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Bom começo de ano no Municipal do Rio

Sopranos e regente se destacam em ópera de Carlos Gomes apresentada em forma de concerto

 

Odalea, rainha de Samarcanda, é amada por Côndor, chefe das Hordas Negras. Ele invade o palácio da sultana para lhe revelar o seu amor. Irado com a profanação do palácio, o povo exige a morte do invasor, mas Odalea o poupa, dizendo que se trata apenas de um louco. Zuleida, a mãe de Côndor, tenta alertá-lo sobre a ira do povo e também sobre a revolta dos integrantes das Hordas. Ele, porém, está cego de amor. Bandidos das Hordas tentam raptar Odalea, mas Côndor a salva, e é por ela nomeado o comandante das suas tropas – o que só aumenta ainda mais a ira do povo.

Enquanto Odalea, que nunca fora tocada pelo amor, reconhece que também ama Côndor, a população incendeia Samarcanda e tenta invadir o palácio. Buscando salvar novamente a soberana e ciente de que o povo lhe quer morto, Côndor se suicida com seu punhal. Odalea atira a arma com o sangue do amado sobre o povo, quando os revoltosos finalmente invadem o palácio.

Esse é o breve resumo de Côndor, ópera em três atos de Antônio Carlos Gomes sobre libreto de Mario Canti, que abriu a temporada 2019 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ao ser apresentada em forma de concerto no dia 15 de março. Quando esta resenha estiver publicada, já terá ocorrido também uma segunda e última récita no dia 17.


A obra

Última ópera de Carlos Gomes (já que Colombo suscita muitas discussões sobre sua classificação), Côndor apresenta um problema recorrente na carreira do compositor: um libreto que passa longe da perfeição. Se outros libretos sobre os quais Gomes trabalhou pecavam pelo excesso, o de Côndor peca pelas soluções por vezes abruptas: Zuleida, mãe do personagem título, por exemplo, aparece do nada. Esse caráter abrupto, em geral, deixa a sensação de falta de coesão dramática ao texto da obra. Além disso, tudo leva a crer que, em uma versão encenada, a cena em que o protagonista salva Odalea da tentativa de rapto pareceria por demais artificial.

Curiosamente, o que falta de coesão dramática no texto, sobra na música. Carlos Gomes constrói uma obra musical coerente e de grande qualidade. Como avalia o saudoso Lauro Machado Coelho em seu livro A Ópera Italiana após 1870, “Há soluções harmônicas e empregos vocais que mostram o quanto Gomes acompanhava as modificações introduzidas pelos veristas no idioma do melodrama italiano – e que, na verdade, ele antecipara nas páginas mais inovadoras da Fosca ou da Maria Tudor.

O autor prossegue em sua análise, falando sobre o fato de o compositor estar em dia com a ópera francesa: “Um dos sinais da atenção à escola francesa, é o grande cuidado de Gomes – traço também presente na nova escola – em caracterizar musicalmente os ambientes (…). O ambientismo do Côndor está presente nos temas de sabor oriental que ele utiliza (embora em trechos como a Marcha Tártara, do ato II, eles soem ingênuos e um tanto postiços). Mas a escrita orquestral é muito bem trabalhada, não só no Prelúdio, no Noturno que introduz o ato III, ou no balé – em que uma das entradas, de caráter camerístico, tem melodia particularmente bonita –, mas também no acompanhamento instrumental, muito elaborado, e de alto grau de autonomia em relação à linha vocal”.

Lauro Machado Coelho conclui: Côndor/Odalea tem divisão em números muito tênue. Tende para a estrutura em blocos contínuos que Verdi consolidara no Otello; e, nesse sentido, confirma uma tendência já perceptível no autor desde o Guarany. Além da predominância, já observada, do tipo de vocalidade que faz a voz ascender subitamente do registro central para a região aguda – técnica que vai proliferar no Verismo –, é característica no Côndor a preocupação com um tipo de declamação que valorize a clara pronúncia das palavras. E esse é outro ponto em que está intimamente associada à nova escola”.

