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Entre o “choque” e a “enrolação”

Municipal do Rio perde regente titular / Municipal de São Paulo não anunciou temporada

Notícias recentes envolvendo aqueles que deveriam ser (mas não o são atualmente) os dois principais teatros de ópera do país, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e o Theatro Municipal de São Paulo, demonstram claramente o quanto politiqueiros incompetentes e irresponsáveis (no caso do primeiro) e gente despreparada (no caso do segundo) “contribuem” para que essas duas importantes casas líricas continuem caminhando em marcha lenta. Comecemos pelo TMRJ.

 

Contingenciamento orçamentário no Rio

O Movimento.com já havia alertado em um artigo de fevereiro deste ano sobre a possibilidade de contingenciamento de verbas no Theatro Municipal RJ. No referido artigo (leia-o completo aqui), logo após afirmar que o orçamento do Municipal para este ano era o maior em muito tempo, este autor destacou: “O problema é que o orçamento do governo do Rio, na prática, é fictício. Todo o orçamento estadual está contingenciado e deve ser liberado aos poucos”.

Não deu outra. Em uma audiência pública esta semana na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), o próprio secretário estadual de Cultura, Ruan Lira, reconheceu, conforme reportagem do jornal O Globo: “Não tem dinheiro. A realidade é essa”. Ainda segundo a reportagem, o orçamento do TMRJ está contingenciado em 46,37%, um percentual maior que a média dos cortes da secretaria de Cultura (38,66%).

Temos aqui dois problemas básicos: primeiro, um orçamento certamente irrealizável, majorado ainda em 2018 por um grupo de deputados irresponsáveis que, certamente, queriam jogar para a plateia. Na época da aprovação do orçamento estadual para 2019, chegou-se a anunciar que a verba da Cultura seria maior este ano. Tudo muito bom, tudo muito bonito, mas se as receitas do estado não mudaram muita coisa e se ainda há restos a pagar consideráveis da “gestão” desastrosa do agora presidiário Luiz Fernando Pezão, o tal orçamento aprovado pelos deputados estaduais para o Municipal não passava de abobrinha, história para enganar trouxas. Sempre há trouxas que acreditam em políticos, e estes, claro, se aproveitam disso.

O segundo problema é que, como me disse certa vez um artista ligado ao teatro, muitas pessoas chegam ao Municipal para ocupar cargos de indicação política não muito preocupadas com o que elas possam dar à instituição, mas, sim, preocupadíssimas com o que o Municipal poderá dar a elas: status, salário fixo por alguns meses ou anos, proximidade com políticos, etc. Esse tipo de pessoa parece fazer parte atualmente da administração do Municipal.

Peguemos como exemplo o atual presidente da casa, Aldo Mussi. Além de ter participado do (des)governo Pezão – o que é um fato que, goste ou não o presidente do Municipal, pesa contra ele –, Mussi gosta de aparecer. Quando damos uma olhada na fanpage oficial do Municipal no Facebook, o que encontramos lá? Entre informações de espetáculos, vemos Aldo Mussi em fotos com o Cônsul da Hungria, com o Cônsul do Japão e até com integrantes do Instituto Confúcio, da China.

Ora, o que isso importa para o público geral? Nada, evidentemente, mas Aldo Mussi faz questão de aparecer em fotos sem qualquer importância ao lado desses representantes estrangeiros. O que isso contribui com o Municipal ou sua programação? Nada. Alguma possibilidade de intercâmbio, talvez? Difícil… Quem vai querer fazer esse tipo de acordo com o semi-inoperante Municipal?

Quando questionado na ALERJ sobre o “desmantelamento” por que vem passando o TMRJ, Mussi se saiu como os piores políticos. Ao invés de apresentar possíveis soluções ou caminhos para o Municipal, preferiu culpar as gestões passadas, mas nada mencionou sobre o fato de ele próprio ter participado de uma dessas gestões anteriores na secretaria estadual de Cultura: “Esse chamado desmantelamento não vem de agora, a fundação vem sendo negligenciada por muito tempo. Agora, nos foi pedido que trabalhássemos com o mínimo possível. Mesmo assim fizemos belíssimas apresentações de óperas, balés e concertos”. O plural utilizado por Mussi aqui (óperas, balés, concertos) é um tanto exagerado, convenhamos.

Um dia depois da audiência na ALERJ, o maestro Luiz Fernando Malheiro anunciou a sua renúncia ao cargo de regente titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal. Malheiro numerou várias razões para a sua decisão, todas pertinentes (veja-as aqui). De todas, a que mais chamou a minha atenção foi esta: “por não querer ser conivente com a maneira como as coisas do Theatro estão sendo tratadas pela atual administração”.

Um profissional sério e que quer fazer algo pelo Municipal pede o boné e vai embora quando percebe que nada poderá fazer de bom pelo teatro, quando observa que suas ideias não são aproveitadas. Já quem está mais preocupado com o que o Municipal pode lhe dar vai ficando, vai ficando, e só larga o osso se alguém lhe mandar sair. É claro que, aqui, refiro-me sempre à alta direção da casa, a quem ocupa cargos de livre indicação política, e não aos artistas e funcionários da instituição, sejam concursados ou contratados temporariamente.

Como sempre há o outro lado, há também quem questione: Malheiro não sabia que seria assim quando aceitou o cargo? Achou que trabalharia em um mar de rosas? Acreditou em promessas sem lastro de alguém? São, sem dúvida, questionamentos cabíveis.

