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O lado branco da Força

Soprano Marilia Vargas reina como a feiticeira-título da ópera Alcina, de Händel, em montagem sci-fi do Theatro São Pedro.

 

No início do século 18, a ópera italiana dominava o mundo feito uma Hollywood barroca e os cantores da Bota eram como astros e estrelas de cinema. Mesmo na já sofisticada e cosmopolita Londres, obras líricas na língua de Dante eram quase sinônimo de sucesso, consumidas com avidez por uma classe média ascendente e endinheirada. Dono de um grande tino para os negócios – além de um talento de descomunais fulgor e versatilidade –, foi na Inglaterra onde aportou o alemão Georg Friedrich Händel (1685-1759). Foi no Haymarket Theatre, na capital inglesa, que o compositor, então com 26 anos, estreou, com os dois pés direitos, sua primeira ópera para o público britânico: Rinaldo (1711). Composta em cerca de duas semanas, com libreto em italiano escrito por Aaron Hill (a partir do poema de Torquato Tasso), e estrelada pelo contralto Francesca Boschi e pelo castrato Giuseppe Nicolini (como o nobre cruzado do título), a ópera foi um sucesso tão estrondoso quanto os trovões que havia em cena – graças, além da acurada visão de negócios de Händel, a árias lindas (e até hoje célebres), como Cara sposa e Lascia ch’io pianga.

A partir desse grande êxito, a produção lírica do compositor (e empresário) foi de sucesso em sucesso: Giulio Cesare e Tamerlano (1724), Rodelinda (1725) e Orlando (1733), para citar algumas, sempre protagonizadas por prima-donas como Faustina Bordoni e Francesca Cuzzoni, e pelo castrato Senesino.

Em 1735, ameaçado pela concorrente Opera of the Nobility (que roubou o cast estrelar do Haymarket – então rebatizado de King’s Theatre – e ainda contava com a voz ímpar do castrato Carlo Maria Broschi, conhecido por Farinelli) e pela estreia de The Beggar’s Opera, de John Gay (espetáculo popularesco com partes cantadas em inglês que abalou a soberania lírica italiana na Inglaterra), Händel apostou em uma nova ópera: Alcina (HWV 34). Com trama baseada em amores e encenação cheia de magia, foi sua quarta criação baseada no poema épico Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto (as outras foram Rinaldo, Orlando e Ariodante). Para enfrentar a concorrência, o criativo homem de negócios se reinventou: além de cantores como a célebre soprano Anna Strada, a mezzo Maria Caterina Negri e o castrato Giovanni Carestini, a ópera tinha danças especialmente compostas para a bailarina francesa Marie Sallé, que entrava em cena vestida de Cupido.

Um dos últimos sucessos líricos de Händel, Alcina chegou, depois de um longo e tenebroso inverno de esquecimento das óperas barrocas, ao Theatro São Pedro, em São Paulo. A estreia, com casa cheia, ocorreu em 22 de junho.

 

Em uma galáxia muito, muito distante

Aproveitando que o libreto diz apenas que a trama se desenrola em uma ilha encantada, sem especificar época ou lugar, o diretor e cenógrafo William Pereira optou por situar a ação no futuro e em outro planeta – pelo menos é o deu a entender a referência explícita de figurinos e adereços (criados por Fábio Namatame, em sintonia com o visagismo de Tiça Camargo) à série cinematográfica de ficção científica Star Wars. Alcina remetia à Princesa Amidala; Ruggiero, Bradamante e Melisso bem poderiam ser cavaleiros jedi; os soldados da feiticeira, com seus capacetes e “sabres de luz”, não eram nada menos que stormtroopers do Império Galático. De modo geral, eram peças bem desenhadas e consistentes com o conceito proposto. Os habitantes da ilha (Alcina, Morgana e Oronte) vestiam branco imaculado; os invasores (Bradamante e Melisso) usavam tons terrosos (vêm de uma nação menos pura?); preso entre os dois mundos, Ruggiero usava vestimenta jedi manchada de branco.