 

Fernando Portari, Eliane Coelho, Michele Menezes, Murilo Neves, Marianna Lima e Luiz Fernando Malheiro, com a OSTM ao fundo


Sopranos se destacam

Na noite de sexta-feira no Theatro Municipal, a obra recebeu uma boa interpretação geral, ainda que com alguns senões. O Coro do Theatro Municipal, por exemplo, preparado por Jésus Figueiredo, ofereceu uma performance semelhante àquela do Colombo de novembro do ano passado: irregular e sem muitas nuances – o que parece um tanto inaceitável, já que se trata de um coro brasileiro interpretando uma obra do mais importante compositor brasileiro de óperas.

Dentre os solistas, os homens não brilharam tanto. O barítono Ciro d’Araújo foi discreto da pequena parte de Mufti. Como Almazor, o baixo Murilo Neves apresentou uma voz balançada e de sonoridade vacilante. Já o tenor Fernando Portari (indicado pelo Movimento.com como o melhor cantor dos últimos dois anos) enfrentou certa dificuldade com a parte de Côndor: a linha vocal do personagem exige basicamente um tenor lírico spinto, e, embora Portari tenha cantado com a elegância de sempre, algumas passagens demonstraram claramente que faltava peso à voz.

As mulheres, todas sopranos, apresentaram-se mais consistentes. Na parte ligeira de Adin, Michele Menezes começou um pouco insegura (Nel regno delle rose), mas logo se ajustou e contribuiu para uma belíssima cena ao lado de Odalea (Sublime apparizion!). Exceto por alguma falta de refinamento aqui e ali, a artista ofereceu uma boa récita.

Como Zuleida, cantando uma parte originalmente escrita para mezzosoprano, e excluída uma ou outra nota que não “encaixou” tão bem, Marianna Lima ofereceu uma performance bastante consistente. Seu monólogo do segundo ato (Orda crudel, feroce / Sin dalla caspia riva) foi defendido com segurança, boa afinação e ótima projeção. O mesmo se pode dizer da importante cena seguinte ao lado do tenor (Ti trovo alfin, anima mia). Desde o ano passado, a soprano vem deixando a impressão de que, com boa orientação técnica, pode alçar altos voos, porque a voz para isso ela já possui.

Coube a uma das grandes damas da história do canto lírico brasileiro, Eliane Coelho, interpretar a parte de Odalea. Restava a dúvida: em termos qualitativos, sua Odalea seria mais próxima da impressionante Kostelnička (de Jenůfa), ou da irregular Tosca, ambas contribuições da artista para a temporada 2017 do TMRJ? O que se observou na última sexta-feira, uma vez mais, foi uma performance fascinante.

Eliane Coelho cantou sempre em alto nível, com voz segura, expressiva e muito bem projetada. Na já referida cena junto a Adin, nos dois duetos com o tenor e, especialmente, em sua importante ária do ato derradeiro (Quanto silenzio a me d’intorno), a artista cativou a atenção do público, expressando, ao longo da récita, o desabrochar do amor no coração da rainha de Samarcanda. A ovação que a soprano recebeu no momento dos aplausos finais foi mais que merecida.

Sob a condução de seu novo regente titular, Luiz Fernando Malheiro, a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal apresentou-se bem, de modo geral, durante a récita, apesar de pequenos deslizes de sonoridade, especialmente nas trompas. O Prelúdio inicial e o Noturno que abre o terceiro ato receberam abordagens expressivas, sobretudo nas cordas. Merece ser mencionada a harpa de Sílvia Braga.

Sentado em seu banquinho no pódio, Luiz Fernando Malheiro foi, ao mesmo tempo, discreto e preciso. O regente mostrou-se atento à dinâmica e soube dar à obra, ao menos musicalmente (já que o libreto não ajuda), a necessária unidade dramática. Pode ter faltado, talvez, maior entrosamento com o regente do coro. Como a sua chegada ao Municipal é recente, é possível que esse entrosamento se desenvolva de forma mais satisfatória no futuro.

Malheiro é um dos nossos maiores especialistas em regência de ópera, e o seu ótimo trabalho à frente deste Côndor em forma de concerto demonstra como os profundos conhecimentos sobre a condução musical de uma ópera e sobre a obra interpretada importam muito. Muito mais, por exemplo, que as papagaiadas que têm ocorrido em outro teatro brasileiro. Ninguém falou ao microfone no final, nem houve bis popularesco. Nada foi mais importante que a obra de arte, e o maestro não quis “aparecer” mais que os cantores. No Municipal do Rio, há um verdadeiro regente de ópera.

