ArtigoLateral

Muita polêmica, pouca produtividade (parte 2 de 2)

Custo elevado de montagem lírica; diretor artístico sem nomeação formal; demissão de regente; “colegiado artístico” – mais polêmicas no Municipal do RJ.

 

Neste artigo em duas partes (leia a primeira parte aqui), o Movimento.com vem procurando analisar uma série de polêmicas que têm vindo à tona durante a atual gestão de Fernando Bicudo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro – polêmicas que, por serem baseadas em decisões bastante questionáveis, acabaram se sobrepondo a qualquer outro aspecto da atual gestão do Municipal.

Na primeira metade do artigo, publicada em 29 de maio, abordamos exclusivamente o encerramento das atividades da Academia de Ópera Bidu Sayão. Agora, na última parte, apresentamos uma comparação de orçamentos entre montagens líricas brasileiras neste ano de 2018; comentamos a atípica situação de um diretor artístico que não foi nomeado para cargo algum; e analisamos a substituição do regente titular na casa e a situação do chamado “colegiado artístico”.

 

Comparando orçamentos de recentes produções líricas brasileiras

Conforme revelado em primeira mão pelo Movimento.com (confira aqui), segundo extratos publicados no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, o custo total da produção da ópera Un Ballo in Maschera no TMRJ foi da ordem de R$ 2,19 milhões para seis récitas – um orçamento que pode ser considerado bastante elevado, especialmente diante da qualidade geral duvidosa da montagem, conforme constatação registrada em várias críticas publicadas neste e em outros veículos.

O alto custo da montagem do Ballo foi, inclusive, um dos motivos que levou à suspensão do espetáculo seguinte do Municipal, chamado de O Juízo Universal, que nada mais seria que uma versão encenada do Requiem de Verdi (relembre a programação anunciada).

Para efeito de comparação, pesquisamos os custos de outras duas produções recentes de óperas, realizadas por três teatros brasileiros: a montagem de La Traviata, apresentada no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, e depois levada ao Theatro Municipal de São Paulo; e a montagem de Il Matrimonio Segreto, no Theatro São Pedro.

Por telefone, a diretora de produção artística da Fundação Clóvis Salgado (FCS), Claudia Malta, informou como se deu a divisão de custos de La Traviata. Segundo ela, a FCS arcou com cerca de R$ 800 mil, valor complementado através de um patrocínio captado pelo próprio encenador da produção, Jorge Takla. O diretor confirmou a informação, esclarecendo que o patrocínio foi de R$ 300 mil para a confecção dos cenários da ópera, abrangendo ainda montagem, desmontagem e transporte interestadual. Podemos depreender, portanto, que o custo total para montar La Traviata em cinco récitas na capital mineira foi de aproximadamente R$ 1,1 milhão, ou seja, a produção mineira foi bem mais barata que o Ballo e, mesmo assim, foi bastante elogiada pela crítica especializada.

Também consultado, o Theatro Municipal de São Paulo informou via assessoria de imprensa que arcou com R$ 1 milhão para levar a montagem mineira para seu palco. Considerando que, na capital paulista, a reposição contou com dez  récitas (uma delas gratuita, dentro da programação da Virada Cultural) e dois elencos, e ainda levando em conta uma informação prestada por Claudia Malta, segundo a qual o TMSP precisou confeccionar mais figurinos para o seu coro (que é maior que o mineiro), podemos depreender que o orçamento da temporada paulistana da ópera também está dentro de parâmetros aceitáveis.

No fim das contas, considerando o investimento das duas instituições mais o patrocínio, La Traviata custou, praticamente, a mesma coisa que o Ballo carioca, R$ 2,1 milhões aproximadamente, mas com uma relação custo/benefício bem mais vantajosa: afinal, teve um total de 15 récitas em duas cidades diferentes, uma delas gratuita, com lotação esgotada ou quase isso. E, para completar, ainda abocanhou um sucesso de crítica do qual o Ballo não sentiu nem o cheiro.

Embora caiba, aqui, um registro de que o Ballo foi sempre muito aplaudido no Rio de Janeiro, isso é bastante relativo, na medida em que, como todos sabemos, o público leigo brasileiro aplaude de pé tudo o que lhe enfiam goela abaixo, inclusive cantores medíocres como os dois italianos do elenco principal da produção carioca.

