Escrito por em 6 abr 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Música sinfônica, Rio de Janeiro

Theatro Municipal do Rio de Janeiro abre sua temporada 2018 com a arrebatadora Ressurreição, de Mahler.

 

A noite de 31 de março parecia a de uma festa. Na Cinelândia, a eletricidade estava no ar. As luzes fulguravam. Em meio ao burburinho, empregados corriam daqui para lá enquanto os convidados iam chegando, ambos com excitação. Era a abertura da temporada 2018 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro – aguardada com ansiedade após um insosso 2017. Nas escadarias, centenas de pessoas adentravam a centenária Casa. À porta do Salão Assyrius, convidados VIP (a jornalista e promoter Liège Monteiro estava lá) eram recebidos por um anfitrião entusiasmado: Fernando Bicudo, presidente da Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Bicudo está à frente do colegiado artístico que organizou a temporada 2018 (leia mais aqui), aberta, na ocasião, com a Sinfonia n. 2 em dó maior – Ressurreição, de Gustav Mahler (1860-1911). Tudo em grande estilo para o ansiado renascimento do TMRJ: uma grandiosa sinfonia em inusuais cinco movimentos, uma enorme orquestra, volumoso coro. “Minha Segunda Sinfonia poderia desaparecer sem causar uma perda irreparável para a arte e para a humanidade?”, perguntou(-se) o compositor, deixando entrever a grandeza de sua obra.

Para executá-la à altura de um evento de abertura de temporada, subiram ao palco da centenária Casa aproximadamente 120 músicos, integrantes da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do RJ e da Orquestra Sinfônica Brasileira (convidada). Segundo o diretor artístico da OSB, Pablo Castellar, as duas orquestras nunca se apresentaram juntas, nos 80 anos da OSB. Somaram-se aos instrumentistas os 95 cantores do Coro do Theatro Municipal e as solistas Denise de Freitas (mezzosoprano) e Flavia Fernandes (soprano). Todos sob a regência do maestro Tobias Volkmann.

 

Século 18

O maestro e compositor alemão Bruno Walter (1876-1962), uma das referências em Mahler, declarou: “Sua Segunda – um canto de dor de um mundo em sofrimento – é de uma majestade […] e de uma força irresistível […]. Ninguém que contemple essa construção altaneira, com suas luzes e sombras deslumbrantes, com suas formidáveis contradições, pode aceitar a descrição lacônica de ‘um funeral’, a única que Mahler soube dar quando lhe perguntaram ‘o que havia querido dizer’”.

O ‘funeral’ ao qual Walter se refere é associado principalmente ao primeiro movimento (Allegro majestoso), que o compositor chamou de Totenfeier (também grafado Todtenfeier e pode ser traduzido como rito fúnebre ou canção/dança da morte). O trecho, escrito em 1888, foi apresentado de forma isolada, quase como um poema sinfônico, em Berlim, em 1896, sob regência do próprio Mahler. Ao longo de aproximadamente 23 minutos de música intensa, o compositor fala do mistério da morte.

“Se faz questão de saber por quê, trata-se do herói da minha Sinfonia em ré (a Titã) que levo ao túmulo. […] Paralelamente, coloca-se a questão central: Por que você viveu? Por que você sofreu? Tudo não é, afinal de contas, apenas uma enorme e trágica piada? Precisamos resolver essa questão de um modo ou de outro, para podermos continuar a viver, ou mesmo morrer! Quem já percebeu essa questão, mesmo que uma só vez, está em condições de responder a ela: dou essa resposta no último movimento”, escreveu Mahler, em 26/3/1896, ao crítico musical e compositor Max Marschalk, seu amigo.

