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Artistas inesquecíveis – Maria Lúcia Godoy – soprano

“Sua voz, quando ela canta, me lembra um pássaro, mas não um pássaro cantando, lembra um pássaro voando”.

Foi outorgado, no dia 15 de setembro de 2016, à cantora Maria Lúcia Godoy, o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade Federal de Minas Gerais. A indicação da cantora ocorreu paralelamente à indicação do pianista Nelson Freire, que receberá o título em dezembro. Essa honraria, a maior da UFMG, faz parte das comemorações dos 90 anos dessa instituição. Rito raro em nossa universidade, contamos até hoje com apenas 20 nomes indicados para o título de Doutor Honoris Causa. O nome de Maria Lúcia permanecerá ao lado de personalidades como José Saramago, Juscelino Kubitschek, Desmond Tutu e Carlos Chagas Filho, entre outros.

 

DADOS BIOGRÁFICOS

Sua voz, quando ela canta, me lembra um pássaro, mas não um pássaro cantando, lembra um pássaro voando”. A frase é do poeta Ferreira Gullar (1930), e seu objeto de admiração é o soprano Maria Lúcia Godoy. Nascida em 1924, mineira, natural de Mesquista, no Vale do Aço, Maria Lúcia Godoy tem hoje, assim como a Escola de Música da UFMG, 90 anos. Tendo alçado voos distantes com o seu canto, é reconhecida pela classe artística como uma das maiores intérpretes da canção de câmara brasileira, gênero que recebeu dedicação exclusiva por parte da cantora em mais de sete décadas de trabalho profissional.

É a música seu sacerdócio, sua paixão, seu amparo e sua vida. É impossível não se envolver com as cores do seu canto, ao encanto do seu som que nos abraça e conduz para uma experiência única e inesquecível. Maria Lúcia é reconhecida como a melhor cantora brasileira de sua geração. Para muitos, no entanto, é a maior cantora brasileira. Não apenas desenvolveu uma carreira constante, laureada, mas sua técnica vocal, reconhecida como perfeita pela crítica especializada, muito auxiliou o interesse e ainda a divulgação do repertório nacional da canção de câmara para os próprios brasileiros e também para o mundo. Maria Lúcia Godoy é reconhecida como emblema das canções eruditas escritas em português, sendo referência para intérpretes que visam uma dicção perfeita na difícil arte do canto lírico.


Primeiros anos

Maria Lúcia mudou-se ainda criança para Belo Horizonte, onde iniciou seus estudos musicais com Honorina Prates (s.d.). Aos 15 anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro onde estudou canto com Pasquale Gambardella. Posteriormente, foi aluna de Margueritte von Winterfeld (1902-1978), na Alemanha. No Rio de Janeiro, ganhou cinco concursos de canto lírico consecutivos, entre os quais o famoso Lorenzo Fernandez, em 1951.

De volta a Belo Horizonte, em 02 de fevereiro de 1956, fez o primeiro concerto com o coral Madrigal Renascentista, grupo com trajetória única em Minas Gerais e no Brasil, que projetou o nome de um dos maiores regentes brasileiros: Isaac Karabtchevsky (1934). Sua atividade, como solista no coral Madrigal Renascentista, se deu tendo já a artista cantado em óperas apresentadas pela Sociedade Coral de Belo Horizonte . Logo, em 1958, apoiada pelo então presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902-1976), viajou para a Europa, como principal solista do Madrigal Renascentista, dando início à sua carreira internacional.

Estreia de Maria Lúcia Godoy com Bidu Sayão no Carnegie Hall
Estreia de Maria Lúcia Godoy com Bidu Sayão no Carnegie Hall

Sua estreia nos Estados Unidos foi no Carnegie Hall, em 1967, em New York, onde cantou a Bachianas n. 5, de Heitor Villa-Lobos, acompanhada pelo maestro Leopold Stokowski (1882-1977) à frente da American Symphony Orchestra, tendo assegurado, na plateia, audiência de personalidades como Leonard Bernstein (1918-1990). Sobre o concerto no Carnegie Hall, Godoy recebeu de Stokowski a seguinte crítica: “Não apenas a beleza da voz, mas uma interpretação criadora. Uma artista!”.

Após a realização de sua estreia nos Estados Unidos, Maria Lúcia foi reconhecida pela também importante cantora brasileira, Bidu Sayão (1902-1999), como sua “única sucessora”. Tal comentário aconteceu nos Estados Unidos, quando Maria Lúcia foi apresentada à grande Bidu pelas mãos da poetisa Dora Vasconcelos (1911-1973), e após Bidu ter escutado a cantora mineira interpretar a Bachianas n. 5, de Heitor Villa-Lobos.

