CríticaLateralÓperaSão Paulo

“Un prodigio, in verità!”

cheap prozac Montagem de Order online Don Giovanni, no Theatro São Pedro, em SP, merece elogios.


Um prodígio: o termo usado pelo servo Leporello quando está à beira de ser agredido por Don Ottavio, Donna Anna, Donna Elvira, Masetto e Zerlina em um sexteto cantado no 2º ato da ópera Don Giovanni, de Mozart pode também ser empregado – feitas as devidas ressalvas – à produção desta magnífica obra a que assistimos no dia 28 de outubro, no Theatro São Pedro, em São Paulo. Tais ressalvas se devem ao atual contexto de crise enfrentado pelo universo operístico em nosso país: as produções estão escassas e os maiores teatros brasileiros têm encenado um número cada vez menor de títulos.

Diante desse quadro, só podemos elogiar a corretíssima montagem do São Pedro, sob a direção cênica de Mauro Wrona Cheap , que possui numerosas qualidades: em uma concepção extremamente simples, com cenários altamente funcionais de Nicolás Boni, os quais empregam três obras do espanhol Francisco Goya (A Romaria de Santo Isidro, O Verão cialis black 800mg cheapest e Saturno Devorando seu Filho), iluminação eficiente de Caetano Vilela e figurinos corretos de Fábio Namatame, foi levada ao palco uma produção que surpreendeu positivamente pela economia de recursos. A trama foi contada sem quaisquer barreiras que impedissem o espectador inexperiente de compreender inteiramente o que se passava em cena. Por outro lado, aqueles que já assistiram a diversas montagens da ópera não se decepcionaram.

De se ressaltar, também, a muito bem-sucedida escolha dos cantores que se apresentaram na montagem. Todos, sem exceção, atuaram muito bem, destacando as características de cada personagem. Vimos Donna Anna e Don Ottavio sempre muito formais. A primeira, uma imponente dama da nobreza, separada dos demais mortais por uma espécie de redoma que só foi maculada na primeira cena, quando Don Giovanni tenta violá-la sexualmente. Já Don Ottavio comportou-se como um sujeito praticamente invisível (propositalmente, se considerarmos os objetivos do diretor), incapaz de esboçar qualquer reação enquanto sua amada era alvo dos incômodos galanteios de Don Giovanni, supostamente disposto a “derramar o próprio sangue” para perseguir o “indivíduo cruel que ousou perturbar a paz” de tal dama – ironicamente, o próprio Don Giovanni.

Donna Elvira, por sua vez, parecia ser uma mulher em constante desequilíbrio, irrompendo em cena de quando em quando para mais uma vez surpreender seu amado em algum flagrante ato de libertinagem, mas prostrando-se aos seus pés na cena do banquete, sempre disposta a perdoá-lo. Masetto foi retratado como um camponês bobalhão, facilmente enganado pela oportunista Zerlina, que de boba nada tinha. O Comendador, cuja participação em cena é mínima, representou a punição divina aos atos pecaminosos do protagonista. Leporello foi retratado como o servo ora grosseiro, ora finamente irônico, que interagia com a plateia ao comentar com certo prazer as peripécias do patrão, que odeia e admira ao mesmo tempo: seu maior desejo é ser, um dia, como ele (embora saiba que jamais será). De Don Giovanni, o protagonista, falaremos mais adiante. Além de excelentes atores, os artistas empregados, igualmente sem exceção, têm vozes adequadas aos papéis que interpretaram, inclusive com boa diversidade de timbres.

Parte do elenco de “Don Giovanni”

 

Nesse aspecto, nossos sinceros elogios ao regente Cláudio Cruz, responsável pela seleção dos cantores, e que soube conduzir com muita competência a jovem Orquestra do Theatro São Pedro, bem como o também jovem Coro. Cruz escolheu andamentos mais ágeis, sem errar a mão em trechos onde muitos regentes se perdem, como na ária Finch’han dal vino (permitiu que o cantor pronunciasse com clareza todas as palavras, o que nem sempre ocorre), e soube destacar alguns dos pontos mais emblemáticos da partitura (como o funéreo acompanhamento que sublinha as passagens do Comendador). Houve, de fato, pequenos lapsos aqui e ali (trechos em que a orquestra encobriu os cantores, escorregões na afinação dos instrumentos e dos vocalistas, etc…), mas nada que não tenha sido plenamente compreensível em uma performance ao vivo, sobretudo em uma estreia. Os que querem perfeição absoluta podem procurar gravações feitas no conforto dos estúdios, com toda uma tecnologia à disposição.

