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Entrevista com o maestro Fábio Mechetti

Fábio Mechetti, sobre a Filarmônica de MG: “tenho meu sonho realizado”

Toquei a Nona de Beethoven inúmeras vezes com orquestras da Europa, mas olha… a de hoje não deixou nada a dever”. Spalla da Filarmônica de Minas Gerais, com a autoridade de quem ocupou por 12 anos a primeira cadeira da Orchestra della Svizzera Italiana, Anthony Flint era a expressão do orgulho. Minutos antes, a Sala Minas Gerais (Belo Horizonte) lotada ovacionava os 10 anos do conjunto liderado por Fábio Mechetti e assistido por Marcos Arakaki.

Aliás, foi a mesma obra do “gênio de Bonn” que deu vida à Filarmônica, no Palácio das Artes, em 2008. De lá para cá, não seria exagero afirmar que a cena musical mineira mudou de patamar, mesmo com os desafios inerentes de se empreender cultura no Brasil. Female Cialis buy “Não se constrói uma orquestra de excelência de um dia para outro, mas creio estarmos num caminho promissor”, diz o paulistano Mechetti. Nessa entrevista exclusiva ao movimento.com, o maestro nos conta um pouco dos caminhos e futuros de seu jovem conjunto. “Começaremos uma colaboração com o Itamaraty, no sentido de gravarmos compositores brasileiros para divulgação no exterior”, revela.


Números da Filarmônica de Minas Gerais, em 10 anos:

  • 950 mil espectadores
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  • 731 concertos realizados
  • 975 obras interpretadas
  • 102 concertos em turnês estaduais
  • 38 concertos em turnês nacionais
  • 5 concertos em turnê internacional
  • 90 músicos
  • 543 notas de programa
  • 164 webfilmes (13 com audiodescrição)
  • 1 coleção com 3 livros e 1 DVD sobre o universo orquestral
  • 4 exposições itinerantes e multimeios sobre música clássica
  • 3 CDs pelo selo internacional Naxos (Villa-Lobos)
  • 1 CD pelo selo nacional Sesc (Guarnieri e Nepomuceno)
  • 3 CDs independentes (Brahms&List, Villa-lobos e Schubert)
  • 1 trilha para balé com o Grupo Corpo
  • 1 trabalho para orquestra e bonecos com o Grupo Giramundo

 

Fábio Mechetti:

Com ampla formação musical, experiência e agenda para a condução das mais importantes orquestras brasileiras e de diversos países, é Diretor Artístico e Regente Titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais desde a sua criação, em 2008. Com seu trabalho, em apenas dez anos posicionou a orquestra mineira nos cenários nacional e internacional da música erudita e conquistou vários prêmios. Foi regente principal da Filarmônica da Malásia e, nos Estados Unidos, das sinfônicas de Jacksonville, Syracuse e Spokane. Foi assistente de Mstislav Rostropovich na Sinfônica Nacional de Washington. Natural de São Paulo, Mechetti é Mestre em Regência e em Composição pela Juilliard School de Nova York. Sua estreia no Carnegie Hall se deu conduzindo a Sinfônica de Nova Jersey.

 

A ENTREVISTA


Maestro, conte-nos resumidamente como nasceu a Orques
Red Viagra online tra Filarmônica de Minas Gerais.

A Filarmônica foi criada por uma iniciativa do Governo Estadual e só haveria sentido em ser criada para que nela se espelhasse uma filosofia da busca constante da excelência. Não havia sentido, na época, criar mais uma orquestra apenas para que ela existisse. Desde os primeiros passos, tanto na formação de seu corpo artístico quanto na identificação de seus funcionários de apoio, a Filarmônica buscou sempre a rara oportunidade de começar algo novo com o pé direito. O sucesso indiscutível da orquestra deve-se essencialmente ao acreditar nos princípios básicos que a criaram, na persistência em focar em sua missão artística como veículo cultural de verdadeira emancipação da sociedade. Nos dez anos que se passaram, isso se consolidou, não só internamente, mas também no reflexo desse trabalho, ou seja, no aplauso, no carinho e na aceitação incondicional do público mineiro.

 

Estamos vivendo um período de grande turbulência política e econômica, com consequências visíveis para a cultura. Tem sido cada vez mais desafiador conceber projetos no campo da música de concerto e ópera. Como vocês têm lidado com essa situação?

A crise é verdadeira e os impactos financeiros sem dúvida vêm afetando a habilidade da Filarmônica em realizar todo o seu potencial. Uma boa orquestra não se caracteriza apenas pela harmonia e profissionalismo de seus músicos, mas também pela eficiência e dedicação daqueles que nos dão apoio. Além de excelentes músicos, contamos igualmente com fantásticos funcionários, cada qual cumprindo seu valioso papel na rotina desafiadora que é o dia a dia de uma orquestra profissional.