 

 

Carreira internacional

A partir de seu contato com Stokowski, Godoy cantou com a Philadelphia Orchestra, no Lincoln Center, partindo em turnê americana de costa a costa, obtendo grande sucesso de público e crítica. Destacamos dois concertos realizados e documentados.

O primeiro ocorreu no dia 3 de abril de 1967, no Carnegie Hall, onde o seguinte repertório foi apresentado ao público:

Maria Lucia Godoy / American Symphony Orchestra
Villa-Lobos: Uirapuru
Villa-Lobos: Serestas: n. 8: Canção do Carreiro
Ibert: Escales
Villa-Lobos: Bachiana Brasileira n. 5: Aria (2nd version)
Bernstein: Symphony n. 1 – Jeremiah
Ravel: Scheherazade

O segundo, aconteceu no dia 3 de novembro de 1967, na Academy of Music, na cidade de Filadélfia. O programa apresentado, tendo, além de Maria Lúcia Godoy, a participação do soprano Veronica Tyler (s.d.), apresentou as seguintes obras:

Bach: Magnificat in D major BWV 243: n.1: Magnificat anima mea
Bach: Magnificat in D major BWV 243: n.2: Et exsultavit spiritus meus
Bach: Magnificat in D major BWV 243: n.3: Quia respexit humilitatem
Bach: Magnificat in D major BWV 243: n.12: Gloria Patri
Mahler: Symphony n.2 in c minor – Resurrection

A cantora se apresentou, ao longo de sua carreira, em países da Europa como França, Espanha, Alemanha e Holanda. Cantou em mais de 30 cidades no Japão, entre as quais, Tókio, Kioto e Mebashi. Foi solista em concertos no Oriente Médio e na América Latina, sempre apresentando obras brasileiras. Foi regida por nomes como Isaac Karabtchevsky, Henrique Morelenbaum (1931), Mário Tavares (1928-2003), Johannes Hoemberg (s.d.) e Roberto Duarte (1941).

Suas participações como soprano solista aconteceram em orquestras de renome internacional como a English Chamber Orchestra, a Orchestre Philharmonique de Monte-Carlo, a Houston Symphony, a Contrapuncti Music Orchestra, a Detroit Symphony Orchestra, a Tulsa Philharmonic, a Pro Musik Orchester de Colonia, além das principais orquestras brasileiras, dentre elas a Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e a Orquestra de Câmara Pró-Música.

Das diversas críticas internacionais que recebeu, selecionamos três. A primeira, do jornal Courant, em Haia, Holanda, que registrou sobre a cantora: “Ela chegará a ser uma das mais sensacionais cantoras que nos seja dado ouvir”. A segunda, publicada pelo jornal Washington Post conta que “No concerto de ontem, ela se cobriu de glória”. Por último, publicada pelo The Philadelphia Inquirer, após sua apresentação com a Philadelphia Orchestra, interpretando a Segunda de Gustav Mahler: “Ao interpretar a Sinfonia n. 2, de Mahler, com a Philadelphia Orchestra, seu estilo foi sonhadamente extraterreno e sua facilidade em flutuar nas longas frases e sua surpreendente musicalidade foram comoventes. A qualidade da voz, veludo“. (GODOY, 2014, p. 92)


Inspiração para compositores brasileiros

Maria Lúcia Godoy com Waldemar Henrique
Maria Lúcia Godoy com Waldemar Henrique

Maria Lúcia Godoy foi musa inspiradora de grandes compositores brasileiros como Waldemar Henrique (1905-1995), Carlos Alberto Pinto Fonseca (1933–2006), regente fundador do Ars Nova – Coral da UFMG, e Francisco Mignone (1897-1986), que dedicaram a ela diversas obras. Sempre atuando em prol da interpretação e da divulgação do canto lírico em língua vernácula, participou da estreia da ópera Tiradentes, de Manoel Joaquim de Macedo (1847-1925), em 1992. Citamos ainda a canção Mãe d’água, composta por Guerra-Peixe (1914-1993) em 1969, especialmente para o disco Maria Lúcia Godoy e o canto da Amazônia.

