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Ópera em SP: entre arte, entretenimento e trapalhadas

Tribunal de Contas do Município suspende novo edital para a gestão do TMSP

 

Como sabemos, São Paulo é a única cidade brasileira que possui dois teatros de ópera com programação regular: o Theatro Municipal e o Theatro São Pedro. A ópera, porém, tem sido tratada de forma distinta nas duas casas paulistanas. Se toda forma de arte pode ser apreciada também como mero entretenimento, o contrário nem sempre é possível, ou seja, nem todo entretenimento pode ser considerado arte. A coisa se complica quando uma instituição, que deveria tratar a arte como tal, passa a tratá-la e vendê-la como puro entretenimento.

Pode-se questionar uma ou outra decisão da Santa Marcelina Cultura, que administra o Theatro São Pedro, em relação à sua temporada lírica de 2018: a escolha do contratenor que participou da montagem de Alcina, para ficar em apenas um exemplo, foi um erro claro e não passível de discussão. Não se pode negar, porém, que a Santa Marcelina tem acertado bem mais que errado em suas escolhas artísticas, mesmo não tendo nomeado um diretor artístico específico para o Theatro São Pedro, e nem mesmo um regente titular para a orquestra da casa.

Já no Theatro Municipal, os erros se sobrepõem aos acertos, sob o aspecto artístico e também sob o aspecto administrativo. Para começo de conversa, a gestão da casa é uma verdadeira confusão, e não se sabe quem realmente manda no Theatro Municipal. O secretário municipal de Cultura de São Paulo, André Sturm, parece achar que quem manda no Municipal é ele, enquanto o Instituto Odeon, que é quem deveria ter as rédeas da administração da casa, permaneceu boa parte de sua “gestão” aceitando pusilanimemente as já notórias interferências do secretário.

Faz apenas um mês que o Instituto Odeon passou a se manifestar de forma mais clara e combativa contra as ingerências de Sturm, e, mesmo assim, deu a impressão de que só deixou a sua postura pusilânime de lado quando foi claramente ameaçado de ter rescindido o contrato de gestão do Theatro Municipal. Até o momento, a manifestação mais completa (e bem longa) do Instituto Odeon pode ser consultada aqui.

No que tange à administração artística, o Municipal continua patinando em gelo fino. Não há na casa a figura de um diretor artístico que responda pela programação, e, embora haja um regente titular (ao contrário do que ocorre no Theatro São Pedro), esse regente, Roberto Minczuk, nunca foi reconhecido como um bom regente de ópera, dentre outros motivos que não cabem ser abordados neste texto, porque a sua carreira nunca foi ligada à ópera. Em outras palavras: reger ópera nunca foi uma prioridade para Minczuk, nunca foi algo que ele fizesse questão de incluir em suas atividades profissionais. Desde que o maestro aceitou o cargo de regente titular da orquestra de um teatro de ópera, a sua falta de experiência em reger para o palco salta aos olhos, sem nenhuma evolução até o presente momento.

Como se fosse pouco, ainda há gente no Municipal que parece considerar que efeitos jogados para a plateia (formada em sua maioria por leigos) e bobagens como o tal “bis no Municipal” são mais importantes que as obras de arte em si. Não se tem notícia de iniciativa parecida em nenhum outro teatro do mundo civilizado, até porque o bis na ópera sempre foi algo raro e tratado como exceção. No Theatro Municipal de São Paulo, porém, o bis se tornou uma regra barata, pautada em um medíocre populismo.

Esta é a diferença, atualmente, entre as formas como as duas casas de ópera de São Paulo abordam a ópera: enquanto no Theatro São Pedro a ópera é respeitada e tratada como arte (que pode vir a ser também entretenimento), no Theatro Municipal a ópera é tratada tão somente como entretenimento. Naquela que deveria ser a principal casa de ópera paulistana, o entretenimento parece ser mais importante que a arte; ver e ser visto parece ser mais importante do que fazer arte.


Trapalhadas

Não acabou. O Theatro Municipal de São Paulo ainda sofre com as trapalhadas de seus gestores amadores. Em agosto deste ano, André Sturm anunciou ao jornal O Estado de São Paulo que o musical A Ópera dos Três Vinténs, de Kurt Weill, seria apresentado em 2019 no Municipal. Na ocasião, os gestores do Instituto Odeon não abriram a boca para confirmar, nem para contestar a informação do secretário. Apenas aceitaram calados, como era de seu feitio até então.

Há poucas semanas, o blog do jornalista Lauro Jardim noticiou que o espetáculo não será mais produzido no ano que vem porque André Sturm e o diretor Luiz Fernando Carvalho, que assinaria a encenação, não conseguiram adquirir os direitos autorais da obra.

Pausa para uma melhor compreensão: então Sturm e Carvalho deram entrevista ao Estadão em agosto para divulgar um espetáculo para o ano que vem sem ter, àquela altura, qualquer certeza de que teriam os direitos da obra? É isso mesmo? Sim, caro leitor, é isso mesmo. Das duas, uma: ou o secretário quis dar entrevista só para aparecer no jornal passando por cima do Instituto Odeon, nada além disso, e para tanto arrumou uma desculpa; ou não passa de um completo desavisado, que não faz a menor ideia de que, para anunciar a realização de uma obra que está sob direito autoral, a primeira coisa a fazer é adquirir os direitos dessa obra. Amadorismo perde.

A penúltima notícia que chegou de São Paulo, no dia 13 de dezembro, deu conta de que a Secretaria Municipal de Cultura realmente decidiu rescindir o contrato com o Instituto Odeon, já tendo notificado a contraparte. Tal decisão se baseia em uma cláusula (absurda?) do contrato que dá a ambas as partes o direito de rescindi-lo unilateralmente sem motivo justo. O Instituto Odeon teria 60 dias para deixar a gestão do TMSP, o que coincidiria mais ou menos com a época da montagem da ópera O Barbeiro de Sevilha, prevista para fevereiro próximo.

