Escrito por em 29 maio 2018 nas áreas Crítica, Espírito Santo, Lateral, Música de câmara

Cristian Budu e Camerata Sesi-ES tocam, em Vitória, Malédiction, de Liszt.

 

Robert Schumann nunca foi um sujeito muito convencional. Em 1831, quando contava com 21 anos de idade, ele passou a escrever críticas musicais para um importante jornal de Leipzig, na Alemanha. Em muitas delas, um narrador – o próprio Schumann – dialogava com dois de seus amigos: Eusebius e Florestan. O primeiro possuía uma personalidade mais contida, ao passo que o segundo era um indivíduo mais passional. Na realidade, os dois personagens eram ficções criadas por Schumann, refletindo aspectos de sua personalidade.

No mais famoso texto protagonizado pelo trio, Eusebius chega a um determinado local onde já estão Florestan e Schumann, com um piano à disposição. Eusebius parece surpreendentemente empolgado: “Tirem os chapéus, cavalheiros: um gênio!” – ele exclama, ao sacudir uma partitura. E passa a executá-la, sem revelar aos seus pares quem seria o tal gênio. Florestan, impressionado, chega a afirmar que a obra poderia ter sido escrita por Beethoven ou por Schubert. Ao fim, a revelação: para a surpresa do narrador e de Florestan, a obra é de um desconhecido: são as Variações sobre ‘Là ci darem la mano’, de um certo Frédéric Chopin.

É interessante notar que tal afirmação poderia nos levar a crer que Schumann fosse bem mais velho que Chopin, o que lhe conferiria a necessária autoridade para fazer tal afirmação (ainda que por meio de Eusebius). Contudo, Schumann era aproximadamente três meses mais novo que o compositor polonês. De toda sorte, a crítica foi um sucesso e colaborou para que o nome de Chopin, até então estabelecido em Paris, se tornasse conhecido também na Alemanha. Para sermos realistas, é bem possível que em outros textos Schumann tenha se empolgado com outros compositores que, nos dias de hoje, pouco significado têm na História da Música (com efeito: ele mencionava com frequência um escritor chamado Jean Paul, o qual, convenhamos, não é nenhuma sumidade da literatura germânica). Todavia, o acerto no caso de Chopin foi exemplar. Chopin era, de fato, um gênio.

Pois bem: sem recorrer a personagens fictícios (e sem a pretensão de ser o primeiro a constatar isso), o fato é que quando ouvimos o pianista Cristian Budu, logo notamos que estamos diante de um imenso talento. Ganhador da edição de 2013 do Concurso Internacional de Piano Clara Haskil, em Vevey, na Suíça (outros laureados em edições anteriores foram Christoph Eschenbach, Dinorah Varsi, Richard Goode, Michel Dalberto e Till Fellner), Budu foi citado recentemente no rol da prestigiada revista inglesa Gramophone, que indicou as dez melhores gravações de Chopin, figurando ao lado de gente como Marta Argerich, Murray Perahia, Maria João Pires, Arthur Rubinstein e Dinu Lipatti. O disco em questão, do selo suíço Claves, traz os Prelúdios, Op. 28. Na crítica originalmente publicada pela revista, são elogiadas a maturidade da interpretação e a capacidade de extrair uma sonoridade límpida do piano, além da atuação contida, focada na música, que não apela em nenhum momento para as excentricidades de mau gosto de outros pianistas midiáticos da nova geração (em cinco minutos de buscas no YouTube é possível encontrar de tudo).

Tais atributos se fizeram presentes no concerto de 24 de maio, no Teatro do Sesi, em Vitória, no qual Budu interpretou, ao lado da Camerata Sesi-ES, a obra Malédiction, para piano e orquestra de cordas, de Franz Liszt, bem como alguns bis, a pedido do público, para piano solo – as Impressões Seresteiras, de Villa-Lobos, Arabeske, de Schumann, e dois dos citados Prelúdios, Op. 28, de Chopin.

Budu demonstrou grande domínio técnico, com perfeitas variações na dinâmica musical (o que enriqueceu significativamente a execução da obra de Liszt, que guarda alguma semelhança com o Concerto n. 1 para piano e orquestra, do mesmo autor), e exemplar compreensão da linguagem característica de cada compositor, ponto acerca do qual voltaremos a falar mais adiante.

Seria injusto não mencionar o brilhantismo da participação da Camerata. A execução da obra de Mendelssohn começou um pouco vacilante, mas logo a orquestra se estabeleceu e, já a partir do movimento, passou a prender a atenção do público. Foi bastante agradável a interpretação da Simple Symphony, de Britten – compositor que não é nenhuma unanimidade. Destaque para o celebrado Playful Pizzicato. Fica aqui, a título de sugestão, a indicação para que esse movimento seja incorporado como repertório pela Camerata para, futuramente, ser utilizado como bis em outras apresentações. A regência do maestro Leonardo David foi, como de costume, inspirada, extraindo dos instrumentistas da Camerata uma sonoridade homogênea e empolgante, entremeada por momentos de grande lirismo. Muito correto o suporte dado ao solista na obra de Liszt.

Tornando a falar de Budu, se a sua visão de Liszt, Villa-Lobos e Chopin agradou bastante o numeroso público presente no Teatro do Sesi, sua interpretação de Schumann alcançou um patamar elevadíssimo. Ouvimos uma execução de Arabeske extremamente idiomática, própria de intérpretes mais calejados, com muitos anos de estrada – naquele momento, não parecia que um pianista com apenas 30 anos de idade estivesse no palco. Tal como na crítica que saudou a chegada de Chopin, não foi apenas Schumann que se fez presente no recinto quando Budu iniciou sua interpretação – o intenso Florestan e o reflexivo Eusebius também estavam lá.

Vale dizer que quando Schumann compôs a citada obra, estava impedido pelo futuro sogro de se aproximar de sua amada Clara. Não podendo lhe dirigir a palavra, Schumann lhe falava por meio da música. A mensagem, como sabemos, atingiu o objetivo desejado, uma vez que Robert e Clara permaneceram juntos até a trágica morte do compositor, aos 46 anos. Budu, felizmente, não está impedido de falar com o público. Porém, ainda que estivesse, já lhe bastaria se expressar por meio do piano. E, quando o faz, traz à memória a frase de Eusebius. Assim sendo, prezados leitores: tiremos os nossos chapéus.

 

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