Sobre sua atuação como solista à frente de estreias de obras brasileiras e também de primeiras audições de obras internacionais em solo brasileiro, citamos: “(…) participou de inúmeras primeiras audições, tais como: Let’s make an Opera, de Benjamin Britten; Romeu e Julieta e Infância de Cristo, de Hector Berlioz; Procissão das Carpideiras, de Lindembergue Cardoso; O Canto Multiplicado, de Marlos Nobre (dedicado à cantora); Canto Ants, de Rufo Herrera; Heterofonia do Tempo, de Fernando Cerqueira; Poesia em Tempo de Fome, de Willy Corrêa de Oliveira; Canticum Naturale e Romance de Santa Cecília, de Edino Krieger; Agrupamento em 10, de Cláudio Santoro; e A Floresta do Amazonas, de Villa-Lobos“. (GODOY, 2014, p. 54)


Outros talentos

Capa do livro: Ninguém parou na primavera
Capa do livro: Ninguém parou na primavera

A trajetória dessa artista, exemplo de puro talento e profissionalismo, começou cedo com suas declamações poéticas em saraus realizados pela família Godoy em Belo Horizonte. Mais tarde, já graduada em Letras Neolatinas pela UFMG, foi cronista do jornal Estado de Minas por onze anos, revelando fina sensibilidade literária, escrevendo semanalmente suas crônicas.

Poetisa, Godoy teve parte de sua obra publicada nos seguintes títulos de livros de poemas da autora: Ninguém reparou na primavera – Editora Lê, 1985; Um passarinho cantou – Editora Rio Gráfica, 1985;  Fruta no pé – Editora Lê, 1985; O boto cor-de-rosa – Editora Lê, 1987.

 

 

 

 


O canto de Maria Lúcia Godoy em passagens de nossa história

Convidada pelo então presidente Juscelino Kubitschek, Maria Lúcia cantou na inauguração de Brasília, e posteriormente, durante o funeral desse ex-presidente, emocionou a todos ao interpretar a serenata mineira É a ti, flor do céu. Maria Lúcia Godoy recebeu de Juscelino Kubitschek um dos maiores elogios quando o idealizador de Brasília escreveu sobre ela: “A mais bela, a mais comovente, a mais importante voz deste país”.

Outro presidente da República que também reconheceu o talento de Maria Lúcia foi Trancredo Neves (1910-1985), com o comentário: “Quando ela canta é o coração de Minas que se externa, é a própria Minas Gerais que se encontra num momento dos mais altos de sua poesia, de sua beleza e do seu encantamento. Maria Lúcia Godoy está, na minha lista particular, entre as dez maiores personalidades brasileiras, pelo muito que vem realizando pela nossa música“. (GODOY, 2014, p. 27)

Presente em momentos importantes da história do nosso país, em 1972, Maria Lúcia cantou no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, na época e local em que ocorreu o traslado dos restos mortais do imperador D. Pedro I (1798-1834) para o Brasil.


A voz

Capa do disco: 14 serestas de Villa-Lobos
Capa do disco: 14 serestas de Villa-Lobos

Foi com sua voz que se realizou a famosa e definitiva gravação da obra Bachianas Brasileiras n. 5, de Heitor Villa-Lobos, composta entre os anos de 1938 a 1945. Além dessa obra, a cantora gravou outras obras do compositor carioca, conquistando o reconhecimento do público e do meio artístico como sua maior intérprete. Sua dedicação à canção brasileira de câmara pode ser comprovada com a gravação de, ao todo, dezesseis discos nomeados a seguir:

1 – Maria Lúcia Godoy e o canto da Amazônia (1969), Museu da Imagem e do Som;
2 – Maria Lúcia Godoy interpreta Villa-Lobos (1977), Polygram/Philips;
3 – Cantares de Minas (1982), Philips;
4 – 14 Serestas de Villa-Lobos (1983), Polygram;
5 – Maria Lúcia Godoy e a canção popular brasileira e napolitana (1979), Philips;
6 – Fructuoso Vianna na interpretação de Maria Lúcia Godoy e Miguel Proença (1984), Arsis;
7 – Maria Lúcia Godoy canta poemas de Manuel Bandeira (1968), Museu da Imagem e do Som;
8 – 15 canções de Hekel Tavares canta Maria Lúcia Godoy (2008), Independente;
9 – Floresta do Amazonas – solista: Maria Lúcia Godoy (1988) Edição do Banco do Brasil;
10 – Maria Lúcia Godoy canta Brasil-Itália (2006) Ministério da Cultura/CEMIG;
11 – Maria Lúcia Godoy – Momentos (1985). Comemorativo dos 60 anos do jornal Estado de Minas;
12 – Mahler: Symphony n. 2 – Resurrection. Solista: Maria Lúcia Godoy (1967), gravação ao vivo, lançada pela Arkadia em 1995;
13 – Marlos Nobre: Orchestral, Vocal, Chamber Works. Solista: Maria Lúcia Godoy (1995), Leman Classics;
14 – A canção brasileira: Maria Lúcia Godoy e Maria Lúcia Pinho (1980), CBS;
15 – Composições de Paurilo Barroso (s.d.) Governo do Ceará;
16 – Maria Lúcia Godoy: Modinhas imperiais (2003), Ministério da Cultura.


