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Celeiro de orgulho e esperança

Em meio aos ensaios de O Boi e o Burro no Caminho de Belém, Academia de Ópera Bidu Sayâo mostra vitalidade em seu primeiro ano de existência.

 

Eles suam, correm e malham como se estivessem em uma verdadeira academia de ginástica. A diferença é os alunos da Academia de Ópera Bidu Sayão, ligada ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro, já estão alcançando resultados não na forma física, mas na saúde vocal. Muitas dessas conquistas poderão ser apreciadas em 2017, quando está prevista a estreia daópera O Boi e o Burro no Caminho de Belém, partitura inédita escrita pelo compositor carioca Tim Rescala a partir da peça de Maria Clara Machado. (A estreia ocorreria em dezembro de 2016, mas foi adiada duas vezes em função da crise no estado do Rio de Janeiro – saiba mais)

“A� uma A?pera muito inteligente, muito bem estruturada. Fiquei impactado com a qualidade da mA?sica a�� alA�m, A� claro, do texto”, comenta o tenor Eduardo A?lvares  , coordenador da Academia. Os ensaios com a diretora cA?nica CacA? MourthA�, sobrinha de Maria Clara Machado, comeA�aram no dia 11 de novembro, mas a preparaA�A?o vocal com A?lvares e com a maestrina Priscila Bomfim jA? vem ocorrendo hA? mais tempo. “Este primeiro ensaio A� um borrA?o. Com o tempo a gente vai acertando tudo”, tranquiliza CacA?, que jA? trabalhou com outras montagens de A?pera no prA?prio TMRJ (Pedro e o Lobo e O Cavalinho Azul, outro texto de autoria de sua tia).

Sob o olhar atento do coordenador e da regente (ao piano), os alunos fizeram exercA�cios dramA?ticos, ministrados por Junior Sampaio, diretor da companhia portuguesa Entretanto Teatro. “Um dos grandes ganhos da Academia, para mim, foi perceber a A?pera como um espetA?culo cA?nico e trazer ao palco meu lado ator para realmente interpretar com a voz”, conta o barA�tono FlA?vio Mello, que comeA�ou na mA?sica como pianista, passou a acompanhar cantores em funA�A?o de uma lesA?o e apaixonou-se pelo canto lA�rico. Esse “lado ator” jA? esteve em cena em outubro, quando FlA?vio participou da montagem de Lo Schiavo, de Carlos Gomes, apresentada no TMRJ. “Essa experiA?ncia foi muito construtiva. O senso de responsabilidade A� muito maior, pois o maestro nA?o A� o nosso professor da Academia. Temos de cantar com coro, orquestra e um elenco top. A� preciso disciplina, organizaA�A?o e profissionalismo pra chegar com a voz aquecida A�s nove da manhA?”, completa o carioca, que fez bacharelado em Canto na UniRio e pretende fazer mestrado na Alemanha.

Academia de A�pera Bidu SayA?o
FlA?vio Mello em cena em “Dido e EnA�as” (foto: JA?lia RA?nai)

 

Participar de montagens a�� do Theatro Municipal ou da prA?pria Academia a�� A� uma das atividades de formaA�A?o profissional A� qual a entidade se destina. A Academia de A�pera Bidu SayA?o foi criada em 2015 e comeA�ou a atuar em marA�o de 2016 como espaA�o formativo para novos artistas lA�ricos, por meio de residA?ncia artA�stica de atA� dois anos, com estudos vocais, cA?nicos e musicais. As atividades desenvolvidas incluem aulas, masterclasses, estudo de repertA?rio, ensaios e concertos, com trabalho focado na expressA?o musical e dramA?tica. AlA�m de Eduardo e Priscila, integram o corpo docente o bailarino JoA?o Wlamir, responsA?vel pela preparaA�A?o e expressA?o corporal, e Bruno Furlanetto, chefe da DivisA?o de A�pera do TMRJ, que responde pelos estudos de histA?ria da A?pera.

