Escrito por em 30 set 2018 nas áreas Minas Gerais, Música sinfônica, Programação

Filarmônica de Minas Gerais celebra o Brasil de Villa-Lobos e Carlos Gomes.

 

Nos dias 4 e 5 de outubro, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais celebra dois consagrados compositores música sinfônica brasileira, Antônio Carlos Gomes e Heitor Villa-Lobos. Com regência do maestro Fabio Mechetti e tendo como solista a celebrada soprano Gabriella Pace, o programa inclui duas das mais emblemáticas obras do repertório nacional: as Bachianas n. 5, de Villa-Lobos, e a Protofonia de O Guarani, de Carlos Gomes. Também integram o repertório das duas noites O Escravo: Alvorada; duas árias de Carlos Gomes – O Escravo: Come serenamente e O Guarani: C’era una volta un principe; e Choros n. 6, de Villa-Lobos. As récitas ocorrem na Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte.

Na série de palestras sobre obras e compositores, promovidas pela Filarmônica antes das apresentações, entre 19h30 e 20h, o convidado das duas noites será o músico Rubner de Abreu, professor, coordenador pedagógico e diretor artístico do grupo Oficina Música Viva. As palestras são gravadas em áudio e ficam disponíveis no site da Orquestra.

 

Gabriella Pace (foto de Henrique Pontual)

Gabriella Pace

Vencedora do Prêmio Carlos Gomes 2010 pela participação na ópera A Menina das Nuvens, Gabriella Pace já cantou sob a regência de maestros como Lorin Maazel, Isaac Karabtchevsky, John Neschling, Roberto Minczuk, Rodolfo Fischer, Luiz Fernando Malheiros, Fabio Mechetti, Sílvio Viegas e Abel Rocha. Foi Ilia em Idomeneo, Eurídice em Orfeo ed Euridice, Giulietta em I Capuleti e I Montecchi, Susanna em As Bodas de Fígaro, Ceci em II Guarany e Pamina em A Flauta Mágica, dentre muitas outras. Desde 2005 faz parte do trio Duetos e Canções, ao lado do pianista Gilberto Tinetti e da mezzo-soprano Adriana Clis, apresentando-se em recitais de música de câmara por todo o país. Gabriella iniciou os estudos com o pai, Héctor Pace, e foi aluna de Leilah Farah e Pier Miranda Ferraro.

 

Fabio Mechetti

Diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais desde sua criação, em 2008, Fabio Mechetti posicionou a orquestra mineira no cenário mundial da música erudita. Além dos prêmios conquistados, levou a Filarmônica a 15 capitais brasileiras, a uma turnê pela Argentina e Uruguai e realizou a gravação de oito álbuns, sendo três para o selo internacional Naxos. Natural de São Paulo, Mechetti serviu recentemente como regente principal da Filarmônica da Malásia, tornando-se o primeiro regente brasileiro a ser titular de uma orquestra asiática.

Nos Estados Unidos, esteve por 14 anos à frente da Sinfônica de Jacksonville e, atualmente, é seu regente titular emérito. Foi também regente titular das sinfônicas de Syracuse e de Spokane, da qual hoje é seu regente emérito. Regente associado de Mstislav Rostropovich na Sinfônica Nacional de Washington, com ela dirigiu concertos no Kennedy Center e no Capitólio. Da Sinfônica de San Diego, foi regente residente. Fez sua estreia no Carnegie Hall de Nova York conduzindo a Sinfônica de Nova Jersey. Continua dirigindo inúmeras orquestras norte-americanas e é convidado frequente dos festivais de verão norte-americanos, entre eles os de Grant Park em Chicago e Chautauqua em Nova York.

Suas apresentações se estendem ao Canadá, Costa Rica, Dinamarca, Escócia, Espanha, Finlândia, Itália, Japão, México, Nova Zelândia, Suécia e Venezuela. No Brasil, regeu todas as importantes orquestras brasileiras.

Fabio Mechetti é mestre em Regência e em Composição pela Juilliard School de Nova York e vencedor do Concurso Internacional de Regência Nicolai Malko, da Dinamarca.

 

REPERTÓRIO:

Antônio Carlos Gomes (1836-1896) e O Escravo: Alvorada (1889)
André Rebouças, amigo de Carlos Gomes, escreveu que o compositor certa vez revelara: “se me dessem agora a escolher entre ir para o céu e ir para a Itália, eu preferiria ir para a Itália”. O entusiasmo de Carlos Gomes está diretamente relacionado à sua admiração incondicional por Verdi. Rebouças também conta que o amigo “apreciava principalmente o amanhecer na floresta; o coro irreproduzível de um milhar de pássaros tinha para ele o maior encanto”. Nessas palavras, Rebouças antevê a composição de Alvorada, interlúdio orquestral da ópera Lo Schiavo [O Escravo], escrita na mesma época em que Verdi estava completando a composição de Otello. Por falar nesse ícone da música italiana, geralmente tão comedido em julgar seus contemporâneos, ele havia profetizado, após ouvir II Guarany: “este jovem começa de onde eu termino!”.

