotidiano lhe fora muito pesado e os momentos cruciantes deixaram marcas. Sabe-se do seu sofrimento, sabe-se do esquecimento no fim da vida, sabe-se da emotividade que o levava às lágrimas, mas alude-se pouco aos abalos causados no trabalho vivido sob permanente tensão nervosa. O que lhe era exigido comprometia o equilíbrio de sua estrutura psicológica” (ibid.: 177).

Mesmo diante de um documento escrito por José Maurício sete meses antes de falecer, do qual apreciou a “clareza da exposição”, ela manteve a crença de que ele não conservara o discernimento nos últimos meses de existência:

O padre José Maurício foi solicitado, em 1829, a informar sobre o pedido do cantor e organista Elias Antunes da Silva, candidato ao Habito de Cristo. Na ocasião, escreveu o ‘ato atestatório’ que será talvez o último documento de sua vida funcional. / No documento, grafado do próprio punho, pode-se apreciar a clareza da exposição, que não parece corresponder à do músico meio apagado intelectualmente que se acredita estivesse, a esta altura, o padre-mestre. Documento produzido sete meses antes do seu falecimento” (ibid.: 176).

A sincera crença de Mattos nessa narrativa a levou a externar compadecimento pelo calvário de José Maurício nos últimos anos e a recriminar os que supostamente contribuíram para tal situação: D. João VI, por não livrá-lo de “situações impiedosas […] facilmente evitáveis a um gesto mais atento” (ibid.: 149); D. Pedro I por “ignorar a falta de saúde e as proporções das necessidades do padre José Maurício” (ibid.: 161); a Irmandade de São Pedro, que “não lhe deu socorro à velhice, nem o amparou na doença enquanto viveu” (ibid.: 182), e principalmente o filho, o Dr. Garcia Jr., do qual pôs a probidade em duvida, em função do empenho em ser legitimado pelo pai sem reivindicar o mesmo para os irmãos:

Pobre José Maurício, a quem não bastara o menosprezo dos ministros da Patriarcal de Lisboa e dos músicos da Capela Real. Seria também injustiçado, no final da vida, pelo juramento feito pelo filho, empenhado na sua legitimação, deixando os irmãos sem o mesmo reconhecimento. E que, para eximir-se da responsabilidade de haver conduzido o pai perante o tabelião, quinze dias antes da sua morte, mergulhado já nas sombras de uma inteligibilidade que se esvaía, empenhou-se numa tramoia de datas, entre 1828 e 1830, sem conseguir libertar-se dessa culpa” (ibid.: 179).

A “tramoia de datas” se deve a ter declarado o Dr. Garcia Jr. (GARCIA JR., 1983 [1861]: 15), que a legitimação ocorrera em 1828, sendo de 1830 a documentação cartorial pesquisada. Mattos supôs “interesses menos nobres” por trás dessa declaração:

Na continuidade do processo de legitimação, esclarece o Dr. Nunes Garcia às páginas 32 dos Apontamentos biográficos: ‘meu pai me doara por escritura pública, lavrada em Notas do Tabelião Pires Garcia’, o que revela interesses menos nobres por trás de tudo isso, e, embora constrangedores, devem ser ventilados para melhor conhecimento da natureza humana”. (MATTOS, 1997: 178-179).

Mattos não revelou quais seriam esses “interesses menos nobres”, mas não é difícil deduzir que se referia às vantagens que, legitimado, o Dr. Garcia Jr. teria sobre os irmãos na escritura de um terreno em Ubatiba, distrito de Maricá, que José Maurício herdara da mãe. Não parece ser esse o caso, pois em outro trecho dos seus “Apontamentos Biográficos”, o Dr. Garcia Jr. frisou que o pai o deixara em herança para todos, o que não teria feito se o ambicionasse apenas para si:

Não obstante, havia ele [José Maurício] doado irmãmente a todos uma data de terras de 200 braças de frente com meia légua de fundos, toda de matos de pau-brasil, que possuía em Maricá no lugar denominado Ubatuba” (grifo nosso) (GARCIA JR., 1983 [1861]: 21).

