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O primeiro tijolo da muralha

Camerata Sesi-ES encerra o ano de 2017 em grande estilo.

 

A jornada de mil quilômetros começa com o primeiro passo. Essa frase, que segundo o Google pode ser tanto de autoria do chinês Lao-Tzu quanto do filme O Rei Leão uk poosi clips Cialis Professional purchase , é mais um daqueles pensamentos aparentemente óbvios que, quando analisados com maior atenção, se revelam dotados de um significado profundo. E, também, que podem ser adaptados para os mais diversos contextos. Enquanto assistia ao concerto Natal Encantado, programa com o qual a Camerata Sesi-ES encerrou a temporada de 2017, no dia 17 de dezembro, no Centro Cultural Sesc Glória, em Vitória, me ocorreu o seguinte pensamento: como surgem as tradições? Sim, porque o concerto em questão poderia (melhor dizendo, deveria) se tornar uma tradição local.

Concertos de fim de ano são eventos peculiares. Ou se escolhe uma peça cujo uso para esse fim específico já é consagrado – como a Nona Sinfonia de Beethoven é usada no Japão, havendo inclusive no YouTube um vídeo em que 10 mil pessoas cantam a Ode à Alegria (não, você não se equivocou ao ler: são 10 mil pessoas mesmo) –, ou se busca um programa mais leve, com peças de audição menos complicada, capaz de cativar um público eclético, que reúna crianças, pessoas pouco habituadas à música clássica e ouvintes mais calejados.

Pois bem: os responsáveis pela concepção do evento, oferecido em uma parceria entre Sesc e Sesi, e que teve a direção artística de Marcelo Lages Pills , estão de parabéns. Dividiram o programa em três partes, sem intervalos, o que garantiu boa fluidez ao espetáculo. Na primeira parte, destacou-se uma seleção de trechos do balé O Quebra-Nozes viagra cheap , de Tchaikovsky, momento em que a Camerata dividiu o palco com a Cia. de Dança SesiMinas. Em uma escolha arriscada, mas que se mostrou acertada, a orquestra se posicionou ao fundo do palco e os instrumentistas foram microfonados individualmente. Os bailarinos se apresentavam na frente do palco, junto ao público.

O acerto se deu por conta dos seguintes fatores: a sonorização não soou artificial demais, com boa distribuição dos naipes da orquestra e ligeiro reforço na sonoridade das cordas (medida bem-vinda por se tratar de um conjunto de câmara); os artistas estavam bem distribuídos pelo palco (os músicos não pareciam estar amontoados e os bailarinos puderam se apresentar com desenvoltura); as imagens projetadas ao redor do palco funcionaram como belas molduras para o espetáculo; e, por fim, o entrosamento entre todos os envolvidos foi bastante satisfatório (com destaque para a correta escolha de andamentos feita pelo regente Leonardo David, que com exemplar acerto não acelerou demais a Dança Russa, permitindo que os bailarinos executassem seus movimentos sem maiores percalços). A orquestra, frise-se, executou a partitura com muita competência e homogeneidade, com ligeiro destaque para o naipe das flautas/flautim, que aproveitaram bem as numerosas oportunidades que lhes foram destinadas nessa partitura do compositor russo. As coreografias foram muito bem concebidas e tiveram como ponto alto o pas de deux.

“O Quebra-Nozes”

 

A segunda parte reuniu três peças corais que celebram a figura central do Cristianismo. O Coro da Cidade de Vitória se dividiu nos balcões do teatro, o que gerou um interessante efeito sonoro. Bela interpretação do Aleluia, coro mais famoso do oratório Order Order http://www.xk-industry.com/?p=7761 online fosamax jaw pain treatment generic amoxil O Messias, de Handel.

A terceira e última parte contou com os artistas já citados, aos quais se somaram três tenores que certamente estão entre os nomes de maior destaque no cenário lírico nacional. Paulo Mandarino, cantor em atividade nos palcos do Brasil e do exterior desde 1988, optou por cantar Di quella pira, cabaletta buy amoxil online do heroico trovador Manrico no final do 3º ato de Il Trovatore, de Verdi. Essa partitura, de razoável dificuldade técnica, exige do cantor agudos que sejam afinados, volumosamente projetados e sustentados com generosidade, sob pena da interpretação soar insossa. Felizmente, Mandarino possui excelente técnica, o que lhe permite enfrentar peças como a citada sem maiores percalços.

Por sua vez, o celebrado Fernando Portari – que, nunca é demais lembrar, já cantou em templos da ópera mundial como os teatros La Fenice de Veneza e Alla Scala de Milão, para citar apenas dois exemplos – escolheu Nessun dorma, ária de Puccini que se tornou extremamente popular, mesmo entre pessoas que nunca entraram em um teatro de ópera, após ser interpretada por Luciano Pavarotti no antológico concerto Os Três Tenores, espetáculo que antecedeu a final da Copa do Mundo de 1990 (quatro anos mais tarde o trio formado por Pavarotti, Domingo e Carreras repetiria a dose na véspera da final da Copa de 1994 – o italiano cantou até uma Ave Maria Purchase , supostamente para ajudar a seleção de seu país a ganhar o derradeiro jogo… Sendo ou não essa a real motivação, o fato é que Roberto Baggio mandou a bola pelos ares e as comemorações foram em ritmo de samba). Pérolas futebolísticas à parte, mais uma vez Portari mostrou porque pode ser considerado um dos maiores nomes do cenário lírico brasileiro: voz de timbre homogêneo, inclusive nas passagens mais graves da primeira estrofe, dotada de agudos brilhantes e bem projetados. Domínio seguro do palco, mantendo uma postura carismática que invariavelmente conquista o público. Portari é, como era Romário (e aqui retornam as pérolas futebolísticas), um conhecedor dos atalhos da grande área – um artilheiro dos palcos líricos.

Deixo para o fim, e o faço de propósito, o mais jovem dentre os tenores da noite. Trata-se de Anibal Mancini. Legítimo tenore di grazia, ou tenor ligeiro, registro vocal naturalmente dotado de menor volume, mas que deve possuir grande agilidade e, idealmente, agudos fáceis e brilhantes, Mancini impressionou pelo virtuosismo, pelo fantástico controle da respiração, pela beleza privilegiada do timbre e, sobretudo, pela desenvoltura ao lidar com o idioma musical de Rossini, quando encarou corajosamente a dificílima ária Cessa di più resistere, de O Barbeiro de Sevilha. De tão pirotécnica, a peça é muitas vezes suprimida das montagens integrais para não colocar o tenor escalado para o papel do Conde de Almaviva em maus lençóis (medida desnecessária quando o escolhido for Mancini). Caso esse jovem tenor saiba levar a sua carreira adiante com a necessária sabedoria, optando por papéis adequados a tenores ligeiros ou líricos e buscando superar por meio dos bons estudos eventuais deficiências técnicas e obstáculos que lhe cruzarem o caminho, certamente terá um futuro brilhante pela frente.

Concluíram a noite uma divertida versão da canzone Brand Viagra online napolitana O Sole Mio, cantada à moda dos Três Tenores originais, e duas canções natalinas. Ao fim, artistas e equipe técnica foram ovacionados pelo numeroso público presente, em um merecido reconhecimento pelo sucesso da apresentação. No ar, ficou a sensação de que este poderá ser o primeiro passo de uma jornada, ou o primeiro tijolo de uma muralha. Que venham as edições de 2018, 2019, 2020…

Anibal Mancini, Fernando Portari e Paulo Mandarino

 

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Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.