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RA�mski-KA?rsakov na veia

BalA� Sheherazade A� o grande destaque de programa duplo no Municipal do RJ.

 

Dando sequA?ncia A� sua temporada artA�stica de 2016, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresenta, atA� este domingo de eleiA�A�es, 2 de outubro, um espetA?culo que reA?ne seus trA?s corpos artA�sticos: A�pera + BalA�, que abrange duas obras de curta duraA�A?o, a A?pera Mozart & Salieri e o balA� Sheherazade, ambos com mA?sica do compositor russo Nikolai RA�mski-KA?rsakov.

A�pera

O programa duplo no Municipal comeA�a com a A?pera. Em ato A?nico e duas cenas, sobre um libreto que utiliza, com pequenos cortes, o texto original da peA�a homA?nima de Aleksandr PA?chkin, a obra apresenta uma das versA�es que tentaram explicar a repentina morte do genial compositor austrA�aco Wolfgang Amadeus Mozart. Segundo essa versA?o, Mozart, autor de algumas das maiores obras-primas da histA?ria da mA?sica, teria sido envenenado por um colega de profissA?o, o italiano Antonio Salieri, que nutria ao mesmo tempo admiraA�A?o e inveja pelo gA?nio de Salzburg. Os estudos histA?ricos mais atuais, a propA?sito, indicam que tal versA?o nA?o passa de uma lenda.

FlA?vio Leite (atrA?s) como Mozart e Inacio De Nonno como Salieri
FlA?vio Leite (atrA?s) como Mozart e Inacio De Nonno como Salieri

A encenaA�A?o concebida por Daniel Herz atinge um resultado geral bastante eficiente, com destaque para o bom trabalho de direA�A?o de atores. Em sua estreia em palcos lA�ricos, o renomado diretor de teatro conta com o belo, simbA?lico e funcional cenA?rio de Fernando Mello da Costa, montado sobre uma estrutura circular giratA?ria, onde se destaca um enorme piano. Os belos figurinos de Marcelo Marques e a corretA�ssima iluminaA�A?o de AurA�lio De Simoni complementam uma encenaA�A?o competente.

Na rA�cita de 30 de setembro, doze membros do Coro do Theatro Municipal, preparados por JA�sus Figueiredo, estiveram bem em suas intervenA�A�es, cantando trechos do Requiem de Mozart. O violinista JosA� Lana, que surpreendeu o pA?blico que entrava no Municipal pela escadaria frontal, cumpriu bem a sua parte, antes e durante a A?pera, desafinando propositalmente.

Os dois protagonistas, o tenor FlA?vio Leite (Mozart) e o barA�tono Buy Inacio De Nonno (Salieri), estiveram sempre muito bem, sobretudo cenicamente, em uma A?pera que nA?o demanda grandes exibiA�A�es vocais, mas, sim, boa presenA�a e capacidade interpretativa. Nestes quesitos, o barA�tono ofereceu uma belA�ssima performance, expressando com refinada propriedade as diversas emoA�A�es experimentas por Salieri: admiraA�A?o, inveja, raiva e outras mais.

 

BalA�

Depois do intervalo, o balA�. NA?o me considero capacitado para escrever sobre balA�, e exatamente por isso limito meus comentA?rios quase sempre A�queles momentos em que a danA�a estA? incluA�da dentro de outro espetA?culo, geralmente uma A?pera. Apesar disso, hA? ocasiA�es em que me permito abrir exceA�A�es e, como leigo que sou, expressar a emoA�A?o proporcionada por um espetA?culo superlativo, como A� o caso de Sheherazade. Pills O leitor encontra aqui Order mais informaA�A�es sobre o resumo da aA�A?o.

Em uma performance que sA? merece elogios, o BalA� do Theatro Municipal, sob a direA�A?o do italiano Toni Candeloro, oferece ao pA?blico uma de suas melhores atuaA�A�es dos A?ltimos anos. Apesar de nA?o escrever sobre balA�, eu costumo frequentar quase todos os espetA?culos de danA�a protagonizados pela companhia da Casa, e fazia muito tempo que eu nA?o saA�a do Municipal, depois de uma noite de balA�, completamente encantado como saA� nessa sexta-feira.

A bailarina Priscila Albuquerque
A bailarina Priscila Albuquerque

Essa falta de encantamento em outras ocasiA�es talvez tenha sido causada pelos Lagos e, sobretudo, Quebra-Nozes bastante repetitivos, alA�m de outras coreografias menos inspiradas. No caso de Sheherazade, porA�m, sobram encanto e magia. Todos os bailarinos ofereceram no dia 30 uma noite de brilho e expressividade, em especial os solistas que interpretaram Zobeide e o Escravo Dourado: respectivamente Priscila Albuquerque e Moacir Emanuel.