Em 1893, o compositor completou o segundo e o terceiro movimentos: Andante moderato: Sehr gemächlich, Nicht eilen (muito vagaroso, sem pressa) e Scherzo: In ruhig fließender Bewegung (movimentado, mas fluindo tranquilamente). O Andante contrasta enormemente com o movimento anterior. A música tem certo ar de valsa indecisa e nostálgica, na qual surgem as lembranças e a melancolia de quem continua vivo. O compositor faz menção ao Ländler – dança camponesa do século 18 muito comum na Áustria e na Bavária, fortemente associadas às memórias infantis do próprio Mahler, dos cantos das babás aos realejos das pequenas vilas. Assim o autor descreve sua obra: “O segundo movimento, uma lembrança! Um raio de sol na vida desse herói.”

E continua: “A vida torna a nos animar; pode acontecer que, em sua vã agitação, ela nos cause horror; é o caso, num salão de baile bem iluminado, das silhuetas móveis e dançantes que, ocultos na noite, observamos de longe sem ouvir a música! A vida aparece, então sem objeto, repugnante! Assim é o terceiro movimento!”. Neste irônico Scherzo, ele utiliza notas da melodia de seu próprio lied Des Antonius von Padua Fischpredigt (O sermão de Santo Antônio de Pádua aos peixes), oriundo da coletânea de textos Des Knaben Wunderhorn (que se tornaria, em 1905, pelas mãos do próprio Mahler, um ciclo de lieder para soprano ou barítono).

Sem interrupção, o quarto movimento (Urlicht: sehr feierlich, aber SchlichtLuz original: muito solene, porém simples) inicia-se de súbito, com o canto da mezzosoprano, que termina com as palavras “O bom Deus dar-me-á uma pequena luz. Iluminar-me-á até à vida eterna!”. Texto e música evocam, com simplicidade, a força da fé, e conduzem o ouvinte ao Finale.

O movimento derradeiro (Im Tempo des Scherzo: Wild herausfahrend “Aufersteh’n” – No mesmo tempo do Scherzo: Condução selvagem até o coro “Ressurreição”) se propunha a ser uma resposta às questões levantadas ao longo da obra, mas Mahler não encontrava o texto apropriado.“Procurei realmente em toda a literatura universal, inclusive na Bíblia, e finalmente me vi forçado a expressar meus sentimentos e pensamentos com minas próprias palavras […] Foi então exatamente quando von Bülow faleceu e assisti ao serviço fúnebre. [O compositor refere-se ao pianista e regente Hans von Büllow, morto em fevereiro de 1894]  Meu estado de ânimo, com que pensei no morto, era exatamente o da obra que naquela ocasião me ocupava sem cessar. Nesse momento o coro entoou o Auferstehn de [poeta Friedrich] Klopstock (o coral Ressurreição). Atingiu-me como um raio de luz, e tudo se tornou claro e vívido em minha alma. […] O que experimentei então não tinha mais que ser posto em música.” Em 37 longos e belos minutos, a visão do compositor para temas tão humanos como vida e morte. Após o impacto inicial, um longo trecho instrumental; emerge a soprano: “Ressuscitarás, sim, ressuscitarás”, após a qual surge o coro, glorioso e arrebatador. “O movimento conclusivo lembra-nos o caminho já percorrido, mas, em seu terço final, as reminiscências são transfiguradas. Texto e música conclamam o ouvinte a participar da mensagem desta Segunda Sinfonia e permitem experienciar, para além das tristezas e alegrias cotidianas, um caminho fé e de esperança, de vida, morte e ressurreição”, escreveu o professor, compositor e regente mineiro Oiliam Lanna (leia o texto completo aqui).

Artistas no palco do TMRJ

 

Século 21

“Minhas duas [primeiras] sinfonias esgotam o conteúdo de toda minha vida até hoje; o quanto experimentei e sofri, verdade e ficção, estão nelas, e para aquele que saiba ler bem, minha vida aparecerá com toda transparência”, declarou o metafísico compositor. Ainda que variem as leituras da profundidade da obra mahleriana e de como sua orquestra expandiu os limites da música de sua época, tirando instrumentos da rotina e fazendo brilhantemente a passagem do Romântico para o Moderno, sempre haverá espaço para interpretações mais afetivas e particulares da produção do compositor. Mesmo que não venha a figurar entre as versões de Bruno Walter, Leonard Bernstein e sir Simon Rattle (com a Sinfônica de Birmingham, apontada por Luiz Paulo Horta como uma das melhores gravações recentes desta Segunda), a regência de Tobias Volkmann demonstrou força e sensibilidade musical.

