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Staunton Music Festival 2018

Carsten Schmidt, o fundador e a alma do Festival, nasceu na Alemanha.

Em 1988, Carsten Schmidt organizou dois concertos de música de câmara em Staunton, na Virgínia/EUA, com a participação de alguns amigos, músicos como ele. Desse início modesto, nasceu um festival que acaba de realizar sua 21a. edição, com 30 concertos, vários deles de calibre internacional. O Staunton Music Festival (SMF) é reconhecido hoje como um dos melhores da temporada de verão nos Estados Unidos. Tudo isso foi possível graças ao apoio de um entusiástico público e várias esclarecidas instituições locais. O coração do festival é uma série de dez concertos noturnos de ingressos a preços módicos, e todos os outros, concertos diurnos, de entrada franca, patrocinados por fundações da região. Atualmente, o público aflui de todo o país, assim como muitos músicos e cantores, para este festival que hoje tem a duração de dez dias, sempre em agosto.

O SMF assumiu a missão de oferecer concertos de música de câmara de alta qualidade, executada por músicos de alto calibre, em espaços históricos da cidade. Os programas buscam um equilíbrio entre o antigo e o novo, entre a música do passado e a do presente. Com efeito, os músicos são locais, nacionais e internacionais, alguns deles notáveis pelo conhecimento que têm das tradições de execução em instrumentos históricos. Todos eles acreditam que a música erudita desempenha uma função transformadora na vida interior das pessoas, no sistema educacional, e na vida da comunidade. O SMF funciona hoje com uma sólida estrutura administrativa, um corpo de voluntários e uma diretoria ativa, influente, participante.

Schmidt, o fundador e a alma do Festival, nasceu na Alemanha, onde estudou inicialmente, tendo continuado seus estudos nos Estados Unidos, onde hoje também reside, alternando residência com a Alemanha. Regente, pianista e cravista, Schmidt se apresenta em muitos países. O que mais o tornou conhecido como o diretor do SMF, foi sua maneira pessoal de planejar os programas, justapondo, numa mesma noite, obras muito conhecidas, e obras totalmente desconhecidas. Acha ele que, com isso, os programas não somente ganham em variedade, como também dão às peças a oportunidade de dialogarem e iluminarem umas às outras. Diz ele ainda que a mistura de vários estilos musicais, quando bem realizada, abre novas perspectivas.

A série de programas noturnos, seguindo a ideia básica do diretor, mesclou vários estilos em alguns programas. Este princípio, no entanto, não foi seguido nos concertos de inauguração e encerramento, o primeiro, dedicado a Händel, e o segundo, a Mozart. De fato, uma das sensações do festival, foi a apresentação, semi-encenada, da ópera Hércules, uma obra-prima de George Friedrich Händel raramente encenada desde a sua estreia em Londres, em 1745. O festival foi encerrado com a execução da Sinfonia n. 41, Júpiter, e o Réquiem, de W. A. Mozart.

O libreto de Thomas Broughton para Hércules, baseado em As Traquíneas, de Sófocles, e nas Metamorfoses, de Ovídio, conta a história do retorno de Hércules da guerra, de onde trouxe consigo a escrava Iole, na verdade uma princesa, que desperta infundadamente violento ciúme na esposa do herói, Dejanira, que, em seu desvario, presenteia o marido com uma túnica envenenada; ao vesti-la, Hércules arde em chamas. Dejanira, arrependida, o segue na morte, e Iole se casa com Hyllus, filho de Hércules, a quem, de fato, amava. Com isso, Zeus restabelece a paz, que é celebrada pelo coro, que representa a voz do povo. Nem ópera, nem oratório, Hércules foi concebido, na verdade, como drama musical, e o tempo comprovou seu alto valor como obra de arte.

Na linha atual, cada vez mais frequente, de “modernizar” os clássicos, Ethan Heard, o encenador, decidiu desconfiar da eficácia dramática do texto, e imprimiu-lhe, no primeiro ato, uma linha de paródia, ironizando a seriedade do libreto, e divertindo o público com gags americanos,  vestiu os protagonistas com blusões de couro, capacetes de motoqueiros,  bonés de baseball usados de trás para a frente, óculos de sol e muito mais. Mas, a extraordinária música de Händel foi mais forte, e a obra se impôs! Os cantores, jovens e cheios de vitalidade, recriaram a partitura com brilho, principalmente Sara Couden, cuja voz é rica, maleável e expressiva, do registro agudo ao grave, e cuja virtuosidade trabalhou a ornamentação barroca com grande autoridade. Muito competente no estilo, Carsten Schmidt regeu a orquestra exemplarmente, e como suporte firme aos vocalistas.

