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A ópera em 2018 no Brasil e o mundo da lua

Nos 150 anos da morte de Rossini, nenhuma obra do compositor será encenada.

No começo de março, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro divulgou sua temporada 2018, sendo o último dos três teatros líricos do chamado “eixo Rio-São Paulo” a anunciar sua programação para este ano (conheça aqui a temporada do TMRJ). O Theatro Municipal de São Paulo (veja mais aqui) e o Theatro São Pedro (veja mais aqui) já haviam divulgado suas atrações, respectivamente, no fim de janeiro e em meados de fevereiro.

No que diz respeito, especificamente, às óperas que serão encenadas nessas três casas líricas (aquelas que, em condições normais, são as que possuem temporadas mais regulares), uma rápida comparação inicial aponta que os títulos do TMSP  La Traviata, O Cavaleiro da Rosa, Pelléas et Mélisande e Turandot) são os mais robustos e atrativos, mesclando duas obras populares – mas nem por isso menos valiosas – com outras duas mais raras (ao menos para os parâmetros nacionais). O principal teatro de São Paulo também apostou em uma parceria (a montagem de La Traviata estreará primeiro em Belo Horizonte e depois seguirá para a capital paulista) e na reposição de uma produção própria (Pelléas). E O Cavaleiro da Rosa desponta como um dos títulos mais aguardados do ano em todo o país.

Theatro São Pedro/SP

Já as óperas do Theatro São Pedro (Il Matrimonio Segreto, Alcina, Kátia Kabanová e Sonho de uma Noite de Verão) deverão atrair mais o público que já é amante do gênero, ou que busca fugir do lugar-comum, com Kabanová sobressaindo-se como um título dos mais esperados da temporada nacional. Por fim, o TMRJ tem uma temporada de títulos encenados não mais que mediana, na qual Un Ballo in Maschera (em uma produção feita originalmente para a Alemanha) e Porgy and Bess (a mesma montagem levada em 2017 no Palácio das Artes, de Belo Horizonte) levam vantagem sobre A Viúva Alegre e a contemporânea Liquid Voices.

 

Fundação Clóvis Salgado

Saindo do tal “eixo Rio-São Paulo”, a Fundação Clóvis Salgado oferecerá, como vem ocorrendo nos últimos anos, uma montagem por semestre no Palácio das Artes, em Belo Horizonte: La Traviata, a partir de 20 abril – como já citado, a mesma produção que depois seguirá para o TMSP e cujos ingressos já estão à venda nas duas cidades –, e O Navio Fantasma, em outubro. São dois títulos que sempre geram grande interesse, sendo O Navio relativamente raro no Brasil.

 

Theatro da Paz

Subindo no mapa rumo aos tradicionais festivais do norte do país, o Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém, depois de apresentar apenas um título encenado em 2017, voltará a apresentar duas encenações inéditas: La Vida Breve (9, 10 e 11 de agosto), raríssima ópera de Manuel de Falla, e Un Ballo in Maschera (8, 10 e 12 de setembro). Até o presente momento, não há qualquer manifestação a respeito do Festival Amazonas de Ópera.

 

Isto posto, comento abaixo questões específicas referentes aos nossos dois maiores teatros.

 

Theatro Municipal de São Paulo: perguntas sem respostas

Municipal de São Paulo

O que de mais positivo há na programação do Theatro Municipal de São Paulo para 2018 é a sua anualidade, ou seja, o fato de, no começo do ano, a casa ter anunciado todas as suas atrações da temporada, incluindo as óperas encenadas – ao contrário do que ocorreu em 2017. Há, no entanto, também aspectos negativos. O primeiro deles é que, no caso específico das óperas, não se sabe quem escolheu os títulos que serão apresentados, nem quais os critérios utilizados para se chegar a esses títulos e aos elencos principais já anunciados. O que se sabe é que não há um especialista em ópera na comissão que tem feito as vezes de “diretor artístico” do Municipal de São Paulo – comissão esta montada pelo Instituto Odeon, que é o gestor do TMSP desde setembro do ano passado. Ainda assim, é preciso reconhecer que a programação lírica preparada para 2018 nem se compara àquela improvisada do ano anterior.

Outra questão relevante é a baixa quantidade de títulos líricos. Não é razoável que aquele que é, há anos, considerado o melhor e mais rico teatro de ópera do país apresente uma temporada com míseras quatro montagens. O mínimo aceitável no Theatro Municipal de São Paulo seriam seis produções líricas. Qualquer número inferior a seis sempre será insuficiente.

