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Rivalidade entre rainhas no Teatro Amazonas

“Maria Stuarda”, de Donizetti, no Festival Amazonas de Ópera

Não há registros de que Mary Stuart, rainha da Escócia, e Elizabeth I, regente na Inglaterra, tenham se encontrado, porém as figuras históricas entram em conflito na peça de Friedrich Schiller, na qual foi baseado o libreto da ópera Maria Stuarda, do compositor italiano Gaetano Donizetti. Segunda montagem a ser apresentada no 22º Festival Amazonas de Ópera (FAO), a versão crítica da obra terá estreia em solo brasileiro no palco do Teatro Amazonas, neste domingo (5/5), às 19h.

Com três horas de duração, incluindo os intervalos, Maria Stuarda será apresentada pela Amazonas Filarmônica, Coral do Amazonas e Núcleo de Teatro do Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro. A direção musical e regência ficam a cargo do maestro Marcelo de Jesus, que destaca a ópera como importante no repertório belcantista, no qual o canto e a voz são as características principais da obra.

“O Bel Canto já faz parte do DNA do Festival. Já fizemos obras de Gioachino Rossini e Vincenzo Bellini que, juntos a Donizetti, são o auge dessa tradição vocal. ‘Maria Stuarda’ tem sido resgatada nos teatros de todo mundo, e já tínhamos esta obra separada para ser realizada. Isso evidencia o quanto o FAO continua se mantendo alinhado em relação ao pensamento contemporâneo. Quando pesquisamos também descobrimos que ainda não havia sido apresentada no país, o que foi uma surpresa para nós”, diz Marcelo de Jesus.

De acordo com o maestro, há um movimento cultural em torno da obra das duas rainhas, nos últimos anos. Na temporada 2019-2020 de The Metropolitan Opera, de Nova York, Maria Stuarda está incluída entre as obras que serão apresentadas. A estreia recente do filme Duas Rainhas (Mary Queen of Scots, 2018) também é reflexo deste movimento.

“A história envolve diversos elementos chamativos para o público. Mary era prima de Elizabeth e tinha direito ao trono da Inglaterra. Mary, porém, era católica, e o reino inglês estava dominado pelo protestantismo, defendido por Elizabeth. Há intrigas políticas, sociais e religiosas, um jogo de xadrez dos tronos que atinge o público e faz parte do conceito da montagem para o FAO”, pontua o regente.

O jogo de poder citado por Marcelo de Jesus é refletido nos cenários de Giorgia Massetani, nos quais o público poderá reconhecer detalhes de um tabuleiro de xadrez, e também nos figurinos assinados por Fábio Namatame, que faz uma releitura dos trajes usados pela realeza e pelos nobres do século 16.

“A obra é belíssima, o elenco de solistas que temos é incrivelmente talentoso e a montagem do FAO é linda visualmente. Estes elementos, unidos às características do enredo, com certeza irão chamar e prender a atenção do público”, afirmou.

 

A Obra

Quando estreou em 1835, em Milão, na casa de ópera La Scala, Maria Stuarda tinha três atos. A versão crítica que será apresentada no Teatro Amazonas tem dois, cantada em italiano. “A versão crítica tem um grande primeiro ato, com dois quadros, e um segundo ato com um quadro. Como sempre no FAO, apresentamos a obra completa, sem nenhum corte”, explica Marcelo de Jesus.

Junto a Anna Bolena e Roberto Devereux, Maria Stuarda faz parte das chamadas “Rainhas de Donizetti”, obras baseadas no período Tudor (1485-1603). O enredo inicia com Mary aprisionada e mostra, desde o início, um grande confronto entre as duas rainhas. “Este confronto tem seu ápice quando as duas se encontram e Mary xinga Elizabeth. Tanto Donizetti quanto o libretista Giuseppe Bardari foram transgressores à época, por colocar xingamentos nunca antes vistos numa ópera. Mary diz que Elizabeth é a filha impura de Anna Bolenna e a chama de meretriz, algo bem forte naqueles tempos”, ressalta o regente.

Ainda segundo o maestro, este é o trecho-fetiche da obra, sendo regravado diversas vezes. “O trecho é muito famoso e grandes cantoras de ópera já realizaram gravações apenas desta parte, por ser um trecho marcante e famoso no mundo da ópera”, acrescenta o maestro.