Temos também um Conselho concentrado em conseguir preservar todas essas conquistas e empenhar esforços, muitas vezes extremos, para que nossa história continue a ser contada. Não poderíamos deixar de reconhecer, ao mesmo tempo, que, apesar da enorme crise que está aí, o Governo de Minas vem mantendo sua parte nessa equação de sucesso e, sinceramente, agradecemos por isso. Hoje, a Filarmônica é um patrimônio cultural mineiro, reconhecido por todos, independentemente de posições políticas. E é assim que deve ser. Afinal, a cultura tem exatamente esse papel.

 

A construção da Sala Minas Gerais reposicionou Belo Horizonte no campo da infraestrutura de concertos. Mas a cereja do bolo, que seria equipar o espaço com um órgão, ainda não se concretizou. Programar a 3ª sinfonia de Saint-Saëns ou a 8ª sinfonia de Mahler ainda é uma perspectiva distante? 

Sim, é verdade. Com a crise dos últimos anos, foi essencial que estabelecêssemos prioridades. Logicamente, a manutenção da orquestra, assim como equipar a Sala, era mais importante do que investirmos agora em um órgão. Entretanto, o espaço está lá, e pretendemos, assim que possível, quer seja através da iniciativa privada ou da captação exclusiva para esse projeto, que a Sala possa ser completada, alcançando, assim, tudo que ela se propôs a ser.

 

prozac online A orquestra possui músicos de várias nacionalidades. É um desafio trabalhar com origens e escolas musicais distintas? 

Sim e não. Todos os nossos músicos passaram por audição e demonstraram competência. Já há vários anos tocam juntos e as diferenças de escola e de “trato” com a música vêm se minimizando com o trabalho cotidiano. Logicamente, não se constrói uma orquestra de excelência de um dia para outro, mas creio estarmos num caminho promissor.

 

Nesses 10 anos, que tipo de repertório você considera que a orquestra já toca de forma amadurecida e qual repertório o senhor acha que ela ainda não atingiu?

Nesses 10 anos, a Filarmônica apresentou cerca de 1000 obras do repertório sinfônico. Além do repertório tradicional, todo ele já explorado pela orquestra, fazemos questão de explorar obras menos conhecidas da maior gama possível de estilos, períodos etc… Não existe repertório sinfônico que a Filarmônica não toque com competência. O que precisamos sempre trabalhar é o aprimoramento de como cada repertório deve ser executado, e isso vem sendo feito de maneira consistente e gradual.

 

Sabemos que é muita pretensão com apenas 10 anos uma orquestra possuir um som caracteristicamente próprio. Mas é possível destacar alguns aspectos evolutivos da sonoridade da orquestra?

Com a inauguração da Sala Minas Gerais e a possibilidade de não só nos apresentarmos, mas ensaiarmos regularmente no palco, houve significativa melhoria na qualidade sonora da orquestra, embora ainda estejamos nos adaptando ao novo espaço. As prioridades de trabalho, pelo menos na minha posição, devem focar, no momento, em questões técnicas que não são de opinião: ritmo, ensemble, acuidade musical. Essa solidez técnica, que toda grande orquestra possui, é a base para qualquer passo em direção à sonoridade. Logicamente, uma coisa não pode ser feita sem a consciência da outra, mas é importante que dominemos essa parte técnica antes.

Embora se fale muito de “sonoridades próprias” das orquestras, acho essa concepção um tanto imprópria. Uma orquestra deve tocar com a sonoridade específica exigida pelo repertório apresentado e não, necessariamente, impor o seu “som” a esse repertório. Admiro muito as orquestras que tocam Beethoven com som de Beethoven, Brahms com som de Brahms e Stravinsky com som de Stravinsky. E não as que tocam qualquer que seja o repertório com som de Orquestra X ou Y. Essa concepção é mais desafiadora e flexível, e requer mais tempo de trabalho do que simplesmente buscar uma sonoridade própria e depois aplicá-la ao repertório tocado.

 

Conte-nos qual foi o momento exato em que você pensou “Opa, chegou no patamar que eu queria. Aqui está uma orquestra Red Viagra buy ”.  

O momento exato não sei, mas já há algum tempo vejo a Filarmônica tocando com grande convicção, personalidade e entusiasmo. Agora, nos empenhamos na consistência da apresentação dessa qualidade.

 

Como a orquestra está inserida na vida da comunidade?

