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Lo Schiavo: uma estreia tardia

Ópera de Carlos Gomes finalmente é encenada na Itália, com saldo positivo.

Os italianos são adeptos das tradições: têm, em sua própria concepção, os melhores carros, a melhor comida, os melhores pintores, o melhor futebol e, sobretudo, as melhores óperas. Desta forma, pobre do compositor estrangeiro que, vivendo na “Velha Bota”, tentasse compor como eles…

Nesse contexto, surpreende que o brasileiro Antônio Carlos Gomes (Campinas, 11 de julho de 1836 — Belém, 16 de setembro de 1896) tenha feito um significativo sucesso na Itália dos anos 1870. Il Guarany, Fosca, Maria Tudor e, anos depois, Côndor, estrearam no Teatro alla Scala, em Milão, inquestionavelmente o maior templo da ópera naquele país. Salvator Rosa foi apresentada pela primeira vez no prestigiado Teatro Carlo Felice, de Gênova. Contudo, por diversos motivos (principalmente relacionados à turbulenta fase que vivia Carlos Gomes, sujeito que não era lá dos mais fáceis), aquela que por muitos é considerada a mais bela partitura desse fenômeno brasileiro ainda não havia sido levada, até os presentes dias, aos palcos da Itália. Trata-se de Lo Schiavo, composição de 1889, que foi encenada pela primeira vez no Theatro Imperial Dom Pedro II, no Rio de Janeiro.

Curiosamente, um trecho de Lo Schiavo foi gravado por diversos cantores de grande importância, dentre os quais Caruso, Lauri-Volpi, Gigli e, mais recentemente, Marcelo Álvarez – trata-se da bela romanza para tenor Quando nascesti tu. Não é difícil encontrar esses registros na internet, e vez por outra algum comentário acerca da dificuldade em se conhecer o resto da ópera. Esse solitário trecho, metaforicamente, funcionou como fio condutor que abriu as portas para a montagem levada à cena pelo Teatro Lirico de Cagliari, inaugurando sua temporada lírica 2019, com nove récitas entre os dias 22 de fevereiro e 3 de março. No elenco, havia um brasileiro: o barítono paulistano Rodolfo Giugliani, integrante do segundo cast, o qual concedeu, gentilmente, uma entrevista que segue ao fim deste artigo.

Os críticos locais elogiaram a riqueza e a diversidade das ideias de Gomes, mas condenaram, de modo geral, aquilo que é por eles considerado um exemplo de escrita irregular, com mudanças muito frequentes, que impediriam que Lo Schiavo fosse considerada uma obra-prima.


A recepção da imprensa local

A ANSA, que vem a ser a principal agência de notícias italiana, referiu-se à partitura como “uma obra-prima esquecida (…) uma preciosa raridade musical”. Por sua vez, o crítico Cesare Galla, em seu site pessoal, descreve o libreto como “confuso”, mas elogia o “grande ecletismo estilístico” da parte musical, que, se por um lado é “claramente influenciada” por Verdi, por outro apresenta muitos momentos de “feliz intuição” e “originalidade notável”, especialmente no terceiro e no quarto atos. Afirma Galla que, se Lo Schiavo “não chega a ser uma obra-prima”, é certamente “um trabalho exemplar (…) de surpreendente qualidade artística”, em que se nota com frequência o toque pessoal do compositor.

Nesse ponto específico, o crítico tece elogios aos dois últimos atos, noturnos e sombrios, com uma fascinante escrita orquestral (destacando a belíssima Alvorada) e com linhas vocais tensas, marcadas pelo lirismo e pela introspecção, que ressaltam os conflitos internos do protagonista Iberè. Prossegue elogiando a regência de John Neschling – o outro brasileiro na montagem –, que “ofereceu uma leitura de grande consciência estilística”, bem como os cantores do primeiro elenco, de forma geral. Chama a atenção o elogio feito ao Iberê de Rodolfo Giugliani, “de notável importância”, que se destacou pela “expressão do sofrimento interior” do personagem, e pelo cuidado com “a linha vocal, muito bem delineada”.

Por sua vez, o crítico Giuseppe Pennisi, do ClassicalMusicDaily.com, destacou que “o público aplaudiu as principais árias e duetos e mostrou-se entusiasmado ao final da apresentação”. Já Carla Maria Casanova, escrevendo para o LoSpettacoliere.it, ressaltou a “abundância de ideias musicais de todos os tipos” e o “grande fluir de melodias”, muito embora tenha considerado como memorável apenas a romanza do tenor. Elogiou a iniciativa do Teatro Lirico de Cagliari, que programou duas récitas para as escolas locais, e destacou como positivos aspectos como a iluminação, o figurino e os cenários.