“Un Ballo in Maschera” no TMRJ

 

Consultamos também o Theatro São Pedro sobre o orçamento de Il Matrimonio Segreto. Por meio da assessoria de imprensa da casa, a Santa Marcelina Cultura, que administra o espaço, informou que ainda não havia fechado as contas da produção, mas esclareceu que o seu orçamento total para quatro produções cênicas em 2018 é da ordem de R$ 2,3 milhões. Daí, podemos tirar, por nossa conta, uma média aproximada de R$ 575 mil por montagem, ou seja, uma bagatela por uma produção também muito elogiada pela crítica.

Pedimos então ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro que esclarecesse se o orçamento da montagem da ópera de Verdi havia sido mesmo de R$ 2,19 milhões. Resposta: “Este foi o orçamento inicial, posteriormente reduzido, por determinação da Secretaria de Estado de Cultura”. Questionamos também se o custo dos figurinos confeccionados para a produção (R$ 477 mil, conforme extrato publicado em Diário Oficial – acesso aqui, com cadastro), que chegaram a ser motivo de uma nota controversa de coluna de jornal, referia-se apenas à confecção dos mesmos, ao cachê da figurinista, ou ao total dessas duas despesas? O Municipal respondeu: “Este valor refere-se ao total das despesas, incluindo a compra do material e a retenção de impostos, além das duas citadas na pergunta” (sic).

Perguntamos ainda ao Municipal por que os figurinos precisaram ser refeitos aqui no Brasil, e não vieram da montagem original da Alemanha, já que se tratava, conforme anunciado, de uma coprodução? E em que, afinal, consistiu essa coprodução se o espetáculo, pelo menos em parte, precisou ser recriado aqui? Resposta: “Os figurinos não poderiam ser utilizados, porque a ópera continua em cartaz, ao longo da temporada, em Kiel. A coprodução consistiu na cessão dos direitos da concepção cênica e dos filmes usados nas projeções, parte fundamental da montagem”.

Depois de recebermos essas respostas, insistimos junto ao TMRJ: qual então foi o orçamento final da ópera Un Ballo in Maschera? A Casa preferiu sair pela tangente, sem responder diretamente a pergunta: “Estamos readequando os orçamentos de acordo com as verbas totais ainda a serem disponibilizadas pelo governo”.

Vale o registro de que, praticamente um mês depois da publicação original do custo da produção do Ballo no Diário Oficial, quando a polêmica já estava instaurada, uma nova publicação em D.O., no dia 10 de maio, cancelou os extratos originalmente divulgados. Ficam as perguntas: como o Municipal do RJ fará para renegociar contratos que já estavam assinados com artistas e/ou prestadores de serviços? Será que as outras partes aceitarão a renegociação?

 

A atípica situação de Maestrini

Pier Francesco Maestrini

Anunciado como diretor artístico de ópera do Theatro Municipal do Rio e integrante do chamado “colegiado artístico” da casa, o encenador ítalo-brasileiro Pier Francesco Maestrini, na verdade, não ocupa nenhum cargo na estrutura do TMRJ, já que em nenhum momento foi publicado qualquer ato em Diário Oficial nomeando-o para exercer qualquer função. Questionada, a casa respondeu: “Pier Francesco Maestrini faz parte do colegiado artístico e seu vínculo com o TM (sic) é de artista convidado”.

Como não foi nomeado para função alguma, o encenador só pode ser remunerado por contrato(s). Além de seu nome constar em um dos dois extratos publicados no Diário Oficial do Estado a respeito de Un Ballo in Maschera, por ser o encenador da produção, chama a atenção o fato de Maestrini também ter sido mencionado em outro extrato publicado em D.O., no valor de R$ 259 mil, referente ao concerto de abertura da temporada, quando foi apresentada a Sinfonia n. 2 – Ressurreição, de Mahler. Afinal, por que o encenador teria sido pago por um concerto?

Perguntamos isso ao Municipal, que respondeu: “O valor de R$ 259.000,00 se refere ao custo total do concerto. O profissional foi pago pela concepção e direção cênica do espetáculo”. Insistimos junto ao Municipal, uma vez que soa no mínimo estranho a Casa pagar a um encenador por um concerto sem encenação, no qual, à forma tradicional de um concerto, foi acrescentada apenas uma coreografia bastante criticada: Especificamente em relação ao concerto de abertura da temporada, de quanto foi o cachê de Maestrini? Uma vez mais, porém, a casa preferiu tergiversar: “Diante das readequações orçamentárias, ainda não foi definido. Por enquanto, o profissional não recebeu cachê algum”.