O público mineiro sempre foi muito musical e aberto à música de qualidade. Não só o número total de ouvintes da Filarmônica cresce a cada ano, mas, até agora, o número de assinantes vem batendo recordes anuais consecutivos, mostrando a fidelidade que a Filarmônica alcança com sua programação e com apresentações de excelência. Nossos “Concertos Comentados”, que precedem as apresentações dos concertos de série, assim como nossas apresentações dos “Concertos para a Juventude”, sempre superlotados, e os “Concertos Didáticos”, oferecidos às escolas da rede pública, mostram que, a despeito das visões pessimistas quanto ao futuro das orquestras, há espaço, de sobra, para Cultura de qualidade. Hoje, a Filarmônica, aos olhos e ouvidos daqueles que a conhecem, é sinônimo de competência, integridade, eficiência, excelência, e a palavra que mais vezes a define nas redes sociais e nos comentários que recebemos é orgulho. Tudo isso indica a relevância de se ter uma orquestra que oferece essa capacidade de maneira ampla e sem concessões. Não é elitismo, e, sim, contribuição essencial à emancipação de nossa sociedade.

 

Investir mais em óperas em forma de concerto é uma ideia factível?

Sim, mas não essencial. Ópera deve ser feita como ópera e concertos como concertos. Tanto um gênero quanto outro tem um vasto repertório ainda inexplorado. Ao se fazer óperas em forma de concerto, sacrifica-se muito de sua inerente integridade. A maioria das óperas, em geral, não funcionam bem dentro de um formato tradicional de concerto e perdem muito quando apresentadas assim. Agora, nem por isso devemos evitar essa fruição. É bom para uma orquestra eminentemente sinfônica tocar ópera de vez em quando. É parte de uma experiência que enriquece o trabalho devido às demandas específicas que isso requer. Fizemos “Così fan tutte” semi-encenada recentemente e faremos “Trouble in Tahiti”, do Bernstein, este ano. Tanto nosso público quanto os músicos desfrutam dessa oportunidade e apreciam a “novidade”.

 

Quais os momentos imperdíveis da temporada 2018?

Sou suspeito para dizer. Acho que cada concerto tem sua importância e relevância. Portanto, diria que os momentos imperdíveis são aqueles entre o primeiro e o último concerto do ano. Existem, porém, algumas atrações que, certamente, trarão algo de especial ao público e aos músicos. O Festival Bernstein (três semanas entre julho e agosto), por exemplo, será uma excelente oportunidade de escutar nove obras distintas do compositor, desde seu famoso “West Side Story”, até obras mais complexas, como a “Serenata” ou a “Sinfonia nº 2”. Teremos conosco, também, a percussionista Evelyn Glennie, que reputo ser uma das maiores musicistas das últimas gerações, além dos momentos mágicos que sempre são oferecidos por Nélson Freire e Arnaldo Cohen.

 

Prestigie os leitores de  prozac without prescription movimento.com revelando algum projeto da orquestra ainda não divulgado.

Gostaria de divulgar, mas alguns de nossos projetos mais imediatos estão ainda em fase de hibernação. Além da gravação do ciclo das sinfonias de Mahler, que iniciamos no ano passado, começaremos uma colaboração com o Itamaraty, no sentido de gravarmos compositores brasileiros para divulgação no exterior. Em 2018, por exemplo, será a vez de Alberto Nepomuceno, de quem gravaremos a “Sinfonia em sol menor”, a “Série Brasileira” e o Prelúdio de “O Garatuja”. Nos anos subsequentes, outros compositores de períodos diferentes serão gravados.

 

Qual o seu grande sonho com esta orquestra?

Fiz 60 anos em agosto passado. Saí do Brasil em 1981, buscando uma carreira no exterior. Na época, não só a quantidade, mas a qualidade das orquestras brasileiras era desencorajadora. Meu sonho foi sempre o de poder dar ao meu país uma orquestra de qualidade internacional, que pudesse dar alegria àqueles que apreciam a música sinfônica e orgulho àqueles que amam o Brasil. Nesse ponto, tenho meu sonho realizado.

 

Stacatto:  

. Solista inesquecível desses 10 anos: Don Quixote, com o Antônio Meneses

. Wagner ou Brahms? Ambos

. Melhor piada sobre violistas ou sobre críticos de música: take the 5th amendment (nota do editor: alusão bem humorada a 5ª emenda da Constituição Americana, que reserva ao cidadão o direito de permanecer calado para não se autoincriminar)

. Que obra ambiciona executar? Tristão e Isolda

. Público mineiro: caloroso, amigo, incentivador

. Sua última descoberta musical: Duttileux

. Klemperer ou Bernstein? Essa é fácil: Bernstein

. 4’33”, de John Cage:

. Programar música atonal: mesmo prazer, desde que seja de qualidade

. Queria ter nascido ao som de:  silêncio

. Quero morrer ao som de: silêncio, pois é nele que a música se revela

 

 

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Leonardo Steffano
Jornalista profissional, acompanha a cena musical de Belo Horizonte desde 1992. Estudou trompa, iniciação musical (UFMG) e cantou durante dez anos no Madrigal Renascentista, tendo participado de gravações e apresentações no Brasil e na Europa. Foi assistente do filósofo e professor Moacyr Laterza (1928-2004).