Na temporada 2016 do TMRJ, os integrantes desta primeira turma integraram, na condiA�A?o de alunos da Academia, os elencos das A?peras La BohA?me, de Puccini (o tenor Bruno dos Anjos http://dinamizacantabria.es/?p=15789 ), e Orfeu e EurA�dice, de Gluck (a soprano Luisa Suarez, indicada como uma das revelaA�A�es do ano no BalanA�o da Temporada 2016 do Movimento.com) a�� alA�m de FlA?vio em Lo Schiavo. As sopranos Michelle Menezes e Tatiana Nogueira devem integrar o elenco de JenA?fa, de JanA?A?ek a�� outro tA�tulo programado para 2016 mas adiado para 2017. JA? na sA�rie A�pera de CA?mara em Concerto, os cantores apresentaram as A?peras Serse, de Haendel (em maio), Savitri, de Holst (em agosto), Dido e EnA�as, de Purcell (em outubro), bem como de uma Cortina LA�rica, em setembro.

“Poder integrar a Academia A� uma grande oportunidade de conviver e ouvir grandes artistas, que tA?m muita bagagem a�� alA�m de participar das montagens do Municipal, observando e aprendendo com a prA?tica, uma atrA?s da outra”, conta Michele Menezes, que comeA�ou a cantar aos 8 anos no Coral Infantil da UFRJ, levada pela mA?e, e hoje jA? segue uma carreira profissional, com participaA�A?o em montagens como Parsifal, de Wagner (em Manaus), Anjo Negro, de J. G. Ripper (no Parque Lage, Rio de Janeiro), e Purchase A Menina das Nuvens, de Villa-Lobos (no Municipal, antes de ingressar na Academia).

 

“Bravo!” “Sem ralentar!” “Olha pra frente!” “Isso ai!” “Suave, pessoal!a�?

Cada detalhe do trabalho dos pupilos A� acompanhado de perto por Eduardo e Priscila, que nA?o poupam crA�ticas nem elogios. Para a maestrina e pianista portuguesa (que chegou ao Brasil no fim da dA�cada de 1980), “Todos os alunos se desenvolveram muito a�� emocional, musical e artisticamente a�� nesses oito meses de atividades da Academia. Isso A� notA?rio tambA�m para quem estA? de fora e vA? o crescimento deles. A� muito gratificante poder lidar com jovens artistas tA?o sedentos por conhecimento e arte”.

Priscila Bomfim e Eduardo A?lvares acompanham o ensaio (foto: Fabiano GonA�alves)
Priscila Bomfim e Eduardo A?lvares acompanham o ensaio (foto: Fabiano GonA�alves)

 

“Nosso principal desafio A� encaixar cada voz dentro do que ela pode realmente oferecer”, explica Eduardo, cantor com 40 anos de carreira a�� a maioria dos quais passados na Europa, exceto por ocasiA�es como uma Tosca no TMRJ, com Ida Miccolis, e a cA�lebre montagem de AA�da, dirigida por Fernando Bicudo e estrelada por Aprile Millo, tambA�m na Casa lA�rica carioca. “A maioria dos alunos estuda a sA�rio e hA? no grupo alguns com potencial para fazer carreira a�� especialmente os mais abertos a crA�ticas e os que brilham no palco porque tA?m o pacote do artista. Mas todos estA?o aprendendo, e nA?s tambA�m”, orgulha-se.

Uma das que espera que a Academia possibilite seu ingresso no mercado A� a mezzo-soprano paranaense Cintia Graton. Depois de uma trajetA?ria em Curitiba como cantora de MPB, veio para o Rio de Janeiro em 2008 e, apA?s aulas na UniRio, A� professora do EstA?dio Voce, no qual atua ao lado de sua ex-professora Mirna Rubim. “Eu sempre corri atrA?s de trabalho, especialmente aqui no Rio. A Academia de A�pera A� um investimento muito rico. Viver neste ambiente e cantar neste palco sA?o experiA?ncias incrA�veis, alA�m de grande vitrine. Isso A� um desafio e uma alegria”, declara. E sentencia: “Eu amo cantar. Espero sA? parar quando nA?o puder mais cantar”.