Mattos manteve uma atitude crítica em relação aos “Apontamentos Biográficos” do Dr. Garcia Jr. De fato, o José Maurício nos últimos anos lembrado pelo filho muito difere do personagem humilde, resignado e esquecido idealizado por Taunay, que ela acreditava ser o verdadeiro.

Segundo o Dr. Garcia Jr., José Maurício lhe tinha predileção, e, nos últimos anos, apesar de doente, manteve-se especialmente ativo e empenhado em lhe garantir um lugar na sociedade, recorrendo para isso a pessoas proeminentes de seu relacionamento. Dessas intercessões, cita alguns exemplos: em 1824, o pai lhe obteve, do “General Corado[15], a dispensa do alistamento militar. Também nesse ano, ele recorreu ao Dr. Vicente Navarro de Andrade [16], futuro barão de Inhomirim, quando ao filho moveram uma intriga na Academia Medico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, na qual cursava medicina. A mais polêmica dessas iniciativas foi o casamento arranjado, em 1829, com a filha de um rico “angolista” – um comerciante de escravos não identificado –, que o filho não consumou, apesar de José Maurício tê-lo obrigado a jurar que o faria.

Mesmo depois de falecido, a fama do pai rendeu ao Dr. Garcia Jr., de antigos admiradores como o General Albino Gomes Guerra de Aguiar, o bispo D. José Caetano da Silva Coutinho [17], e o Dr. José Maria Cambuci do Vale [18], uma ajuda financeira que chegou a 96$000 mensais, quantia que lhe permitiu terminar os estudos.

O relato de Taunay a respeito dos últimos dias de José Maurício demonstra apenas que desconhecia essas informações, que não eram públicas na sua época. É de se lamentar que, pelas razões citadas, também não constem na Biografia de Mattos.

CONCLUSÕES

O historiador Paulo Rezzutti, no artigo “As armadilhas da produção biográfica” (REZZUTTI, 2015), cita as práticas que o biógrafo deve evitar no ofício: destinar ao biografado o papel central; inversamente, dissolvê-lo no contexto histórico-social; identificar-se de modo extremo com ele; recriá-lo como ficção; e tentar dar sentido às incongruências dele. Não suspeitou Rezzutti que essas “armadilhas” pudessem, às vezes, ter efeito cumulativo.

Taunay, em função das poucas informações de que dispunha, usou seus dotes literários para recriar a persona de José Maurício como ficção. O encanto da sua literatura persuadiu, por muito tempo, jornalistas, historiadores e musicólogos a continuarem o seu projeto de preservar o acervo mauriciano, que ele próprio não via perspectiva de concluir.

Sua mais importante continuadora, Mattos, ao empreender a longa e trabalhosa pesquisa por fontes documentais sobre José Maurício, adquiriu tal intimidade com ele que passou a chama-lo carinhosamente por “”. Tornou-se também propensa a tomar-lhe as dores, escrever em sua defesa e justificar as incongruências de sua trajetória, criando não uma biografia e sim uma hagiografia.

Poderiam ser somente essas as conclusões do presente artigo; no entanto, não faríamos justiça aos dois se o terminássemos assim. Não obstante a crítica aos respectivos trabalhos, Taunay, o engenheiro militar e intelectual de muitos ofícios e, principalmente, Mattos, que dedicou sua vida à música, devem ser reconhecidos como exemplos de amor e dedicação ao resgate do passado musical brasileiro.

Em 2007 e 2008, por meio do projeto “Organização e Disponibilização do Acervo Cleofe Person de Mattos” coordenado pela empresa Movimento.com Produções Artísticas e com o patrocínio da Petrobras, o acervo da pesquisadora foi classificado, digitalizado e disponibilizado na internet, no endereço http://www.acpm.com.br/.

Participaram do projeto os musicólogos André Guerra Cotta e Marcelo Campos Hazan, os técnicos em digitalização Márcia Lima e Marcelo Galvan, a webdesigner Tatiana Fernandez, os assistentes Carlos Lima e Marcos Oliveira. A coordenação técnica ficou a cargo de Denise Munhoz e a gestão financeira, de Elizabeth Babo. Foram indispensáveis participantes desse projeto a irmã, D. Nelly Person de Mattos Villas-Boas (in memoriam), e a sobrinha, Astrid Person de Mattos Villas-Boas.