O único deslize da caracterização talvez tenha sido a dos ex-amantes cativos (interpretados pelos bailarinos Arthur Haroyan, Arthur Medeiros, Arthur Nicolodi, Emanuel Faioli, Heitor Garcia, Júnior Gadelha, Leandro Affonso, Michael Martins, Sidnei Araújo e Thiago Alves): cabelos desgrenhados e vestes de pele faziam com que parecessem homens das cavernas. A coreografia de Anselmo Zola pouco ajudou.

Alcina e seus ex-amantes

 

Em contraste com citações tão diretas, Pereira situou a cena em um cubo branco, asséptico e totalmente clean, cercando um palco limpo. “Com ele, retiro o descritivo e o figurativo, e coloco o próprio enredo no foco da atenção”, disse o diretor e cenógrafo. As mudanças de ambiente e de emoção eram sublinhadas por um deslumbrante desenho de luz assinado pela dupla de artistas multimídia Mirella Brandi e Muep Etmo. Sem perder a sobriedade e esbanjando elegância, transitavam por cores chapadas e néons que, às vezes, lembravam telas de Mark Rothko ou de Arcangelo Ianelli, vistas da perspectiva de Robert Wilson.

Essa proposta funcionou muito bem para a trama rocambolesca, permeada de recitativos, árias e danças. Bradamante (disfarçada de Ricciardo) e seu mentor Melisso chegam à ilha de Alcina em busca de Ruggiero, noivo de Bradamante que foi enfeitiçado por Alcina (que tem o hábito de seduzir homens e, quando acaba o amor, transformá-los em feras ou rochas). Morgana, irmã de Alcina, apaixona-se por Ricciardo – mesmo estando comprometida com o comandante Oronte (que não gosta nada disso). Depois de idas e vindas, Bradamante e Ruggiero retornam aos braços um do outro; Morgana e Oronte se reconciliam; Alcina lamenta a perda de seu amado Ruggiero; e todos os ex-amantes da bruxa voltam à forma original. Como ocorre comumente, foi suprimida a história do menino Oberto em busca de seu pai.

 

Desequilíbrio na Força

Ainda que feitas para atender às exigências específicas de seu público (em detrimento a criações mais autorais de compositores que desprezavam o apelo popular para ouvir apenas o “chamado de sua arte”), as óperas de Händel são cheias de imaginação e recheadas por belíssima música. Além disso, como homem de negócios, o compositor entendia a necessidade de fazer brilhar seus cantores para alcançar o êxito na produção. Por isso, não hesitava em interromper a trama para dar lugar a uma ária cheia de ornamentos, na qual seu intérprete podia exibir seus atributos vocais feito um pavão da garganta (nem quem, para isso, tivesse de soltar meia dúzia de impropérios a sua estrela – como, diz a História, fez com Carestini quando o castrato se recusou a cantar a ária Verdi prati por considerar que ela não se encaixava à sua voz). Alcina encaixa-se nesse rol, e consta que foi executada inúmeras vezes nos três anos subsequentes à sua estreia (até cair no ostracismo e ser redescoberta na década de 1920, em Leipzig, e voltar aos palcos ingleses nos anos 1950).

Sob direção musical e regência do maestro e violinista Luis Otavio Santos, um dos principais nomes da interpretação musical historicamente orientada no Brasil, a Orquestra do Theatro São Pedro emanou uma sonoridade rica e cheia de nuances. O conjunto ressoou de maneira bastante particular e cheia de beleza já desde a delicada abertura.

Vocalmente, o barroco demanda agilidade e leveza, mas, ao mesmo tempo, um toque de colorido e certo corpo tímbrico para expressar emoções. O elenco escalado para a montagem do São Pedro, de modo geral, situou-se entre um atributo e outro.