No que diz respeito à atuação dos cantores, em seu aspecto vocal, há muito o que de destacar. Anderson Barbosa encarnou (e, vá lá, desencarnou…) um Comendador imponente: voz de excelente projeção, volumosa, sombria nas cenas do cemitério e do banquete, com bons graves e agudos que não soaram forçados. Assim como Gustavo Lassen Viagra Soft order cialis black 800mg cheap , que interpretou Masetto, é um cantor a se acompanhar. Acerca desse último, em que pese ter interpretado um papel que por si só é bastante limitado (campônio contemplado com apenas uma ária, a qual está longe de ser uma das melhores coisas que Mozart escreveu), mostrou possuir uma bela voz de baixo, com projeção adequada, além de boa presença cênica, atributos que o habilitam a alçar em uma próxima montagem o papel do protagonista nessa mesma ópera.

O Don Ottavio de Caio Duran foi uma agradável surpresa: propositalmente, Duran foi o arquétipo do personagem que quase não é notado em cena. Por mais paradoxal que isso pareça, esse foi seu grande mérito. Afinal, Don Ottavio deve ser o oposto de Don Giovanni: esse último é venal, irresponsável, devasso, enquanto que o primeiro é um altar de moralidade (e de chatice, não se pode negar). Então, a única possibilidade que o cantor tem de se destacar é por meio da voz, e isso Duran felizmente conseguiu: tenor lírico com voz ligeiramente metálica, com habilidade e coragem suficientes para encarar Dalla sua pace e Il mio tesoro, Duran manteve a regularidade ao longo de toda a récita, demonstrando ter estudado com atenção a partitura.

Saulo Javan foi Leporello: já há algum tempo não é mais necessário empregar muitas linhas para descrever os reconhecidos atributos cômicos desse consagrado artista, sempre muito à vontade em papéis para baixo buffo. Possuidor de voz com excelente volume, interpretou com exemplar clareza os recitativos e divertiu o público presente, que foi brindado com uma grande interpretação da Ária do Catálogo.

Carla Cottini, a quem coube o papel Zerlina, possui boa técnica vocal e cênica. Típica voz de soubrette, não lhe faltarão oportunidades nesse repertório se souber conduzir com sabedoria sua própria carreira. Interpretou de modo muito correto suas duas árias e saiu-se muito bem no dueto Là ci darem la mano, um dos pontos altos da noite. Já a Donna Elvira de Pills http://autoczescikielce.com.pl/?p=30357 Luciana Bueno, que como Saulo Javan já ostenta em seu currículo um número mais do que suficiente de êxitos profissionais, destacou-se sobretudo pela intensidade em cena. A cada intervenção sua, Bueno trazia o tumulto para o palco. Soube também ser patética ao defender seu pretenso marido (na realidade, Leporello), bem como ao implorar para que Giovanni abandonasse a vida libertina quando a ópera já se encaminhava para o seu final. Vocalmente, destacou-se pelo timbre privilegiado, sobretudo na zona mais grave de seu registro, e também pela forma como expressou os sentimentos da personagem na ária cheap nimotop tablet Mi tradì, quell’alma ingrata, interpretada com muito pathos.

Deixamos para o final, de propósito, dois cantores. Que privilégio foi assistir à Donna Anna de Rosana Lamosa! Uma verdadeira aula de compreensão do idioma mozartiano. Cantou com muita elegância, empregando um fraseggio sempre refinado. Sua musicalidade também se expressou por meio do domínio da complexa ornamentação united states cialis online (fioriture) em Non mi dir, bell’idol mio, mantendo ainda o controle da afinação em todo o tempo. Ademais, como já foi dito antes, em cena parecia estar sempre em um universo à parte – exatamente como exige o libreto de Lorenzo da Ponte.