Realizou-se o projeto na residência da pesquisadora, um apartamento no Largo da Glória, no Rio de Janeiro, do qual fomos privilegiados frequentadores nesse período. Forte impressão nos causaram os milhares de bilhetes, blocos, brochuras, cadernos, cartas, cartões, etiquetas, fichas, fotografias, partituras, pastas, programas e recortes de periódicos, parte deles referentes a José Maurício, já organizados em caixas pelos familiares, e que em vida da proprietária permaneciam dispersos pelo apartamento, sempre à mão. Era como se ele próprio tivesse ali residido, num remoto período ainda desconhecido em sua biografia, e lá permanecesse, em espírito, a inspirar Mattos em seu trabalho.

Após o término do projeto, o acervo foi doado à Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição na qual ela trabalhou por décadas, e permanece numa sala reformada especialmente para abriga-lo.

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VIDE, Sebastião Monteiro da. Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Feitas e Ordenadas pelo Illustríssimo Senhor D. Sebastião Monteiro da Vide, 5º Arcebispo do dito Arcebispado, e do Conselho de Sua Magestade. Propostas e Aceitas em o Synodo Diocesano, que o Dito Senhor Celebrou em 12 de Junho do Anno de 1707. Impressas em Lisboa no Anno de 1719, e em Coimbra em 1720, com Todas as Licenças Necessárias, e Ora Reimpresso Nesta Capital. São Paulo: Typographia 2 de Dezembro de Antonio Louzada Antunes, 1853. 526p.

VILELA, Ivan. A Viola. In Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia, 2008-9. Disponível em: www.ivanvilela.com.br/pesquisador/ivanvilela-aviola.pdf. Acesso: 20/08/2016.

NOTAS

[1] O “mulatismo musical” de Lange glorificava o mulato como o principal fornecedor da música no período colonial brasileiro. Para ele, seria esse o diferencial da música produzida nas colônias americanas em relação à congênere europeia.

[2] Livro n. 2 de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Nazaré de Cachoeira do Campo, fl. 123.

[3] Os registros de batismo da prole foram encontrados por Cleofe Person de Mattos, nos livros 4° e 5° de batismo da freguesia de São José (MATTOS, 1997: 61).

[4] Segue o teor do artigo: “Mandamos a todas nossas justiças, que não prendam, nem mandem prender, nem tenham em nossas prisões clérigo algum, ou frade por ter barregã, salvo sendo-lhes requerido pelo prelado, ou vigário, ou seus superiores”.

[5] A letra completa da modinha é a seguinte:
“No momento da partida
Meu coração t’entreguei,
Sem ele, sem ti, sem ver-te,
Como não morro, não sei.

Aquela noite saudosa,
Em que de ti me apartei,
Quando me vem à lembrança
Como não morro, não sei.

Do momento tão penoso
Em que o terno adeus te dei,
Cada vez que me recordo
Como não morro, não sei.

Te deixar, que crueldade
Oh! Rigor duro da Lei,
Mas é fado, a que anuindo,
Como inda vivo, não sei”

[6] LANGE, Francisco Curt. Estúdios Brasileños, 1. Revista de Estúdios Musicales, Mendoza, Universidade Nacional de Cuyo, n. 1-3, p. 176-91, abr. 1950.

[7]Médico de nomeada, cuidou de Gottschalk quando este pianista e compositor americano contraiu febre amarela no Rio de Janeiro, em 1869” (MATTOS, 1997: 62).

[8] A data correta em que faleceu José Maurício é 18 de abril de 1830.

[9] Acervo Cleofe Person de Mattos, documento 02-06-04d. Disponível em: http://www.acpm.com.br/CPM_02-06-04d.htm. Acesso: 09/03/2016.

