CríticaLateralÓperaSão Paulo

Em dois atos, quase duas óperas diferentes

Com encenação fluente, montagem de ópera de Mozart enfrenta oscilação na interpretação musical

 

Passava pouco das 21h do dia 26 de abril, intervalo no Theatro São Pedro, em São Paulo. O primeiro ato da ópera mal havia terminado e a sensação não era das melhores: o resultado musical até ali era um tanto frustrante. E essa frustração vinha, sobretudo, da direção musical do espetáculo.

Estava em curso a estreia da nova montagem da casa da Barra Funda para La Clemenza di Tito, ópera séria em dois atos de Wolfgang Amadeus Mozart sobre libreto de Caterino Mazzolà (libreto este adaptado de uma versão anterior de Pietro Metastasio). A obra, como de hábito em Mozart, exige leveza na interpretação musical, mas a leitura que vinha do fosso empregava-lhe um peso um tanto desmedido – o que, claro, influenciou também a interpretação dos solistas.

A Orquestra do Theatro São Pedro, observem bem os leitores, não estava mal. O conjunto, na verdade, apresentou-se bem durante boa parte da noite, mas oferecia um som muito volumoso, especialmente considerando as pequenas dimensões da casa. Para lhe fazer frente, praticamente todos os solistas também “pesaram” suas vozes. E nada de o homem com a batuta, o regente alemão Felix Krieger, tomar providências! O primeiro ato seguiu, ininterrupto, nessa toada.

É curioso notar no currículo do regente, disponível no site do Theatro São Pedro, que o nome de Mozart não é citado uma única vez. Já em seu histórico de apresentações no site inglês Operabase, até constam duas (somente duas…) conduções passadas de óperas do compositor (Così fan Tutte e Die Zauberflöte). O que se notou no Theatro São Pedro é que faltou ao regente apuro estilístico para abordar o primeiro ato do Tito mozartiano e, consequentemente, para extrair o melhor que cantores e músicos poderiam oferecer.

 

Saulo Javan, Luísa Francesconi e Caio Duran.


Segundo ato mais consistente

Quase como um milagre, tudo melhorou no segundo ato: se não chegou a mudar da água para o vinho, é preciso reconhecer que a segunda parte da noite foi bem melhor que a metade inicial. Mesmo ainda longe da perfeição, Krieger ao menos corrigiu boa parte do peso que estava imprimindo à música, permitindo aos solistas se apresentarem mais à vontade. A obra em si, mais consistente dramaticamente no segundo ato que no primeiro, também contribuiu para esta segunda parte mais coesa.

Com a mudança empregada pelo regente, pôde-se apreciar melhor o convincente Sesto da mezzosoprano Luisa Francesconi, especialmente em passagens como o rondó Deh per questo istante solo e o terceto Quello di Tito è il volto. A propósito, vale registrar que, quando as condições são favoráveis, a qualidade do canto da Francesconi vem atingindo nos últimos tempos níveis superlativos de expressividade.

A soprano Gabriella Pace, que chegou, em alguns momentos do primeiro ato, a exagerar na força de alguns agudos, compôs na segunda metade uma Vitellia de emissão bem mais agradável, como se pôde verificar no terceto Se al volto mai ti senti, em seu recitativo acompanhado Ecco il punto, oh Vitellia e no rondó Non più di fiori vaghe catene – este com passagens graves nada fáceis e que foram bem abordadas pela artista.

Coube ao tenor Caio Duran a responsabilidade de interpretar o personagem-título, o imperador romano Tito. A voz do artista ainda não atingiu a maturidade exigida pela parte e possui problemas técnicos que necessitam de correção. Ainda assim, sua performance geral pode ser classificada como regular, e merece ser mencionado o recitativo acompanhado Che orror! Che tradimento!, interpretado com expressividade.

A mezzosoprano Luciana Bueno ofereceu no segundo ato um ótimo Annio, aproveitando bem as suas duas árias, Torna di Tito a lato e Tu fosti tradito. A soprano Marly Montoni cantou bem no geral, mas é preciso registrar que a sua voz se mostrou claramente mais pesada que a exigida pela parte de Servillia – o que, por vezes, causava certo desconforto em ouvidos mais atentos. Por sua vez, o baixo Saulo Javan interpretou Publio com correção. Completou a apresentação o Coro formado por alunos da Academia de Ópera do Theatro São Pedro. Preparado por Maira Ferreira, o conjunto apresentou-se bem em suas poucas intervenções.

 

Gabriella Pace e Luísa Francesconi


Encenação fluente

Especialmente se comparado aos libretos ousados (para a época) que Lorenzo da Ponte escrevera para Mozart em óperas como Le Nozze di Figaro e Don Giovanni, aquele de La Clemenza di Tito, que Mazzolà elaborou sobre a base de Metastasio, mostra-se por demais convencional. O primeiro ato da ópera, por exemplo, contém recitativos do tipo secco (acompanhados pelo cravo) que não acabam mais. O risco de o público se deixar levar pelo tédio é grande.

Neste sentido, a encenação de Caetano Vilela, que corta os excessos de recitativo secco (mantendo apenas o que é essencial ao drama), mostra-se bastante fluente. Em sua concepção, Vilela imagina uma Roma antiga, mas com um elemento dos tempos atuais: os andaimes que estão presentes em vários monumentos antigos da Itália (que necessitam de restauração de tempos em tempos). O cenário funcional, concebido pelo próprio diretor e realizado com a colaboração de Fernando Passetti (cenógrafo adjunto) e Bosco Bedeschi (adereços de cena), contribui consideravelmente para a fluidez da ação.

Ao contrário da oscilação que ocorreu com a interpretação musical na noite de estreia, a qualidade da ação cênica se manteve, de forma linear, em ótimo nível, com todos os solistas atuando muito bem. É preciso registrar que a linha interpretativa de Vitellia destoa um pouco em relação às dos demais personagens, mas, se na própria partitura Vitellia recebe esse tratamento diferenciado de Mozart, a proposta do encenador respeita o compositor.

Os belos e adequados figurinos de Fause Haten, o ótimo trabalho de caracterização e maquiagem (visagismo) de Tiça Camargo (especialmente em relação aos personagens Sesto e Annio, interpretados por mulheres) e a excelente e expressiva iluminação do próprio Caetano Vilela (com destaque para a cena do incêndio) complementam com maestria uma encenação equilibrada.

Vale a visita à produção do Theatro São Pedro. Quando esta resenha for publicada, ainda haverá três récitas pela frente até o dia 5 de maio. Se o regente conseguir acertar a mão no primeiro ato, este belo espetáculo pode ficar ainda mais atrativo.

Bis?

Não, não houve bis na estreia de La Clemenza di Tito no Theatro São Pedro. Ali o bis não é vulgarizado. Também não ocorreu a ninguém que estivesse no palco a necessidade de falar ao microfone no final. É costume, na casa de ópera da Barra Funda, que a arte venha sempre em primeiro lugar: até quando algo não dá muito certo, como no primeiro ato da ópera de Mozart na noite de estreia, a arte está acima das pequenezas humanas.

 

Fotos: Heloisa Bortz.

 

Faça seu comentário
Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com