Um dos maiores méritos do jovem maestro foi conseguir fazer com que as duas orquestras (OSTM e OSB, juntas) produzissem uma unidade sonora coesa e harmônica. Com movimentos gentis e firmes, alternando suavidade e energia, Volkmann conduziu mais de uma centena de músicos, entre três dezenas de violinos, duas harpas, oito contrabaixos, uma dezena de douradas trompas e tantos outros mais. Não apenas a plateia do Municipal estava lotada: o palco também estava cheio.

O primeiro movimento iniciou furioso, como um ágil golpe. As orquestras lograram transitar com desenvoltura entre as áreas sombrias e os trechos iluminados, e não é uma tarefa fácil movimentar-se em meio a densa floresta de brumas, sentimentos e angústias do compositor boêmio, e muito menos expressar a miríade de questões existenciais e filosóficas que emana do pentagrama mahleriano: a ilusão de eternidade, a “dura e majestosa presença da morte” (nas palavras de Arnoldo Liberman), as dores da pequena existência humana e, por que não dizer, o sentido da vida. Não é qualquer conjunto que dá vida à sua orquestração bombástica, inquieta, cheia de pontos de exclamação e de pungência.

Como bem descreve o professor Oiliam Lanna, “Sua invenção orquestral, integrada organicamente aos demais elementos composicionais, não conhece limites e explora, com verdadeira atitude investigativa, novas sonoridades, extraindo de cada instrumento ou naipe uma força expressiva, um pathos que o distingue como o compositor que fez o elo entre a tradição romântica e novas linguagens do século 20.”

Com o espírito sangrando em incertezas, mas altivo, vislumbrando um raio de divindade por entre as nuvens, a orquestra e seu bravo maestro adentraram o segundo movimento. Os cinco minutos de silêncio solicitados pelo compositor entre os dois movimentos iniciais não foram estritamente respeitados – o inconveniente voo de um morcego agitou os presentes e dissipou um pouco a compenetração. Ainda assim, as cordas brilharam, com destaque para os primeiros violinos e para a delicadeza das harpas.

A solene explosão da percussão que marca o início do terceiro movimento revelou a qualidade do time de percussionistas. A música prosseguiu, fluida, insinuando-se entre as madeiras até chegar aos imponentes metais – alguns, inclusive, tocados de fora da cena (por exemplo: eram seis trompas em cena e quatro nas coxias), causando grande efeito.

“Oh, rosinha vermelha!”. Com essas singelas palavras, a mezzosoprano Denise de Freitas abriu o quarto movimento, Urlicht. Sua interpretação foi correta, mas sem a dose de emoção necessária à profissão de fé do trecho. A seu lado, um conjunto orquestral vibrante e versátil, no qual brilharam as madeiras e os sopros mostraram excelente forma. Ainda que não tenham soado arrebatadoras, as cordas fizeram ótimo trabalho.

O próprio compositor descreve o derradeiro movimento de sua Segunda: “Começa com um grito do herói falecido. Um tremor percorre a terra. Escutai o redobrar dos tímpanos. Ressoa a Grande Chamada, abrem-se as tumbas e todas as criaturas surgem do seio da terra com gritos lancinantes e reger de dentes. […] Por último, quando o tremendo tumulto está apaziguado, sozinha, saindo da última sepultura, ressoa a voz da ave da morte. Nada do que todos temiam acontecerá: não haverá eleitos nem condenados. Ninguém é bom, ninguém é mau. Não há juiz nem juízo final. Suave e simples, o coro começa a cantar: ‘Levantai-vos, sim, levantai-vos…’. Nesse momento pode-se captar a melodia apenas audível de um rouxinol, último eco trêmulo de vida terrena. Ressuscitareis, certamente ressuscitareis, o amor infinito ilumina nosso ser. Sabemos e somos.”