[10] Livro 5, TÍTULO LXXXI / Dos que dão musica de noite : “Por se evitarem os inconvenientes, que se seguem das músicas, que algumas pessoas costumam dar de noite, cantando ou tangendo com alguns instrumentos às portas de outras pessoas; defendemos que pessoa alguma, de qualquer qualidade e condição que seja, não se ponha só, nem com outros a tanger, nem cantar à porta de outra alguma pessoa, desque anoitecer, até que o sol seja saído. / E sendo achados dando as ditas musicas, mandamos que assim os que tangem e cantarem, como os que a isso assistirem, sejam presos, e [re]stem trinta dias na Cadeia sem remissão, e da Cadeia paguem todos dez cruzados cada um a parte, que lhe couber, e percam os instrumentos, e que lhes forem tomados, e as armas para o Meirinho, ou Alcaide, que os prender, e para seus homens”.

[11]o moralista Nuno Marques Pereira não tinha dúvidas de que boa parte dos males que afligiam a colônia portuguesa na América no início do século XVIII devia-se à proliferação de canções profanas no toque de violeiros da época” (VILELA, 2008-2009: 6).

[12] Livro Terceiro, Título V: “* 461 E se alguns Clérigos esquecidos da obrigação de seu estado forem achados de noite dando matracas, musicas, ou tangendo, ou em alardes, encamisadas, e outros semelhantes ajuntamentos, ou se lhe provar qualquer das ditas culpas, mandamos que pela primeira vez sejam presos trinta dias no aljube, e dele paguem quatro mil réis, e sendo mais vezes compreendidos, se procederá contra eles agravando o castigo, e penas, como pedirem as circunstancias da culpa” (VIDE, 1853 [1719]: 182).

[13] Mariano José Pereira da Fonseca, Marquês de Maricá (Rio de Janeiro, 1773 – 1848) Filho de Domingos Pereira da Fonseca e dona Teresa Maria de Jesus, senador pela província do Rio de Janeiro, conselheiro de estado, do conselho de sua majestade o Imperador, grã-cruz da ordem do Cruzeiro, cavaleiro de Cristo, sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e bacharel em matemáticas e em filosofia pela universidade de Coimbra. Apenas formado em Coimbra, em 1793, a dolorosa noticia da morte de seu pai, que era negociante, trouxe-o ao Brasil, onde o aguardavam novos desgostos. Abraçando a profissão de seu pai, entrou para a academia científica, fundada por Manuel Inácio da Silva Alvarenga sob os auspícios do governador Marquês de Lavradio, e por esse crime, quando o famigerado Conde de Rezende dissolveu violentamente a academia, foi preso e esteve dois anos, sete meses e quinze dias encarcerado por ordem deste déspota. Ocupou lugares importantes, de 1802 a 1822, como os de membro da junta do comercio, censor régio da imprensa, administrador tesoureiro da fabrica de pólvora, criada a 8 de maio de 1808 na Lagoa Rodrigo de Freitas, e um dos administradores da imprensa regia, criada na mesma data. Foi um dos colaboradores da Constituição do Império de acordo com as bases dadas por D. Pedro I, ministro da fazenda desde a dissolução da constituinte, em novembro de 1823, até 23 de novembro de 1825 e um dos membros com que foi inaugurado o senado. Foi grande filósofo, profundo moralista e também poeta. (BLAKE, 1883-1902, v.6: 238).