Uma iniciativa que não se justifica é essa mania que tem se popularizado de querer dar um tema à temporada lírica. Para 2018, o tema é: Amor em todos os sentidos. Chega a ser irônico, pois como falar do amor em todos os sentidos com meros quatro títulos? Além disso, o tema é ao mesmo tempo vago e vasto, já que mais de 99% das óperas compostas em todos os tempos poderiam se enquadrar nele. Se esse é o nível de “criatividade” que anda aportando ali pelo Anhangabaú, o futuro não será muito promissor.

Também não agradou a maneira escolhida pelo TMSP para divulgar e “vender” a sua temporada, iniciando a venda de assinaturas sem aviso prévio e poucos minutos depois da sua divulgação através da internet, gerou grande reclamação por parte de assinantes. De forma a esclarecer esse e outros pontos, o Movimento.com enviou à casa algumas questões.

Apesar da promessa recebida, via assessoria de imprensa, de que teríamos as respostas em dois dias, as mesmas acabaram não chegando, mesmo depois de mais de uma extensão do prazo por nossa parte. Por isso, publicamos abaixo as cinco questões enviadas ao TMSP, que, infelizmente, preferiu não esclarecê-las ao público:

1- Dentre a comissão que elaborou a temporada 2018 do TMSP, quem especificamente é (são) o(s) conhecedor(es) de vozes líricas que escolheu(eram) os elencos principais das óperas que a casa apresentará em 2018?

2- A venda de assinaturas começou poucos minutos depois de a temporada 2018 ser anunciada. Não foi dado tempo aos assinantes de temporadas anteriores para que se organizassem e analisassem a programação deste ano para, enfim, cada qual tomar a sua decisão de compra da melhor maneira possível. Um problema grave é que, certamente, alguns assinantes souberam logo que as vendas haviam começado, enquanto outros só foram saber horas depois ou no dia seguinte. Outro problema grave foi a não manutenção dos assentos que esses assinantes possuíam nas temporadas anteriores. Atitudes como essas demonstram grande desorganização por parte da casa. Por que as vendas de assinaturas começaram tão abruptamente? E por que os lugares dos assinantes em temporadas anteriores não foram assegurados?

3- Houve ainda grande reclamação nas redes sociais, por parte de assinantes das temporadas anteriores, de que não conseguiram realizar assinaturas para as mesmas récitas que detinham antes (por exemplo, assinantes de estreias não encontraram bons ingressos disponíveis para as assinaturas de estreias e, para adquirir um bom lugar, precisaram escolher assinaturas de outros dias, como sábados ou domingos). Por que essa falha ocorreu? Por que o TMSP/Instituto Odeon não respeitou as récitas originais dos assinantes de temporadas anteriores?

4- O Movimento.com apurou que os pacotes de assinaturas de óperas foram mal formatados sob determinado aspecto, o que certamente contribuiu para a reclamação dos assinantes. Exemplos: a récita do dia 12/05 de La Traviata fez parte tanto do pacote “Ópera – Estreias”, quanto do pacote “Ópera – Sábados”; e todas as récitas de estreias de óperas fizeram parte, além do pacote “Ópera – Estreias”, também dos pacotes “Estreias – Concerto + Óperas” e “Estreias – Dança + Ópera”. Obviamente, isso diminuiu a quantidade de ingressos disponíveis para os assinantes de temporadas anteriores que adquiriam apenas o pacote de óperas. O TMSP/Instituto Odeon não concorda que essa formatação, no fim das contas, acabou desrespeitando em alguma medida a preferência dos assinantes de temporadas anteriores? O que o TMSP/Instituto Odeon pretende adotar nos próximos anos para evitar falhas como essas?

5- Segundo informações recebidas pelo Movimento.com, ainda restam dívidas do Theatro Municipal de São Paulo com cantores que participaram da temporada 2016 da casa. Ainda que se entenda que o responsável por estas dívidas seja o Instituto Brasileiro de Gestão Cultural, especialmente no âmbito internacional o nome que fica manchado não é o do referido instituto, mas sim o do TMSP. Em caso de judicialização da questão, é possível que todos os envolvidos sejam arrolados. Como o Instituto Odeon enxerga essa questão, considerando que ela pode influir negativamente na reputação do TMSP?

É possível que o TMSP/Instituto Odeon tenha preferido não responder as perguntas acima simplesmente porque não há respostas aceitáveis para as mesmas. Afinal, o Instituto vai responder o que, especialmente em relação às perguntas 2, 3 e 4? Que errou? São raríssimas as instituições brasileiras que admitem erros, mesmo quando estes são crassos e mais do que evidentes.

