CríticaLateralÓperaRio de Janeiro

Leveza e sensibilidade

Em produção modesta, mas bem cuidada, ópera de Mozart passa bem pela Cidade das Artes

Rafael Siano e Vittório Gava

Wolfgang Amadeus Mozart contava apenas 12 anos de vida quando compôs, em 1768, Bastien und Bastienne, sua terceira ópera, a segunda no estilo Singspiel (que mescla trechos falados às passagens musicais) – ele havia composto as duas primeiras quando tinha 11 anos!

A obra narra as desventuras de Bastienne, uma jovem camponesa que perde seu amado, Bastien, para uma nobre dama. Almejando reconquistá-lo, ela pede ajuda a Colas, um mago. Este orienta, a seu modo, os dois amantes, até a reconciliação final. Se, claro, Bastien está muito longe das grandes obras-primas que o compositor escreveria para o palco, como Le Nozze di Figaro e Don Giovanni, impressiona a qualidade que já pode ser percebida na música composta pelo Mozart ainda criança.

Produzida pela Kether Arts, a montagem apresentada na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, nos dias 14 e 15 de julho foi bastante simples, mas bem cuidada. No exíguo espaço do Teatro de Câmara, a encenação de Manuel Thomas se concentrava principalmente na direção de atores, atingindo um resultado satisfatório. A opção pela utilização de um ator mirim representando Mozart, se não era original, mostrava-se acertada como elemento de ligação para uma verdadeira releitura, que transportou a ação para o Rio de Janeiro e que mesclou os números musicais originais em alemão com diálogos em português que foram não apenas traduzidos, mas também adaptados.

O cenário de Maria Isabel Magalhães, formado basicamente por quatro módulos com estampas de partituras, mostraram-se funcionais. Os figurinos de Mia Carvalho, além adequados, tinham um leve toque caricato, e a correta luz de Júlia Requião fez o que pôde no diminuto espaço do Teatro de Câmara.

Formada por oito instrumentistas (incluindo a pianista Eliara Puggina), a Atlantis Opera Orchestra, conduzida por Evandro Rodriguese, no geral esteve bem na récita do dia 15, mas é preciso registrar que aprimorar a sonoridade do conjunto é um trabalho que ainda levará tempo – o que é normal em se tratando de uma pequena orquestra que começou suas atividades neste ano de 2018.

Os solistas apresentaram-se equilibrados. A soprano Chiara Santoro deu vida a uma inocente, engraçada e musical Bastienne, enquanto o tenor Rodrigo Sammarco (Bastien) exibiu boa atuação cênica. Seu bom material vocal ainda pode evoluir. O barítono Rafael Siano interpretou Colas com voz segura e boa presença. O ator Vittório Gava viveu Mozart com desenvoltura.


Gianni Schicchi em dezembro

Bastien und Bastienne foi a segunda ópera apresentada este ano na Cidade das Artes, depois de La Serva Padrona. O projeto da Kether Arts de levar óperas ao espaço da Barra da Tijuca finalmente preenche uma lacuna na instituição, já que umas das funções originais para as quais a Cidade das Artes foi construída (quando ainda era chamada de Cidade da Música) era exatamente a de apresentar espetáculos de ópera.

Em dezembro, essa primeira e ainda modesta temporada lírica da Cidade das Artes será encerrada com a ópera Gianni Schicchi, de Puccini (aquela da célebre ária para soprano O mio babbino caro). Não é nada, não é nada, a Cidade das Artes já apresentou este ano mais óperas no Rio de Janeiro que o Theatro Municipal…

 

Foto do post (divulgação): Chiara Santoro, Rafael Siano e Rodrigo Sammarco

Foto inserida no texto: Rafael Siano e Vittório Gava

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com