[14] Padre Jaime Cavalcanti Diniz (Água Preta, PE, 1924 – Natal, RN, 1989) Compositor, regente, organista, professor e musicólogo. Estudou filosofia no Seminário de Olinda e teologia no Seminário Central de São Paulo. Em 1936, iniciou os estudos de piano, teoria e solfejo em Pesqueira/PE, os continuando no Seminário de Olinda, onde de 1941 a 1943 foi organista e regente de coro. Em 1945 apresentou sua Missa “Mirabilis Deus”. No ano seguinte, transferiu-se para São Paulo. Frequentou, no Seminário do Ipiranga, as classes de composição sacra com Furio Franceschini e frei Pedro Sinzig, e de interpretação com Paula Loebenstein. Em 1951, fez estudos de técnica dodecafônica com César Guerra-Peixe. Como participante do III Curso Internacional de Férias da Pró-Arte, em Teresópolis, em 1952, estudou regência com H. J. Koellreutter, estética musical com Ernst Krenek e história da música com Hilde Sinnek. Em 1957, criou a Schola Cantorum Padre Jayme Diniz. No ano seguinte, foi aperfeiçoar-se no Instituto Pontifício de Música Sacra, de Roma, onde fez cursos de musicologia com Higino Anglès, instrumentação com Edgardo Carducci-Agustini, polifonia com Domenico Bartoluci e paleografia musical Eugenio Cardine. No Liceu Isabella Rosato, em Roma, estudou contraponto e prática de coros com Arnaldo Boreggi. Em Paris, frequentou o Instituto Gregoriano e o Conservatório de Música, em 1959. Retornando ao Brasil em 1960, realizou o II Concurso Nacional de Música Sacra, sendo nomeado membro do Departamento de Cultura da Prefeitura de Recife e convidado para fundar o curso de música na Universidade Federal de Recife, onde foi professor de história da música e de harmonia complementar. Em 1961, presidiu a comissão arquidiocesana de música sacra de Olinda e Recife, foi professor de canto gregoriano e regente coral do Seminário de Olinda. Fundou e regeu o Coro Guararapes. Ministrou curso de história da música no Pontifício Colégio Brasileiro, em Roma. Publicou ensaios musicológicos em jornais, revistas e livros. Dentre eles, destaque-se: “Músicos pernambucanos do passado”, (1969-1971); “A Sinfonia de Alberto Nepomuceno” (1964); “Organistas da Bahia” (1986), “Um Compositor italiano no Brasil: Joseph Fachinetti” (1986) e “Os Mestres de Capela da Santa Casa da Misericórdia de Salvador” (1993). Restaurou e editou obras como o “Te Deum”, de Luiz Álvares Pinto (1968) e o “Memento Baiano”, de Damião Barbosa de Araújo (1970). Promoveu ainda a edição de “A Arte de solfejar”, de Luiz Álvares Pinto (1977). Fonte: Academia Brasileira de Música. Disponível em: http://www.abmusica.org.br/academico.php?n=rjayme-diniz&id=151. Acesso: 18/06/2016.

[15] Joaquim Xavier Curado (Meia Ponte, GO, 1743 – ?, 1830), Conde de S. João das Duas Barras, em 1825 era tenente-general do exercito. Serviu no Rio da Prata no comando das tropas brasileiras [na guerra da Cisplatina]. (BLAKE, 1883-1902, v4: 254).

[16] Dr. Vicente Navarro de Andrade, Barão de Inhomirim (Guimarães, Portugal, 1776 – Paris, 1850), doutor em medicina pela universidade de Coimbra, médico de D. Pedro I e professor da Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro (BLAKE, 1883-1902, v7: 367).

[17] D. José Caetano da Silva Coutinho, 8° bispo do Rio de Janeiro (Caldas da Rainha, Portugal, 1768 – Rio de Janeiro, 1833). Filho de Caetano José Coutinho, natural de Portugal, brasileiro por ter aderido à constituição do império, presbítero secular e bacharel em cânones pela universidade de Coimbra; nomeado bispo e capelão-mor do Rio de Janeiro, tomou posse em 28 de abril de 1808. Deputado constituinte e senador do império pela província de S. Paulo; do conselho de sua majestade o Imperador, grã-cruz da ordem da Rosa e comendador da de Cristo. Nomeado bispo, chegou ao Rio de Janeiro em 25 de abril de 1808. (BLAKE, 1883-1902, v4: 358-359).

[18] Dr. José Maria Cambucy do Valle, coautor do “Plano de organisação das escolas de medicina do Rio de Janeiro e Bahia. Para ser apresentado à Câmara dos Srs. Deputados pela Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, em satisfação ao convite que lhe foi feito pela mesma Câmara a 7 de outubro de 1830. Rio de Janeiro, 1831” Fonte: Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930)” Fonte: Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz / HOMEM, JOAQUIM VICENTE TORRES. Disponível em: http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/pt/verbetes/hojoaqvito.htm. Acesso: 31/5/2016

 

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