Na noite de estreia, a soprano Thayana Roverso teve atuação irregular como Morgana. Muitos agudos soaram apertados já logo em sua intervenção inicial (ária O s’apre il riso). Ama, sospira, ma non t’offende chegou quase à desafinação. Ao fim do primeiro ato, sua participação (Tornami a vagheggiar, célebre nas vozes de Joan Sutherland e Kathleen Battle) foi mais bem executada, assim como a ária na qual pede perdão a Oronte (Credete al mio dolore). A seu favor, todo o tempo, boa desenvoltura cênica.

No papel de Bradamante, a mezzosoprano Carolina Faria mostrou, mais uma vez, seu belo timbre e seu talento. Mesmo que sua performance não tenha sido tão brilhante como é de costume, é louvável seu domínio técnico, que lhe permitiu executar tantos ornamentos com mais desenvoltura do que talvez se pudesse esperar de sua voz encorpada. Exemplo disso foi a acelerada ária Vorrei vendicarmi del perfido cor, do segundo ato, muito bem cantada e interpretada com verdade.

A atuação do tenor Caio Duran (Oronte) cresceu durante a noite. Seus recitativos foram articulados e bem projetados. Nas árias – como em Un momento di contento – mostrou linha de canto firme e sem oscilações (ainda que tenha mostrado alguma dificuldade em árias com frases muito longas). Já o barítono austríaco Norbert Steidl teve atuação apenas correta no papel de Melisso, com algum destaque na ária Pensa a chi geme, ao fim da primeira cena do segundo ato.

Se Händel ressuscitado viesse reger sua obra, mais uma vez estapearia o intérprete de Verdi prati – neste caso, o contratenor israelense David Feldman (Ruggiero). À sua voz leve faltou, em diversos momentos, apoio para os incontáveis ornamentos de sua parte, que acabavam soando “sujos” e atropelados. Exemplo disso foi a pobre interpretação de Chi scuopre al mio pensiero, no segundo ato, bastante sem fôlego e apoio. A famosa Verdi prati soou insossa, apesar da belíssima luz verde e azul. O artista cantou um pouco melhor em La bocca vaga – isto é, árias menos rebuscadas. Um desapontamento.

Em primeiro plano, da esq. para a dir.: Thayana Roverso (Morgana), Caio Duran (Oronte), David Feldman (Ruggiero), Marilia Vargas (Alcina), Norbert Steidl (Melisso) e Carolina Faria (Bradamante)

 

Cumpra seu destino!

Soberana inquestionável, a soprano Marília Vargas flanou, irrepreensível, por toda a montagem como a feiticeira Alcina. Sua especialização em música antiga somou-se a seu talento e sensibilidade para uma atuação impecável, sem nenhum deslize, tanto cênica como vocalmente.

Seu timbre é encantador e sua emissão se deu na medida exata entre volume e leveza. Graves e agudos bem projetados, em linha de canto firme e, como se isso fosse pouco, a soprano ataca e finaliza suas frases com enorme graça. Seus trinados pareciam flutuar sobre as notas – qualidade perceptível desde sua primeira ária, Di’, cor mio, quanto t’amai.

A cantora ainda soube aliar técnica e emoção. Quando Alcina se descobre traída – Ah! Mio cor! Schernito sei!, no segundo ato –, quando invoca espíritos – Ombre pallide, no fim do segundo ato – ou em sua derradeira ária, na qual revela insuspeita densidade emocional – Mi restano le lagrime –, a soprano interpretou com elegância e consistência, e (en)cantou a extasiada plateia.

Com uma proposta cênica bem amarrada (mesmo que não seja unânime), luz e figurinos bonitos e conceitualmente consistentes, direção musical e execução sóbrias e caprichadas, a montagem de Alcina no São Pedro tinha na soprano Marilia Vargas a fonte de uma Força descomunal. Um centro ao redor do qual tudo gravitava, como se estivéssemos em uma galáxia muito, muito distante.

Marilia Vargas exibe seus encantos como Alcina

 

Fotos: Heloisa Bortz e Sérgio Ferreira

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com