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Voz furta-cor

Obras do mestre Villa-Lobos matizam o excelente CD de estreia da soprano Marina Cyrino.

 

Obras de várias fases da carreira do mestre Heitor Villa-Lobos (1887-1959) – um dos maiores expoentes da música de concerto do país – colorem o CD de estreia da soprano carioca Marina Cyrino, intitulado Cores de Villa-Lobos. O álbum tem lançamento no dia 10 de fevereiro, às 19h, em concerto na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro (saiba mais aqui), e chegou, no dia 8/2, às plataformas digitais, incluindo Spotify, Deezer e outras.

Para marcar os 60 anos de morte do compositor, foi escolhido um repertório que mostra suas várias facetas: canções com pegada popular, obras líricas e melodias compostas para a Broadway – pelas quais a cantora passeia com destreza e notável técnica vocal.

Com preparação vocal de Mirna Rubim e orientação de estilo e gravação de Vitor Philomeno, Marina apresenta, em todas as faixas, uma linha de canto irretocável, com agudos delicados e graves bem projetados. Sua voz, suave, alterna doçura e malícia, respectivamente, em faixas como The Emerald Song e Bonsoir, Paris (ambas do musical Magdalena, de 1947).

Nas mais célebres (e desafiadoras) composições, a soprano também responde à altura. Exemplos disso são a Cantilena das Bachianas n. 5 (1939), delicada com acompanhamento do violão de Max Riccio, e a Melodia Sentimental, da obra A Floresta do Amazonas (composta nos anos 1950 para o filme Green Mansions, de Mel Ferrer), com emissão vocal firme e emocionada.

Destaque também para a excelente articulação da cantora (valorizada pela excelente gravação comandada pelo engenheiro de som Eduardo Monteiro). As palavras são compreendidas (e não sucumbem a uma impostação vocal equivocada), como se nota na sincopada Estrella É Lua Nova (canto cerimonial afro-brasileiro recolhido por Villa-Lobos e publicado em 1919) e em Viola Quebrada (texto de Mario de Andrade musicado em 1929), acompanhada do rico piano de Flavio Augusto.

Os arranjos originais de voz e piano do compositor foram preservados. Os arranjos para cordas e sopros são de Lipe Portinho, que também assina a regência do disco. Também gravaram o álbum os músicos Felipe Prazeres e Nikolay Sapoundjiev (violinos), Samuel Passos (viola), Emilia Valova (violoncelo), João Rafael (contrabaixo), Cristiano Alves (clarineta) e Paula Martins (flauta).

A carreira da soprano (e advogada de um dos principais escritórios de petróleo e gás do Brasil, com mestrado em Direito Tributário), já tem alguma estrada. Além de sua bonita voz, de canto educado, a cantora destaca-se pela dedicação à arte lírica – que vem desde seus estudos com professores brasileiros e norte-americanos (como na Juilliard School e no HB Studio, ambos em Nova York). Neste seu primeiro CD, Marina Cyrino deixa impressos colorido vocal, excelente técnica, versatilidade e bastante elegância na abordagem (que já começa na direção de arte de Marc Kraus, ilustrada na capa) e na interpretação das obras do mestre Villa. Cores de Villa-Lobos é uma delicada gema de brilho furta-cor.

 

Foto: Marc Kraus

 

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com