A propA?sito, a identificaA�A?o dos solistas sA? foi possA�vel porque o Theatro Municipal divulgou a escalaA�A?o dos mesmos em sua fanpage cialis 20mg non generic no Facebook dois dias antes da estreia, porque o programa de sala nA?o traz essa informaA�A?o. NA?o A� a primeira vez que noto essa falha nos programas de sala do Municipal. Como diz a rapaziada hoje em dia: #ficaadica.

AlA�m dos bailarinos, merecem destaque ainda o magnA�fico cenA?rio e os nA?o menos exuberantes figurinos de LA�on Bakst (da estreia mundial em 1910), reproduzidos por Cristiane Luz e Manoel Puoci (cenA?rio) e CA?ssio Brasil, Sonja Gradel e PatrA�cia Sayuri Sato (figurinos). Aqui, a iluminaA�A?o de AurA�lio De Simoni Buy foi mais estA?tica, sem, no entanto, prejudicar em nada a produA�A?o.

 

A�pera + BalA� = Orquestra

Unindo a A?pera e o balA�, a Orquestra SinfA?nica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro Order , conduzida por seu titular, Tobias Volkmann.

A comparaA�A?o entre a mA?sica da A?pera e aquela do balA� A� inevitA?vel. A mA?sica da A?pera tem o seu interesse, mas a suA�te sinfA?nica na qual se baseia o balA� A� simplesmente uma obra-prima, com uma orquestraA�A?o magnA�fica, rica em coloridos e nuances. Exatamente por isso, foi muito acertada a decisA?o de Volkmann de interpretar o primeiro movimento da obra, que nA?o faz parte do balA� original, como uma espA�cie de “abertura” da noite. Assim, o pA?blico pode apreciar a suA�te completa, com uma pequena alteraA�A?o: o primeiro e o segundo movimentos em sequA?ncia, pouco mais de 20 compassos do quarto, o terceiro e, por fim, o restante do quarto movimento.

A SinfA?nica do Municipal escorregou aqui e ali ao longo da noite, mas apresentou, no geral, uma performance bastante satisfatA?ria, especialmente no balA�, no qual sobressaiu a dinA?mica empregada pelo regente. Os cA�lebres solos de violino em Sheherazade estiveram a cargo de Carlos Mendes, que, se nA?o foi perfeito o tempo todo, foi bastante musical.

 

A raridade das A?peras russas

Apresentar A?peras russas no Brasil era, atA� bem pouco tempo, coisa rarA�ssima. Esse quadro vem mudando desde o ano passado, quando os dois teatros lA�ricos de SA?o Paulo investiram no segmento: o Municipal paulistano montou uma A?pera de TchaikA?vski, enquanto o Theatro SA?o Pedro, uma de ProkA?fiev. Agora, em 2016, A� a vez do Municipal do Rio de Janeiro apostar em RA�mski-KA?rsakov.

A diferenA�a A� que os teatros de SA?o Paulo apresentaram A?peras russas em russo, enquanto o teatro carioca apresentou uma A?pera russa traduzida para o portuguA?s por Irineu Franco PerpA�tuo Purchase , um dos maiores especialistas brasileiros no idioma de PA?chkin. Sem querer, de forma alguma, desmerecer o trabalho do tradutor, que por acaso A� meu parceiro de tantas coberturas lA�ricas paA�s afora (jA? vimos vA?rias A?peras sentados lado a lado, ou no mesmo camarote, sempre trocando ideias e impressA�es), sou purista neste ponto: para mim, A?pera tem que ser cantada no seu idioma original (aquele para o qual a mA?sica foi pensada) ou, no mA?ximo, no seu idioma de tradiA�A?o (caso de Don Carlo, por exemplo, quase sempre cantado em italiano, apesar de ter sido concebido inicialmente em francA?s a�� e mesmo assim, revisto para o italiano pelo prA?prio Giuseppe Verdi).

De um jeito ou de outro, A� um prazer finalmente poder ouvir A?peras russas ao vivo no Brasil. E o mais curioso A� constatar que, em outros tempos, elas foram mais populares por aqui, como demonstra o histA?rico apresentado por Bruno Furlanetto no programa de sala. Que venham mais! Agora que a porteira foi aberta, vamos deixar a boiada passar.

 

Nota do Autor: os nomes russos neste texto foram escritos conforme o sistema de transliteraA�A?o elaborado por estudiosos da Universidade de SA?o Paulo (USP).

 

Fotos: JA?lia RA?nai

 

Leia tambA�m as crA�ticas deA� Order Fabiano GonA�alvesA�eA�Wellen Barros

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com