Franco Masala, colaborador do SardegnaSoprattutto.com, descreve a partitura como dotada de uma “sequência de melodias” que às vezes são “abandonadas após alguns compassos” – prática que é vista com certa reserva. Reconhece, no entanto, as habilidades técnicas e estilísticas do compositor, que obtém um resultado agradável, fazendo uso de uma instrumentação que “nunca é banal”. Lamenta que tenham sido feitos alguns cortes nas danças do segundo ato, sobretudo se considerarmos que se trata de um trabalho praticamente desconhecido na Europa (teriam ocorrido montagens em Berna, em Londres e em Giessen, na Alemanha). Elogia a atuação do primeiro elenco e do regente, aduzindo que a ópera agradou bastante o público, rendendo inúmeras chamadas ao palco e muitos aplausos.

O sempre exigente OperaClick.com, na crítica de Carlo Dore Jr., apontou que a regência de Neschling, “profundo conhecedor” da obra de Gomes, em algumas ocasiões acabou por encobrir as vozes dos cantores. Acerca dos intérpretes do primeiro elenco, afirmou que o tenor Massimiliano Pisapia (Americo) mais uma vez mostrou os pontos fortes e fracos de atuações anteriores em Cagliari, quais sejam, um belo e persuasivo timbre, uma boa musicalidade, mas um vibrato descontrolado, principalmente nas notas mais agudas. Segundo Dore, o mesmo ocorreu com a soprano Svetla Vassileva (Ilàra), que também foi elogiada por sua sensibilidade interpretativa. Elogios sem reservas para a soprano Elisa Balbo (La Contessa di Boissy), bem como para o baixo Dongho Kim (Il Conte Rodrigo/Goitacà). Quanto ao protagonista, o barítono Andrea Borghini (Iberè), entendeu o crítico que o cantor foi melhor nos trechos mais líricos e intimistas do que naqueles em que se exige maior energia do personagem.

Finalmente, o arguto Jorge Binaghi, do MundoClassico.com, fez severas ressalvas aos dois primeiros atos da ópera. Isto porque, segundo o autor, houve momentos de boa música com interrupções frequentes, soando um tanto impessoal, aos quais se soma o confuso libreto. O terceiro e o quarto atos, se não chegaram a entusiasmar, ao menos mantiveram aceso o interesse do crítico. Conforme Binaghi, os melhores momentos são aqueles destinados ao barítono e a já mencionada Alvorada orquestral, de influência germânica. A respeito da produção em si, elogios para a direção, cenário, figurinos e luz. Da mesma forma que Dore Jr., Binaghi notou que a regência de Neschling, considerada boa no cômputo geral, encobriu por vezes as vozes que vinham do palco.

Um ponto a se analisar com bastante atenção foi a comparação que o crítico fez entre o primeiro e o segundo elenco: disse Binaghi que os intérpretes de Americo e Ilàra do segundo cast superaram significativamente os do primeiro. No caso do protagonista, os dois barítonos que interpretaram Iberè – Borghini e Giugliani – foram considerados bons. Porém, foi feita uma ressalva em relação ao primeiro, cuja voz ainda não teria “maturidade” e, em que certos momentos, peca pela falta de projeção. Afirma Binaghi que Borghini terá um bom futuro pela frente, pois fez boas escolhas frasísticas e atua bem. Sobre Giugliani, o crítico destacou seu pleno conhecimento da música de Gomes, a cor escura da voz, o volume generoso e a boa extensão vocal, acrescendo que sua interpretação seguiu uma linha mais verista. Por fim, comentou que o público aplaudiu efusivamente os dois elencos.

Opinando de forma semelhante a Binaghi, o crítico Sabino Lenoci, da revista L’Opera International Magazine, ao confrontar os dois elencos, mostrou-se mais satisfeito com o segundo. Definiu como “diamantes” a soprano Diana Rosa Cardenas, que viveu Ilàra, e o barítono Giugliani, de “ótimo nível, de voz firme e de grande extensão, fraseado e dicção notáveis (…) seu Iberè convence e comove”, uma vez que encarna o personagem “com sentimento”.

Em suma: aquilo que os musicólogos brasileiros definem como o auge da criatividade de nosso grande músico, os italianos enxergam com certa reserva. Não entendem eles que, como bem afirmou o saudoso Marcus Góes em seu livro Carlos Gomes: un pioniere alla Scala, o campineiro jamais deve ser encarado como um mero imitador de Verdi e, sim, como um legítimo representante da vanguarda artística daquela época, a Scapigliatura, movimento do qual fizeram parte, no campo musical, Franco Faccio, Alfredo Catalani, Arrigo Boïto e Amilcare Ponchielli.

