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Pró-Arte fecha suas portas

Não é impensável a possibilidade de uma retomada da escola.

Há poucos dias, fomos tomados de surpresa com uma notícia especialmente dolorosa e decepcionante: o fechamento da instituição Pró-Arte, que tinha sua sede em Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

Para nos dar uma ideia do que era essa instituição (apenas uma ideia, pois só vivenciando o que eles proporcionavam, seria possível saber a extensão do mal), conversamos com o Carlos Alberto Figueiredo Pinto, que era o responsável, pelo menos, pelo Coro de Câmara da instituição.

Vejamos o que ele nos conta:

A Pró-Arte surgiu em 1931, denominada Sociedade Pró-Arte de Artes, Ciências e Letras, fundada por Theodor Heuberger, alemão de Munique, como uma instituição para promoção de eventos culturais, principalmente na área de música e de artes plásticas. A ABC Pró-Arte se tornou uma das principais promotoras de temporadas de concertos no Rio de Janeiro e outras cidades brasileiras, trazendo artistas da Europa e Estados Unidos.

Em 1950, a Pro-Arte promoveu, sob a direção de Koelreutter, o primeiro Curso Internacional de Férias de Teresópolis, o primeiro do Brasil, tomando por modelo os recentes festivais de música de Tanglewood, nos Estados Unidos. Os Cursos Internacionais de Férias da Pró-Arte tiveram uma longa carreira, perdurando até 1989, ano da realização do último.

Professores brasileiros e estrangeiros ministraram cursos para centenas de músicos brasileiros e também estrangeiros, nesses quase 40 anos de atividades. A realização regular dos cursos levou à construção da sede da Pro-Arte em Teresópolis, magnífico prédio com salas de aulas, dormitórios, auditórios e refeitórios. Com a extinção da Pró-Arte “mãe”, em 1990, o prédio foi encampado pela Faculdade Serra dos Órgãos (FESO) e transformou-se no Núcleo Feso-Pró-Arte, ativo até hoje.

Ainda na década de 1950, a Pró-Arte passou a abrir cursos de música regulares – Os Seminários de Música Pró-Arte – em várias cidades brasileiras: São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, etc… Os Seminários de Música do Rio de Janeiro foram fundados em 1957. Nessa época, foi importante a influência de Koelreutter na implantação de um novo tipo de ensino musical, que se contrapunha ao ensino acadêmico das escolas de música e conservatórios oficiais.

Em 1974, a Pró-Arte do Rio de Janeiro se separou juridicamente da Pró-Arte de Teresópolis, mantendo, porém, intensos laços de cooperação. A Pró-Arte se organizou estatutariamente, desde então, como uma Associação, na qual os sócios-professores administravam os destinos e funcionamento da instituição.

Em 1975, a Pró-Arte do Rio de Janeiro, que funcionava desde sua fundação na casa da pianista Maria Amélia de Rezende Martins, na Rua Sebastião de Lacerda, em Laranjeiras, mudou-se para o casarão da Rua Alice, também em Laranjeiras, onde funcionou até hoje.

Os Seminários de Música Pró-Arte do Rio de Janeiro tiveram grande expansão a partir da década de 1980, organizando, além de seus cursos regulares, frequentes cursos especiais e master-classes com professores brasileiros e estrangeiros, tanto na área de música erudita quanto popular.

A instituição abrigou inúmeros conjuntos musicais desde sua fundação, como a Orquestra de Câmara Pró-Arte, o Pró-Arte Antiqua, o Coral Pró-Arte, o Coro de Câmera Pró-Arte, a Academia Antiqua Pró-Arte, o Pró-Arte Dança Antiqua, o Pró-Arte Contemporânea, os Flautistas da Pró-Arte, a Orquestra de Sopros Pró-Arte, entre tantos outros, que mantinham as atividades musicais no Rio de Janeiro com alto nível de excelência. Tiveram grande destaque as inúmeras séries de concertos organizados pela instituição com seus próprios conjuntos e também com músicos convidados.

A partir da década de 1990, a Pró-Arte passou a administrar projetos culturais, próprios e de outros proponentes, dentro da dinâmica das novas leis de incentivo à cultura.

Alguns milhares de alunos passaram pela Pró-Arte em seus 61 anos de existência, tanto profissionais responsáveis pela melhor música que se fez e se faz no Brasil, como músicos amadores, que faziam música pelo seu prazer. Várias famílias tiveram gerações de alunos que estudaram na Pró-Arte. No ano de 1987 a Pró-Arte chegou a ter 700 inscritos em seus cursos.