Há pouco mais de um ano, artistas e funcionários do TMRJ enfrentavam o atraso sistemático dos seus salários. Hoje essa questão parece equacionada, mas, em contrapartida, segundo denunciou o violinista Ayran Nicodemo na ALERJ, os profissionais estão “sem água, sem material no banheiro, sem elevadores, sem ar condicionado”. Ou seja, a infraestrutura e os insumos que fazem da casa funcional e habitável estão sendo negligenciados.

Antes de tomar posse, o agora governador Wilson Witzel havia dito, de forma vaga, que daria um “choque de ordem” no Municipal. Bem, o “choque” está aí, não exatamente de ordem.

O ponto positivo disso tudo foi ver os artistas e funcionários do Municipal brigando publicamente pela instituição, questionando as decisões superiores que não primam exatamente pelo bem da casa, denunciando as precárias condições de trabalho a que estão submetidos. Só isso – que não é pouco – já valeu a pena.


Falta temporada lírica no TMSP, mas sobram penduricalhos

Já em São Paulo o problema é diferente. Depois de o Theatro São Pedro (que correu risco até de fechar) ter anunciado a sua temporada completa para 2019, o Theatro Municipal de São Paulo continua enrolando (sim, a palavra é esta: enrolando) para anunciar a sua.

Que os dirigentes do Instituto Odeon, que administra o TMSP, não entendem absolutamente nada de ópera todos já sabemos há bastante tempo. O que mais surpreende é que esses dirigentes não fazem a menor questão de se cercar de profissionais que entendam do assunto. O regente titular da principal orquestra da casa, por exemplo, não é exatamente conhecido por ser um bom regente de ópera. Pelo contrário, as críticas sérias atestam uma sequência de problemas que parecem insolúveis na direção musical das produções líricas do TMSP.

Este ano, depois de muito enrolar (sim, de novo o verbo é o mesmo: enrolar), finalmente o Instituto Odeon indicou um diretor artístico para o Municipal de São Paulo: Hugo Possolo. A questão é que Possolo (ator, diretor, palhaço e fundador do grupo Parlapatões) também está longe de ser um especialista em ópera – o que nos leva sempre aos mesmos questionamentos: quem toma decisões sobre a temporada lírica do TMSP? Quem escolhe os títulos? Quem é o grande entendedor de vozes que escala os elencos? Não se sabe.

Até agora, o TMSP anunciou apenas mais uma ópera para este ano, o Rigoletto proveniente do Teatro Colón, de Buenos Aires, que será encenado em julho. Questionei o Instituto Odeon, via assessoria de imprensa do TMSP, se há pelo menos uma previsão de quando o restante da temporada lírica será anunciado, mas a resposta foi negativa: não há previsão.

Curiosamente, enquanto enrola (verbinho insistente esse!) para anunciar o complemento da temporada lírica do TMSP, Hugo Possolo se apressou, vejam só, em programar penduricalhos. Há poucas semanas, a casa anunciou o projeto “Novos Modernistas”, que “inicia as comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna” e “marca a reconexão do Theatro Municipal e da Praça das Artes com o caráter multicultural da cidade de São Paulo, expresso na semana de 1922, trazendo espetáculos que se destacam pela diversidade, pelo cruzamento de linguagens artísticas e pela união das diferenças”.

Mais curioso ainda, o anúncio desse novo projeto informa que o mesmo “terá, todo mês, um espetáculo diferente”. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa do TMSP: será um espetáculo por mês. Todos nós podemos concluir: o novo diretor artístico da casa se esforça para elaborar um projeto que terá apresentações mensais, sendo a cada mês um espetáculo diferente, mas enrola (sim, enrola!) para divulgar a temporada lírica.

Certamente, não há problemas no fato de o Theatro Municipal de São Paulo criar projetos comemorativos referentes ao centenário que se aproxima da Semana de Arte Moderna, desde que a casa, claro, não negligencie a sua temporada lírica. O TMSP tem, ou deveria ter, o dever de ser o principal teatro de ópera em São Paulo, quiçá do país. É o que a sua história exige. Há pelos menos dois anos, porém, seus diretores parecem se contentar com que a casa se ponha em posição coadjuvante ao Theatro São Pedro, que tem apresentado temporadas bem elaboradas e bem realizadas.

O Movimento.com anunciou em primeira mão, ainda em 2018 (veja aqui), que o TMSP apresentaria este ano as óperas O Barbeiro de Sevilha (apresentada em fevereiro), Rigoletto (programada para julho), Navalha na Carne (inédita, em processo de composição por Leonardo Martinelli) e ainda remontaria Turandot. Esta última, segundo informações de bastidores, não deverá mais ser remontada. Não se sabe se será substituída por algum outro título.

Em meio a tudo isso, não chega a causar espanto o silêncio da classe lírica brasileira, imersa em sua habitual letargia quando se trata de defender o seu quinhão enquanto classe. Os artistas brasileiros ligados à ópera (cantores, regentes, encenadores, etc.) deveriam ser os principais interessados em um TMSP mais atuante e mais engajado com a sua temporada lírica, mas não se manifestam. Os agraciados em participar das suas poucas produções nada falam, certamente com receio de passarem a ser mal vistos pela direção da casa; e os que não costumam ser convidados também nada falam, com receito de perder um possível convite futuro.

Então está tudo combinado: o Instituto Odeon continua enrolando para anunciar a temporada lírica do TMSP (se é que vai anunciá-la em algum momento); e os artistas brasileiros ligados à ópera continuam fingindo que não estão vendo o problema, desunidos enquanto classe, para variar. No fim, perdem todos, mas especialmente o público, obrigado a engolir uma programação recheada de penduricalhos.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com