 

Elenco

O elenco de Maria Stuarda conta com Tatiana Carlos (soprano), como Elizabeth; Cristina Giannelli (soprano), como Mary; Dhijana Nobre (soprano), como Anna Kennedy; Paulo Mandarino (tenor), como Roberto, conde de Leicester; Fred Oliveira (barítono), como Cecil; e Pepes do Valle (baixo), como Talbot.

“Tatiana é um jovem talento, com um grande potencial, que faz estreia no FAO. Em contrapartida, temos a experiência da italiana Cristina Giannelli, que já interpretou Mary em três produções. Assim como temos, também, Pepes do Valle, que fará sua 50ª obra, e um dos nossos expoentes do canto, que é Dhijana Nobre. O FAO tem tradição de unir novos e experientes talentos”, comenta Marcelo de Jesus.

A amazonense Dhijana Nobre participa do FAO desde 2009, já tendo feito a Lucia di Lammermoor, de Donizetti. Ela interpretará a melhor amiga de Mary. “Anna é solicitada, pela própria Mary, para acompanhá-la no momento da execução. Para mim, é um privilégio fazer mais um papel de Donizetti, que é bel canto puro e muito bem estruturado. Também é uma honra poder estar no mesmo palco de grandes nomes nacionais e internacionais da ópera”, declara a soprano.

A carioca Tatiana Carlos faz sua estreia no FAO e no Teatro Amazonas. Já atuou em diversos papéis e agora também fará sua primeira Elizabeth. “Ela é um personagem incrível e complexo. Na história, ela é a vilã, mas não a vejo apenas como isso. É um desafio enorme para mim abraçar toda essa gama de cores e pensamentos que eu vejo nela, e tentar passar isso ao público”.

Com um bacharelado em canto pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana está terminando atualmente o mestrado em Performance Vocal na Brigham Young University (BYU), nos Estados Unidos. Há duas semanas em Manaus, a cantora destaca o acolhimento do elenco e dos amazonenses.

“Está sendo uma experiência indescritível estar em Manaus e no Teatro Amazonas. Eu sou a mais nova do elenco e estou me sentindo muito acolhida pela equipe e por todos. O espetáculo está lindo, acredito que o público gostará bastante”, diz.

 

Sobre o 22º FAO

Em 2019, o FAO celebra o centenário de nascimento de Cláudio Santoro com a apresentação da ópera Alma, do compositor e maestro amazonense. Também estão na programação Tosca, de Giacomo Puccini; e Mater Dolorosa, baseada no Stabat Mater, de Giovanni Pergolesi. Na semana passada, foi apresentado Ernani, de Giuseppe Verdi, com casa lotada.

 

Ficha Técnica

Elisabetta, Regina d’Inghilterra – Tatiana Carlos, soprano
Maria Stuarda, Regina di Scozia – Cristina Giannelli, soprano
Anna Kennedy, Nutrice di Maria – Dhijana Nobre, soprano
Roberto, Conte di Leicester – Paulo Mandarino, tenor
Lord Guglielmo Cecil, Gran Tesitore – Fred Oliveira, barítono
Giorgio Talbot, Conte di Shrewsbury – Pepes Do Valle, baixo

Corpos artísticos:
Núcleo de Teatro do Liceu De Artes e Ofícios Claudio Santoro
Coral do Amazonas
Amazonas Filarmônica

Direção Musical e Regência: Marcelo de Jesus
Direção Cênica: Davide Garattini Raimondi
Cenários: Giorgia Massetani
Figurinos: Fábio Namatame
Desenho de Luz: Fábio Retti

 

 

 

SERVIÇO

 

22º FAO apresenta “Maria Stuarda”, de Gaetano Donizetti

 

Domingo (05/05), às 19h; sexta-feira (10/05), às 20h; e domingo (12/05), às 19h

Teatro Amazonas (Av. Eduardo Ribeiro, 659, Centro – Manaus)

Ingressos: com valores de R$ 2,50 a R$ 60, à venda na bilheteria do Teatro Amazonas e pelo site Bilheteria Digital (www.bilheteriadigital.com/teatroamazonas)

 

Classificação indicativa: Livre

 

Foto do post: Cristina Giannelli (foto de Michael Dantas/SEC)

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