Por fim, vale lembrar que o secretário municipal de Cultura de São Paulo, André Sturm, deixou em fevereiro a presidência da Fundação Teatro Municipal, que ocupava interinamente. Resta saber se continuará interferindo diretamente no trabalho no Instituto Odeon.

 

Theatro Municipal do Rio de Janeiro: temporada sem garantia

Municipal do Rio de Janeiro

No Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que sofreu muito com a bancarrota do governo fluminense (mas onde a situação agora se encontra, se não totalmente resolvida, pelo menos mais estável), também o aspecto mais positivo de sua temporada foi o seu anúncio antecipado. Depois do ano perdido de 2017, em que imperaram a politicagem barata (na secretaria estadual de Cultura) e a improvisação (na programação própria da casa) – isso para não falar dos atrasos sistemáticos de salários –, o simples fato de o TMRJ possuir uma temporada-guia pode animar novamente seu público fiel.

A casa carioca também dispensou a figura de um diretor artístico, mas, ao contrário de seu primo paulistano, formou uma comissão artística em que as partes estão claramente definidas e há um integrante que é especificamente responsável pela programação lírica (o encenador Pier Francesco Maestrini). A quantidade de títulos encenados (quatro) também é inferior ao mínimo ideal de seis óperas, mas, considerando a supracitada bancarrota de seu mantenedor, vá lá, pode-se aceitar, neste momento, esses quatro títulos, com o atenuante de que a casa demonstrou ainda a preocupação de incrementar a temporada com outros títulos atraentes em forma de concerto (Griselda, Sansão e Dalila, Adriana Lecouvreur – mais atraentes até do que as encenadas Liquid Voices e A Viúva Alegre).

Há também aspectos negativos a considerar. O principal deles é que, como admite o próprio presidente do Fundação Teatro Municipal, Fernando Bicudo, não há verba garantida para o cumprimento de toda a temporada anunciada, e será necessário convencer patrocinadores (essa raça que, na maioria das vezes, tem uma visão mais comercial que cultural) a apoiar o projeto da casa em mais um ano de transição.

Outro aspecto negativo que pesa pessoalmente contra Bicudo é o fato de ele ter sido assessor, na secretaria de Cultura, do analfabeto cultural André “Bertoldo Brecha” Lazaroni, o deputado e ex-secretário que assumiu a pasta da Cultura por puro “politiquismo” e foi responsável pelo desmonte da melhor gestão do TMRJ em décadas.

Também não fica bem para Bicudo trocar farpas pela imprensa (como fez algumas semanas atrás) com o ex-diretor artístico da casa, André Heller-Lopes. Que a gestão artística de Heller-Lopes foi uma nulidade sob vários aspectos, todos sabemos (nulidade esta em muito justificada pela bancarrota supracitada), mas acusá-lo de não ter deixado nada preparado sobre a programação deste ano não convence.

Afinal, é notório que, quando um teatro de ópera brasileiro passa por mudança de direção como ocorreu recentemente duas vezes com o TMRJ, praticamente tudo o que foi preparado e pensado pela gestão anterior é sumariamente descartado. Da mesma forma que Heller-Lopes descartou quase toda a programação deixada por João Guilherme Ripper e André Cardoso, Bicudo e sua equipe dificilmente aproveitariam qualquer coisa que tivesse sido deixada por Heller-Lopes.

Bicudo, porém, foi inteligente ao se cercar de profissionais qualificados em seu colegiado artístico (o já citado Maestrini, as bailarinas Ana Botafogo e Cecília Kerche, e o maestro Tobias Volkmann), fazendo um contraponto ao perfil personalista de Heller-Lopes. Assim, o presidente da Fundação Teatro Municipal divide responsabilidades e procura somar forças. Se conseguir levar do papel para o palco toda a temporada que anunciou, já terá feito bastante neste ano de transição.

 

Rossini ausente nos 150 anos de sua morte

Um aspecto comum – e negativo – que une todos os principais teatros brasileiros que até agora anunciaram as suas respectivas temporadas líricas é a ausência de encenações de óperas de Gioacchino Antonio Rossini. Neste ano de 2018, completam-se 150 anos da morte do grande compositor italiano, mas, ao que tudo indica, nossos teatros não consideraram importante apresentar qualquer obra sua, nem mesmo o popularíssimo O Barbeiro de Sevilha. Imperdoável.

Para citar apenas a América do Sul, o Teatro Municipal de Santiago do Chile apostou na segurança e montará o infalível Barbeiro; enquanto o Teatro Colón, de Buenos Aires, vai de L’Italiana in Algeri. É por essa, e também por outras, que este autor se pergunta de vez em sempre se os gestores dos nossos teatros de ópera não vivem no mundo da lua.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com