 

O Escravo: Come serenamente (1889)
Em 1880, durante uma triunfal turnê brasileira, Carlos Gomes entrou em contato com os ideais antiescravagistas, aceitando com entusiasmo o papel de Maestro da Abolição. Suas apresentações tornaram-se frequentemente pretexto de manifestações abolicionistas, incluindo a entrega de cartas de alforria sob os aplausos do público. Nesse contexto, o esboço inicial de Lo Schiavo, concebido pelo Visconde de Taunay, focalizava a revolta de escravos negros num engenho do início do século 19. O libreto italiano final, de Rodolfo Paravicini, transformou os escravos em índios brasileiros e transportou a ação para o século 16. Apesar dessas incongruências, a ópera significou para o compositor um esforço de superação técnica no tratamento vocal e na orquestração, principalmente nos bem-sucedidos dois últimos atos.

 

O Guarani: C’era una volta un principe (1871)
O triunfo espetacular de O Guarani, no Scala de Milão, repercutiu por toda a Europa. Elogiado por Verdi, o índio Peri – moldado à avalanche operística da época – cantou em italiano na Rússia, Áustria, Portugal, Dinamarca e Holanda. Para a Exposição Industrial de Milão, em 1871, Carlos Gomes compôs a famosa Protofonia, que condensa os temas mais importantes da ópera e foi consagrada pelo público brasileiro como um segundo Hino Nacional. Na ingênua balada do Ato II, C’era una volta un principe, calcada em prodigiosa técnica vocal, evidencia-se a originalidade do talento melódico do compositor – sobre delicada e colorida orquestração, Cecília canta a história do príncipe que não sabia amar.

 

O Guarani: Protofonia (1871)
Carlos Gomes se inspirou no romance indianista O Guarani, de José de Alencar, para compor sua ópera de mesmo nome. A obra em quatro atos, com libreto em italiano de Antônio Sclavini e Carlo D’Orneville, trata da história de amor de Ceci e Peri. A montagem estreou com grande sucesso em 19 de março de 1870 no Teatro Scala de Milão – a estreia brasileira só veio em dezembro do mesmo ano, no Rio de Janeiro. A Protofonia, ou Abertura, é sem dúvida o tema mais conhecido dessa criação de Carlos Gomes. Inclusive, é uma versão dela que ouvimos no rádio na abertura do programa A Voz do Brasil.

 

Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e Bachianas Brasileiras n. 5 (1938/1945)
O termo Bachianas Brasileiras é uma alusão à combinação de elementos étnicos brasileiros com a técnica composicional de Johann Sebastian Bach, compositor preferido de Villa-Lobos. Trata-se de um conjunto de nove obras definitivamente maravilhosas, mas que, na verdade, guardam poucas relações entre si ou com o estilo composicional bachiano. Por que, então, Villa-Lobos agrupou obras tão disparatadas sob um mesmo título? Talvez porque ele soubesse bem que obras com o mesmo título tendem a se fixar mais facilmente na memória do público, uma vez que criam um universo fechado. E de fato, sempre que falamos de uma das Bachianas Brasileiras, pensamos invariavelmente nas outras. A Bachianas Brasileiras n. 5, originalmente para soprano e oito violoncelos, é composta de dois movimentos: Ária (Cantilena) e Dança (Martelo). A famosa Ária, peça mais conhecida de Villa-Lobos mundo afora, foi composta em 1938, sobre texto de Ruth Valadares Corrêa, e estreada em 25 de março de 1939, no Rio de Janeiro, com a própria Ruth sob a regência de Villa-Lobos. A Dança foi composta apenas em 1945, sobre texto de Manuel Bandeira. A versão completa das Bachianas Brasileiras n. 5 foi estreada no dia 10 de outubro de 1947, em Paris, com a soprano Hilda Ohlin e regência do compositor. Neste mesmo ano, Villa-Lobos faria ainda uma versão da Ária para soprano e violão e, em 1948, da obra completa, para soprano e piano.

 

Choros n. 6 (1926)
Composto no Rio de Janeiro em 1926, e estreado também ali, sob regência do próprio Villa-Lobos, em 1942, o Choros n. 6 não é, cronologicamente, a sexta obra da safra. Nos Choros, não é a cronologia, mas uma espécie de gradação de complexidade estrutural e instrumental que parece nortear a ordenação. Segundo o compositor, “o clima, a cor, a temperatura, a luz, os pios dos pássaros, o perfume do capim melado entre as capoeiras e todos os elementos da natureza do sertão serviram de motivos de inspiração para esta obra que, no entanto, não representa nenhum aspecto objetivo nem tem sabor descritivo”. Villa-Lobos, assim, mantém-se coerente com a sua proposta estética da máxima estilização: nessa peça, como nos demais Choros, mesmo o que parece ser citação de elementos da música tradicional ou da música popular brasileira não deixa de ser trabalho original de composição. A orquestração aqui, numerosa e exuberante, tem como destaque o uso largo de instrumentos de percussão, inclusive daqueles que se identificam mais com a nossa música popular que com a orquestra sinfônica propriamente dita: a cuíca, o coco, o roncador, o reco-reco e o tamborim de samba.

 

Foto do post: Bruna Brandão

 

SERVIÇO:

 

Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

Gabriella Pace, soprano

Fabio Mechetti, regência

 

4 e 5 de outubro, quinta e sexta-feira, às 20h30

Sala Minas Gerais (R. Tenente Brito Melo, 1.090, Barro Preto – Belo Horizonte. Tel.: 31 3219-9000)

 

Ingressos: R$ 116 (balcão principal), R$ 92 (plateia central), R$ 68 (balcão lateral), R$ 50 (balcão palco e mezanino) e R$ 44 (coro – setor comercializado somente após a venda dos demais setores), com meia-entrada para estudantes, pessoas com mais de 60 anos, jovens de baixa renda e pessoas com deficiência, de acordo com a legislação

 

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