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Mãos dadas com a OSB

Todo mundo pode fazer algo para ajudar a Sinfônica Brasileira a superar sua crise e voltar a brilhar nos palcos.

 

Com 76 anos de existência, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) busca e lança nova alternativa para sair da crise financeira que a assola (anunciada em carta pública em meados deste ano): a estruturação, pela Fundação OSB, de uma política do endowment (que pode ser lida aqui) – um fundo patrimonial de origem filantrópica que vise garantir perenidade e sustentabilidade da orquestra. As principais características desse fundo foram apresentadas ao público no dia 23 de outubro, em evento ocorrido na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. O anúncio foi feito por Eleazar de Carvalho Filho, presidente da FOSB.

De acordo com Eleazar, cerca de um ano e meio foi dedicado a tratativas para a elaboração da política de endowment, envolvendo membros da Fundação e representantes do BNDES – haja vista a existência de prestação de contas pública (a uma comissão especial do Ministério Público Federal) e a possibilidade de uma auditoria independente para aferir critérios como economicidade e eficiência no uso dos recursos.

Em linhas gerais, qualquer tipo de doador (pessoa física ou jurídica) pode fazer aporte de recursos, a partir do valor mínimo de R$ 50.000, dedutíveis do Imposto de Renda. A proposta da criação do fundo dessa natureza, que já é adotado por diversas universidades norte-americanas e instituições brasileiras como Fundação Roberto Marinho e Instituto Moreira Salles, segundo Eleazar, permitir que a FOSB realize o resgate do rendimento líquido mensal, sempre preservando o montante inicial.

“Nossa aspiração é poder dar o pontapé inicial para a criação desse fundo, que dará frutos, por exemplo, em dez anos. A aplicação dos recursos do fundo será dada de forma conservadora, com baixos riscos. É um projeto de longo prazo para viabilizar parte dos recursos da orquestra”, afirmou o presidente da FOSB.

Apenas o endowment não suprirá as necessidades orçamentárias da orquestra – atualmente na faixa anual de R$ 40 milhões, de acordo com Eleazar -, em que a folha de pagamento constitui a maior fatia. Ainda segundo Eleazar, a bilheteria arrecadada em concertos – que equivale a um montante de 2% a 5% do orçamento – não se propõe a manter o conjunto, e a FOSB manterá a captação de recursos junto a empresas e instituições governamentais. “A existéncia de uma orquestra de qualidade é fundamental para a identidade de uma cidade, de um estado, de um país” , completou o presidente.

 

Orquestra de todos

Não são apenas aqueles que podem assinar um cheque de 50 mil reais que têm o poder de ajudar a OSB a voltar a brilhar em todo o seu esplendor. Todos nós podemos colaborar de alguma maneira.

Podendo ou não contribuir financeiramente com o conjunto pelo programa Nossa Orquestra Brasileira, é preciso falar da orquestra, respeitá-la, apoiá-la, prestigiá-la, cobrar do poder público soluções que viabilizem sua existência plena – quando é, por exemplo, que a Prefeitura fará da Cidade das Artes realmente a sede da OSB? – e, acima de tudo, comparecer aos concertos.

No mesmo domingo, 23 de outubro, a OSB apresentou-se no palco da Grande Sala da Cidade das Artes. O espaço, que tem capacidade para 1.250 pessoas, poderia estar mais cheio. E mais: poderia estar cheio com uma plateia realmente interessada, atenta e educada, e não daquela que mantém o celular ligado (gravando) durante movimentos inteiros, com a luz ofuscando o pobre espectador na fila de trás, ou que conversa sem parar (fazer silêncio não é falar baixo) enquanto os músicos tocam. Respeito por uma orquestra nos faz conscientes de como aquele conjunto de artistas é fundamental para o nosso desenvolvimento como civilização. “Sem a música, a vida seria um erro”, escreveu Nietzsche.

Alívio é saber que, mesmo diante das vicissitudes, a Sinfônica Brasileira mantém sua majestade. Jorrou talento e musicalidade das obras executadas nessa récita dominical. Malgrado o adiamento da estreia mundial, previamente divulgada, da obra À Noite, um Homem Sozinho Procura se Recordar, do compositor carioca Rodrigo Cicchelli (um anúncio antes do concerto afirmou que, devido a assembleias de músicos realizadas na semana anterior à apresentação, houve menos ensaios que o previsto e os músicos solicitaram o adiamento da estreia para poderem tocar a peça “como ela merece”), foi mantido o programa com Bach e Brahms.

O Concerto para dois violinos em ré menor, BWV 1043, de Johann Sebastian Bach – um dos melhores exemplos de composição do final do período Barroco – foi tocado com extrema sensibilidade, particularmente pelas solistas Anna Zelianodjevo (spalla da OSB) e Priscila Rato (também integrante da orquestra Johann Sebastian Rio). As violinistas demonstraram profunda harmonia musical, especialmente no segundo movimento (Largo, ma non tanto), cheio de sentimento. No terceiro movimento (Allegro), todo o grupo de cordas mostrou energia e coesão, sob a elegante e graciosa regência do maestro residente, Lee Mills.

O jovem regente norte-americano verdadeiramente comprovou seu crescimento profissional dos últimos anos na peça que se seguiu: a belíssima Sinfonia n. 4 em mi menor, Op. 98, de Johannes Brahms, a última e uma das obras mais brilhantes do compositor. Mills a regeu como uma valsa cheia de vigor e galhardia: cordas suntuosas, metais imponentes. Refinadas frases melódicas emergiram dos violoncelos no segundo movimento (Andante moderato). Os percussionistas, precisos. No quarto movimento (Allegro energico e passionato) – baseado na estrutura de uma passacaglia, inspirado em tema da Cantata BWV 150, de Bach -, destacou-se a beleza das madeiras presentes: flautas, oboés, clarinetes e fagotes. À frente do talentoso grupo, o talentoso maestro mantinha o sorriso no rosto e as mãos firmes.

Uma cidade sem uma orquestra é uma cidade faltante. A arte (especialmente a música), sempre, nos torna melhores do que somos. É preciso apoiar a Orquestra Sinfônica Brasileira neste momento de transitória fragilidade e caminhar com ela de mãos dadas para que seu fulgor volte a iluminar nossos palcos, nossas ruas e nossos corações.

OSB e Lee Mills nos agradecimentos
OSB e Lee Mills nos agradecimentos

 

Fotos: Paulo Mendonça

 

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com