O que fará o Instituto Odeon? Aceitará calado mais uma vez? Ou será combativo, como tem se mostrado de um mês para cá? Buscará judicialmente manter vigente o contrato atual? A ver. No fim das contas, quem acaba sendo mais prejudicado é o público, que já não pode mais ter certeza do que o Theatro Municipal apresentará no próximo ano. O Movimento.com havia antecipado aqui a programação lírica preparada pelo Instituto Odeon para 2019.


Novo edital suspenso pelo Tribunal de Contas

Na sexta-feira, dia 14 de dezembro, chegou a última notícia de São Paulo. A última por enquanto, é bom deixar bem claro, já que a toda hora surge um fato novo. Em uma nota em seu site, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo informa que “o edital de chamamento público para celebração de parceria para a gestão compartilhada dos equipamentos e corpos artísticos que integram a FTMSP, conforme determinação contida no ofício SSG-GAB nº 11341/2018, do Tribunal de Contas do Município, está suspenso”.

A nota e o despacho a ela vinculado (veja aqui) não informam o teor do ofício do Tribunal de Contas do Município de São Paulo, de forma que não é possível saber, pelo menos por ora, o exato motivo que levou o Tribunal de Contas a ordenar a suspensão do certame. E, com a suspensão (que não se sabe quando e se será revertida), como fica a gestão do TMSP se o Odeon tiver mesmo que sair em 60 dias? Se o nome disso não é “bagunça”, por favor, alguém me socorra e me diga qual é o nome disso.


Crítica séria ou de entretenimento…

E como fica a crítica musical em meio a tudo isso? A primeira coisa a esclarecer é que existem basicamente dois tipos de crítica, a séria e a de entretenimento. Sim, ela existe! Geralmente, a crítica de entretenimento é aquela que ignora ou “prefere” não comentar, sabe-se lá por que, a adequação vocal de determinado cantor à parte para a qual ele foi escalado; o fato de um cantor desafinar consideravelmente; o fato de uma ópera ser mal regida; etc… O crítico de entretenimento nem sempre percebe essas coisas, ou, quando percebe, nem sempre faz questão de apontá-las, muitas vezes porque não quer desagradar alguém.

A crítica séria, ao contrário, não passa a mão na cabeça de cantor que desafina ou cuja técnica seja um desastre, e muito menos na de maestro que não sabe reger ópera. A crítica séria registra o fato de determinado cantor não possuir a voz adequada para cantar determinada parte em uma ópera. Os apontamentos de teor mais negativo são feitos para que eventuais erros ou incorreções sejam evitados no futuro. Quando tais erros ou incorreções se tornam corriqueiros, é função da crítica séria ser mais incisiva em apontá-los. Nem sempre adianta, é verdade, pois sempre há quem não esteja interessado em reconhecer deficiências, ou em evoluir como artista, mas nem por isso a crítica séria pode deixar de fazer tais apontamentos quando necessários.

No Brasil, particularmente, considerada a forma improvisada com que nossas casas de ópera são administradas na maioria dos casos, a crítica deve voltar seu olhar também para a gestão administrativa e artística dos teatros, porque, não raro, os problemas de uma produção começam em escolhas mal feitas pelos gestores.

Seria ótimo se a crítica pudesse se concentrar apenas na avaliação dos espetáculos, mas no Brasil, muitas vezes, isso é impossível. Elencos mal escalados; projetos medíocres de encenação aprovados sem qualquer questionamento; títulos mal escolhidos em cima da hora ou para o momento enfrentado pela instituição em questão; favorecimentos diversos; etc… etc… Todos esses problemas ocorrem nos teatros de ópera brasileiros, ainda que nem todos ao mesmo tempo. Tudo isso é culpa dos “gestores”, e é obrigação da crítica séria perceber e apontar esses problemas. Já a crítica de entretenimento não liga muito para isso. O “crítico” de entretenimento, também ele, está mais preocupado em ver e ser visto.

Falecido este ano, o então diretor de redação da Folha de São Paulo, Otávio Frias Filho, disse certa vez: “A função da imprensa tem um relevo antipático, quase hostil. Estou convencido de que os jornais existem para falar mal dos governos. A função da imprensa é a de interpelação, de questionamento”. A função da crítica é exatamente a mesma: ela por vezes pode ser antipática e quase hostil, porque a sua função é a de interpelação, de questionamento.

Há poucos meses, em sua coluna na mesma Folha de São Paulo, o escritor, cronista e cientista político português João Pereira Coutinho abordou a questão da crítica literária em um texto primoroso. Destaco aqui quatro passagens do texto de Coutinho que muito bem poderiam servir para a crítica musical, e mais particularmente para a crítica de ópera que se faz no Brasil:

“(…) ‘networking’ não é crítica. Pois não. Mas é isso que vejo, em todo lado por onde me arrisco.”

 “Por outro lado, a ausência de uma cultura crítica exigente acaba por prejudicar a própria qualidade da produção intelectual.”

“O chicote refina um autor. O elogio fácil alimenta nele a crença infundada na sua própria excelência.” (Nesta, e também na última passagem destacada abaixo, basta substituir a palavra “autor” por “regente”, “cantor” ou “encenador” para se adequar ao nosso tema).

“Que estímulo tem um autor brasileiro ou português para se libertar da sua habitual mediania quando tudo em volta — crítica, prêmios, festivais e outros circos — proclama que ele é um gênio?”

O leitor interessado encontra aqui, completo, o referido texto de João Pereira Coutinho. Recomendo a leitura.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com