Gloriosa e arrebatadoramente, maestro e orquestra deram vida à visceral música do quinto movimento, seguindo à indicação “condução selvagem até o coro ‘Ressurreição’”. As trompas e trompetes, dentro e fora do palco, causaram magnífico resultado, em belíssimo diálogo com flauta, piccolo e oboé. Destaque também para o perfeito trabalho dos conjuntos percussivos.

Subitamente, como um clamor quase inaudível, o impecável Coro do TMRJ, preparado por Jésus Figueiredo, se elevou, como uma vaga potente, de forma suave e deslumbrante, até tornar-se um tsunami sonoro de proporções épicas, como se trouxesse no peito um clamor indubitável, afirmando o renascimento e espalhando sobre a (tantas vezes miserável) existência humana uma luz radiante. Flanando sobre o coro, com grande elegância, despontou a suave voz da soprano Flavia Fernandes. Com sua grandeza lírica, Mahler exprime, em minutos de música catártica, tantos sentimentos: fé, paixão, altivez, redenção, esperança, divindade, devoção. Com a firme condução de Tobias Volkmann, os músicos em cena encantaram a plateia.

Ainda sob o torpor pela beleza, revelou-se o mais relevante deslize da récita em questão: um balé. Ao fundo, em um tablado azul, as silfídicas primeiras bailarinas Ana Botafogo e Cecília Kerche, acompanhadas por Filipe Moreira, Alef Albert, Bruno Fernandes e Paulo Muniz, tentaram dar alguma elegância (qualidade que tanto Ana como Cecília têm de sobra) à frágil coreografia de Marcelo Misailidis, de obviedades sublinhadas (exclamação musical = bailarina no alto). O momento tornou-se ainda mais dispensável com o surgimento, ao fundo, de um anjo dourado que beirava a cafonice (cenografia de Cesar Batista) e quase nos furtou a fruição dos minutos finais. Se for necessária alguma justificativa para essa impressão, usamos as palavras de Liberman (em seu livro Gustav Mahler – Um coração angustiado): “Porque o fato de a música ser uma arte assemântica, incapaz de se expressar em linguagem comum […] a situa infinitamente acima de qualquer outro meio de comunicação. A música não tem necessidade de expressar o que expressa qualquer outra das artes ou a linguagem cotidiana dos homens: ela expressa, captando-a, a essência do mundo, a Ideia, o Espírito, o Infinito […]. Ou seja, aquilo que não pode ser conceituado de outra maneira senão com essa imensa tela de projeção que é a música pela própria música.”

“Mahler é um mito. Mahler é a Música”, disse o compositor alemão Karlheinz Stockhausen em 1972. A arrebatadora Sinfonia n. 2 ganhou, pelas mãos do heroico maestro Tobias Volkmann (com os guerreiros músicos da OSTM e da OSB, e os incansáveis cantores do Coro do TMRJ), expressão redentora, que alcançou transmitir uma fagulha da vastidão mística, filosófica e existencial da música do atormentado e genial Gustav Mahler, música que fala mais ao espírito do que à mente e desperta tantas emoções – inquieta, acalma, exalta, entristece, arrebata.

Entre tantos sentimentos, desponta a esperança, que se expressa também em uma fé que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro renasça, consiga (mesmo que ainda não tenha todos os recursos financeiros em mãos) realizar a programação proposta para o futuro e, altivo e soberano como a águia dourada que adorna sua cúpula, pairando sobre tantas veleidades e vicissitudes cotidianas, traga-nos a arte como redenção de nossa humanidade.

 

Fotos: Cícero Rodrigues

 

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