Don Giovanni foi interpretado por Leonardo Neiva. Ou melhor: pode-se dizer que, em cena, Neiva é Don Giovanni. Raras vezes presenciamos uma atuação em que a parte cênica e a parte vocal caminharam tão bem juntas. O personagem, vale dizer, é um presente para qualquer bom intérprete, uma vez que permite as mais diversas abordagens. E o cantor soube aproveitar muito bem esse potencial. O libretista define Giovanni como um “jovem cavalheiro, extremamente libertino”. Assim se comportou Neiva: sua libertinagem não se restringiu apenas à devassidão sexual: estendeu-se à indecência moral. Don Giovanni comporta-se como um sociopata ao lidar com os sentimentos de Donna Anna, oferecendo-lhe ajuda como se seu amigo fosse; ao ignorar solenemente a presença de Don Ottavio; ao espezinhar Elvira, Leporello e Masetto; ao tratar Zerlina como mais um brinquedinho sexual; ao rejeitar a derradeira chance de arrependimento oferecida pelo Comendador. Com efeito: nem mesmo o sobrenatural o comove.

Leonardo Neiva e Saulo Javan

 

Giovanni é, como descreveu Kierkegaard, a materialização do desejo, o desejo em ato: “somente enquanto deseja, Don Giovanni se encontra em seu elemento”. Assim, o espectador sente, na maior parte do tempo, raiva do personagem, pois tais condutas são socialmente reprováveis. Contudo, sendo o ser humano uma criatura que vive a se contradizer, ao mesmo tempo que sente tal raiva, o espectador também admira o protagonista: as mulheres se sentem atraídas – e, porque não, seduzidas – por ele, enquanto os homens o invejam, imaginando como seria ser Don Giovanni, mesmo que por apenas alguns momentos. Toda essa intensidade esteve presente na interpretação de Leonardo Neiva. Vocalmente, o barítono se saiu muito bem: bons graves, agudos brilhantes, bonito timbre, pastoso e homogêneo. Cantou com slancio a chamada Ária do Champagne (Fin ch’han dal vino Viagra Soft online ), ajudado pela excelente escolha de andamento feita pelo regente, e com sutileza a serenata Deh, vieni ala finestra.

Tal como se vê nas três pinturas que Max Slevogt (o leitor encontra mais informações aqui, em inglês) Pills fez do barítono português Francisco d’Andrade (um dos grandes intérpretes de Don Giovanni no início do século 20), Neiva foi um intérprete multifacetado: sedutor no dueto com Zerlina e na já citada serenata, libertino e arrogante nas cenas passadas em sua casa, mostrou-se aterrorizado apenas ao ser tragado pelo coro de demônios na cena final (mas nunca arrependido). E, aqui, cabe uma breve observação: o diretor cênico optou por cortar a cena seguinte, suprimindo a chamada “moral da história”. Tal decisão não é inédita: há relatos de que o próprio compositor a editou em algumas situações, tornando-a uma cena mais ágil, e há ainda quem relate que a supressão já ocorrera em Praga logo depois da estreia da ópera. Modernamente, Claus Guth agiu da mesma forma no Festival de Salzburgo. Na montagem do São Pedro, tal opção funcionou muito bem.

Por todo o exposto, podemos afirmar que não há necessidade de se empregar vultosos recursos técnicos ou de se buscar artistas estrangeiros para se encenar um Don Giovanni que, seguramente, merece ser novamente levado a cena nos próximos anos, desde que seja mantida a qualidade do elenco empregado. A produção esteve à altura da grandeza da partitura, coincidentemente estreada em 29 de outubro de 1787 em Praga (ou seja: há quase 230 anos, não fosse a diferença de um dia!). Nossos parabéns a todos os envolvidos nessa produção. Que venham outras!

 

order prozac Fotos: Heloisa Bortz

 

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Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.