CríticaÓpera

O iluminado

Mozart e a clemência de um mito

Segundo o dicionário Michaelis, um personagem pode ser chamado de “mito” quando sua existência histórica não é passível de comprovação. Vulgarmente, o termo tem sido empregado para adjetivar pessoas que se destacam e conseguem a aprovação de um grupo. O imperador Tito, protagonista da ópera La Clemenza di Tito, composta por Wolfgang Amadeus Mozart e representada no Theatro São Pedro na noite de 1º de maio de 2019, comprovadamente existiu: ele foi imperador de Roma entre os anos 79 e 81.

Nem o romano Tito, porém, nem o austríaco Leopoldo II, homenageado por meio dessa ópera em razão da sua coroação como Rei da Boêmia, alcançaram em virtudes nas suas respectivas vidas reais o personagem da ópera. Leopoldo II foi um defensor moderado do Despotismo Esclarecido, influenciado pelo Iluminismo. Aboliu a tortura na Toscana e era contra a pena de morte, mas não hesitou em mandar suas tropas até os Países Baixos Austríacos quando foi necessário restabelecer a ordem.

Do Tito romano, pouco se sabe –  teria sido um governante amado pelo povo, mas que antes de ascender ao trono cometeu algumas barbaridades no papel de comandante militar. O Tito da ópera, por sua vez, é o melhor governante de todos os tempos: abre mão de valiosas oferendas para ajudar as vítimas de uma catástrofe; é constantemente comparado por seus súditos aos mais elevados deuses por não possuir qualquer defeito; e, principalmente, é capaz de perdoar. Sempre. Não importa quem o traiu e como foi a traição – Tito é clemente e misericordioso. Talvez por conta disso os diretores ora o retratem como alguém ora com um parafuso a menos, ora como um sujeito extremamente cansado por carregar um tremendo fardo.

Na montagem do São Pedro, Caetano Vilela optou por um Tito que surge em cena excessivamente jovial e otimista, sorrindo demais no primeiro ato, tal como um pai de família em comercial de margarina. O sorriso desaparece no ato seguinte: Tito se torna gradativamente amargurado e distante, parece envelhecer uns dez anos em questão de minutos. Todavia, ao final, o que se vê no palco é um Tito que retorna à sua juventude, com ares e aura de santo. É o Tito iluminado. Dentro dessa concepção de Vilela, atuou muito bem o jovem tenor Caio Duran, ainda na casa dos 30 anos de idade. Devo dizer que, pessoalmente, me agradam mais as outras concepções (o louco ou o fatigado).

Não obstante esse aspecto, deve-se reconhecer que Duran, cujo timbre é agradável aos ouvidos, foi muito desenvolto cenicamente, destacando-se inclusive nos recitativos (atuação exemplar no recitativo acompanhado “Che orror! Che tradimento!“) e cantando muito bem as suas árias. Se em algumas das notas mais agudas a emissão não foi perfeita, o tenor se desincumbiu muito bem das passagens mais virtuosísticas, cantando com muita fluência. Espero revê-lo no futuro neste mesmo papel, bem como em Idomeneo, outra joia mozartiana. Escolhas corretas de repertório e continuidade nos estudos certamente o levarão a isso.

Mas não é Tito, na concepção de Vilela (e nesse ponto, concordo plenamente com ele), o protagonista da ópera. De fato, a grande atração da trama está na relação entre Vitellia e Sesto. O diretor retrata Vitellia como uma personagem que apresenta um certo grau de insanidade, o que inclui algumas risadas maléficas em cena. Torna-se inevitável a comparação com a Elettra, de Idomeneo. Não me agradou tanto tal escolha, eis que me parece mais interessante uma personagem calculista, que age friamente e de forma não muito ostensiva, sobretudo ao manipular repetidamente o apaixonado Sesto. Mas trata-se de uma opção plenamente válida (como foi válida a opção pelo Tito jovial) e, sob esse prisma, Gabriella Pace alcançou os objetivos que lhe foram propostos. Mais importante que isso: Pace cantou muito bem. O célebre “rondò” do segundo ato, “Non più di fiori“, com sua profusão de notas de peito médias e baixas, foi apresentado de forma magnífica: a soprano manteve a afinação e a regularidade no volume de emissão das notas mais extremas (graves e agudas) do trecho citado. Uma grande atuação.

A mezzosoprano Luísa Francesconi interpretou Sesto e foi ela o maior destaque da noite. Os que estiveram no São Pedro puderam assistir a uma daquelas grandes atuações, das quais é possível se lembrar vivamente com o passar dos anos. Vocalmente, o papel – que não é nada fácil sob o aspecto da técnica – lhe caiu muito bem. Mas Francesconi não se limitou a cantar perfeitamente as notas escritas por Mozart: ela foi além disso. Foi perceptível o elevado grau de envolvimento da artista com o personagem, que se materializou nas variações de intensidade das notas e, sobretudo, em um exemplar “fraseggio” (forma de articular, de maneira expressiva, a execução de um trecho musical).