 

A exoneração de Tobias Volkmann e a chegada de Claudio Cruz

A última polêmica considerável (pelo menos até agora) envolvendo a atual gestão do Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi a exoneração do maestro Tobias Volkmann do cargo de regente titular da Orquestra Sinfônica da casa. O regente resolveu abrir mão de participar do tal “colegiado artístico” do TMRJ, uma vez que, segundo suas declarações a um blog do jornal O Globo em 14 de maio, em seu entendimento o tal “colegiado” tinha apenas um caráter consultivo, e suas “ponderações não foram suficientes para influenciar decisões, principalmente no que se refere à divulgação de uma temporada completa e à realização de produções sem o repasse de verba pelo governo do estado”. O maestro disse ainda que, apesar disso, pretendia permanecer no posto de regente titular da OSTM.

No dia seguinte a essas declarações, 15 de maio, Volkmann foi exonerado do cargo de regente titular do conjunto sinfônico da casa (conforme publicação do D.O. de 16 de maio). Não é preciso muito esforço para concluir que tal exoneração foi uma clara reação de seus superiores (seja no Municipal, seja na secretaria de Cultura) às suas declarações à imprensa. O próprio secretário de Cultura, Leandro Monteiro, disse ao jornal O Globo: “Nós ficamos sabendo pela imprensa. E entramos num consenso: como ele não se sente confortável em fazer parte do colegiado, decidimos buscar uma outra pessoa que tenha este perfil e acumule as duas funções que ele exercia, com mais comprometimento”.

Dias depois (21/05), em entrevista à coluna de Marina Caruso, no mesmo jornal, Monteiro disse: “Não foi vingança, mas achamos falta de respeito ele avisar pela imprensa. Fazer parte do conselho sem remuneração ele não pode, mas ser regente, com salário considerável, pode? Foi uma decisão conjunta com a direção do teatro”.

Volkmann reagiu a essa declaração de Monteiro através de seu perfil em uma rede social, no qual publicou um post informando que, no domingo à noite (no caso, dia 13 de maio, véspera do dia em que O Globo publicou a sua decisão de se afastar do “colegiado artístico”), havia enviado um e-mail ao presidente da Fundação Teatro Municipal e mais oito pessoas (dentre estas, os demais membros do “colegiado”) informando-os de sua decisão. O regente acrescenta que não recebeu nenhuma resposta a esse e-mail, afirma não ter sido ele que “vazou” a informação para o jornal, e ainda questiona o tal “salário considerável” mencionado por Monteiro: “Os salários iniciais pagos aos artistas do TMRJ são vergonhosamente baixos, se tomarmos em conta a qualificação que apresentaram no concurso para ingresso nos corpos estáveis”.

Claudio Cruz

O Movimento.com confirmou na página da Secretaria Estadual de Fazenda na internet (na qual é possível consultar os salários de qualquer servidor público) que a remuneração de Tobias Volkmann era baixa frente à qualificação e à responsabilidade exigidas para o cargo que ocupava.

Curiosamente, dois dias depois da exoneração de Volkmann, em 17 de maio, já estava definido que o seu substituto seria o violinista e regente Claudio Cruz, conforme informação do jornalista João Luiz Sampaio em seu blog no Estadão. Regente da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, Cruz teria aceitado o cargo apesar de não ter qualquer garantia de que permaneça na função em 2019, uma vez que tudo indica que deverá haver grandes alterações na cadeia de comando do governo estadual em virtude das eleições de outubro. Até o momento da publicação do presente artigo, a nomeação de Claudio Cruz ainda não foi publicada em Diário Oficial.

 

Análise

No que diz respeito ao custo da produção de Un Ballo in Maschera, não resta qualquer dúvida de que Fernando Bicudo enfiou os pés pelas mãos: deixou-se levar por alguma fantasia de grandeza desmedida e acabou gastando um dinheirão com um espetáculo ruim. O dirigente poderia ter se pautado no exemplo de João Guilherme Ripper, que, quando chegou ao TMRJ em meados de 2015, apostou em parcerias e trouxe ao Rio trabalhos muito bons de outros teatros, como Don Pasquale, A Menina das Nuvens e Le Nozze di Figaro.