A programação das demais noites ofereceu várias obras vocais de muito interesse,  a começar pelo Pierrot Lunaire, de Arnold Schönberg, estrelado em Berlim, em 1912. Um melodrama baseado em poemas simbolistas do belga Albert Girard, em tradução alemã, e composto em atonalidade livre, esta obra desbravou novos caminhos para a música moderna, adotando nova técnica vocal, conhecida como Sprechgesang (canção falada), em que os ritmos são estabelecidos, mas quem dá o tom é o cantor. Os poemas relatam as tristezas de Pierrô, e seu amor não correspondido por Colombina. A soprano Megan Chartrand dominou as dificuldades técnicas, e conseguiu criar o clima melancólico da obra, secundado visualmente pela pantomima de Gwen Grastorf, como o triste e calado Pierrô, mais clarinete, flauta, violino e violoncelo, que completam o conjunto.

Na mesma noite, foi oferecido o ciclo de oito canções Nocturne, de Benjamin Britten, para tenor e orquestra de câmara, baseado em poemas que vão de Shakespeare a Shelley. Os poemas celebram a noite e as respostas que os poetas lhe dão, das mais dramáticas às mais líricas. Com grande imaginação, Britten escreveu a música para cada poema com a linguagem harmônica e melódica que cada um deles pede, e o tenor Derek Chester conseguiu interpretá-las com a individuação de cada uma das canções, num encadeamento natural e sutil. Essas canções foram compostas na linha das frases prolongadas de Gustav Mahler, e foram dedicadas a Alma Mahler, sua viúva. O tenor dialoga com pequena orquestra de cordas.

Vários outros concertos incluíram obras vocais, tais como motetos de Couperin, lieder de Clara Wieck, uma produção coreografada de  Il combattimento di Tancredo e Clarinda”, de  Claudio Monteverdi, obras de compositores contemporâneos, trechos de obras maiores de música polifônica medieval e renascentista (Janequin e Palestrina), Os sete pecados capitais, de Kurt Weill sobre texto de Bertold Brecht, e o Réquiem de Mozart, que encerrou o festival com chave de ouro.

Um programa especial, Memória e prece, dedicado às vítimas do Holocausto, foi organizado com obras de Salamone Rossi (1570-1630), violinista e compositor ativo na corte do Duque de Mântua, com a sinfonia e o salmo Shir Hama’alot; “Las sombras de los Apus, de Gabriela Lena Frank, que neste ano foi o compositora residente do Festival, e Poemas do Holocausto, de Allan Blank (1925-2013), de 1996, para mezzosoprano, piano e contrabaixo, um ciclo de canções sobre poemas e cartas escritos em iídiche, no campo de concentração de Teresin.

Uma noite especial foi dedicada ao cravo, com obras de J. S. Bach e W. A. Mozart, bem como ao órgão, com música de Buxtehude, e um novo concerto para órgão e orquestra, encomendado na Alemanha, especialmente para a ocasião. Três espaços históricos, todos com ótima acústica, sediaram o Festival: a Trinity Episcopal Church (que tem belos vitrais de Tiffany), a First Presbyterian Church, e o Blackfriars Playhouse, única réplica existente do teatro original coberto, da companhia de Shakespeare, em Londres, sede do American Shakespeare Center.

Dentro de todos os merecidos elogios, tenho também um reparo a fazer: a programação incluiu, em muitos concertos, peças vocais e instrumentais de curta, ou até curtíssima duração, fora de seus amplos contextos, e como peças avulsas que não são, com um sem número de músicos e cantores que se revezavam nos palcos, num entra-e-sai arrastado. Além de não dar ao público a oportunidade de se aprofundar nas obras das quais esses excertos foram extraídos, a movimentação nos palcos suscitava aplausos de entrada e saída algo perturbadores, anti-climáticos causadores de desnecessária perda de tempo. Parece-me preferível diminuir o número de peças e apresentar composições completas, a salpicar os programas com um mostruário de excertos que não fazem justiça nem às obras nem aos compositores. Como diz o velho ditado, “less is more”.

Recentemente aclamada como uma das melhores cidades pequenas dos Estados Unidos, Staunton (pronuncie-se Sténton), documentada desde 1720, é uma das cidades mais antigas do Vale do Shenandoah, na Virgínia, a 200 km de Washington, D.C. Estrategicamente localizada, a cidade foi um ativo entreposto comercial e, com o tempo, tornou-se um centro de estudos superiores, criativos até hoje, sede de institutos de pesquisas e de museus históricos. Staunton é também a cidade natal de Woodrow Wilson, 28o. presidente dos Estados Unidos, de 1913 a 1921. Com mais de 200 construções tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico, a cidade é uma antologia da arquitetura regional norte-americana, de 1740 a 1890, e é cercada por fazendas e paisagens de colinas, prados e montanhas de grande beleza. Distante da agitação dos grandes centros, Staunton é um retiro ideal para recolhimento e meditação, constituindo-se num lugar ideal para a realização de festivais de música e teatro que hoje é.

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.