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Noventa anos, e contando!

Edino Krieger comemora 90 anos em grande estilo.

 

“Eu acho o tempo um fator terrivelmente angustiante, porque ele passa depressa demais”. Essa frase foi dita pelo compositor catarinense Edino Krieger em entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo por ocasião dos seus 70 anos. Dessa declaração até os dias de hoje já se passaram nada menos do que 20 anos, e o tempo continua cada vez mais acelerado e escasso. Krieger, um homem admiravelmente lúcido e acessível ao público e aos músicos, tem uma biografia peculiar: com apenas 15 anos de idade foi estudar no Rio de Janeiro e, de lá, ganhou o mundo: ainda no Brasil, estudou com Koellreutter, professor de Cláudio Santoro, Guerra Peixe e tantos outros grandes nomes do cenário musical nacional. No exterior, foi aluno de Copland e Lennox Berkeley. Contudo, nunca pode se dedicar exclusivamente à composição, exercendo diversas funções administrativas ao longo de sua carreira, como a presidência da Funarte, a fim de garantir o seu próprio sustento. Dessa forma, Krieger já se definiu como um compositor que tem uma produção pequena. Infelizmente, sua discografia também é (injustamente) escassa. Assim, obras como a cativante Abertura Brasileira (1955) não são, ainda, tão conhecidas pelo grande público: ou se dá a sorte de assisti-las em concerto, ou há a necessidade de se fazer um verdadeiro trabalho de garimpagem em sebos ou sites estrangeiros.

Desta forma, o público que compareceu na quinta-feira, 30 de agosto, ao Teatro Sesc Glória, em Vitória, pode se considerar privilegiado: e não apenas por um motivo, qual seja, assistir à duas composições de Krieger – a citada Abertura Brasileira e o Concerto para Violoncelo (2005). Os privilegiados espectadores também puderam testemunhar a primeira apresentação do celebrado violoncelista Antonio Meneses em terras capixabas, bem como sentir a satisfação de contarem com uma Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo (Oses) em grande forma, regida pelo inspiradíssimo maestro Leonardo David.

Meneses é um dos esplendores da música clássica brasileira. Gênio do naipe de um Nelson Freire, de uma Guiomar Novaes, de uma Bidu Sayão, de um Turíbio Santos, é desnecessário descrever nesse texto em riqueza de detalhes a estatura do artista, de reconhecida projeção internacional desde que iniciou seus estudos com Antonio Janigro e, anos depois, venceu competições prestigiadas em Munique e em Moscou. Muitos ouvintes passaram a conhecê-lo após ter gravado, sob a batuta de ninguém menos do que Herbert von Karajan, obras de Brahms e de Richard Strauss.

A noite começou com uma simpática abertura do compositor lusitano Marcos Portugal, retirada da ópera Il Duca de Foix (1805). De estilo evidentemente italiano, a obra foi muito bem escolhida como prelúdio à peça seguinte: o Concerto n. 1 para Violoncelo, de Haydn, já com a participação de Meneses. Essa obra, executada e gravada com frequência, tem uma história curiosa: o compositor a escreveu na década de 1760 para um grande amigo, o violoncelista Joseph Franz Weigl, de cujo filho chegou a ser padrinho e que tocava na orquestra dirigida pelo compositor nos domínios da família Esterházy. Porém, a partitura se perdeu, até ser reencontrada aproximadamente duzentos anos depois, em Praga. Daí em diante, todo solista de renome passou a incluí-la em seu repertório (há uma gravação com o próprio Meneses, aos 22 anos, a interpretando em Milão: confira no YouTube).

Meneses mostrou um dos motivos pelos quais recebeu o merecido reconhecimento que teve ao longo de sua carreira: os trechos virtuosísticos da obra não são tratados isoladamente. Eles fazem parte de uma concepção mais ampla: não se percebe um mero virtuosismo gratuito e pirotécnico, e sim o virtuosismo como uma dentre diversas ferramentas interpretativas que podem ser empregadas pelo intérprete. Variações sutis nas dinâmicas, escolha poética dos fraseados, domínio completo do idioma musical do Classicismo, tudo isso esteve presente, de forma harmoniosa, na interpretação do refinado violoncelista brasileiro. Destaque para a sublime beleza do timbre do instrumento no Adagio, expressa em frases longas e reflexivas.

Passou-se à segunda parte do programa, com as duas obras já mencionadas de Krieger. A Abertura Brasileira, composta durante a estada do compositor em Londres, empolgou o público presente. Obra de cunho nacionalista, que faz referências ao Xote das Meninas de Luiz Gonzaga, foi interpretada com extremo brilhantismo pela orquestra, merecendo destaque o spalla Leonardo Pinto e as seções de metais e percussão, bem como a empolgante regência de Leonardo David – que extraiu uma sonoridade esfuziante da orquestra, sobretudo na fanfarra carnavalesca que conclui a obra. Isaac Karabtchevsky, professor de David e entusiasta da integração entre música clássica e música popular (vide esta divertida explanação do maestro), certamente ficaria orgulhoso.

Por fim, Meneses retornou ao palco para interpretar o Concerto para Violoncelo e Orquestra do autor catarinense. Trata-se de uma interessante obra em três movimentos – Allegro energico, Cantoria e Allegro frevando – em idioma contemporâneo e que demanda grande esforço do solista e da orquestra. Não me pareceu uma peça tão acessível em uma primeira audição (e nesse ponto, mais uma vez deve-se lamentar a escassez da discografia disponível: é uma composição que mereceria ser melhor explorada pelo ouvinte), mas, a despeito de sua complexidade, é uma bela partitura que também conseguiu manter a atenção do público ao longo de toda a sua execução. Ao final, Edino Krieger e Antônio Meneses (que concedeu um bis: O canto do cego, da Suíte Macambira, do compositor pernambucano Clóvis Pereira) foram saudados entusiasticamente pela plateia.

Uma justa homenagem a um de nossos maiores instrumentistas e a um grande compositor que mereceria ter sua obra melhor divulgada. Ficam, então, dois pedidos no ar: que Meneses possa gravar em breve o Concerto para Violoncelo e que Krieger retorne à Vitória no próximo ano, para brindar o público capixaba com outras de suas composições. Vida longa aos dois!

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Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.