Outros destaques

A artista foi retratado por nomes como Inimá de Paula (1918-1999) e Delpino (1864-1942), entre outros.

Maria Lúcia Godoy em retrato de Inimá de Paula
Maria Lúcia Godoy em retrato de Inimá de Paula

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria Lúcia Godoy em retrato de Alberto Delpino
Maria Lúcia Godoy em retrato de Alberto Delpino

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria Lúcia Godoy também foi celebrada pelo grande poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902–1987), que em 1975 escreveu:

Lembrar as serras de Minas,
Demolidas, como dói!
Mas me consolo se escuto
Maria Lúcia Godoy

Foi-se o ferro de Itabira?
Ouro não se destrói!
Está na voz da mineira
Maria Lúcia Godoy. (GODOY, 2014, p. 17)

Sua arte a levou ainda para o cinema, tendo participado, como atriz, de filmes como Os Senhores da Terra (1970), de Paulo Thiago; Navalha na carne (1997), de Neville de Almeida; Poeta de 7 faces (2002), de Paulo Thiago, e Glauber, o filme – Labirinto do Brasil (2003), de Sílvio Tendler.

Sua trajetória artística é sempre reconhecida por outros artistas, que a reverenciam com o respeito pelo muito que fez pela arte, mais especificamente pela música. Para o compositor espanhol Xavier Montsalvatge (1912-2002), a técnica de Maria Lúcia possuía: “Uma escola vocal rigorosamente cultivada, um sentido refinado da expressão e uma voz agradável, bela em todos os registros e capaz de chegar às mais deliciosas sutilezas de matiz, contrastando um colorido lirismo com uma graça especial nos filados de emissão“.

Para o maestro Sandino Hohagen (1937), que esteve à frente do coral Madrigal Renascentista quando da saída do maestro Karabtchevsky: “Maria Lúcia Godoy é um capítulo à parte. Primeiro ela é e sempre foi muito mais do que uma cantora. Eu não sei como classificá-la. O meu período de trabalho com o Madrigal Renascentista foi algo de grande importância. Eu estava voltando da Venezuela, onde tinha passado três anos, e fui convidado para dirigir o grupo. Ela fez um grande trabalho pelo desenvolvimento musical. Mulher de grande sensibilidade, foi e creio que continue a ser importante no desenvolvimento musical do país“.


Reconhecimento

Livro: Guardados de Maria Lúcia Godoy
Livro: Guardados de Maria Lúcia Godoy

Citada por presidentes, celebrada pelo público, pela mídia e pela crítica especializada, Maria Lúcia Godoy tem recebido ao longo de sua trajetória artística diversos reconhecimentos, entre eles: a Medalha Juscelino Kubitschek, que recebeu em Ouro Preto, a condecoração com a Grande Cruz da Inconfidência, que é conferida pelo governo de Minas Gerais a seus mais eminentes expoentes e dignitários; a Medalha de Honra, em 2002, como ex-aluna da UFMG; e a Medalha de Honra ao Mérito Cultural, recebida em 2009, pelas mãos da presidente Dilma Rousseff, na ocasião das comemorações do cinquentenário de morte do compositor Villa-Lobos.

Com talento também para ensinar sua arte, Maria Lúcia foi professora de canto, com especial destaque nessa área para o convite feito pela Universidade Tokyo-Geddai, quando de sua estada no Japão, para ministrar aulas de interpretação de música brasileira, com enfoque nas canções de Villa-Lobos.

Em 2014, foi lançado o livro Guardados de Maria Lúcia Godoy, pela Sesi-SP Editora, trabalho que contém dados biográficos sobre a vida e a obra da artista.

Em maio de 2016, Maria Lúcia Godoy recebeu o Troféu JK de Cultura e Desenvolvimento de Minas Gerais, promoção da revista Mercado Comum e da FIEMG – Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais. Sempre atuante, a cantora prepara atualmente um CD com acalantos, a ser lançado brevemente.

 

 

 

Colaboração de Mauro Chantal
Professor Adjunto da Escola de Música da UFMG

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Mauro Chantal
Doutor em música pela UNICAMP, atua como docente na área de canto lírico na Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.