Pela análise acima, pode-se concluir que começa bem, portanto, a temporada do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, resgatando uma obra que não era ali apresentada há 75 anos. Pode ser um bom prenúncio para 2019. Torçamos todos.


Análise – a programação do primeiro semestre do TMRJ

Através de uma recente entrevista ao jornal O Globo, o diretor artístico do Theatro Municipal do Rio, André Heller-Lopes, anunciou a programação própria da casa (aquela produzida pelo próprio Municipal, sem contar os aluguéis) para o primeiro semestre deste ano. Tal programação – que inclui uma ópera encenada; duas óperas em forma de concerto; um balé profissional e outro com alunos; dois concertos sinfônicos e três recitais de canto – pode ser conferida mais detalhadamente aqui.

Há duas formas de se enxergar essa, digamos, meia temporada. À primeira vista, ela pode parecer pequena e aquém daquilo que todos esperamos do Municipal – que deveria ser um dos mais importantes teatros líricos do país, mas há muitos anos, através dos gestores que por lá passaram, não faz questão de assumir essa posição (exceto, talvez, pelo curto tempo em que esteve sob a boa administração de João Guilherme Ripper).

Olhando com mais cuidado, e considerando a crise financeira do governo do estado do Rio de Janeiro, que contamina em parte a economia fluminense, a programação anunciada pode ser considerada, pelo menos inicialmente, aceitável. É claro que uma avaliação mais completa somente poderá ser feita quando se conhecer também a agenda própria do Municipal para o segundo semestre. Ainda assim, o simples fato de essa programação ser “realizável”, ao contrário do que aconteceu com aquela anunciada no início do ano passado pelo então presidente da casa, Fernando Bicudo, já é um bom sinal – sinal de responsabilidade.

Por fim, duas declarações do diretor artístico do Municipal ao jornal O Globo merecem que se reflita sobre elas. A primeira: “Eu quero mais é que as pessoas se estapeiem para vir ao Municipal, porque isso é importante. Este público existe. (…)”.

Claro que seria ótimo ver o Municipal sempre lotado, mas, para isso, falta há muitos anos uma efetiva estratégia de divulgação. O tipo de divulgação que o Municipal faz hoje dos seus espetáculos é o mesmo de duas ou três décadas atrás, ou seja, é convencional e antiquado. É preciso uma estratégia realmente agressiva de marketing para se atingir um público maior. Na estreia de Côndor, por exemplo, havia vários lugares vazios na plateia, nos camarotes e nas frisas. De onde me sentei, não tive noção exata de como estava a lotação dos balcões e da galeria. Na plateia, vi os mesmos rostos de sempre, com pouquíssima variação.

Récitas a preços populares, como a segunda do Côndor, são sempre bem-vindas, mas é preciso tomar alguns cuidados: como atrair para essas récitas a preços módicos aquele público que não frequenta assiduamente o Municipal? Como evitar que os ingressos de tais récitas sejam adquiridos pelo público de sempre ou pela parcela do público que poderia pagar mais pelos bilhetes? Talvez um limitador de idade seja uma solução.

Vejamos a segunda declaração de Heller-Lopes ao Globo que merece comentários: “É importante fazer circular as produções, criar parcerias. Teremos esta mistura grande, com ênfase nos talentos nacionais, o que facilita para a gente”. Isso é essencial e é bom ver o diretor artístico do Municipal preocupado em fazer as produções circularem. A primeira produção de fora que virá para o Municipal é o Fausto que o próprio Heller-Lopes dirigiu ano passado em Manaus. Muito bem, mas há outras produções, assinadas por outros diretores, que também mereceriam vir ao Rio. Aguardemos então para saber se alguma delas aparecerá por aqui no segundo semestre.


Por que a programação só começa em março?

Há vários anos, teatros como o Municipal de São Paulo e o Theatro São Pedro-SP iniciam as suas temporadas em fevereiro. Se as férias coletivas dos artistas do Municipal do Rio são sempre em janeiro, por que é preciso esperar todos os anos até março para a programação começar?

 

Foto do post: Fernando Portari, Eliane Coelho, Michele Menezes, Murilo Neves, Marianna Lima e Luiz Fernando Malheiro, com a OSTM ao fundo (foto de Fred Pontes).

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com