Nesse início de uma provável curta gestão, com parcas garantias financeiras por parte de um desgoverno que continua em situação falimentar (apesar de uma ligeira melhora em suas contas em relação a 2017), se Bicudo tivesse, por exemplo, e apenas por exemplo, se interessado em trazer ao Rio a elogiadíssima La Traviata do Palácio das Artes, teria gastado no máximo a metade do que gastou com o Ballo, e por um espetáculo muito melhor. A ópera no Brasil precisa de parcerias institucionais, que independam dos dirigentes de plantão, e não precisa de egocentrismos exacerbados. Em tempo, cabe perguntar: de que vale uma “coprodução” em que os figurinos precisam ser totalmente refeitos? Definitivamente, não vale o custo. Não tem como valer.

Dentre todas essas polêmicas, talvez a mais impossível de entender e aceitar seja a forma de contratação de Pier Francesco Maestrini: o encenador não foi nomeado para o cargo que deveria ocupar, e o Municipal do RJ preferiu (ou aceitou) pagar-lhe por contrato(s), mas não faz muita questão de esclarecer o(s) valor(es) previsto(s) neste(s) documento(s) para a remuneração do profissional. Se Maestrini foi, é ou será remunerado com dinheiro público durante a sua atuação junto ao TMRJ, a casa tem a obrigação de esclarecer quanto está pagando por sua atuação. Da mesma forma que o salário de Tobias Volkmann ou o de qualquer servidor estadual pode ser consultado na internet, o distinto público tem o direito de saber quanto Maestrini está recebendo dos cofres públicos.

Poder-se-ia até questionar: o presidente da Fundação Teatro Municipal recusa-se a pagar R$ 60 mil por ano (uma bagatela) a Eduardo Álvares para manter a Academia de Ópera Bidu Sayão em funcionamento (conforme demonstrado na primeira parte deste artigo, publicada em 29 de maio), mas paga a Maestrini um valor incerto, que não faz questão de esclarecer, por um trabalho que, até aqui, não apresentou qualquer resultado satisfatório? Isso não faz o menor sentido.

Fernando Bicudo

Quanto à substituição do regente titular da OSTM, ao que tudo indica, Fernando Bicudo aceitou passivamente a decisão do secretário de Cultura de exonerar Tobias Volkmann, e, dois dias depois, já tinha um novo nome para o cargo – um nome que, certamente, não passou por um processo de maturação dentro da instituição: era o que estava disponível, era o que havia para o momento.

Se o nome de Claudio Cruz é ou não o ideal para assumir a regência titular de uma casa de ópera, devido à rapidez da escolha, essa parece ter sido uma questão que sequer foi considerada antes da divulgação da decisão. Fico me perguntando o que terá passado pela cabeça do regente para aceitar esse cargo nas condições atuais e sem garantias de nele permanecer em 2019, e não chego a nenhuma resposta satisfatória.

Uma controvérsia indefensável é que Bicudo alega que encerrou as atividades da Academia de Ópera Bidu Sayão porque esta “nunca existiu formalmente”, mas, ao mesmo tempo, mantém no Municipal o tal “colegiado artístico” que também nunca existiu formalmente. Esse “colegiado” simplesmente não faz parte da estrutura administrativa do Municipal, e o cargo de diretor artístico da casa continua vago.

A conclusão final é que, nesses cinco meses de gestão, Fernando Bicudo falou muito, apareceu muito na mídia, mas pouco ou nada fez de realmente consistente. Depois de abril, a próxima ópera encenada do Municipal, por exemplo, se realmente acontecer, não deve vir antes de outubro.

Bicudo encerrou as atividades de uma Academia de Ópera e anunciou uma temporada que sabia que não seria possível cumprir, devido à falta de verba suficiente. Anunciou um diretor artístico de ópera que não ocupa nenhum cargo (e que a imprensa cultural despreparada e que não investiga nada engole como se um cargo ocupasse), e, em uma de suas últimas aparições na mídia, ainda fez questão de posar para uma coluna de jornal fechando acordo para a apresentação de uma ópera (???) de Gilberto Gil – que certamente será só mais um musical, mas que deve estar sendo chamado de “ópera” apenas para ganhar uma roupagem mais “elegante”.

Muita polêmica e pouquíssima produtividade: são as marcas da “gestão” de Bicudo até aqui.

 

Faça seu comentário
Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com