Entretanto, já nos últimos dez anos, a situação da Pró-Arte foi entrando em declínio, com diminuição de alunos, de incentivos culturais e outros fatores. A perda do patrocínio de 23 anos da Petrobrás para a Orquestra de Sopros e Flautistas da Pró-Arte foi um duro golpe não só para os dois conjuntos como para a própria instituição. A Pró-Arte foi tendo cada vez mais dificuldade de fazer investimentos para acompanhar a rápida mudança do mundo como um todo e das novas demandas tecnológicas, em particular.

Com as dificuldades financeiras se avolumando, foi ficando mais difícil o surgimento de novas lideranças dentro do quadro de sócios-professores, o que levou a uma crise final de ausência de candidaturas para a formação de uma nova Diretoria, para o biênio 2019-2021. Assim, foi necessária a dramática decisão de encerrar as atividades da escola mantida pela Pró-Arte, seu aspecto com maior visibilidade.

É preciso esclarecer que a instituição Pró-Arte ainda continuará ativa, na expectativa de que se resolva o impasse institucional. Não é impensável a possibilidade de uma retomada da escola, dentro de novos parâmetros de funcionamento institucional e financeiro.

Seus três conjuntos musicais remanescentes, o Coro de Câmera Pró-Arte, a Orquestra de Sopros Pró-Arte e os Flautistas da Pró-Arte permanecerão em atividade, agora com a responsabilidade de conduzir em frente o nome dessa instituição musical que foi um marco na vida musical do Rio de Janeiro e do Brasil.

Os Seminários de Música Pró-Arte não são apenas uma escola, mas sim um princípio e uma filosofia no exercício da música”.

 

A seguir, uns poucos testemunhos que extraí do facebook da instituição. Uns poucos apenas, pois são muitos e não seria o caso de colocar todos. Propositadamente, não coloquei os nomes, pois isso é irrelevante no caso.

Minha escola de música!… Na Pró-Arte aprendi tudo que sei de música. Esther Scliar, Norton Morozowicz, Eládio Pérez Gonzalez, Homero Magalhães, Denis Barbosa, Jaques Morelenbaum… Espero que essa crise seja passageira e a escola se recupere.”

Entendo esse lado cruel que levou ao fechamento, mas lamento profundamente que isso aconteça. Foi na Pró-Arte que ganhei algo que já tinha: a música dentro de mim. E este é o melhor e mais valioso presente sempre: quem nos mostra nossa riqueza disponível, não importa se seremos profissionais porque a rigor, esta riqueza vai nos servir para sempre. Essa é a verdadeira arte que aprendi na Pró-Arte com Denis Borges Barbosa, Homero Ribeiro de Magalhães, Aleida Schweitzer Milewski, Breno, Myrna Herzog, Tina Pereira, Jaques nMorelenbaum, dona Elza, Felícia Wang, Odete Ernest Dias e muitos outros, alunos e professores visitantes”.

Muita tristeza! Frequentei a Pró-Arte desde os meus 10 anos. Meu avô também foi um grande aluno, ficou por muitos anos estudando lá…. muita gratidão por esse espaço e pelos professores e funcionários que marcaram uma boa parte da minha vida“.

Muita tristeza, pois levei varias vezes meu filhão para aulas. Saíamos da Varig Ilha do Governador para aulas de Violão. A Varig acabou em 2006 e agora vejo em 2018 uma das maiores Escolas de Música do nosso Brasil fechar as portas. Até quando, meu povo. Só tenho a agradecer a todos que lá resistiram até os dias de hoje. Meu filhão é músico conceituado. Acorde, meu povo. Vamos nos unir para que outras escolas como a Pró-Arte ” sobrevivam!”

Minha querida e inesquecível escola de música. Estudei aí tempos atrás com grandes professores entre os quais posso dizer Homero de Magalhães, no piano, (quando REALMENTE aprendi a tocar piano) e com a também inesquecível Ester Scliar. Momentos jamais esquecidos. Sem falar dos muitos cursos de férias, cursos de canto coral. Lamento, chorarei muito por esse final. Agradeço a Deus pelas pessoas que por aí passaram, que deixaram em mim marcas profundas”.

Que tristeza! Quantas alegrias a Pró-Arte espalhou por esse Brasil e mundo afora, contribuindo de forma profissional e afetiva com todos os alunos que tiveram a sorte de passar por essa escola de música e de vida. Vou carregar lindas lembranças dos oito anos que minha filha esteve envolvida com a mais pura música e as mais diversas pessoas do bem, com que teve a sorte de conviver. Obrigada a todos os envolvidos e em especial à minha amiga e grande mestra dos flautistas, Cláudia Ernest Dias, pelo seu trabalho dedicado, criativo e amoroso”.

 

Obs: No post a logomarca comemorativa dos 60 anos da Pró-Arte

 

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