Quem nA?o parou de trabalhar um minuto sequer durante o ensaio de O Boi e o Burro no Caminho de BelA�m foram exatamente o Boi e o Burro: o baixo Leonardo Thieze e o tenor Guilherme Moreira, respectivamente. ApA?s o aquecimento de Junior Sampaio, CacA? e a diretora assistente Symone Strobel foram construindo as cenas com o grupo de cantores, de forma lA?dica e leve a�� como a ciranda que surgiu em determinado momento. Mas os protagonistas permaneceram o tempo todo de prontidA?o, sendo orientados cA?nica e vocalmente. Incorporaram algumas dicas, tinham dificuldade em outras, mas buscavam sempre, com o olhar, a aprovaA�A?o dos mestres.

“Fico atento ao Eduardo porque, como tenor, ele sente na pele os meus problemas”, diz Guilherme, um dos mais jovens do grupo (20 anos). O aluno que queria ser professor e estudava violA?o como os irmA?os mais velhos, mesmo “sem levar muito jeito”, entrou no primeiro coral aos 13 anos. “Acabei fazendo canto na Faetec em Quintino e hoje faA�o Canto na UFRJ. Vim pra Academia sem muita expectativa, por indicaA�A?o do meu professor Inacio de Nonno. Vim para aprender mais sobre A?pera, assunto sobre o qual ainda nA?o sei tanto”, confessa Guilherme. “A faculdade tambA�m prepara para o mercado, assim como a Academia a�� entA?o cheguei mais calejado. NA?o tenho medo de puxA�es de orelha e cobranA�as”.

Dono de uma voz brilhante e poderosa, Guilherme ainda nA?o tem certeza sobre seu futuro profissional: talvez a docA?ncia, talvez a carreira lA�rica, talvez ambas. “Mas tenho muitas ideias. Estou ‘consumindo’ A?pera aqui com as dicas dos professores. Uma coisa eu sei: adoro mA?sica brasileira e cantar em portuguA?s. A� prazeroso. Acho que estA? no meu sangue”, diz.

A diretora CacA? MourthA� prepara os cantores Leonardo Thieze (de frente) e Guilherme Moreira (foto: Priscila Bomfim)
A diretora CacA? MourthA� prepara os cantores Leonardo Thieze (de frente) e Guilherme Moreira (foto: Priscila Bomfim)

 

Sangue novo

Os alunos que estA?o atualmente em curso poderA?o ser convidados a mais um ano de atividades, mas foram abertas tambA�m, atA� 9 de dezembro, inscriA�A�es para o ano letivo de 2017. As audiA�A�es dos prA�-selecionados devem comeA�ar em meados de janeiro de 2017. Participaram do processo seletivo cantores de 18 a 35 anos e a�� novidade! a�� pianistas de 18 a 30 anos. “O pianista solista A� solitA?rio, mas o correpetidor tem de saber interagir, com tranquilidade, com o mundo A� sua volta a�� maestro, diretor, cantores. Esse profissional precisa de habilidades especA�ficas, como conhecimentos de estilo musical, respiraA�A?o do cantor, dicA�A?o de cada idioma, para citar algumas”, explica Priscila.

A maestrina demonstra orgulho pelos pupilos e esperanA�a na Academia: “Temos o objetivo de ampliar os recursos do que vamos oferecer aos alunos cantores e pianistas no prA?ximo ano. Afinal, este A� o espaA�o para dar a eles a vivA?ncia de um teatro de A?pera, que sA? se ganha em um teatro de A?pera!”.

Orgulho das conquistas e esperanA�a de crescimento contA�nuo nA?o faltam a�� nem em meio aos docentes, nem entre os alunos. “A Academia de A�pera Bidu SayA?o A� uma inovaA�A?o no Rio de Janeiro. Estar sempre fazendo A� o melhor jeito de aprender. NinguA�m A� tA?o bom que nA?o possa melhorar”, diz Michele Menezes, com um sorriso.

 

Integram a Academia de A�pera Bidu SayA?o, alA�m dos cantores mencionados no texto, as sopranos Luiza Lima , as mezzo-sopranos Lara Cavalcanti e Vivian Delfini, o tenor Leonardo Feitosa, e o baixo CA�cero Pires.

 

Foto do post: Priscila Bomfim

 

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com