Exemplo disso foi a lindíssima rendição da ária “Parto, ma tu ben mio“. Aqui, a fragilidade da personalidade do jovem patrício foi retratada também na segunda parte da ária, coisa rara de se ver haja vista o virtuosismo da partitura neste ponto (que normalmente faz com que as intérpretes se empolguem, tratando Sesto como se fosse Manrico, protagonista do “Trovatore” verdiano).  Ao manter presente e sob controle a fragilidade do personagem, Francesconi fez com que as palavras do trecho subsequente a ser cantado por Sesto (o recitativo acompanhado “Oh Dei, che smania è questa“) fizessem todo o sentido: “nunca pensei que seria tão difícil ser mau“.  A Francesconi e a Duran, coadjuvados pelo Publio do sempre confiável baixo-barítono Saulo Javan, coube o mais belo momento do espetáculo: o trio “Quello di Tito è il volto“, no qual o cenário e a iluminação sob responsabilidade do próprio Caetano Vilela e do cenógrafo associado Fernando Passetti se integraram plenamente às vozes e ao texto, transmitindo aos espectadores os conflitos internos e as mudanças de pensamento desses personagens. Ali, fez-se ópera de altíssimo nível.

Abro aqui um parêntese para mencionar que os figurinos sóbrios de Fause Haten, a elaborada caracterização e maquiagem de Lívia Camargo e os elegantes adereços cênicos de Bosco Bedeschi colaboraram decisivamente para o êxito em transmitir ao público a concepção do diretor da montagem. A Vilela e sua equipe devem ser feitos elogios, extensivos à direção do teatro, pois montou-se uma ópera que não está entre os títulos mais conhecidos pelo grande público e que, por seu estilo (trata-se de uma “opera seria”), pode resultar um espetáculo modorrento – algo, felizmente, bem distante daquilo que foi apresentado no palco paulistano.

Tornando a falar dos aspectos musicais, também estiveram muito bem a mezzo-soprano Luciana Bueno, no papel de Annio, e a soprano Marly Montoni, como Servilia. A primeira apresentou-se exemplarmente em sua ária “Tu fosti tradito“, cantada com perfeição técnica e adequada expressividade. Já a segunda prendeu a atenção do público na ária “S’altro che lacrime“, mostrando uma voz potente e de belo timbre. As vozes das duas estiveram bem harmonizadas no cativante dueto “Ah, perdona al primo affetto“.

Muito boa a atuação do Coro da Academia de Ópera do Theatro São Pedro, preparado por Maira Ferreira, que iniciou sua participação de modo muito contido em “Serbate, oh Dei custodi“, mas que subiu de nível consideravelmente nas demais intervenções, encerrando a sua participação na ópera com grande brilhantismo. Também agradou a Orquestra do Theatro São Pedro, muito equilibrada e que não cometeu nenhum deslize evidente, cumprindo seu papel sem encobrir os cantores. Destaque para o virtuosismo dos clarinetistas responsáveis pelos célebres solos que acompanham Sesto e Vitellia, Daniel de Oliveira e Rafael Schmidt, respectivamente.

O ponto controverso da noite foi a regência do alemão Felix Krieger. Houve quem achasse a regência totalmente maçante, sem inspiração. Particularmente, até gosto da adoção, em Mozart, de alguns andamentos mais lentos do que aqueles usualmente propostos pelos adeptos da performance historicamente informada. Nikolaus Harnoncourt, que curiosamente foi uma das figuras mais importantes para o desenvolvimento desse movimento, no final de sua longa carreira costumava adotar tempos que tornavam as suas gravações as mais longas do mercado. Todavia, ele o fazia para explorar a fundo todas as nuances da partitura, o que muitas vezes trazia à luz provas da genialidade do compositor que eram pouco conhecidas pelos ouvintes. Não parece ter sido esse o caso da regência de Krieger – a sua mais que ocasional lentidão gerou alguns momentos indesejáveis de tédio. Vale dizer que Krieger acompanhou bem os cantores, fazendo as necessárias concessões nos trechos virtuosísticos mais complicados, bem como controlando de forma eficaz o volume do conjunto orquestral. Mesmo assim, não me pareceu justificável não ter empregado nessa produção algum regente brasileiro, haja vista os numerosos talentos disponíveis por aí precisando de oportunidades para reger.

Em tempos de fanatismo ideológico e repúdio institucional de uma parcela da classe política a elementos essenciais daquilo que pode formar seres humanos melhores, como a Arte, a Cultura e a Filosofia, seria desejável que a população deixasse de lado, ao menos por algumas horas, os aplicativos e as redes sociais. Nessas poucas horas, os autoproclamados súditos de alguns governantes hodiernos – cujas virtudes, na vida real, se mostram escassas – deveriam estudar História, incluindo aí a análise desta obra-prima mozartiana. Leopoldo II, o homenageado, entendeu que a era do governante absoluto estava ficando para trás e fez algumas concessões aos seus governados, de modo que permaneceu no poder até o fim dos seus dias. Já a irmã de Leopoldo, Maria Antonieta, não teve a mesma sorte. Enfim, a população nem sempre é tão clemente com os “mitos” quando os defeitos desses se tornam por demais evidentes…

 

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Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.