Conforme Góes, a busca por uma maior unidade dramática, um tipo de vocalidade e de instrumentação mais coerentes com a trama e com os personagens, a necessidade de se estabelecer uma abordagem mais sinfônica entre texto e música, mediante o uso de modulações inesperadas e de um cromatismo mais fluido e expressivo, com certa inspiração nas teorias de Richard Wagner, são características desse movimento, adotadas pelo brasileiro em suas óperas. Fica a pergunta: fosse Gomes um compositor nascido no “Bel Paese”, seria ele descrito como “irregular” ou como “inventivo”? A resposta está no título da mais célebre de suas modinhas, composta ainda em sua juventude: “Quem sabe?”

 

Cena da montagem


Entrevista com Rodolfo Giugliani

Movimento.com – Como você se sentiu ao saber iria interpretar na Itália, em primeira montagem nos palcos daquele país, o papel de Iberè, o protagonista de Lo Schiavo, ópera que, na opinião de alguns especialistas, é a mais bela de Carlos Gomes?

Rodolfo Giugliani – Me emocionei muito, pois nossa missão, como cantores, é emocionar as pessoas… é levar sonhos, momentos de paz… é fazer as pessoas sonharem. Concretizar isso com uma peça inédita na terra da ópera é um orgulho e uma responsabilidade enormes. Me sinto honrado com esta oportunidade de representar o nosso país. Se Lo Schiavo é a mais bela ópera de Carlos Gomes? Eu diria que sim, porque é o ápice da sua maturidade como compositor.


A partitura de
Lo Schiavo apresenta passagens que refletem os sentimentos de nostalgia e de saudade que Gomes tinha em relação ao Brasil. Estando longe de nosso país para ensaiar e atuar nessa produção, é possível entender de uma forma mais concreta os sentimentos que Carlos Gomes quis expressar em passagens como a ária de Ilàra, O ciel di Parahyba, e o interlúdio Alvorada?

Sim, é possível! É um grito da alma que clama a nossa terra. Nosso país é único e maravilhoso, e estar longe é dolorido demais. Veja, por exemplo, o terceto final: acredito que é uma das partes em que o Iberè mais demonstra, na melodia, a brasilidade que pulsa em todo brasileiro longe de casa. Por sua vez, só pode entender completamente a Alvorada quem é brasileiro. Sem dúvida nenhuma, Carlos Gomes amava o Brasil como poucas pessoas amaram!


Já é a terceira vez que você interpreta, na íntegra, o papel de Iberè (montagens anteriores: XIV Festival Amazonas de Ópera, em Manaus, 2010; Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 2016). Quais as suas impressões sobre o personagem? O que mudou na sua forma de interpretá-lo de 2010 até hoje?

No caso da montagem de Manaus, devo o convite e a confiança de participar de tal empreitada ao maestro Malheiro. Foi um desafio e tanto! Após seis anos, cantei a parte no Rio de Janeiro e devo dizer que, para um barítono, o tempo é amigo da voz. Foi uma interpretação realmente doída de amor e de saudades. Uma experiência singular.

Já nessa produção, trago o que é o Brasil… trago o orgulho de ser brasileiro e de mostrar que temos uma ópera que é uma das mais fantásticas já escritas! Tem coisas que só nós, nascidos aqui, entendemos, e entendemos com o coração. É uma questão de muito amor ao nosso Brasil maravilhoso.


Sendo você neto de italianos, nascido e criado no bairro da Mooca, em São Paulo, qual sua opinião: a melhor pizza se come em São Paulo ou na Itália?

A melhor pizza se come na Mooca, meu!!!!!!

 

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Nota do autor: por meio de troca de mensagens com o site do teatro, obtive a confirmação de que a montagem foi gravada e será lançada em DVD pelo selo italiano Dynamic. Pois bem: em minha opinião – e aqui não vai nenhuma patriotada, muito pelo contrário – nada justifica a ausência de Rodolfo Giugliani do primeiro elenco, que será aquele que constará da referida gravação. Ora, o único cantor no mundo que interpretou o papel do protagonista antes da mencionada produção foi o próprio. Ademais, como exposto no presente texto, sua atuação foi unanimemente elogiada pela crítica local, sendo que o barítono italiano que atuou no primeiro elenco, em que pese seu futuro promissor, viveu o personagem pela primeira vez e, ainda, possui alguns pontos a amadurecer enquanto artista lírico. Parece que o corporativismo entre os italianos falou mais alto. Uma pena…

 

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Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.